1. Um dos aspectos que caracteriza a ficção de Ferreira de Castro é a exploração de um veio existencial, em que o indivíduo acaba sempre por confrontar-se consigo próprio. Em última análise, o ser humano está sempre só, apesar da importância do(s) outro(s), como podemos verificar nos romances de pendor mais social, v.g. Emigrantes (1928) ou A Lã e a Neve (1947). Obra que privilegia o prismático em vez do unívoco, rejeitando a unidimensionalidade, Castro procede, neste particular, a uma equilibrada conjugação do eu com o nós, num tempo (décadas de 1930 a 1950) em que as posições artísticas, em literatura e noutras artes, se extremavam entre psicologistas e neo-realistas.
Friday, September 18, 2026
A MISSÃO, de Ferreira de Castro: quando o Céu se agarra à terra (1)
Tuesday, August 25, 2026
E de 'Embrulhada'
«O Bagatelle havia compreendido que aquela pergunta se alargava para fora da curiosidade corrente, pois alguma coisa a mais viera embrulhada com as palavras; e, pousando a lata sobre o telhado, aguardou, respeitoso.»
A Missão (1954)
Friday, August 21, 2026
B de 'Badalar'
«Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar no chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio.»
A Missão (1954)
Monday, August 03, 2026
Q de 'Quadris'
«Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.»
Friday, March 13, 2026
dos romances
«Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa. / -- Vamos? -- disse, dirigindo-se a Paco. E, aproximando-se mais, beijou Soriano na testa. / Nos últimos tempos esta cena tornara-se quotidiana, pois Mercedes e o sobrinho saíam juntos todas as noites, para o teatro, para o cinema, para casa de um e de outro amigo» A Curva da Estrada (1950)
«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada, lhe pareceram mais amplas do que quando ela estava de pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» A Missão (1954)
Wednesday, September 17, 2025
dos romances
«A mulher volvera à sua lembrança. Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar o chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio. Dir-se-ia que as suas pernas tinham, nessa hora, uma felicidade independente do tronco, todo um desejo de folgar que começava dos joelhos para baixo.» A Missão /1954)
«Idalina desviou ligeiramente os olhos para o cão e voltou a fixá-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silêncio e Horácio volveu ao tom de voz anterior:» A Lã e a Neve (1947)
«Subitamente, porém, Januário deteve-se e ergueu a vista para o edifício que se levantava na sua frente. Os presos estavam lá, as mãos fechadas sobre as barras de ferro, mas ele mal os fixou. Os seus olhos percorreram a fachada clara, de janelas e portas emolduradas em cantaria branca, fresca, tudo lembrando construção recente, como se procurassem alguma coisa que se não via com facilidade, alguma coisa que não se encontrava na frontaria do edifício, iluminada pelo sol, mas nas negras profundezas da memória.» A Experiência (1954)
Monday, August 11, 2025
dos romances
«O "Bagatelle"deixou a lata, pousou uma das mãos sujas sobre a escada e olhou para o beiral: / -- Vou pintar a palavra "Missão" no telhado, por causa dos bombardeamentos... / -- Muito bem. É preciso -- apoiou Mounier, sempre com um tom descuidado e já a afastar-se.» A Missão (1954)
«Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto. / Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho.» A Curva da Estrada (1950)
«Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo: / -- Olha o "Piloto"! O meu "Piloto"!» A Lã e a Neve (1947)
Tuesday, March 11, 2025
dos romances
«Mounier parou: / -- Bom dia! Então qual é hoje o trabalho? / Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.» A Missão (1954)
«--É tudo uma malandragem! Ah, bom tempo em que havia relho e tronco! Então, esta canalha andava mesmo metida na ordem! Hoje, não se prende ninguém por dívidas e dizem que já não há escravos. E os outros? Os que perdem o que é seu? Vem um homem a fazer despesas, a pagar passagens e comedorias e até a emprestar dinheiro para eles deixarem às mulheres, e depois tem-se este resultado! Lhe parece bem? Ora diga, senhor Macedo: lhe parece bem?» A Selva (1930)
«["] Fora naquela mesma cama que ele tivera as núpcias com a sua primeira mulher, a santa que a morte levara, para desgraça dele. Fora ali, também, que a pobre morrera, lúcida, muito lúcida sempre preocupada, sempre a pensar no futuro dele e da filha, até o último instante. Ainda duas horas antes de expirar, obrigara-o a comer na sua frente, 'pois andava desconfiada de que, por causa dela, ele não comia.' Sofrera tanto com isso! ["]» A Tempestade (1940)
Thursday, January 09, 2025
dos romances
«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» A Curva da Estrada (1950)
«Ao fundo, com uma árvore em frente, tão ramalhuda que quase a ocultava, erguia-se a capela, que, ligada embora ao edifício, avançava sobre o jardim, dando ao todo a forma dum grande L. / Ao entrar na cerca, Georges Mounier viu uma escada posta ao beiral. Junto dela, o «Bagatelle», homem de sete ofícios, pedreiro, pintor, até carpinteiro se fosse preciso, uma vez por outra trabalhando na Missão, ia remexendo com o pincel a tinta branca coalhada no fundo duma lata.» A Missão (1954)
«Avançava cautelosamente, inclinando a cabeça para não tocar no tecto. À medida que se acercava da claridade exterior, via-se que se tratava dum homem novo. O polícia sabia a sua idade exacta. Mas não era necessário ler o papel que o polícia trazia no bolso: Januário de Sousa, filho de Ana Maria e de pai incógnito, etc.; bastava deitar o rabo do olho à sua pele morena, lisa e macia que nem água passada a ferro na popa dos barcos, para se ver que ele não tinha mais de vinte anos, apesar de os seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do Mundo.» A Experiência (1954)
Tuesday, December 03, 2024
dos romances
«Vendo-a adormecida, neutra, Cecília pareceu-lhe menos odiosa. Dir-se-ia que a sua vida era protegida pela sua própria incapacidade de defender-se. Em frente da cama, ele principiou a despir-se, por hábito. A luz do corredor, ao filtrar-se pela bandeira da porta, destacava da obscuridade o vulto de Cecília sob os lençóis. Repugnava-lhe estender-se ao lado da mulher.» A Tempestade (1940)
«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho, que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele... Quase dois contos atirados por água-abaixo!» A Selva (1930)
«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera. Em baixo, entre as paredes e as covitas que as goteiras, em horas pluviosas, abriam no solo, vicejavam lírios, roseiras trepadoras e tenros pés de salsa que o irmão hortelão não se dispensava de cultivar.» A Missão (1954)
Friday, November 08, 2024
dos romances
«Os seus toscos sapatos de borracha, com o feitio exacto das peúgas, semienterravam-se no tijuco ribeirinho e mais facilmente as pernas se desprendiam de dentro deles, do que eles se libertavam dessa lama pegajosa, quase tão voraz como as areias movediças.» O Instinto Supremo (1968)
«O polícia, que vinha sentado junto do motorista, chupou, quatro vezes seguidas, a ponta mungida do cigarro, atirou-a fora -- e desceu. Sentindo os olhares despejados lá de cima, que davam maior vaidade aos seus gestos, ladeou a furgoneta e, atrás, abriu a porta, que era chapeada e sólida como a dum cofre.» A Experiência (1954)
«O edifício, velho e longo, muito longo e de um só piso, parecia querer mostrar que a sua missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à terra, estender-se bem na terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam.» A Missão (1954)
Monday, June 08, 2020
da distracção
Thursday, June 28, 2018
Thursday, December 15, 2016
A MISSÃO em Tomar
Saturday, June 25, 2016
"Uma página de Ferreira de Castro"
Tuesday, April 07, 2015
Ferreira de Castro nos dicionários (11) - a Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
O verbete é de F. Jasmins Pereira (vol. 4, 1966), autor, aliás, de um ensaio não despiciendo: Ferreira de Castro e a sua Obra (1956). É pena, porém, deixar-se condicionar pelo preconceito ideológico, de sentido contrário, de resto, ao que aponta a Ferreira de Castro.
Para Pereira, a pecha do nosso autor é um alegado "encerramento do seu universo romanesco a qualquer horizonte espiritual", restringindo essa espiritualidade à prática e crença religiosas, como se não houvesse metafísica, inquietação, mundo interior e transcendência fora da religião e da Igreja Católica em particular... É, por isso, muito crítico de livros como A Curva da Estrada ou A Missão, por razões óbvias; apreciando, clara e curiosamente, romances subversivos como A Lã e a Neve ou A Experiência.
Em face de outras entradas que li nesta enciclopédia, esta até poderia ser uma das melhores. Foi pena.
Uma nota para a síntese excelente sobre Aquilino, de Taborda de Vasconcelos, os verbetes muito equilibrados de José Alves Pires (Faculdade de Filosofia de Braga) sobre Manuel Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Alves Redol e Fernando Namora, e ao remoque não assinado no texto brevíssimo sobre Maria Archer (vol. 2), a propósito do "feminismo pretensamente evoluído" da autora.
Ao contrário do que sucede com a GEPB, esta não exibe qualquer retrato dos escritores referidos, com excepção de Júlio Dinis.
















































































