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Thursday, April 28, 2016

admirar & amar

Escreve Eugénio Lisboa, no último JL («Sá-Carneiro visto por Régio -- O oiro e a neve») que os grandes escritores, relativamente aos colegas que os precederam, amam uns e admiram outros:
«Pessoa admirava Milton e amava Dickens. Flaubert admirava Zola, mas amava Hugo. Régio admirava Eça e Pessoa, mas amava Camilo e Sá-Carneiro. Há aqueles com quem sentimos afinidades e aqueles em quem admiramos qualidades que não temos nem nos interessa particularmente ter.»
Fiquei a pensar no caso de Ferreira de Castro. De imediato chegaram-se à frente dois nomes essenciais. Raul Brandão e Aquilino Ribeiro. Creio poder dizer, com segurança, que, posto assim, Castro admirava Aquilino, mas amava Brandão. Em Aquilino, a torrente lexical, mahleriana, se assim o posso dizer, e provavelmente o humor; em Raul Brandão, o poético, o trágico, o fragmentário, a dor. A dos outros, humilhados e ofendidos, as próprias, do pobre ser humano em face do enigma da morte.

Saturday, September 19, 2015

"Escrever com os clássicos"

da recensão de Miguel Real ao romance de Margarida Palma, Veio Depois a Noite Infame (grande título!), no último JL:
«[...] Constrói personagens caracterizando-as física, social e psicologicamente (e até religiosamente), como o fazia Camilo ou Eça, Ferreira de Castro ou Fernando Namora. [...] exibe no seu romance uma voluntária lentidão literária, um vagar estético, que só encontramos em Júlio Dinis e Eça [...]»

Thursday, April 02, 2015

Ferreira de Castro nos dicionários (6): Júlio Dinis no Dicionário Universal de Literatura, de Henrique Perdigão

Dicionário Universal de Literatura
Como referi no primeiro post desta série, a ideia de incluir Júlio Dinis como única excepção neste garimpo de Ferreira de Castro e mais nove romancistas seus contemporâneos pelos dicionários literários, históricos e de autores, foi a de verificar as oscilações quanto à sua representatividade, sem dúvida com resultados mais interessantes do que verificaria com Camilo ou Eça. No fim desta prospecção, perceberei se esta minha ideia, um tanto ou quanto bizarra, teve alguma razão de ser.

Júlio Dinis (´"Julio Diniz (1839-1871)"). Verbete muito bem feito no que respeita à biografia, caracterização da obra, referência a póstumos, bibliografia passiva e traduções. Referências  críticas: Alexandre Herculano e Eça de Queirós.

Ficha:
pág.; 364
dimensões: 30,5 cm.
palavras: --
caracteres: --
retrato: sim

Thursday, April 04, 2013

Jaime Brasil, anarquista (4)

Polemista destemido e truculento, travou-se de razões ao longo da carreira plumitiva com várias figuras -- de Raul Proença a Agustina Bessa Luís --, oscilando entre a cortesia sem servilismo e a grosseria quase obscena, por vezes com acentos muito camilianos...

Afinidades #2-II série, Porto, 2005.

Tuesday, June 26, 2012

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (4)

Se os grandes escritores valem pela sua obra, também se reconhecem pela qualidade de quem os estuda. Não sendo a camiliana passiva tão vasta quanto a sua congénere queirosiana, os nomes que povoam aquela, de Alberto Pimentel a Abel Barros Baptista, passando por António Cabral, Sousa Costa, Jacinto do Prado Coelho, Alexandre Cabral e João Bigotte Chorão, entre tantos outros, reflectem com nitidez a espessura do que se fala e de quem se fala.

Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.

Sunday, April 08, 2012

Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade (4)



Escritor que se fez a si próprio, foi no Brasil que Ferreira de Castro se auto-revelou, no meio adverso de um seringal da Amazónia, entre 1911 e 1914. Será, contudo, em Belém, capital do estado paraense, que vivia ainda sob os efeitos da ressaca de uma rubber-rush -- onde permaneceu até 1919, ano do regresso a Portugal --, que o jovem literato, entretanto trabalhando na imprensa local, editará os seus dois livros iniciais (Criminoso por Ambição e Alma Lusitana, ambos de 1916). Na Biblioteca Pública da cidade, bem fornecida de literatura portuguesa e francesa, Castro tomará contacto, pela primeira vez, na maioria dos casos, com os grandes escritores das duas línguas (2), muitos dos quais permanecerão como referências sua. Falamos, naturalmente, de Zola (1840-1902), mas também de Balzac (1799-1854) e Victor Hugo (1802-1885) ou Camilo (825-1890) e Eça (1845-1900).



(2) Ver Bernard Emery, L'Humanisme Luso-Tropical selon José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Ellug, 1992, pp. 120-121; id., «Ferreira de Castro et la culture française», Miscelânea sobre José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Centre de Recherche et d'Études Lusophones et Intertropicales, 1994, pp. 53-65.


Boca do Inferno #3, Cascais, Câmara Municipal, 1998, pp. 92-93.
(também aqui)

Monday, February 27, 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

desenho de Tòssan
(também aqui)

Sunday, November 28, 2010

Os retratos de Castro por Nobre (3)

Ele próprio ensaísta, cultor de uma literatura de ideias, em escritos de estética cinematográfica, dispersos ou reunidos em volume (9) --, os seus livros estão eivados de referências literárias, de reflexões sobre a literatura, quer como manifestação artística específica, quer a propósito da sua relação com o cinema, topando o leitor a cada passo com Camilo e Eça de Queirós, Raul Brandão e Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro e José Régio; ou Dostoievski e Zola, Anatole France, Romain Rolland e André Gide. (10) O ensaio viria assim paulatinamente a tomar o lugar do desenho, que, na década de vinte do século passado, o projectara no meio artístico lisboeta.

(9) Horizontes de Cinema (1939) e Singularidades do Cinema Português (1964) [atente-se no título queirosiano do último -- nota 2010]
(10) A correspondência de Nobre é demonstrativa do diálogo intelectual que ele estabelecia com os seus interlocutores. Ver «Seis cartas de Luís cardim a Roberto Nobre», introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Boca do Inferno #1, Cascais, Cãmara Municipal, 1996, pp. 95-109; José Régio / Roberto Nobre, «Correspondência», transcrição e notas de Eugénio Lisboa, Boletim, #4-5, Vila do Conde, Câmara Muncipal e Centro de Estudos Regianos, 1999, pp. 29-33.

Vária Escrita #8, Sintra, Câmara Municipal, 2001.

Monday, November 01, 2010

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (3)

Os grandes escritores valem pela obra que legaram. Não precisam de apologetas exaltados e podem bem haver-se, de além-túmulo, com certa casta de detractores ou com um aparente esquecimento (o «injustamente esquecido» é um dos chavões recorrentes da imprensa cultural) que sobre eles se teria abatido. O nome e a obra de Camilo também foram vítimas desta pecha que atinge, póstuma mas temporariamente quando se trata de alguém de real valor, a quase totalidade dos nossos poetas e romancistas. Não obstante o proverbial desleixo luso, há sempre quem -- por vezes solitariamente -- não resista ao apelo duma escrita que continua a interpelar os leitores, surgindo homens como Alexandre Cabral, que porfiadamente estudam e iluminam obras que são acervos do nosso património cultural, consagradas pelo tempo, pelo público e pelos seus méritos intrínsecos.

Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.

Tuesday, September 15, 2009

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (2)

O escritor de Contos da Europa e da África afirmou-se como reputado e indispensável especialista na obra de Camilo Castelo Branco ao longo de mais de trinta anos de trabalho. No ensaio, na recolha e na publicação de dispersos e inéditos, no pesquisar rigoroso de historiador, vectores dum labor que teve a mais eloquente culminância no Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), obra que honra a literatura portuguesa, contribuindo para definitivamente para impor (mais do que firmar), junto dum público mais vasto, o nome de Camilo como um dos nossos autores canónicos.
Vária Escrita, n.º 6, Sintra, Cãmara Municipal, 1999, pp. 219-22.

Thursday, September 10, 2009

outras palavras - Jaime Brasil, O CASO DE "A INFANTA CAPELISTA" DE CAMILO CASTELO BRANCO (1956)

ESCLARECIMENTO
A publicação, em separata, do artigo inserto a seguir pode deixar perplexos os leitores que desconheçam os precedentes do assunto. A eles se destina esta nota esclarecedora, na qual é respeitada a ordem cronológica dos acontecimentos. A confusão estabelecida pelos «entendidos» em camilografia, em geral simples camilómanos, acerca da obra de Camilo Castelo Branco «A Infanta Capelista» é de tal ordem que os não iniciados nos mistérios da vida desse escritor dificilmente encontram o fio à meada, propositadamente enredada pelos camilófagos e «camelianistas». Pertence ao número destes o pavão desasado, cuja plumagem é arrancada no artigo adiante reproduzido.
Jaime Brasil, O Caso de "A Infanta Capelista" de Camilo Castelo Branco ou Como se Arrancam as Penas a um Empavonado "Camelianista", Porto, Livraria Galaica, 1956, p. 5.

Tuesday, January 20, 2009

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (1)


[introduçaõ às »Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 6, Sintra, Câmara Municiapl, 1999]
Autores há tão devotadamente dedicados a um assunto, que todo o seu restante trabalho literário é secundarizado e obscurecido pela força com que o estudo tornado paixão se lhes impõe.
Foi o caso de Alexandre Cabral (José dos Santos Cabral, 1917-1996). Estreando-se como ficcionista com Cinzas da Nossa Alma, em 1937, sob pseudónimo de Z. Larbak, até muito tarde não se conformou com a subalternização que os estudos camilianos infligiam à sua obra romanesca. Uma das cartas que agora publicamos dá nota disso mesmo: «A ficção trago-a desprezada. Regressarei a ela não tarda.» (1)
(1) Lisboa, 19 de Março de 1967.

Wednesday, November 26, 2008

Ferreira de Castro na "Cidade de Lilipute" (1)

Apresentação do capítulo sobre a China de A Volta ao Mundo, publicado em Macau pela Câmara Municipal das Ilhas, Taipa, 1998 -- ano do centenário do nascimento do escritor. (Existe edição em cantonês, com tradução de Chau Heng Chon)
No romance português, há um antes e um depois de Ferreira de Castro (1898-1974). Este escritor autodidacta, de origens camponesas humildes, nascido no litoral centro[-norte] de Portugal, emigrado aos doze anos incompletos, só, para o Brasil, onde trabalhou num seringal, em plena Amazónia (1911-1914), e depois como afixador de cartazes, marinheiro e, por fim, jornalista, em Belém do Pará, em cuja biblioteca leu avidamente Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, Balzac e Zola, Nietzsche e Gorki; o literato que após o regresso ao seu país continuou no jornalismo, apenas como meio de sustento que lhe possibilitasse escrever os seus primeiros livros; o jovem Ferreira de Castro, aos trinta anos, com o livro Emigrantes (1028), mudou o rumo da ficção narrativa portuguesa, passando a ser uma das figuras de proa -- ou a figura de proa -- entre os finais dos anos vinte e a primeira metade da década de cinquenta.
(continua)

Wednesday, December 19, 2007

Ferreira de Castro e o seu tempo - o ano de 1898 (#1)

Dou hoje início a um projecto de cronologia de Ferreira de Castro, articulada com a da época em que viveu.
O método de postagem será fragmentário e não-linear, o que significa que não haverá um grande respeito cronológico...
Para futura orientação, recomendo a consulta dos marcadores, no final de cada post.



1898


Castro - 24/V - Nasce nos Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro. Filho de José Eustáquio Ferreira de Castro e Maria Rosa Soares de Castro, camponeses, caseiros da família Gomes Barbosa.
Castro sobre Ossela - A distância sublima a aldeia: anula os seus defeitos, agiganta e doira as suas virtudes. A nostalgia que me torturou durante os nove anos de emigração, sem o conforto de saber se poderia jamais voltar, foi, dos muitos outros sofrimentos que suportei no espírito, um dos dois mais cruéis de toda a minha vida. / Para mim, a aldeia em que nasci não é apenas a infância que nela me decorreu, incompreendida e triste, é também a poesia que já então lhe captava, a poesia que ela tinha, mais tarde inflamada por aquela de que eu mesmo a impregnei. Poesia que tantas vezes me retira a lembrança dos dias infantis, para recordar apenas o encanto da Natureza, que eu não conseguia evocar, lá longe, nas ardentes paragens do exílio, sem fervor e sem desespero. «A aldeia nativa», Os Fragmentos, 2.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores [974] pp. 45-46.






Texto - Abel Botelho, Mulheres da Beira e O Livro de Alda.
Castro sobre Botelho - Quereis personagem mais romântico e mais humano que o protagonista do «Amanhã», de Abel Botelho -- que se sacrifica entre as asas do Amor e a alvorada do Ideal -- e cuja cabeça, sangrenta, decapitada, rola como um troféu raro, como um destroço do Sonho, até aos pés da mulher amada -- dessa mulher a quem a luz dum novo dia vai envolvendo, suavemente, redentoramente? «Os românticos do realismo», A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 38, Lisboa, 18/VIII/1924.




Confronto - Joseph Conrad, Histórias Inquietas e O Negro do Narciso.
Castro sobre Conrad [a propósito de Mar Morto, de Jorge Amado] - Conrad, que amava as figuras dos oceanos, é, comparado com Jorge Amado, um... frio matemático. Diário de Lisboa, 1936, apud Jorge Amado: Trinta Anos de Literatura, São Paulo, Livraria Martins, 1961, p. 140.






Contexto - 9/II - Concessão de Hong Kong aos ingleses, por 99 anos.

A baía de Hong Kong (1939).
Foto FCastro/Elena Muriel, in A Volta ao Mundo, Lisboa Empresa Nacional de Publicidade, 1939

Castro sobre Hong Kong - Antes mesmo de pisar terra, quem arriba surpreende, no porto, espectáculo bem oriental. No meio dos navios fundeados há uma incontável multidão de juncos [...]. Cerca de 100 000 chineses vivem, permanentemente, com as mulheres e os filhos, nestas embarcações. [...] No estreito convés realizam todos os actos da vida doméstica. [...] não falta, sequer, um galinheiro à popa. [...] Rechonchudas crianças, de dois ou três anos, andam tranquilamente no rebordo dos barcos, ali onde qualquer de nós teria de fazer, para não cair, equilíbrios de homem em corda bamba. As mães destes pequeninos chineses usam calças e exibem o tronco em plena nudez, as tetas caídas e queimadas pelo sol. Como as de terra, estas mulheres a tudo se sacrificam, resignadamente. Elas acorrem a todas as necessidades da meia dúzia de tábuas oscilantes que o destino lhes deu para patíbulo da sua vida e, quando pretendem deslocar-se, agarram-se às extremidades dos enormes remos e remam que nem antigos escravos de galera. / Atrás desta população boiante ergue-se a famosa Hong Kong, também Cidade da Vitória chamada. Três ruas compridíssimas, apenas três ruas, ligadas por outras transversais, a constituem. Majestosos edifícios ocupam a primeira parte destas grandes artérias. É o mundo dos negócios, onde imperam ingleses e americanos. Bancos, companhias de navegação, outras empresas, dão a este trecho da cidade o mesmo pesado orgulho dos bairros comerciais de Londres. Tudo se apresenta com modernidade e soberbia. [...] Mas, em breve, as três longas ruas perdem a sua feição ocidental e se metamorfoseiam em rumoroso e pitoresco bairro chino. É já outro comércio, um comércio miúdo de comestíveis, de sedas e de obras de arte. A Volta ao Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d., pp. 62-63.


Pintura de 1898 - Arnold Böcklin, A Praga
Castro sobre Böcklin - Agradar parecia ser o único objectivo da sua arte e isso proporcionou-lhe um êxito fácil. As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª-Editores,1971, p. 328.


Museu de Belas-Artes, Basileia

Poesia de 1898 - Ó árvores, irmãs de todos nós, um dia / Há-de esta alma reunir-se à vossa alma dormente... Júlio Brandão, «Árvores»,

Música de 1898 - Grieg, Danças Sinfónicas.

Escritores de 1898 - José Dias Sancho, ficcionista, poeta, polemista, desenhador e jornalista, em São Brás de Alportel (m. Faro, 1929); Federico García Lorca, poeta e dramaturgo, 5/VI (19/VIII/1936). Morrem em 1898 - Joaquim da Costa Cascais, dramaturgo, em Lisboa, 7/III, Lisboa (n. Aveiro, 29/X/1815); Stéphane Mallarmé , em 9/IX (n. 18/III/1842).



Ecos de 1898 - Lisboa, 24/V. Eça de Queirós a sua mulher, Emília de Castro, dando conta de exigência da Revista Moderna: «depois de me ter dado tempo largo para enviar Ramires, agora o exige à pressa e à lufa-lufa.» Correspondência, vol. II, leitura, coordenação, prefácio e notas de Guilherme de Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, p. 451.

Castro sobre Eça - (comparando com Fialho) - Eça era tapete de milionário, Fialho tapete de burocrata. Eça era fino e subtil como um tapete da Pérsia, Fialho duro e grosseiro: -- daqueles «Faz favor de limpar os pés». Mas... A ironia é a arma do fraco contra o Forte. Do vencido contra o Vencedor. [...] O eterno sorriso dos irónicos é o eterno desejar dos despeitados. «Pedras ao poço», Mas..., Lisboa, edição do Autor, 1921, p. 18; Ao lermos Eça, temos a sensação de que a sua secretária estava erguida sobre uma cidade que se relacionava já com o mundo pela T.S.F. A secretária de Fialho, ao contrário, estava situada numa aldeia. «Regionalismo e internacionalismo - Resposta a José Dias Sancho», A Batalha, n.º 98, 12/X/1925. - (comparando com Camilo) - [...] por temperamento, escola literária, orientação de cultura e até pela vida, tão diversa, que cada um levou, Eça compreendia o homem muito melhor do que Camilo. Este via, quase sempre, as suas personagens unilateralmente, pelo amor, pelo ódio, pelo sarcasmo, pelo bem ou pelo mal. Preocupava-se, acima de tudo, com o ruído do relógio, ao passo que Eça gostava de desmontar o relógio peça por peça. De certa maneira, para Camilo, cada personagem representava um sentimento, para Eça representava todos ou quase todos os sentimentos. Camilo aliava ao seu grande talento uma forte cultura sobre a vida nacional, inclusive sobre genealogia, coisa completamente inútil para um romancista que não escreva romances históricos. Parece, porém, que nunca se preocupou de modo profundo com a filosofia. Eça, pelo contrário, captara as inquietudes filosóficas do século XIX e as suas experiências psicológicas, valores perante os quais Camilo reagia, muitas vezes, pelo desdém. Daí os habitantes da obra de Eça serem mais ricos de conteúdo, mais variados, mais verdadeiros psicologicamente, mesmo quando o romancista os deformou com demasiados traços caricaturais... «Ferreira de Castro -- o mais universal dos romancistas portugueses -- fala da universalidade de Eça de Queirós» [entrevista a Jaime Brasil], O Primeiro de Janeiro, «Das Artes e das Letras», 1/11/1944.

actualizações: 19, 20,21/X/2007