Sunday, October 25, 2026

Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (1)

A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal – Generalidades – Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.

Não se pode, com efeito, desligar o Guia de Portugal do grupo da Seara Nova e do escopo de regeneração nacional que ele se propunha. O Guia saiu dos prelos da Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960), sendo Proença chefe da Divisão dos Seviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo-bibliotecário e Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos – este último, anarco-sindicalista, futuro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e director do diário A Batalha, não integrante do grupo da Seara, a que devemos acrescentar, entre outros, os nomes de Câmara Reys (1885-1961), António Sérgio (1883-1969), Augusto Casimiro (1889-1967) e Raul Brandão (1867-1930).

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro


Friday, October 23, 2026

G de 'Gadito'

«Para o tio Joaquim aquilo constituía ocupação apenas de horas vagas, pois nas outras, a menos que fosse semana de pastorear o gadito próprio e o alheio, ele cuidava das duas courelas que possuía ao pé da encosta ou alugava os seus braços para a terra de outrem.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, October 22, 2026

Raul Brandão e os escritores anarquistas de 'A Batalha' - aproximações e distâncias (1)

 

1. O anarquismo é um tópico inescapável em Raul Brandão, abordado por vários autores que sobre o escritor se debruçaram; o que se compreende, dadas as suas formulações, suficientemente latas, inspiradas pelo tema. Por outro lado, atendendo à própria natureza heterodoxa do anarquismo, pode afirmar-se que não há um anarquismo, mas anarquismos, cujos mínimos denominadores comuns se prendem com as questões da autoridade e da liberdade individual.

Este texto resulta de uma pesquisa no suplemento literário do jornal A Batalha, e também na revista Renovação, ambos publicados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), central sindical anarco-sindicalista, com o intuito de verificar o modo como foi acolhido Raul Brandão pelos escritores que gravitavam em torno destes periódicos.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Wednesday, October 21, 2026

F de 'Farol'

«Uma só luz ardia em terra: a do farol que iluminava os degraus de acesso à varanda do barracão maioral, esse farol que eu, durante anos, fora encarregado de acender, de apagar e de limpar dos insectos que sobre ele morriam ao longo das noites tropicais.» 

«Pequena História de “A Selva”» (1955)

Tuesday, October 20, 2026

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Raul Brandão
1. Um dos textos mais interessantes e importantes do rebarbativo Mas... (1921) é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos mais emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O “Húmus” é um grande livro: – a erguer-se no campo florido do pensamento latino: – estercolando revolta, esvurmando miséria e desgraça por todas as junturas: – como o escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.»[1]



[1]Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas.., Lisboa, 1921, p. 34.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Monday, October 19, 2026

E de 'Emigração'

«E deslocam-se, e emigram, e transitam, de continente a continente, de hemisfério a hemisfério,  em busca do seu pão.»

Do «Pórtico» de Emigrantes (1928)

José Rodrigues, Monumento a Ferreira de Castro - O Sonho de uma Humanidade (1987)

 


  • Em Pedra e Bronze, podcast de Rita Mega, uma esplêndida análise da extraordinária escultura, precedida da história da sua concepção, iniciativa de Eurico Andrade Alves. Como diz Rita Mega, "o monumento impõe-se na paisagem". Eu acrescento que lhe dá profundidade.
  • Ver aqui um roteiro portuense da obra de José Rodrigues.



Friday, October 16, 2026

D de 'Desconhecido' (2)

«Eu partia para o desconhecido, para o fabuloso, sem saber quando voltava, sem saber até se voltaria.»

do «Pórtico» de Emigrantes

Wednesday, October 14, 2026

“Um medo frio” - Breve nota sobre a memorialística castriana

Santo Agostinho, por Carlo Crivelli

Nada há de tão importante para o homem como o seu estado, nada mais temível para ele do que a eternidade.

(Blaise Pascal)

 

 

Porque se escrevem memórias?

 

            Quem escreve as memórias, pretende dar testemunho e exemplo, justificar-se perante os outros e/ou perante a História, nesta procurando marcar o seu lugar, mesmo adoptando um registo confessional e de alguma forma expiatório. Nas Confissões (397-400), Santo Agostinho quis fazer-se exemplo da bondade divina, ao revelar uma juventude dissoluta e a crença num sistema religioso errado, como o era o maniqueísmo, mostrando que Deus não desistira de si; já Rousseau, considerado o primeiro memorialista moderno, ao revelar-se através  duma obra propositadamente homónima, Confissões (1782), publicada a título póstumo, pretendeu apresentar-se a si próprio como caso de estudo para o futuro, estribado na conhecida tese de que é a sociedade que corrompe o ser humano, na sua essência naturalmente bom.


Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Tuesday, October 13, 2026

C de 'Caratula'

    «Horácio levantou os olhos e adivinhou, mais do que viu, a caratula da velha Luciana à sua janela acabada de abrir.»

A Lã e a Neve (1947)


Monday, October 12, 2026

Eça de Queirós e a crítica anarquista: um sentimento de pertença (1)

Campos Lima
fonte
Anarquismo, anarquismos

 Pertencemos ao grupo, porventura diminuto e que poderá espantar, que vê e lê Eça de Queirós como fundamentalmente um liberal de fundo anarquista, pela ética, pela sensibilidade e por propensão idiossincrática, digamos em itálico, hereditária, no seu liberalismo histórico e romântico – coincidindo já com o que Jaime Cortesão e Jaime Brasil escreveram a este respeito.

        Se um liberal é aquele que cultiva a liberdade, é preciso clarificar a noção e a palavra anarquismo. Como escreveu há um século Campos Lima[1], a palavra anarquia degradou-se (já no tempo do próprio Eça...) e o que deveria ser a ideia de uma comunidade de – e agora atentemos às palavras – livre cooperação mútua, involuiu para uma percepção de balbúrdia violenta de onde ninguém escapa ileso. Ou seja: tudo, menos anarquia. Daí que surgisse a palavra alternativa libertário, sinónimo de anarquista.



[1]Campos Lima, A Teoria Libertária ou o Anarquismo, Lisboa, Edições Spartacus, 1926, p. 6.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Friday, October 09, 2026

B de 'Berço'

«Só os carimbos das cartas que eu recebia me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento – de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do Atlântico.» 

do «Pórtico» de  A Selva (1930)

 

Wednesday, October 07, 2026

Paisagem social e estereótipo, estesia e espalhafato: o Egipto visitado por Eça de Queirós (1869) e Ferreira de Castro (1935) (1)

 

Eça de Queirós, por Roberto Nobre
Em circunstâncias pessoais distintas (idade, motivações e obra já realizada), mas em tempos históricos e referenciais ideológicos contíguos (anarquismo de Proudhon, anarcocomunismo de Kropótkin), a presente comunicação procura identificar aproximações e distâncias, com alguma incidência sobre o relato da paisagem social e a abordagem mais ou menos condizente com o lugar-comum orientalista, a partir da formulação de Edward W. Said (1978): «Um oriental vive no Oriente uma vida de tranquilidade oriental, em estado de despotismo e sensualidade orientais, imbuído de um sentimento de fatalismo oriental»[1].



[1],, p. 111.Edward W. Said, Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente [1978], tradução de Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Tuesday, October 06, 2026

A de 'Agonia'

«Ele com a garganta tão fechada como se lhe tivessem posto solda, ele com vontade de estoirar os miolos, sabendo que Julieta estava por pouco – e ele a comer, porque a luz ia já esmorecendo nos olhos dela e queria comprazê-la no momento da agonia.»

A Tempestade (1940)

Monday, October 05, 2026

'O Diabo' de Ferreira de Castro (1)

 

fonte

porque a liberdade

é a lei mais importante da criação

(Ana Hatherly)


Quando Ferreira de Castro assumiu a direcção do semanário O Diabo, em Setembro de 1935, era um ainda jovem, mas já retirado, jornalista, que passara por todos os patamares da profissão e, simultaneamente, um romancista de importância confirmada. Neste texto, veremos brevemente o percurso literário e jornalístico de Ferreira de Castro até então, o significado da sua escolha para dirigir aquele semanário de crítica literária e artística e a marca pessoal que o escritor lhe imprimiu nos dois rápidos meses em que desempenhou essa função.


(Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro)

Z de 'Ziguezaguear'

«A meio do mais lindo e radioso dia, forma-se uma tempestade, ziguezagueia um relâmpago, explode um trovão e cai uma chuvada.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)


Thursday, October 01, 2026

Ferreira de Castro e a 'Renovação' (1)

A revista Renovação é um desenvolvimento natural do projecto de A Batalha, cujo brilhante Suplemento Semanal Ilustrado se distinguiu pela qualidade das colaborações e grafismo dinâmico. 

Convém recordar que se trata de um quinzenário publicado por uma central sindical, destinado a trabalhadores. A realidade social obriga à pedagogia, pelo que são objecto de tratamento questões como as da dignidade do trabalho, convenções sociais contestáveis, a condição da mulher, o colonialismo, modos vários de alienação. Ao mesmo tempo, pretende-se formar e enriquecer intelectualmente os leitores, com perfis de revolucionários, nas ideias e nas artes, além da colaboração literária, com a dupla função de contribuir para a fruição estética e a emancipação dos trabalhadores.

Todos os autores da Renovação, com a excepção notória de Ferreira de Castro, caíram no limbo. A sua obra, a partir de Emigrantes (1928), que renovou decisivamente o romance português na primeira metade do século XX, é tributária do fervilhar de ideias que aí ocorreu. Como obra de conjunto de uma geração, de par com A Batalha, de onde promanou, ficará como importante testemunho para a história da cultura libertária.


do livro a publicar, Sobre e à Volta de Ferreira de Castro

Wednesday, September 30, 2026

V de 'Vaporzito'

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» 

Do «Pórtico de A Tempestade» (1940)

Tuesday, September 29, 2026

Da Revolta da Andaluzia a O Intervalo – Ferreira de Castro e a II República espanhola (1)


O que de substancial Ferreira de Castro escreveu sobre a Espanha republicana, como romancista e como jornalista, circunscreve-se basicamente aos três primeiros anos do novo regime. Sobre o período da Guerra Civil, por exemplo, para além de referências esparsas, só conhecemos uma brevíssima carta dirigida a Roberto Nobre, em 17 de Fevereiro de 1936, um dia depois da vitória da Frente Popular, em que o autor de Emigrantes diz apenas: «Estou radiante com as eleições espanholas.»[1] Afora isto, temos o significativo epílogo de O Intervalo, de que se falaremos no final deste texto. 

1. Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), edição de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 55. 

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro

Thursday, September 24, 2026

T de 'Tempo'

«Parecia-lhe que o tempo era uma coisa sensível, com peso e personalidade, que estava no ar, nos seus pensamentos e nas suas próprias vísceras, tudo alterando.» 

A Tempestade (1940)

Tuesday, September 22, 2026

Friday, September 18, 2026

A MISSÃO, de Ferreira de Castro: quando o Céu se agarra à terra (1)

 

1. Um dos aspectos que caracteriza a ficção de Ferreira de Castro é a exploração de um veio existencial, em que o indivíduo acaba sempre por confrontar-se consigo próprio. Em última análise, o ser humano está sempre só, apesar da importância do(s) outro(s), como podemos verificar nos romances de pendor mais social, v.g. Emigrantes (1928) ou A Lã e a Neve (1947). Obra que privilegia o prismático em vez do unívoco, rejeitando a unidimensionalidade, Castro procede, neste particular, a uma equilibrada conjugação do eu com o nós, num tempo (décadas de 1930 a 1950) em que as posições artísticas, em literatura e noutras artes, se extremavam entre psicologistas e neo-realistas.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Thursday, September 17, 2026

S de 'Senhores'

«É uma cidade heráldica, palácio a seguir a palácio, brasões em todas as fachadas, residências dos grandes senhores que se afastaram do povo, criando um mundo só para eles, um mundo altivo, onde em concorrência de vaidade e de poderio, cada qual procurou construir melhor e mais ostensivamente.» 

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Wednesday, September 16, 2026

Da recepção de A LÃ E A NEVE (1)

 

                                                                                    Os escritores realmente grandes são aqueles

 em que cada época pode encontrar aquilo que mais a interessa.

(Lúcia Miguel Pereira)

 

         A Lã e a Neve (1947), extraordinário romance português do século XX, é, por isso mesmo, também considerado um dos melhores de Ferreira de Castro – ele, que, desde Emigrantes (1928) não escreveu um livro que possa ser considerado menor; e não por acaso, saliente-se, A Lã e a Neve é a segunda obra de Ferreira de Castro mais traduzida, depois de A Selva (1930).[1]

(1) Ver Ricardo António Alves, Museu Ferreira de Castro – Catálogo, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Rede Portuguesa de Museus, s.d.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Tuesday, September 15, 2026

R de 'Reco'

 

«Ganhando tão pouco, nem um reco sequer conseguiria sustentar.» 

Terra Fria (1934)

Monday, September 14, 2026

A LÃ E A NEVE: a História escreve-se no presente (1)

 

1. O romance depois de O Intervalo, a literatura de viagens e A Tempestade

Nas décadas de 1930 e 1940, a arte portuguesa, em especial a Literatura, conheceu um forte embate ideológico cujas posições extremadas podem grosseiramente ser bipolarizadas pelos partidários da arte pela arte, por um lado, e os da arte útil, por outro, num velho enfrentamento que vinha já do século XIX, tomando, com a ascensão dos fascismos, do triunfo do comunismo soviético e da eclosão da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial, enorme acuidade entre os criadores. De um lado, os que defendiam que a arte valia por si só, não devendo servir nenhuma causa, sob o perigo de se vender e/ou falsear; do outro, aqueles que não concebiam que a arte pudesse estar ausente das preocupações, das angústias e do destino dos homens. Foi uma contenda longa e, por vezes, entrincheirada, que, por esses anos, tinha vários protagonistas de primeiro plano.

( Do livro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Friday, September 11, 2026

P de 'Paisagem'

«O escuro da paisagem acidentada vista até ali, descendo vertentes, elevando-se em montanhas e formando irregular conjunto de saliências, quedas e desvãos, ia clareando em verde, cada vez mais ameno, em policromia mais deslumbrante cada vez.» 

Eternidade (1933)

Thursday, September 10, 2026

Preconceito e orgulho em A TEMPESTADE (1)

 

Desde que uma obra de arte seja bela é, desde logo, duma utilidade social, independentemente da sua ética.

(Roberto Nobre)

     Publicado em 1940 pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44), em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

N de 'Nojoso'

«O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico.» 

A Tempestade (1940)

Wednesday, September 09, 2026

M de 'Mar'

«Atrás de mim, alargava-se o Atlântico, cujo rumorejar dir-se-ia um riso surdo, irónico, com uma baba de desprezo pela minha ambição a refazer-se constantemente, espumosa e branca, sobre a crista das suas ondas; em frente, o outro mar, o mar, um mar verde, que se estendia por milhares de quilómetros, desde ali, até às longínquas fronteiras do Peru e da Bolívia, severo, misterioso e imóvel.» 

«Pequena história de "A Selva"» (1955)

Monday, September 07, 2026

ETERNIDADE: canto de morte e de amor (1)

1. Contrição. Eternidade, romance de Ferreira de Castro, publicado em 1933 pela Guimarães – o primeiro na que seria a sua editora de referência –, tem um lugar particular na tábua bibliográfica do escritor. Situado entre A Selva (1930) e Terra Fria (1934), Eternidade pode(ria) desiludir em leitura inicial, efectuada por esta ordem cronológica, como sucedeu ao autor destas linhas nos idos de 1990. Duas décadas de experiência de vida a menos, e um vício de leitura que habitualmente procurava nos livros algo que não teria de lá estar (no caso, a Revolução da Madeira de 1931), fez com que, temerariamente – ressalvando o célebre «Pórtico» e a intenção subjacente – o qualificasse como «um romance falhado»1. À primeira releitura, anos mais tarde, apercebeu-se da falha de avaliação; nova leitura tornou-lhe evidente que teria de reparar o disparate. É o que se vai tentar.

1Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo – Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p. 51.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, September 06, 2026

L de 'Literatura'

«Eu pensava e penso que sem a Literatura – não a minha, evidentemente, mas a Literatura em geral – que foi sempre, no seu conjunto, espelho fiel, como nenhum outro, dos sentimentos e inquietações duma época, não se pode oferecer ao futuro um panorama exacto do nosso tempo.» 

Do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

TERRA FRIA, 17.ª

 


Edição Cavalo de Ferro, Lisboa, 2026
Capa:Duarte Lázaro

Friday, September 04, 2026

I de "Inutilidade"

«Fora preciso que Helena morresse, que a vida o atraiçoasse, matando-a prematuramente, para que ele sentisse a inutilidade de todo o esforço e se comovesse perante o labor que os outros realizavam, mesmo os que não possuíam crença alguma.» 

Eternidade (1933)

Thursday, September 03, 2026

H de 'Herói'

«Sob o hábito dum presidiário pulsa sempre o coração dum herói.» 

Mas… (1921)

Wednesday, September 02, 2026

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pensar n’A Selva trouxe-nos à ideia um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, do livro A Rosa do Povo (1945): «É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.»1 A Selva, de Ferreira de Castro, é um grande e belo livro sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.

1Carlos Drummond de Andrade, «», 65 Anos de Poesia, ed. Arnaldo saraiva, 2.ª ed., Lisboa, o jornal,

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, August 30, 2026

G de 'Guerra'

«É toda a Assíria cruel e guerreira, que cultivava, em vez da agricultura, os assaltos, o sangue e a morte, que está sintetizada nestas remotas pedras pelo génio de alguns dos seus artistas.» 

Do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, August 28, 2026

Da selva à SELVA (1)

Não há, na literatura portuguesa, outro romance como A Selva. Não há, pelo que encerra enquanto narrativa, nenhum outro que captasse a Natureza desta forma, ou obtivesse uma tão rápida difusão internacional.

Do libro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

F de 'Farejar'

«Pareceu-lhe, porém, que Januária farejava na alma dele, pois ao topar os seus olhos vira-os com uma expressão incerta, vagamente pesquisadora, que não lhe conhecia.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, August 27, 2026

No mar com os olhos postos em terra; capas e ilustrações de EMIGRANTES, de Ferreira de Castro (1928-1966) (1)

 cada vez mais azul onde o azul clarece em azul

(João Miguel Fernandes Jorge)

1. Significado de Emigrantes, de Ferreira de Castro. A emigração, enquanto fenómeno social, é um tópico caracterizador da vida do país, acentuado com a independência do Brasil e estimulada pelo fim da escravatura (1888), a procura de mão-de-obra para as culturas do algodão e do café, a que se junta, especialmente no Norte, um crescimento populacional em face da melhoria das condições de vida, que, no entanto, a economia não lograva absorver. Joel Serrão foi definitivo, sustentando tratar-se de «feição estrutural da sociedade portuguesa, moldada por séculos de história»1. No ano em que Ferreira de Castro nasce (1898), Sampaio Bruno, em O Brasil Mental alertava para o «tremendo quadro […] do êxodo colectivo»2; e Vitorino Magalhães Godinho utiliza palavras como sangria, debandada e fuga, referindo-se à saída de portugueses em busca de futuro como uma «torrente caudalosa».3

1Joel Serrão, «A emigração para o Brasil na segunda metade do século XIX – Esboço de problematização», Temas Oitocentistas – I, Lisboa, Livros Horizonte, 1980, p. 164.

2 Sampaio Bruno, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.o, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.

3Vitorino Magalhães Godinho, Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, 4,ª ed., Lisboa, Editora Arcádia, 1980, p. 47.

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro.

Tuesday, August 25, 2026

E de 'Embrulhada'

«O Bagatelle havia compreendido que aquela pergunta se alargava para fora da curiosidade corrente, pois alguma coisa a mais viera embrulhada com as palavras; e, pousando a lata sobre o telhado, aguardou, respeitoso.» 

A Missão (1954)

EMIGRANTES, uma bernarda no romance português (1)

Pus o meu sonho num navio

(Cecília Meireles)

1. Romance fundamental de Ferreira de Castro, Emigrantes, publicado em 1928, inicia uma nova fase do seu percurso – como já foi notado por diversos autores –, sendo os títulos publicados anteriormente (1916-1927) eliminados da tábua bibliográfica do escritor. Representa, também, na história da literatura, uma viragem dentro do romance social português, evoluindo do realismo naturalista ou regionalista para um realismo social, que será assumido pela geração seguinte, chamada neo-realista, com contornos políticos e ideológicos mais rígidos e definidos, não deixando de inovar também formalmente, nomeadamente na técnica narrativa, como notado por Carlos J. F. Jorge, por ocasião do I Centenário do nascimento de Ferreira de Castro, num colóquio organizado na Sociedade da Língua Portuguesa, por Isabel Roboredo Seara, em 14 de Maio de 1998.1

1Carlos J. F. Jorge, «Lugares do idílio e espaços do exílio nos primeiros romances de Ferreira de Castro», Língua a Cultura, II série - #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, Jan.-Jun. 1998, pp. 83-95; incluído em Ferreira de Castro: A Violência da Natureza e dos Confrontos Sociais, Ossela, CEFC-Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2025.

(Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro)


Monday, August 24, 2026

D de 'Desconhecido'

«Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Saturday, August 22, 2026

C de 'Café'

«Na Idade Média, a Europa desconhecia a bebida negra e estimulante, boa companheira, inimiga dos nervos frouxos e das noites de chumbo; e, mesmo que a conhecesse, nunca os aristocratas de Santilhana sairiam dos seus palácios, tão adornados de panóplias como de preconceitos de castas, para irem amesendar-se na sala democrática dum Café, onde se compra a igualdade humana por alguns níqueis apenas.»  

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (20, e final)

Finalmente, a pergunta: está Ferreira de Castro entre os vencedores de todo o século XX? 

Só há escritores vivos com leitores e procura pelos seus livros. A maioria desaparece, tragada pelo tempo. Se olharmos para o século XIX, a partir do romantismo, quem são os vencedores desse século, claramente? Almeida Garrett, que escreve como se fosse ontem; assim como Júlio Dinis; Eça de Queirós acabou de escrever agora mesmo, tal como Cesário Verde; Camilo ainda nos faz pasmar e rir; António Nobre continua a emocionar e embalar; Herculano e Antero, grandes, brônzeos, inescapáveis enquanto houver língua e literatura em português. Há outros? Claro que há, a começar por Oliveira Martins, mas estão desaparecidos das livrarias, é como se não existissem.  

A minha resposta é então sim, claro -- basta ver as sucessivas reedições de toda a obra desde 1974. Tem leitores, tem procura, existe, sem precisar de apoios (mais ou menos desastrados) do Estado para fingir que nos preocupamos, mesmo quando os livros, infelizmente, teimem em não deixar os armazéns.

O facto de nós estarmos aqui, hoje [XII Encontros Ferreira de Castro, Vale de Cambra, 24-V-2026], é prova disso. Mas é o Século XXI que agora interessa, saber se se revê no que Ferreira de Castro escreveu e como o escreveu 

Friday, August 21, 2026

B de 'Badalar'

«Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar no chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio.» 

A Missão (1954)

Thursday, August 20, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (19)

A terceira observação é sobre o próprio Nemésio (1901-1978). Então com a mesma idade de Régio (49 anos), não só não se podia mencionar a si mesmo, como, para o fazer, teria de provocar mais uma entorse ao esquema que montara. Do que não tenho grandes dúvidas é de que tal como o Brandão que não aparece, também ele pode e deve ser tido como um dos mais representativos escritores portugueses de todo o Século XX, para usar a terminologia de partida.

Tuesday, August 18, 2026

A de 'Admiração'

«Há indivíduos que têm necessidade de ser admirados: – como porcos têm necessidade da lama.»

Mas... (1921)