«Padornelos, de sorte igual à de outras aldeolas barrosãs, parecia, no Inverno, uma grande pocilga.»
Terra Fria (1934)
um blogue para ir estando com o autor de A SELVA e os seus amigos de sempre: Assis Esperança, Jaime Brasil e Roberto Nobre (desde 30 de Abril de 2006)
«Padornelos, de sorte igual à de outras aldeolas barrosãs, parecia, no Inverno, uma grande pocilga.»
Terra Fria (1934)
«Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes.»
A Lã e a Neve (1947)
Adiante!
Antes de passarmos à prosa de ficção, lemos um curioso parágrafo, que revela o quão espinhosa esta tarefa poderia ser -- pois leva Nemésio a estranhas associações –- e que é o que segue:
«Arredados com António Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira, alguns escritores cuja pluralidade de géneros ou confinamento no ensaio (penso nos nomes de Raul Proença, António Sérgio, Jaime Cortesão, e, também diversamente solicitado, António Sardinha) tornam os seus vultos menos firmes numa tábua de valores que tenda sobretudo à intensidade e à densidade da expressão, […]»
É natural que Nemésio tenha querido deixar referência a essa grande geração intelectual da Seara Nova: além de Aquilino – Proença (1884-1941), Sérgio (1883-1869) e Cortesão (1884-1960), só para mencionar os gigantes –; e não deixa de ser curioso que tenha incluído o mais notório dos publicistas do Integralismo Lusitano, António Sardinha (1887-1925), também ele poeta, da mesma geração dos anteriores, mas diametralmente oposto na base ideológica.
«Ao atravessar Soldeu, vindo de Paris, pareceu-me que se abrira um alçapão nos boulevards do nosso século e que eu caíra, por efeito mágico, em plena Idade Média.»
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
«Em Andorra entra-se livremente, como se devia entrar no paraíso...»
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
O pintor e documentarista brasileiro João Evangelista de Souza, radicado no Paraná, executará uma pintura ao vivo, no átrio do Museu Ferreira de Castro, acção inspirada no romance A Selva (1930), no próximo dia 30 de Julho, quinta-feira, a partir das 10,30h.
Artista
atento às questões sociais contemporâneas, esta ação insere-se num projecto
mais vasto, intitulado “Amazônia – Sangue na Floresta”, e constituirá uma
homenagem do artista a Ferreira de Castro e ao seu notável romance.
João
Evangelista de Souza realizou a primeira exposição individual em 2003, em Belo
Horizonte, sob os auspícios dos pintores Carlos Scliar, Carlos Bracher, Inimá de Paula e Siron Franco, tem o seu trabalho disperso por acervos públicos e
privados, entre os quais a prestigiadíssima coleção do embaixador Gilberto
Chateaubriand (1925-2022), detentor do maior acervo privado de pintura
brasileira, cedido em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Enquanto
documentarista, João Evangelista de Souza é autor, entre outros, do filme
“Portinari: o menino de Brodósqui” (1997), sobre o grande pintor brasileiro que
ilustrou A Selva, em 1955.
«Essa sufocação que dá a terra sem continuidade, como se o aro líquido que a estrangula se viesse fechar também em volta da nossa garganta, desperta constantes rebeldias e constantes impotências, acorda mil sentimentos ignorados, remexe, tortura, cava fundo na alma até o momento de esta se submeter por falta de mais energias.»
do «Pórtico» de Terra Fria (1934)
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
«A sede de justiça deve ser clamada inúmeras vezes, clamada até que a justiça venha e apague a sede, pois um só grito na noite pode despertar quem dorme, criando breves momentos de expectativa e de incerteza, mas, se outros gritos não lhe sucederem, acaba-se por voltar ao sono.»
Não fui verificar a pergunta original, no entanto, discordo pessoalmente desta forma restrita de representatividade, diria até que quanto menos conforme a “sensibilidade vigente” mais representativo poderá ser o autor, mais se destacando da espuma dos dias….
De Garrett a Ruy Belo, passando por Antero, Cesário, Nobre, Régio ou mesmo Florbela, parece-me que uma das razões da perenidade da sua poesia foi a de estarem contra a sensibilidade vigente, tal como os grandes poetas a que Nemésio se refere.
Afonso Duarte continuaria a ser um dos maiores poetas portugueses vivos? Não vejo porque não; a poesia é a mesma; mudámos nós, mas isso é tão conjuntural, que na verdade pouco ou nada importa.
«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa sem gravata.»
Terra Fria (1934)
«Nós vamos ver, agora, o planeta que eles devassaram em todas as direcções há quase cinco séculos, e, para se iniciar a volta ao Mundo, bom é o porto de onde largaram aqueles que o Mundo andaram a descobrir.»
A Volta ao Mundo (1940-44)
Nemésio refere-se, como não podia deixar de ser, a Fernando Pessoa (1888-1935) e a Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), equiparando Pascoais a estes em grandeza, mas também a Afonso Duarte (1884-1958), então com 66 anos, vindo da Renascença Portuguesa, do mesmo Pascoais, colaborador da presença desde a primeira hora, igualmente muito considerado pelos poetas neo-realistas, e que acabara de publicar Sibila, livro expressamente referido por este perene seleccionador nacional.
À luz do seu critério, Nemésio distinguiu Pascoais também por tratar-se de um autor «de longo fôlego poemático», com uma poética orientada para «temas metafísicos e […] psicológicos que entranharam na nossa espiritualidade», entroncando-o com Bernardim Ribeiro, Luís de Camões e Frei Agostinho da Cruz.
«Nesse tempo, eu habitava o primeiro andar duma casita da Rua Tenente Espanca, quase isolada num bairro em construção, cheio de poeira no Estio, de covas e lama no Inverno, com montões de pedras, de tijolos, de tábuas dificultando-me os passos e esse aspecto das coisas caóticas, arestosas e provisórias que sempre feriram a minha sensibilidade.»
Quais os outros poetas notáveis da primeira metade do século XX mencionados por Nemésio?
Camilo Pessanha (1867-1926), autor de título único não só estava fora do critério estabelecido, como Nemésio, juntando-o a Cesário e Nobre, entre outros, parece atirá-lo para o século XIX. Não fosse esta restrição de excluir autores de livro único, talvez o poeta de Clepsidra figurasse noutro lugar.
O par Gomes Leal (1848-1921) e Guerra Junqueiro (1850-1923), ambos falecidos na década de 1920, estavam organicamente ligados ao século anterior, nunca podendo ser representativos da primeira metade do século XX, independentemente das restrições adoptadas pelo respondente.
Com Eugénio de Castro (1869-1944), que morrera apenas meia dúzia de anos antes deste inquérito -- e neste caso, cronologicamente elegível --, Nemésio vai considerá-lo como um corifeu de «um cânone estético determinado» – o simbolismo, e portanto muito particular e localizado no tempo, ou seja, pouco representativo da poesia portuguesa entre 1901 e 1950. De resto, com a excepção dos Últimos Versos (1938), Eugénio de Castro deixara de publicar em finais da década de 1920, e não fora daí que viera a poesia que se impôs, a do(s) modernismo(s).
«É possível, eu julgo mesmo ser certo, que a bondade, em algumas existências humanas, tem, como causa, algumas anormalidades viscerais. Em Delfim Guimarães, porém, a tendência instintiva fora ampliada por auto-trabalho de aperfeiçoamento espiritual, por uma longa observação do panorama humano, que, quando contemplado demoradamente, à margem dos interesses de cada um, nos dá o desejo de abraçarmos todos e chorarmos todos o nosso destino.» «Delfim Guimarães» (1934)
«Aos nove anos fiz o meu primeiro exame, ficando, de todos os examinandos, apenas eu e o filho do professor a estudar para o segundo. É que os pais dos meus condiscípulos entendiam que estes, para a vida, necessitavam apenas de "saber fazer as quatro operações e ler e escrever uma carta para o Brasil..."» «[Memórias]», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)
E é assim que, ao oitavo parágrafo num total de treze, Nemésio avança com os seus dois nomes de eleição, na poesia e na prosa: Teixeira de Pascoais (1877-1952) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, à luz dos parâmetros que estabeleceu, nos parecem ainda hoje indiscutíveis.
Pascoais, com 73, morreria dois anos depois, tendo publicado, nesse intervalo, uma novela e uma conferência sobre o poeta algarvio João Lúcio; Aquilino, com 65, viveria ainda por quase 13 anos, período em que fez sair vários livros, entre os quais A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958); no entanto, o seu lugar como o grande prosador da primeira metade do século estava já assegurado.
Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)
Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)