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Wednesday, September 07, 2016

FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA LITERÁRIA (Nogueira de Brito)

por Baltazar
«Ferreira de Castro, a quem acaba de ser prestada homenagem de admiração pelo seu talento* é, na moderna geração literária, um dos valores mais curiosos pela orientação mental que tem inspirado à sua obra de reconstrução moral e psíquica. O escritor que deu ultimamente às letras portuguesas um formoso livro, «Emigrantes», é, antes de tudo, um emotivo severo, pautado, sem arremedos de sentimentalismos pueris, nem devaneios lânguidos de compreensão de sentimento ou de ternura. O que caracteriza a literatura de Ferreira de Castro é a incidência do bom gosto estético na observação filosófica dos factos e dos índivíduos, levada a um grau de conclusão e apuro exactos, que faltam à maioria dos escritores que trilharam o caminho por onde ele segue, sem um desvio, sem uma tergiversação, sem uma «falha».
Os tipos, que a sua obra incarna, são exemplos da vida, e não há um gesto, um vinco de fisionismo que não atinjam uma verdade irrefutável, um sentido de exactidão a que não está acondicionado o género novela, tão escassamente conseguido. Carácter e individualidade, moral e temperamento, tendências e atavismos, andam na obra de Ferreira de Castro como coisa existente, a valer, sem deformação, sem tintas esmorecidas, antes com um vinco de beleza moral e uma característica de perfeição honrosa que impressionam. Em Ferreira de Castro não há elevação "estudada" do sentir afeiçoado à exigência da efabulação, a rebuscada irradiação de emotismo coado pela oportunidade mais ou menos feliz; há, sim, a espontaneidade que nasce da cena real da existência, sem qualquer assomo de artifício, sem clangores de retumbâncias festivas, nem estilizações frívolas de colorismos doentios e insinceros. É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.
Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.»

* Este banquete de homenagem, realizado em Janeiro de 1929, de que há registo fotográfico, foi uma manifestação de desagravo pela campanha dos sectores nativistas brasileiros contra Emigrantes,  romance pretensamente 'anti-brasileiro' na visão estreita daqueles.

Ferreira de Castro e a Sua Obra, edição de Jaime Brasil, Porto, Livraria Civilização, 1931.

Nota - Francisco Nogueira de Brito (Lisboa, 1883-1946). Crítico, historiador de arte e olisipógrafo, musicólogo, é um dos intelectuais libertários que assegura colaboração de grande qualidade no Suplemento de A Batalha e no início d'O Diabo.

Wednesday, July 01, 2015

D de «Diabo (O)» (para um Dicionário de Ferreira de Castro)

«Semanário de Crítica Literária e Artística», resultado da convergência entre anarquistas e republicanos, publicando-se entre 1934 e 1940, encerrado compulsivamente pelo regime do Estado Novo. Ferreira de Castro é um dos fundadores, colabora logo no 'número espécime' (ou n.º zero), e chega a dirigir o jornal por dois breves meses, em 1935, uma solução de recurso que assegurou a saída do hebdomadário. Descontente com o jornal, José Régio augurava, nas páginas da presença, uma melhoria com a direcção de Ferreira de Castro, que nele imprimiu nitidamente a sua marca, apesar do tempo curtíssimo como director. A seu convite, substitui-o na direcção o filólogo e professor Rodrigues Lapa, figura insigne da Oposição, com afinidades também à ideologia libertária. O jornal evoluiria para posições mais próximas do PCP, com a colaboração de jovens intelectuais comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal. Castro e O Diabo mantiveram boas relações, tendo aquele concedido um extensa e importante entrevista, em 1940, estando à frente da publicação aquele que seria o último director, Manuel Campos Lima.

(a desenvolver)

bib: o meu artigo na Castriana #5, os livros de Clara Rocha, Daniel Pires e Luís Trindade.

Sunday, January 12, 2014

O DIABO de Ferreira de Castro #1

Quando Ferreira de Castro assumiu a direcção do semanário O Diabo, em Setembro de 1935, era um ainda jovem, mas já retirado, jornalista que passara por todos os patamares da profissão, e, simultaneamente, um romancista de importância confirmada.

Castriana #5, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2012.

Thursday, March 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (16)

Para terminar as continuidades que vieram desembocar no Neo-Realismo, há que referir a constelação anarquista, tão importante como mal conhecida e pior estudada. Basta referir que a figura mais relevante dessa corrente ideológica na literatura portuguesa do século XX é Ferreira de Castro; e que O Diabo, um dos berços do neo-realismo teve na sua génese, em 1934, um grupo de escritores e jornalistas das áreas republicana e libertária. Ferreira de Castro, que foi um dos fundadores, escrevendo logo no número 0 (“espécime”), dirigiu o jornal por um breve período, acompanhando-o sempre. Uma das grandes entrevistas deste período do autor de Emigrantes é dada, em 1940, a [O Diabo de*] Manuel Campos Lima, o último director antes do seu encerramento compulsivo.

* em falta no texto original.                                         
(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Wednesday, July 07, 2010

Literatura, Artes e Identidade Nacional -- Do Modernismo à actualidade (3)

Este período viu surgir e passar o Modernismo da Geração de Orpheu, com as suas inovações formais, imbuído de um espírito cosmopolita e citadino, acompanhado de atitudes provocatórias e mesmo escandalosas (4) -- refractário, portanto, ao sereno, sério e algo sectário projecto de regeneração pátria, protagonizado pelo Saudosimo de Pascoaes, n' A Águia (5), o 2.º Modernismo, ou presencismo, veiculado principalmente pela revista coimbrã presença (1927-1940), de José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais Monteiro, entre muitos outros, defendendo a excepcionalidade de cada criador e a independência da arte perante os vários poderes; o Neo-Realismo, defensor do carácter social da arte, que se publicou em periódicos como O Diabo, Sol Nascente, Vértice, assinalando-se Gaibéus, o romance inicial de Alves Redol, de 1939, como o primeiro marco desta corrente; o Surrealismo, que surge tardiamente, em 1947 -- vinte e três anos depois do 1.º Manifesto de André Breton --, em torno da figura carismática de António Pedro.

(5) Ver Clara Rocha, Revistas Literárias do Século XX em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 234; e A. J. Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 16. edição Porto, Porto Editora, s.d., pp. 1039-1040.
(6) No opúsculo O Espírito Lusitano ou o Saudosismo (1912), Pascoais fala no «estrangeirismo desnacionalizador» e refere-se, com acinte, a «pseudo-portugueses que não crêem na existência de uma alma portuguesa original», in A Saudade e o Saudosismo, compilação, introdução, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Círculo de Leitores, 1990, p. 52.


Literatura, Artes e Identidade Nacional -- «Do Modernismo à Actualidade», separata das Actas dos 3.ºs Cursos Internacionais de Verão de Cascais - 1996, Cascais, Câmara Municipal, 1997, pp. 183-184.