Friday, May 15, 2026
Thursday, May 14, 2026
errâncias
«Mais ainda do que os Dardanelos, ele separa duas civilizações completamente diferentes. Duma das suas ribas -- e ambas se vêem a olho limpo de auxílio -- os europeus espreitam os árabes da África e, da outra, os árabes espreitam os europeus. Esta vizinhança está, porém, cheia de lonjura; tão perto geograficamente, eles encontram-se mui distantes uns dos outros, por mentalidade, costumes e religiões.» A Volta ao Mundo (1940-44)
«Em frente, abre-se grande vale, todo verdejante após as chuvas dos últimos dias; um ramal de estrada nova, que se vê ao longe, como esses que se dirigem para os santuários das montanhas, vai-o ladeando e subindo; e na placa da confluência, que reproduz um bisão conhecido no Mundo inteiro, fêmea de grande úbere, deitada e dobrada sobre si mesma, como se padecesse de fortes dores, lemos com emoção -- "Altamira -- 2 quilómetros".» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]
Tuesday, May 05, 2026
dos romances
«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)
« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)
Thursday, April 30, 2026
um artigo sobre Assis Esperança
Ricardo António Alves, «Terra e opressão em "Ruínas", uma novela de Assis Esperança», in Ana Cristina Carvalho, Sílvia Quinteiro e Natália Constâncio, Algarve(s) -- Imagens do Ambiente natural e Humano na Literatura de Ficção, Lisboa, By the Book, 2025.
Wednesday, April 29, 2026
correspondências
Roberto Nobre a Ferreira de Castro (1925) «Olhão, 30 de Março de 1925 // Meu caro Ferreira de Castro // Antes de tudo o grande abraço das grandes ausências. / Pergunta V. se renuncio? Eu? / Renunciar a uma luta quase antes de a ter começado? / O interesse que V. acaba de mostrar por mim não me espanta nem o agradeço. V. não é para ser agradecido. No entanto deixe-me que lhe louve a sua atenção.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)
Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «A deste seu magnífico volume, comoveu-me. V. bem sabe que me comoveu! Estimaria infinitamente mais -- estimaria-o por si -- que ela me dissesse ser eu dos muitos que ainda lhe não levou desilusões. Pelo contrário ela afirma-me como dos poucos com que tal não se tenha dado.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)
Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)
Tuesday, April 28, 2026
«Caminhos de Ferreira de Castro»
Monday, April 27, 2026
outras palavras
«Mas, logo que chegaram, meteram-se na sua toca. Só o Arturinho passeou ao fim da tare, na estrada, em frente da venda, o sobretudo novo. / A esta hora, cada um pensa especialmente nos seus. Quase todos pobres, não têm remorsos de comer mais do que os outros.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)
«A terra nativa parecia-me defeituosa por não ter as correntes de vento necessárias para elevar a "estrela" multicolor. Contudo, eu mentia, afirmando que já um dia um "papagaio" meu subira tão alto que eu chegara a não o distinguir no espaço. Repetia muito essa minha fantasia, mas, ao recordar-me da verdade, sentia um vácuo na alma.» «Memórias», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)
«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934)
Friday, April 24, 2026
Thursday, April 23, 2026
nas palavras dos outros
Mário Gonçalves Viana: «O objectivo deste formosíssimo e incomparável romance -- incontestàvelmente um dos mais belos que se tem escrito na língua portuguesa -- define-o o próprio autor no Pórtico: "é a conquista do pão, a miragem do ouro -- um ouro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam."» «"A Selva", uma obra-prima"», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)
Jacinto do Prado Coelho: «Daí o desalento que invadiu os companheiros ao verem o local onde fora sepultado Felício: a plantaria tudo desfigurara: "Não demoraram a partir, amofinados, silenciosos com aquela imagem que parecia lançar raízes desde os olhos até os canais respiratórios, dificultando-lhe o acesso do ar; aquela imagem que a floresta devoraria também em breve, transfigurando-a totalmente." (p. 139)» «"O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)
Agustina Bessa Luís: «Imagens, reinos da memória, deliberação do próprio sentido da vida, tudo isso nesse momento percebi. Escrevi livros, encontrei muita gente; mas ninguém soube até hoje distinguir, como Ferreira de Castro distingue, entre o cansaço inóspito da terra, a ternura de uma estradinha clara, perdida no desenho de um velho mapa da infância, ali ao pé de nós e tão antiga.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)
Friday, April 17, 2026
dos «Pórticos»
«Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém nos perturbava a cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo de toda a nossa vida.» A Volta ao Mundo (1940-44)
«No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem.» A Lã e a Neve (1947)
«Um dia, porém, o correio trouxe-nos uma carta. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro pediam-nos uma peça para o Teatro Nacional, que eles, então, dirigiam. Sem o saber, reparavam um velho sonho perdido, uma melancolia longínqua, pois fora justamente a um concurso aberto por aquele teatro, quando era outra a sua direcção, que tínhamos enviado uma peça no amanhecer da nossa vida literária -- uma peça que não fora representada.» A Curva da Estrada (1950)













































































