Thursday, October 22, 2026

Raul Brandão e os escritores anarquistas de 'A Batalha' - aproximações e distâncias (1)

 

1. O anarquismo é um tópico inescapável em Raul Brandão, abordado por vários autores que sobre o escritor se debruçaram; o que se compreende, dadas as suas formulações, suficientemente latas, inspiradas pelo tema. Por outro lado, atendendo à própria natureza heterodoxa do anarquismo, pode afirmar-se que não há um anarquismo, mas anarquismos, cujos mínimos denominadores comuns se prendem com as questões da autoridade e da liberdade individual.

Este texto resulta de uma pesquisa no suplemento literário do jornal A Batalha, e também na revista Renovação, ambos publicados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), central sindical anarco-sindicalista, com o intuito de verificar o modo como foi acolhido Raul Brandão pelos escritores que gravitavam em torno destes periódicos.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Wednesday, October 21, 2026

F de 'Farol'

«Uma só luz ardia em terra: a do farol que iluminava os degraus de acesso à varanda do barracão maioral, esse farol que eu, durante anos, fora encarregado de acender, de apagar e de limpar dos insectos que sobre ele morriam ao longo das noites tropicais.» 

«Pequena História de “A Selva”» (1955)

Tuesday, October 20, 2026

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Raul Brandão
1. Um dos textos mais interessantes e importantes do rebarbativo Mas... (1921) é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos mais emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O “Húmus” é um grande livro: – a erguer-se no campo florido do pensamento latino: – estercolando revolta, esvurmando miséria e desgraça por todas as junturas: – como o escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.»[1]



[1]Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas.., Lisboa, 1921, p. 34.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Monday, October 19, 2026

E de 'Emigração'

«E deslocam-se, e emigram, e transitam, de continente a continente, de hemisfério a hemisfério,  em busca do seu pão.»

Do «Pórtico» de Emigrantes (1928)

José Rodrigues, Monumento a Ferreira de Castro - O Sonho de uma Humanidade (1987)

 


  • Em Pedra e Bronze, podcast de Rita Mega, uma esplêndida análise da extraordinária escultura, precedida da história da sua concepção, iniciativa de Eurico Andrade Alves. Como diz Rita Mega, "o monumento impõe-se na paisagem". Eu acrescento que lhe dá profundidade.
  • Ver aqui um roteiro portuense da obra de José Rodrigues.



Friday, October 16, 2026

D de 'Desconhecido' (2)

«Eu partia para o desconhecido, para o fabuloso, sem saber quando voltava, sem saber até se voltaria.»

do «Pórtico» de Emigrantes

Wednesday, October 14, 2026

“Um medo frio” - Breve nota sobre a memorialística castriana

Santo Agostinho, por Carlo Crivelli

Nada há de tão importante para o homem como o seu estado, nada mais temível para ele do que a eternidade.

(Blaise Pascal)

 

 

Porque se escrevem memórias?

 

            Quem escreve as memórias, pretende dar testemunho e exemplo, justificar-se perante os outros e/ou perante a História, nesta procurando marcar o seu lugar, mesmo adoptando um registo confessional e de alguma forma expiatório. Nas Confissões (397-400), Santo Agostinho quis fazer-se exemplo da bondade divina, ao revelar uma juventude dissoluta e a crença num sistema religioso errado, como o era o maniqueísmo, mostrando que Deus não desistira de si; já Rousseau, considerado o primeiro memorialista moderno, ao revelar-se através  duma obra propositadamente homónima, Confissões (1782), publicada a título póstumo, pretendeu apresentar-se a si próprio como caso de estudo para o futuro, estribado na conhecida tese de que é a sociedade que corrompe o ser humano, na sua essência naturalmente bom.


Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Tuesday, October 13, 2026

C de 'Caratula'

    «Horácio levantou os olhos e adivinhou, mais do que viu, a caratula da velha Luciana à sua janela acabada de abrir.»

A Lã e a Neve (1947)


Monday, October 12, 2026

Eça de Queirós e a crítica anarquista: um sentimento de pertença (1)

Campos Lima
fonte
Anarquismo, anarquismos

 Pertencemos ao grupo, porventura diminuto e que poderá espantar, que vê e lê Eça de Queirós como fundamentalmente um liberal de fundo anarquista, pela ética, pela sensibilidade e por propensão idiossincrática, digamos em itálico, hereditária, no seu liberalismo histórico e romântico – coincidindo já com o que Jaime Cortesão e Jaime Brasil escreveram a este respeito.

        Se um liberal é aquele que cultiva a liberdade, é preciso clarificar a noção e a palavra anarquismo. Como escreveu há um século Campos Lima[1], a palavra anarquia degradou-se (já no tempo do próprio Eça...) e o que deveria ser a ideia de uma comunidade de – e agora atentemos às palavras – livre cooperação mútua, involuiu para uma percepção de balbúrdia violenta de onde ninguém escapa ileso. Ou seja: tudo, menos anarquia. Daí que surgisse a palavra alternativa libertário, sinónimo de anarquista.



[1]Campos Lima, A Teoria Libertária ou o Anarquismo, Lisboa, Edições Spartacus, 1926, p. 6.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Friday, October 09, 2026

B de 'Berço'

«Só os carimbos das cartas que eu recebia me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento – de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do Atlântico.» 

do «Pórtico» de  A Selva (1930)

 

Wednesday, October 07, 2026

Paisagem social e estereótipo, estesia e espalhafato: o Egipto visitado por Eça de Queirós (1869) e Ferreira de Castro (1935) (1)

 

Eça de Queirós, por Roberto Nobre
Em circunstâncias pessoais distintas (idade, motivações e obra já realizada), mas em tempos históricos e referenciais ideológicos contíguos (anarquismo de Proudhon, anarcocomunismo de Kropótkin), a presente comunicação procura identificar aproximações e distâncias, com alguma incidência sobre o relato da paisagem social e a abordagem mais ou menos condizente com o lugar-comum orientalista, a partir da formulação de Edward W. Said (1978): «Um oriental vive no Oriente uma vida de tranquilidade oriental, em estado de despotismo e sensualidade orientais, imbuído de um sentimento de fatalismo oriental»[1].



[1],, p. 111.Edward W. Said, Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente [1978], tradução de Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro