Wednesday, July 08, 2026

outras palavras

«É possível, eu julgo mesmo ser certo, que a bondade, em algumas existências humanas, tem, como causa, algumas anormalidades viscerais. Em Delfim Guimarães, porém, a tendência instintiva fora ampliada por auto-trabalho de aperfeiçoamento espiritual, por uma longa observação do panorama humano, que, quando contemplado demoradamente, à margem dos interesses de cada um, nos dá o desejo de abraçarmos todos e chorarmos todos o nosso destino.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Aos nove anos fiz o meu primeiro exame, ficando, de todos os examinandos, apenas eu e o filho do professor a estudar para o segundo. É que os pais dos meus condiscípulos entendiam que estes, para a vida, necessitavam apenas de "saber fazer as quatro operações e ler e escrever uma carta para o Brasil..."» «[Memórias]», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Tuesday, July 07, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (9)

E é assim que, ao oitavo parágrafo num total de treze, Nemésio avança com os seus dois nomes de eleição, na poesia e na prosa: Teixeira de Pascoais (1877-1952) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, à luz dos parâmetros que estabeleceu, nos parecem ainda hoje indiscutíveis. 

Pascoais, com 73, morreria dois anos depois, tendo publicado, nesse intervalo, uma novela e uma conferência sobre o poeta algarvio João Lúcio; Aquilino, com 65, viveria ainda por quase 13 anos, período em que fez sair vários livros, entre os quais A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958); no entanto, o seu lugar como o grande prosador da primeira metade do século estava já assegurado.

Wednesday, July 01, 2026

nas palavras dos outros

Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)

Thursday, June 25, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (7)

 

Trata-se, pois, de um inquérito, organizado no final de 1950, de balanço literário sobre a primeira metade do século XX português, que então se concluía, pedindo que fossem indicados «os escritores e as obras mais representativas da primeira metade do século.» (p. 109*), texto que foi mais tarde coligido no esplêndido livro de ensaio e crítica literária Conhecimento de Poesia, cuja primeira edição saiu no Brasil, em 1958.

         Antes de esmiuçar a resposta, quero dizer-vos que obviamente o Ferreira de Castro faz parte dessa lista de “vencedores” que Nemésio organizou – caso contrário não estaria aqui a falar dela --; e que destas breves quatro páginas incompletas (109-112), na edição que possuo*, são mencionados 26 autores, dos quais dez, tendo vivido em século anteriores, não são elegíveis para este inquérito. Restariam 16, se o critério de Nemésio não fosse de uma subtil perspicácia – mas já lá vamos.

* Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia [1958], 3.ª ed., Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 1997.

Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, June 23, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (6)

 

Convém dizer que, em 1950, Nemésio era -- e desde a década de 1930 – uma figura proeminente da nossa república das letras, erudito historiador da cultura, professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de o ter sido em Coimbra e passado por França e pela Bélgica como docente, fundador e director da Revista de Portugal (1937-1940), era o sólido autor da tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), o poeta de O Bicho Harmonioso (1938) ou Eu, Comovido a Oeste (1940) e o magno romancista de Mau Tempo no Canal (1944), entre vários outros livros de poesia e prosa, incluindo a ensaística. Ou seja, simultaneamente escritor e académico de alto coturno (entre os seus assistentes contaram-se António José Saraiva, David Mourão-Ferreira e António Machado Pires) e já ligado ao universo mediático com programas na então Emissora Nacional, as suas palavras, o seu juízo, as suas apreciações tinham peso não apenas no meio literário como junto do público leitor em geral.

Monday, June 22, 2026

dos romances

«Tudo recomendado, preparava-me para sair quando me lembrei de deitar uma olhadela à rua, através da vidraça. A princípio só lobriguei vultos disformes; depois, limpando o embaciado, vi nitidamente três indivíduos que palestravam à esquina, alheios à água que o céu peneirava.» O Intervalo (1936/1974)

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)

Thursday, June 18, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (5)

Mas Nemésio abandona os jornais e segue a vida académica, inclusive no estrangeiro, o que os afasta; também a concepção de literatura de ambos diverge – o que só por si não constitui razão para distanciamento com base em diferentes mundividências. Por isso mesmo, numa carta de 1938, Nemésio lamenta não ter dado à obra de Ferreira de Castro a atenção que ela merece, convidando-o a escrever na sua Revista de Portugal, o que não veio a suceder. Cruzavam-se, encontravam-se, trocando livros e dedicatórias. O programa televisivo que lhe dedica – o “Se bem me lembro…” -- transmitido a 6 de Julho de 1974, «Homenagem a Ferreira de Castro», precisamente uma semana depois da morte deste, é um grande exemplo do extraordinário comunicador que Nemésio foi. Será também um dos colaboradores do In Memoriam de Ferreira de Castro, publicado em 1976.