Friday, February 13, 2026

dos romances

«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada,  lhe pareceram mais amplas do que quando ela estava de pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» A Missão (1954)

Thursday, February 12, 2026

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Wednesday, February 04, 2026

outras palavras

«Inventei também umas andas, que eu escondia no monte, a meio do caminho da escola e sobre as quais regressava, radiante, a minha casa. Construí, com alguns condiscípulos, uma bicicleta de madeira, e desesperava-me pelos meus "papagaios" não subirem tão alto como um que eu vi na praia do Furadouro.» «Memórias» (1931)

«Junto deste homem de rosto longo, com uma barba romântica -- uma barba que parecia recortada duma personagem de velho romance francês -- uns olhos sempre congestionados e uma boca sempre ofegante -- já que o coração o matava sob todos os aspectos -- aprendia-se a ser bom.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Veio, este ano, o António da Zefa, que anda no peixe, em Lisboa; veio o Arturinho, que está de caixeiro no Porto, e veio o filho do Soares lavrador, que estuda, em Coimbra, para que a freguesia tenha a honra de dar também um doutor a Portugal.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)  

Tuesday, February 03, 2026

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «O autor, porém, não a sente acolhedora e materna, criação ou reflexo de Deus: é uma força monstruosa e adversa, empenha-se em destruir o que o Homem constrói; entre o Homem que, entregue a si mesmo, realiza a História, e a Natureza bruta, de vitalidade inexaurível, trava-se uma luta incessante.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Desejaria compensá-lo do desencanto que lhe proporciono nalgumas páginas dos meus livros, com o sincero aplauso pela sua obra, digna de reconhecimento, da glória de que desfruta e doutras maiores homenagens que o tempo lhe prepara. Lembro-me sempre, como duma coisa excelente na minha carreira, daquela leitura de A Selva na sala grande, os estores despedaçados pelo sol velando a explosiva audácia de eu me reconhecer também escritora.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Obra Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Ferreira de Castro, que logrou alcançar no ano findo um êxito de que raros justamente se podem orgulhar, pois viu traduzido para espanhol e italiano os Emigrantes, prova evidente de que o sucesso daquele soberbo romance ultrapassou as fronteiras do nosso país, Ferreira de Castro -- íamos dizendo -- sem se acolher à sombra dos louros ganhos, acaba de produzir um trabalho verdadeiramente assombroso de realismo, de emoção e de beleza!» «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Monday, February 02, 2026

dos pórticos

«Mas para bem se compreender as obras de arte da antiguidade, que documentam a evolução do homem e a civilização por ele penosamente criada, para extrair das suas formas, por vezes tão rudes e ingénuas, um motivo de admiração, é imensamente útil não só conhecer-lhes a história, mas também a terra onde se geraram e voltar a examiná-las depois, quando já pudermos integrá-las no seu meio original.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«E desta feita buscou pacientemente, nos antigos livros daquele escritório que tinha dois belos crótons bicolores em frente da janela e estava ainda como eu o havia frequentado, a minha conta ali, entre as de outros párias, a minha vida sintetizada em algarismos,. como é bom e corrente uso no mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.» O Instinto Supremo (1968) 

«Sabe-se que os nossos actos são fragmentos do todo que é a vida e do que nela persiste de herdado, folhas novas que não carecem de Primavera para suceder às velhas nos troncos e nos ramos onde circula a seiva vital. E neste caso fragmentos da minha vida literária, laudas adormecidas há muitos lustros e a amarelecer como as madeiras há muito cerradas.» Os Fragmentos (póst., 1974)

Friday, January 30, 2026

errâncias

«O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como a considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: / -- Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não... Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a 25 quilómetros daqui. E lá, quem sabe! Só de Encamp em diante é que a estrada estará boa. Ele há um caminho para Soldeu, isso há; mas os automóveis não podem, agora, romper... / -- Porquê? -- interrogo, inquieto.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Santilhana do mar termina na estrada de Santander a Comilhas e vemos de novo árvores, camionetas que passam, ciclistas que se esforçam sobre a suas máquinas, um cão a coçar-se na valeta, uma rapariga sentada a vender fruta; quase sem transição, a vida reintegrou-se na nossa época.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, January 29, 2026

dos romances

«Ele olhava e cada vez parecia mais perplexo. Por fim, voltou-se, como para se convencer de que não havia errado no caminho. Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.» A Experiência (1954)

«-- Vai pau! -- Num instante, a frase humanizara aquela alegoria de desvario. Todas as lâmpadas se apagaram, menos a do homem que a proferira. Mas logo outras três se reacenderam, à volta da árvore que ia tombar, e por ela os seus focos subiram até a copa, onde se fixaram como se pretendessem sustê-la com essas débeis escoras de luz.» O Instinto Supremo (1968)

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Tuesday, January 27, 2026

correspondências

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «Voluntariamente exilado na província, acompanho com o coração nas mãos os seus triunfos, a sua gloriosa carreira de homem de letras. E a cada livro seu que vejo anunciado, sucedem-se dias de impaciência febril pela chagada do carteiro, que mo trará, tenho a certeza, hoje ou amanhã, com uma dedicatória toda estima, uma dedicatória fraternal, uma dedicatória-recordação de saudosos tempos, que infelizmente já não voltarão.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): «Lx.ª 19 Set 1929 // Meu querido Castro: Recebi o seu postal, e apresso-me a responder-lhe, pedindo mais uma vez desculpa da minha falta involuntária; mas, como já lhe disse, adoeci em meados do mês findo, e continuo em tratamento. Para mais, o Lança adoeceu também, e eu fiquei só na secção, trabalhosa, como V. muito bem sabe.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../...«Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração. / Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a "massa" -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase uma renúncia (ou não?) // JM Ferreira de Castro» Correspondência (1922-1969) (1994)

Thursday, January 08, 2026

errâncias

«A estação do caminho-de-ferro e umas minas próximas sugerem, com as suas torres metálicas, os seus fios, as suas placas, a terra mexicana de onde se extrai o petróleo. / Informo-me sobre o caminho para Andorra. Vou, enfim, saber como posso atingir o original país, que novo paraíso deve ser pela dificuldade em o encontrar.»  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Sunday, January 04, 2026

traduções - CANÇÕES DA CÓRSEGA

«Chants de Corse»: «Mesdames, / Messieurs // En février de cette année, je me suis retrouvé brûlant de curiosité dans un froide glacial, à San Petru de Venacu, au coeur de la Corse. / Je m'étais rendu sur l'île avec l'intention d'oberver les coutumes et, si possible, la psychologie de ses habitants.» - trad. Eugène F.-X. Gherardi, Mondes en Petit et Vieilles Civilizations (Corse, 1934) (2023) 

Canções da Córsega: «Minhas Senhoras, / Meus Senhores: // Em Fevereiro deste ano* eu encontrava-me, com muito frio e muita curiosidade, em S. Pierre de Venaco, no coração da Córsega. / Tinha ido àquela ilha com a pretensão de observar os costumes e, se fosse possível, a psicologia do seu povo.» (1936)

* 1934.