Saturday, August 15, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (17)

Quatro observações, para terminar: A primeira constata e vai ao encontro da minha avaliação, que vê em Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro os maiores romancistas portugueses da primeira metade do século; Régio foi também um importante romancista – e Castro salientava sempre essa condição do autor do Jogo da Cabra-Cega --, mas foi igualmente poeta, ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e mais; Régio nunca poderá ser considerado só um determinado tipo de escritor, uma vez que foi grande em todas as áreas da literatura; já Torga, que também romancista foi (tenho de fazer um esforço para o lembrar), é indubitavelmente um dos maiores poetas portugueses do século XX e também um dos seus mais importantes contistas.

Thursday, August 13, 2026

V de 'Vale de Ossela'


«Desse
 bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem.» 

do «Pórtico» de A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, August 12, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (16)

Visto a 76 anos de distância, olhando para trás, não me parece que Nemésio se tenha enganado: se quiséssemos falar só do romance, escritores mais novos, mas já com uma obra apreciável,– lembremos Alves Redol (1911-1969) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), respectivamente com 39 e 34 anos -- tinham ainda muito para dar ; e o mesmo poderia dizer-se de Castro (1898-1974), com 52 anos; Régio (1901-1969), com 49 e Torga (1907-1995), com 43, embora não estivessem de modo nenhum acabados – longe disso! –, já tinham garantido, então como hoje esse lugar de escritores fundamentais da primeira metade do século XX.

Thursday, August 06, 2026

T de 'Taque-taque'


«Nem
estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo.» 

O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)

Wednesday, August 05, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (15)

Finalmente – e de forma mais sucinta --, a prosa de ficção. Escreve Nemésio que «fica afirmado e principesco, o nome de Aquilino Ribeiro.» -- natural e pacificamente escolhido, pois também este encaixava nas exigências determinadas pelo romancista de Mau Tempo no Canal, nomeadamente quanto à idade, consistência e coerência da obra, bem como «à intensidade e à densidade da expressão».

E, aparentemente o de mais ninguém – o que irá forçar Nemésio a violar as próprias regras, ao destacar, como o próprio escreve, quarentões e cinquentões, para que a prosa de ficção não fique agonicamente desfalcada; e assim adiante que àquela altura do campeonato – meio século de balanço da literatura portuguesa – já se podia «esboçar o apuramento da grandeza pelo balanço do realizado. Ferreira de Castro, José Régio e Miguel Torga, creio conciliarem com justiça e sem grande discrepância uma elegibilidade manifesta.»

Monday, August 03, 2026

S de 'Santillana del Mar'

«Cidade medieval, esquecida do tempo, sem graves mutilações, sem pedras injuriadas, dir-se-á recém-saída de colossal redoma, que lhe conservou todo o seu carácter antigo.» 

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

R de 'Rapa-terra'

«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois o navio e o mar -- e o mar...» 
Emigrantes (1928)

Q de 'Quadris'

«Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.» 
A Missão (1954)

Sunday, August 02, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (14)

Estranho foi o vate açoriano ter colocado os dois poetas que menciona em conjunto com os ensaístas, assim com quem não quer a coisaAfonso Lopes Vieira (1878-1946), já falecido, portanto inelegível, e António Correia de Oliveira (1879-1960), então com 71 anos. Lopes Vieira, que bebe na História de Portugal a substância da sua poética, Correia de Oliveira virado para a tradição e  a ortodoxia católica. Estranho, pois não os juntar ao elenco prévio, pondo-os aqui, como se tivesse querido nomeá-los à força, sem lhes dar, contudo, o destaque que quis dar a Pascoais, Pessoa, Sá-Carneiro e Afonso Duarte, sendo certo que Cortesão e Sardinha foram também bons poetas, mas não foi com a poesia que principalmente se inscreveram na história literária portuguesa.

Friday, July 31, 2026

P de 'Padornelos'

«Padornelos, de sorte igual à de outras aldeolas barrosãs, parecia, no Inverno, uma grande pocilga.» 

Terra Fria (1934)

O de 'Odor'

«Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes.» 

A Lã e a Neve (1947)

N de 'Noite'

«A rua, fracamente iluminada, estava vazia no silêncio da noite.»  

A Tempestade (1940)

Thursday, July 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (13)

 

Adiante! 

Antes de passarmos à prosa de ficção, lemos um curioso parágrafo, que revela o quão espinhosa esta tarefa poderia ser -- pois leva Nemésio a estranhas associações –- e que é o que segue:

«Arredados com António Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira, alguns escritores cuja pluralidade de géneros ou confinamento no ensaio (penso nos nomes de Raul Proença, António Sérgio, Jaime Cortesão, e, também diversamente solicitado, António Sardinha) tornam os seus vultos menos firmes numa tábua de valores que tenda sobretudo à intensidade e à densidade da expressão, […]»

É natural que Nemésio tenha querido deixar referência a essa grande geração intelectual da Seara Nova: além de Aquilino – Proença (1884-1941), Sérgio (1883-1869) e Cortesão (1884-1960), só para mencionar os gigantes –; e não deixa de ser curioso que tenha incluído o mais notório dos publicistas do Integralismo Lusitano, António Sardinha (1887-1925), também ele poeta, da mesma geração dos anteriores, mas diametralmente oposto na base ideológica.

Wednesday, July 29, 2026

M de 'Máquina do Tempo'

«Ao atravessar Soldeu, vindo de Paris, pareceu-me que se abrira um alçapão nos boulevards do nosso século e que eu caíra, por efeito mágico, em plena Idade Média.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

L de 'Liberdade'

«Em Andorra entra-se livremente, como se devia entrar no paraíso...» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

J de 'Jornalismo'

«O jornalismo é o receptáculo das dejecções que vive à cabeceira dum povo.» 

Mas…, (1921)