Tuesday, February 03, 2026

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «O autor, porém, não a sente acolhedora e materna, criação ou reflexo de Deus: é uma força monstruosa e adversa, empenha-se em destruir o que o Homem constrói; entre o Homem que, entregue a si mesmo, realiza a História, e a Natureza bruta, de vitalidade inexaurível, trava-se uma luta incessante.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Desejaria compensá-lo do desencanto que lhe proporciono nalgumas páginas dos meus livros, com o sincero aplauso pela sua obra, digna de reconhecimento, da glória de que desfruta e doutras maiores homenagens que o tempo lhe prepara. Lembro-me sempre, como duma coisa excelente na minha carreira, daquela leitura de A Selva na sala grande, os estores despedaçados pelo sol velando a explosiva audácia de eu me reconhecer também escritora.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Obra Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Ferreira de Castro, que logrou alcançar no ano findo um êxito de que raros justamente se podem orgulhar, pois viu traduzido para espanhol e italiano os Emigrantes, prova evidente de que o sucesso daquele soberbo romance ultrapassou as fronteiras do nosso país, Ferreira de Castro -- íamos dizendo -- sem se acolher à sombra dos louros ganhos, acaba de produzir um trabalho verdadeiramente assombroso de realismo, de emoção e de beleza!» «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Monday, February 02, 2026

dos pórticos

«Mas para bem se compreender as obras de arte da antiguidade, que documentam a evolução do homem e a civilização por ele penosamente criada, para extrair das suas formas, por vezes tão rudes e ingénuas, um motivo de admiração, é imensamente útil não só conhecer-lhes a história, mas também a terra onde se geraram e voltar a examiná-las depois, quando já pudermos integrá-las no seu meio original.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«E desta feita buscou pacientemente, nos antigos livros daquele escritório que tinha dois belos crótons bicolores em frente da janela e estava ainda como eu o havia frequentado, a minha conta ali, entre as de outros párias, a minha vida sintetizada em algarismos,. como é bom e corrente uso no mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.» O Instinto Supremo (1968) 

«Sabe-se que os nossos actos são fragmentos do todo que é a vida e do que nela persiste de herdado, folhas novas que não carecem de Primavera para suceder às velhas nos troncos e nos ramos onde circula a seiva vital. E neste caso fragmentos da minha vida literária, laudas adormecidas há muitos lustros e a amarelecer como as madeiras há muito cerradas.» Os Fragmentos (póst., 1974)

Friday, January 30, 2026

errâncias

«O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como a considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: / -- Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não... Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a 25 quilómetros daqui. E lá, quem sabe! Só de Encamp em diante é que a estrada estará boa. Ele há um caminho para Soldeu, isso há; mas os automóveis não podem, agora, romper... / -- Porquê? -- interrogo, inquieto.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Santilhana do mar termina na estrada de Santander a Comilhas e vemos de novo árvores, camionetas que passam, ciclistas que se esforçam sobre a suas máquinas, um cão a coçar-se na valeta, uma rapariga sentada a vender fruta; quase sem transição, a vida reintegrou-se na nossa época.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, January 29, 2026

dos romances

«Ele olhava e cada vez parecia mais perplexo. Por fim, voltou-se, como para se convencer de que não havia errado no caminho. Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.» A Experiência (1954)

«-- Vai pau! -- Num instante, a frase humanizara aquela alegoria de desvario. Todas as lâmpadas se apagaram, menos a do homem que a proferira. Mas logo outras três se reacenderam, à volta da árvore que ia tombar, e por ela os seus focos subiram até a copa, onde se fixaram como se pretendessem sustê-la com essas débeis escoras de luz.» O Instinto Supremo (1968)

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Tuesday, January 27, 2026

correspondências

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «Voluntariamente exilado na província, acompanho com o coração nas mãos os seus triunfos, a sua gloriosa carreira de homem de letras. E a cada livro seu que vejo anunciado, sucedem-se dias de impaciência febril pela chagada do carteiro, que mo trará, tenho a certeza, hoje ou amanhã, com uma dedicatória toda estima, uma dedicatória fraternal, uma dedicatória-recordação de saudosos tempos, que infelizmente já não voltarão.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): «Lx.ª 19 Set 1929 // Meu querido Castro: Recebi o seu postal, e apresso-me a responder-lhe, pedindo mais uma vez desculpa da minha falta involuntária; mas, como já lhe disse, adoeci em meados do mês findo, e continuo em tratamento. Para mais, o Lança adoeceu também, e eu fiquei só na secção, trabalhosa, como V. muito bem sabe.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../...«Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração. / Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a "massa" -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase uma renúncia (ou não?) // JM Ferreira de Castro» Correspondência (1922-1969) (1994)

Tuesday, January 13, 2026

outras palavras

«Junto deste homem de rosto longo, com uma barba romântica -- uma barba que parecia recortada duma personagem de velho romance francês -- uns olhos sempre congestionados e uma boca sempre ofegante -- já que o coração o matava sob todos os aspectos -- aprendia-se a ser bom.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Veio, este ano, o António da Zefa, que anda no peixe, em Lisboa; veio o Arturinho, que está de caixeiro no Porto, e veio o filho do Soares lavrador, que estuda, em Coimbra, para que a freguesia tenha a honra de dar também um doutor a Portugal.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)  

Thursday, January 08, 2026

errâncias

«A estação do caminho-de-ferro e umas minas próximas sugerem, com as suas torres metálicas, os seus fios, as suas placas, a terra mexicana de onde se extrai o petróleo. / Informo-me sobre o caminho para Andorra. Vou, enfim, saber como posso atingir o original país, que novo paraíso deve ser pela dificuldade em o encontrar.»  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Sunday, January 04, 2026

traduções - CANÇÕES DA CÓRSEGA

«Chants de Corse»: «Mesdames, / Messieurs // En février de cette année, je me suis retrouvé brûlant de curiosité dans un froide glacial, à San Petru de Venacu, au coeur de la Corse. / Je m'étais rendu sur l'île avec l'intention d'oberver les coutumes et, si possible, la psychologie de ses habitants.» - trad. Eugène F.-X. Gherardi, Mondes en Petit et Vieilles Civilizations (Corse, 1934) (2023) 

Canções da Córsega: «Minhas Senhoras, / Meus Senhores: // Em Fevereiro deste ano* eu encontrava-me, com muito frio e muita curiosidade, em S. Pierre de Venaco, no coração da Córsega. / Tinha ido àquela ilha com a pretensão de observar os costumes e, se fosse possível, a psicologia do seu povo.» (1936)

* 1934.

Wednesday, December 17, 2025

dos romances

Subi à casa do Rebelo e leccionei-o sobre a forma de ele pôr a bom recato o nosso material. De armas e dinamite não tinha o Governo urgência alguma e a nós, futuramente, far-nos-iam falta; além disso, era escusado ele ir malhar com os ossos na cadeia.» O Intervalo (1936/1974) 

«Pouco depois, aqui, ali, mais além soavam os golpes dos machados, na noite já toda nervosa. Lâmpadas dispersas, iluminando os pés dos troncos, quase estáticas, dir-se-iam detidas para dar tempo a decifrar uma remota inscrição. Não se enxergava quem as sustinha, nem os homens que cortavam; só se viam os machados e as mãos, ora a sair, ora a mergulhar na sombra, como os insectos chamados ao farol que os matará.» O Instinto Supremo (1968)

«Porto Santo avolumara-se, revelando-se à curiosidade fugidia e perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico. As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade quanto modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muitas mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.» Eternidade (1933)

Friday, December 12, 2025

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Garditch lhe explicará melhor o que pode fazer e não estranhe os seus limitados conhecimentos de português, p.ª tradutor, pois tem amigos que o auxiliam nas traduções. Bastará, depois, passar à peneira [?] a prosa, p.ª q. fique escorreita. / Faça pelo nosso camarada o q. puder, como se o fizesse ao // seu camarada e admirador / mto obrigado / Jaime Brasil // Lx.ª 4/V/929» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../... «Para isso, talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer-lhe que a mim agradava muito que V. principiasse a a surgir nos jornais de Lisboa.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928): «Meu querido Ferreira de Castro // Recebi há dias -- há já bastantes dias mesmo -- o seu magnífico volume. E garanto-lhe que a satisfação que ele me trouxe está na razão inversa do tempo que eu tenho levado para, com um enternecido abraço, lho agradecer. Mas os afazeres são felizmente alguns, e esta tem sido a causa da demora, que lhe peço me perdoe.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)