Tuesday, May 05, 2026

dos romances

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)

Thursday, April 30, 2026

um artigo sobre Assis Esperança

Integrando o grupo do Suplemento Semanal Ilustrado do jornal A Batalha e da revista Renovação, ambos publicados sob a égide da central anarco-sindicalista Confederação Geral do Trabalho (CGT), Assis Esperança é um dos mais representativos ficcionistas dessa corrente de pensamento do romance social, que abrirá as portas ao neo-realismo. Sob a égide de alguns conceitos do anarquismo, chave a para a compreensão da sua obra, analisa-se a novela de recorte rural «Ruínas», incluída no livro Funâmbulos (1925), procurando identificar em que medida as concepções libertárias se reflectem nas personagens e na sua relação com o meio, sem esquecer as intervenções judiciosas do narrador.

Ricardo António Alves, «Terra e opressão em "Ruínas", uma novela de Assis Esperança», in Ana Cristina Carvalho, Sílvia Quinteiro e Natália Constâncio, Algarve(s) -- Imagens do Ambiente natural e Humano na Literatura de Ficção, Lisboa, By the Book, 2025.


Wednesday, April 29, 2026

correspondências

Roberto Nobre a Ferreira de Castro (1925) «Olhão, 30 de Março de 1925 // Meu caro Ferreira de Castro // Antes de tudo o grande abraço das grandes ausências. / Pergunta V. se renuncio? Eu? / Renunciar a uma luta quase antes de a ter começado? / O interesse que V. acaba de mostrar por mim não me espanta nem o agradeço. V. não é para ser agradecido. No entanto deixe-me que lhe louve a sua atenção.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «A deste seu magnífico volume, comoveu-me. V. bem sabe que me comoveu! Estimaria infinitamente mais -- estimaria-o por si -- que ela me dissesse ser eu dos muitos que ainda lhe não levou desilusões. Pelo contrário ela afirma-me como dos poucos com que tal não se tenha dado.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Tuesday, April 28, 2026

«Caminhos de Ferreira de Castro»


Um Roteiro Literário em Ossela, com 34 estações, por Carlos Alberto Oliveira Castro.
(edição do CEFC)

 

Monday, April 27, 2026

outras palavras

«Mas, logo que chegaram, meteram-se na sua toca. Só o Arturinho passeou ao fim da tare, na estrada, em frente da venda, o sobretudo novo. / A esta hora, cada um pensa especialmente nos seus. Quase todos pobres, não têm remorsos de comer mais do que os outros.» «O Natal em Ossela» (1932/1974) 

«A terra nativa parecia-me defeituosa por não ter as correntes de vento necessárias para elevar a "estrela" multicolor. Contudo, eu mentia, afirmando que já um dia um "papagaio" meu subira tão alto que eu chegara a não o distinguir no espaço. Repetia muito essa minha fantasia, mas, ao recordar-me da verdade, sentia um vácuo na alma.» «Memórias», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934) 

Friday, April 24, 2026

"Imagens Literárias das Beiras"


No Museu Ferreira de Castro, às 18 horas, 24 de Abril de 2026, com Ana Cristina Carvalho.




 

Thursday, April 23, 2026

nas palavras dos outros

Mário Gonçalves Viana: «O objectivo deste formosíssimo e incomparável romance -- incontestàvelmente um dos mais belos que se tem escrito na língua portuguesa -- define-o o próprio autor no Pórtico: "é a conquista do pão, a miragem do ouro -- um ouro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam."» «"A Selva", uma obra-prima"»,  Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho: «Daí o desalento que invadiu os companheiros ao verem o local onde fora sepultado Felício: a plantaria tudo desfigurara: "Não demoraram a partir, amofinados, silenciosos com aquela imagem que parecia lançar raízes desde os olhos até os canais respiratórios, dificultando-lhe o acesso do ar; aquela imagem que a floresta devoraria também em breve, transfigurando-a totalmente." (p. 139)» «"O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)  

Agustina Bessa Luís: «Imagens, reinos da memória, deliberação do próprio sentido da vida, tudo isso nesse momento percebi. Escrevi livros, encontrei muita gente; mas ninguém soube até hoje distinguir, como Ferreira de Castro distingue, entre o cansaço inóspito da terra, a ternura de uma estradinha clara, perdida no desenho de um velho mapa da infância, ali ao pé de nós e tão antiga.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Friday, April 17, 2026

dos «Pórticos»

«Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém nos perturbava a cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo de toda a nossa vida.»  A Volta ao Mundo (1940-44)

«No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem.» A Lã e a Neve (1947)

«Um dia, porém, o correio trouxe-nos uma carta. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro pediam-nos uma peça para o Teatro Nacional, que eles, então, dirigiam. Sem o saber, reparavam um velho sonho perdido, uma melancolia longínqua, pois fora justamente a um concurso aberto por aquele teatro, quando era outra a sua direcção, que tínhamos enviado uma peça no amanhecer da nossa vida literária -- uma peça que não fora representada.» A Curva da Estrada (1950)

Monday, April 13, 2026

errâncias

«Em frente, abre-se grande vale, todo verdejante após as chuvas dos últimos dias; um ramal de estrada nova, que se vê ao longe, como esses que se dirigem para os santuários das montanhas, vai-o ladeando e subindo; e na placa da confluência, que reproduz um bisão conhecido no Mundo inteiro, fêmea de grande úbere, deitada e dobrada sobre si mesma, como se padecesse de fortes dores, lemos com emoção -- "Altamira -- 2 quilómetros".» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]