Friday, July 24, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (12)


Embora a escolha afinal resultasse fácil, dentro das condicionantes autoimpostas, Nemésio não deixa de interrogar[-se]: «Pascoais, o mais ilustre poeta português vivo dos últimos cinquenta anos? Creio que ninguém põe dúvidas. Um dos maiores, com Fernando Pessoa, Afonso Duarte, Mário de Sá-Carneiro e algum mais? Também. Mas representativo, isto é consoante com a sensibilidade e a mentalidade vigentes? Quem o pode afirmar?»

Não fui verificar a pergunta original, no entanto, discordo pessoalmente desta forma restrita de representatividade, diria até que quanto menos conforme a “sensibilidade vigente” mais representativo poderá ser o autor, mais se destacando da espuma dos dias…. 

De Garrett a Ruy Belo, passando por Antero, Cesário, Nobre, Régio ou mesmo Florbela, parece-me que uma das razões da perenidade da sua poesia foi a de estarem contra a sensibilidade vigente, tal como os grandes poetas a que Nemésio se refere.

Afonso Duarte continuaria a ser um dos maiores poetas portugueses vivos? Não vejo porque não; a poesia é a mesma; mudámos nós, mas isso é tão conjuntural, que na verdade pouco ou nada importa.

Thursday, July 23, 2026

F de 'Farda'

«Sob a farda animaleja-se o coração dum autómato.»

Mas... (1921)

E de 'Elementos'

«Vestiam os seus trinta e quatro anos feitos e vividos sempre ali, entre a agressividade dos elementos, um casaco e colete velhos, enodoados, a camisa sem gravata.» 

Terra Fria (1934)

D de 'Descobrimentos' e 'Devassa'

«Nós vamos ver, agora, o planeta que eles devassaram em todas as direcções há quase cinco séculos, e, para se iniciar a volta ao Mundo, bom é o porto de onde largaram aqueles que o Mundo andaram a descobrir.» 

A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, July 22, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (11)

Nemésio refere-se, como não podia deixar de ser, a Fernando Pessoa (1888-1935) e a Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), equiparando Pascoais a estes em grandeza, mas também a Afonso Duarte (1884-1958), então com 66 anos, vindo da Renascença Portuguesa, do mesmo Pascoais, colaborador da presença desde a primeira hora, igualmente muito considerado pelos poetas neo-realistas, e que acabara de publicar Sibila, livro expressamente referido por este perene seleccionador nacional.

À luz do seu critério, Nemésio distinguiu Pascoais também por tratar-se de um autor «de longo fôlego poemático», com uma poética orientada para «temas metafísicos e […] psicológicos que entranharam na nossa espiritualidade», entroncando-o com Bernardim Ribeiro, Luís de Camões e Frei Agostinho da Cruz.

C de 'Caos'

«Nesse tempo, eu habitava o primeiro andar duma casita da Rua Tenente Espanca, quase isolada num bairro em construção, cheio de poeira no Estio, de covas e lama no Inverno, com montões de pedras, de tijolos, de tábuas dificultando-me os passos e esse aspecto das coisas caóticas, arestosas e provisórias que sempre feriram a minha sensibilidade.» 
«Pequena História de "A Selva"» (1955)

Tuesday, July 21, 2026

B de 'Borracha'

«Mesmo na sua decadência, era ainda a borracha que movia tudo aquilo, os navios de diferentes portes e os rebocadores de agudos silvos; os guindastes de compridos braços e as vagonetas sobre carris brunidos ao longo dos cais, com um vaivém constante entre a beira da água e a fila dos galpões, vastos armazéns; e à borracha começava Alberto a sentir-se também incorporado, com uma sensação de fábula, agitado de curiosidade e de temor.» 
A Selva (1930) 


A de 'Adaptação'


«A 
princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» 

A Curva da Estrada (1950)


Monday, July 13, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (10)

Quais os outros poetas notáveis da primeira metade do século XX mencionados por Nemésio? 

Camilo Pessanha (1867-1926), autor de título único não só estava fora do critério estabelecido, como Nemésio, juntando-o a Cesário e Nobre, entre outros, parece atirá-lo para o século XIX. Não fosse esta restrição de excluir autores de livro único, talvez o poeta de Clepsidra figurasse noutro lugar. 

O par Gomes Leal (1848-1921) e Guerra Junqueiro (1850-1923), ambos falecidos na década de 1920, estavam organicamente ligados ao século anterior, nunca podendo ser representativos da primeira metade do século XX, independentemente das restrições adoptadas pelo respondente. 

Com Eugénio de Castro (1869-1944), que morrera apenas meia dúzia de anos antes deste inquérito -- e neste caso, cronologicamente elegível --, Nemésio vai considerá-lo como um corifeu de «um cânone estético determinado» – o simbolismo, e portanto muito particular e localizado no tempo, ou seja, pouco representativo da poesia portuguesa entre 1901 e 1950. De resto, com a excepção dos Últimos Versos (1938), Eugénio de Castro deixara de publicar em finais da década de 1920, e não fora daí que viera a poesia que se impôs, a do(s) modernismo(s). 

Wednesday, July 08, 2026

outras palavras

«É possível, eu julgo mesmo ser certo, que a bondade, em algumas existências humanas, tem, como causa, algumas anormalidades viscerais. Em Delfim Guimarães, porém, a tendência instintiva fora ampliada por auto-trabalho de aperfeiçoamento espiritual, por uma longa observação do panorama humano, que, quando contemplado demoradamente, à margem dos interesses de cada um, nos dá o desejo de abraçarmos todos e chorarmos todos o nosso destino.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Aos nove anos fiz o meu primeiro exame, ficando, de todos os examinandos, apenas eu e o filho do professor a estudar para o segundo. É que os pais dos meus condiscípulos entendiam que estes, para a vida, necessitavam apenas de "saber fazer as quatro operações e ler e escrever uma carta para o Brasil..."» «[Memórias]», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Tuesday, July 07, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (9)

E é assim que, ao oitavo parágrafo num total de treze, Nemésio avança com os seus dois nomes de eleição, na poesia e na prosa: Teixeira de Pascoais (1877-1952) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, à luz dos parâmetros que estabeleceu, nos parecem ainda hoje indiscutíveis. 

Pascoais, com 73, morreria dois anos depois, tendo publicado, nesse intervalo, uma novela e uma conferência sobre o poeta algarvio João Lúcio; Aquilino, com 65, viveria ainda por quase 13 anos, período em que fez sair vários livros, entre os quais A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958); no entanto, o seu lugar como o grande prosador da primeira metade do século estava já assegurado.

Wednesday, July 01, 2026

nas palavras dos outros

Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)