Saturday, August 22, 2026

C de 'Café'

«Na Idade Média, a Europa desconhecia a bebida negra e estimulante, boa companheira, inimiga dos nervos frouxos e das noites de chumbo; e, mesmo que a conhecesse, nunca os aristocratas de Santilhana sairiam dos seus palácios, tão adornados de panóplias como de preconceitos de castas, para irem amesendar-se na sala democrática dum Café, onde se compra a igualdade humana por alguns níqueis apenas.»  

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (20, e final)

Finalmente, a pergunta: está Ferreira de Castro entre os vencedores de todo o século XX? 

Só há escritores vivos com leitores e procura pelos seus livros. A maioria desaparece, tragada pelo tempo. Se olharmos para o século XIX, a partir do romantismo, quem são os vencedores desse século, claramente? Almeida Garrett, que escreve como se fosse ontem; assim como Júlio Dinis; Eça de Queirós acabou de escrever agora mesmo, tal como Cesário Verde; Camilo ainda nos faz pasmar e rir; António Nobre continua a emocionar e embalar; Herculano e Antero, grandes, brônzeos, inescapáveis enquanto houver língua e literatura em português. Há outros? Claro que há, a começar por Oliveira Martins, mas estão desaparecidos das livrarias, é como se não existissem.  

A minha resposta é então sim, claro -- basta ver as sucessivas reedições de toda a obra desde 1974. Tem leitores, tem procura, existe, sem precisar de apoios (mais ou menos desastrados) do Estado para fingir que nos preocupamos, mesmo quando os livros, infelizmente, teimem em não deixar os armazéns.

O facto de nós estarmos aqui, hoje [XII Encontros Ferreira de Castro, Vale de Cambra, 24-V-2026], é prova disso. Mas é o Século XXI que agora interessa, saber se se revê no que Ferreira de Castro escreveu e como o escreveu 

Friday, August 21, 2026

B de 'Badalar'

«Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar no chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio.» 

A Missão (1954)

Thursday, August 20, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (19)

A terceira observação é sobre o próprio Nemésio (1901-1978). Então com a mesma idade de Régio (49 anos), não só não se podia mencionar a si mesmo, como, para o fazer, teria de provocar mais uma entorse ao esquema que montara. Do que não tenho grandes dúvidas é de que tal como o Brandão que não aparece, também ele pode e deve ser tido como um dos mais representativos escritores portugueses de todo o Século XX, para usar a terminologia de partida.

Tuesday, August 18, 2026

A de 'Admiração'

«Há indivíduos que têm necessidade de ser admirados: – como porcos têm necessidade da lama.»

Mas... (1921)

Monday, August 17, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (18)

A segunda nota vai para a surpreendente ausência de uma mínima referência a Raul Brandão (1867-1930) -- escritor a que Nemésio não foi absolutamente indiferente –, até porque se ele já então seria um vencedor do meio século, hoje, quase cem anos após a sua morte percebemos que ele não é apenas um dos vencedores do século inteiro, como é um dos que disputa o pódio.

Sunday, August 16, 2026

Z de 'Zape-zape'

«Ela não respondia, sempre lesta no seu passo curto, zape-zape ladeira abaixo.» 

A Lã e a Neve (1947)

Saturday, August 15, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (17)

Três observações, para terminar: A primeira constata e vai ao encontro da minha avaliação, que vê em Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro os maiores romancistas portugueses da primeira metade do século; Régio foi também um importante romancista – e Castro salientava sempre essa condição do autor do Jogo da Cabra-Cega --, mas foi igualmente poeta, ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e mais; Régio nunca poderá ser considerado só um determinado tipo de escritor, uma vez que foi grande em todas as áreas da literatura; já Torga, que também romancista foi (tenho de fazer um esforço para o lembrar), é indubitavelmente um dos maiores poetas portugueses do século XX e também um dos seus mais importantes contistas.

Thursday, August 13, 2026

V de 'Vale de Ossela'


«Desse
 bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem.» 

do «Pórtico» de A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, August 12, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (16)

Visto a 76 anos de distância, olhando para trás, não me parece que Nemésio se tenha enganado: se quiséssemos falar só do romance, escritores mais novos, mas já com uma obra apreciável,– lembremos Alves Redol (1911-1969) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), respectivamente com 39 e 34 anos -- tinham ainda muito para dar ; e o mesmo poderia dizer-se de Castro (1898-1974), com 52 anos; Régio (1901-1969), com 49 e Torga (1907-1995), com 43, embora não estivessem de modo nenhum acabados – longe disso! –, já tinham garantido, então como hoje esse lugar de escritores fundamentais da primeira metade do século XX.

Thursday, August 06, 2026

T de 'Taque-taque'


«Nem
estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo.» 

O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)