«Parecia-lhe que o tempo era uma coisa sensível, com peso e personalidade, que estava no ar, nos seus pensamentos e nas suas próprias vísceras, tudo alterando.»
A Tempestade (1940)
um blogue para ir estando com o autor de A SELVA e os seus amigos de sempre: Assis Esperança, Jaime Brasil e Roberto Nobre (desde 30 de Abril de 2006)
«Parecia-lhe que o tempo era uma coisa sensível, com peso e personalidade, que estava no ar, nos seus pensamentos e nas suas próprias vísceras, tudo alterando.»
A Tempestade (1940)
1. Um dos aspectos que caracteriza a ficção de Ferreira de Castro é a exploração de um veio existencial, em que o indivíduo acaba sempre por confrontar-se consigo próprio. Em última análise, o ser humano está sempre só, apesar da importância do(s) outro(s), como podemos verificar nos romances de pendor mais social, v.g. Emigrantes (1928) ou A Lã e a Neve (1947). Obra que privilegia o prismático em vez do unívoco, rejeitando a unidimensionalidade, Castro procede, neste particular, a uma equilibrada conjugação do eu com o nós, num tempo (décadas de 1930 a 1950) em que as posições artísticas, em literatura e noutras artes, se extremavam entre psicologistas e neo-realistas.
«É uma cidade heráldica, palácio a seguir a palácio, brasões em todas as fachadas, residências dos grandes senhores que se afastaram do povo, criando um mundo só para eles, um mundo altivo, onde em concorrência de vaidade e de poderio, cada qual procurou construir melhor e mais ostensivamente.»
As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
Os escritores realmente grandes são aqueles
em que cada época pode encontrar aquilo que mais a interessa.
(Lúcia Miguel Pereira)
A Lã e a Neve (1947), extraordinário romance português do século XX, é, por isso mesmo, também considerado um dos melhores de Ferreira de Castro – ele, que, desde Emigrantes (1928) não escreveu um livro que possa ser considerado menor; e não por acaso, saliente-se, A Lã e a Neve é a segunda obra de Ferreira de Castro mais traduzida, depois de A Selva (1930).[1]
(1) Ver Ricardo António Alves, Museu Ferreira de Castro – Catálogo, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Rede Portuguesa de Museus, s.d.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
1. O romance depois de O Intervalo, a literatura de viagens e A Tempestade
Nas décadas de 1930 e 1940, a arte portuguesa, em especial a
Literatura, conheceu um forte embate ideológico cujas posições extremadas podem
grosseiramente ser bipolarizadas pelos partidários da arte pela arte, por um lado, e os da arte útil, por outro, num velho enfrentamento que vinha já do
século XIX, tomando, com a ascensão dos fascismos, do triunfo do comunismo
soviético e da eclosão da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial,
enorme acuidade entre os criadores. De um lado, os que defendiam que a arte valia por si só, não devendo
servir nenhuma causa, sob o perigo de se vender e/ou falsear; do outro, aqueles
que não concebiam que a arte pudesse estar ausente das preocupações, das
angústias e do destino dos homens. Foi uma contenda longa e, por vezes,
entrincheirada, que, por esses anos, tinha vários protagonistas de primeiro
plano.
( Do livro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro
«O escuro da paisagem acidentada vista até ali, descendo vertentes, elevando-se em montanhas e formando irregular conjunto de saliências, quedas e desvãos, ia clareando em verde, cada vez mais ameno, em policromia mais deslumbrante cada vez.»
Eternidade (1933)
Desde que uma obra de arte seja bela é, desde logo, duma utilidade social, independentemente da sua ética.
(Roberto Nobre)
Publicado em 1940 pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44), em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
«O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico.»
A Tempestade (1940)
«Atrás de mim, alargava-se o Atlântico, cujo rumorejar dir-se-ia um riso surdo, irónico, com uma baba de desprezo pela minha ambição a refazer-se constantemente, espumosa e branca, sobre a crista das suas ondas; em frente, o outro mar, o mar, um mar verde, que se estendia por milhares de quilómetros, desde ali, até às longínquas fronteiras do Peru e da Bolívia, severo, misterioso e imóvel.»
«Pequena história de "A Selva"» (1955)