Wednesday, July 01, 2026

nas palavras dos outros

Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)

Thursday, June 25, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (7)

 

Trata-se, pois, de um inquérito, organizado no final de 1950, de balanço literário sobre a primeira metade do século XX português, que então se concluía, pedindo que fossem indicados «os escritores e as obras mais representativas da primeira metade do século.» (p. 109*), texto que foi mais tarde coligido no esplêndido livro de ensaio e crítica literária Conhecimento de Poesia, cuja primeira edição saiu no Brasil, em 1958.

         Antes de esmiuçar a resposta, quero dizer-vos que obviamente o Ferreira de Castro faz parte dessa lista de “vencedores” que Nemésio organizou – caso contrário não estaria aqui a falar dela --; e que destas breves quatro páginas incompletas (109-112), na edição que possuo*, são mencionados 26 autores, dos quais dez, tendo vivido em século anteriores, não são elegíveis para este inquérito. Restariam 16, se o critério de Nemésio não fosse de uma subtil perspicácia – mas já lá vamos.

* Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia [1958], 3.ª ed., Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 1997.

Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, June 23, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (6)

 

Convém dizer que, em 1950, Nemésio era -- e desde a década de 1930 – uma figura proeminente da nossa república das letras, erudito historiador da cultura, professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de o ter sido em Coimbra e passado por França e pela Bélgica como docente, fundador e director da Revista de Portugal (1937-1940), era o sólido autor da tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), o poeta de O Bicho Harmonioso (1938) ou Eu, Comovido a Oeste (1940) e o magno romancista de Mau Tempo no Canal (1944), entre vários outros livros de poesia e prosa, incluindo a ensaística. Ou seja, simultaneamente escritor e académico de alto coturno (entre os seus assistentes contaram-se António José Saraiva, David Mourão-Ferreira e António Machado Pires) e já ligado ao universo mediático com programas na então Emissora Nacional, as suas palavras, o seu juízo, as suas apreciações tinham peso não apenas no meio literário como junto do público leitor em geral.

Monday, June 22, 2026

dos romances

«Tudo recomendado, preparava-me para sair quando me lembrei de deitar uma olhadela à rua, através da vidraça. A princípio só lobriguei vultos disformes; depois, limpando o embaciado, vi nitidamente três indivíduos que palestravam à esquina, alheios à água que o céu peneirava.» O Intervalo (1936/1974)

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)

Thursday, June 18, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (5)

Mas Nemésio abandona os jornais e segue a vida académica, inclusive no estrangeiro, o que os afasta; também a concepção de literatura de ambos diverge – o que só por si não constitui razão para distanciamento com base em diferentes mundividências. Por isso mesmo, numa carta de 1938, Nemésio lamenta não ter dado à obra de Ferreira de Castro a atenção que ela merece, convidando-o a escrever na sua Revista de Portugal, o que não veio a suceder. Cruzavam-se, encontravam-se, trocando livros e dedicatórias. O programa televisivo que lhe dedica – o “Se bem me lembro…” -- transmitido a 6 de Julho de 1974, «Homenagem a Ferreira de Castro», precisamente uma semana depois da morte deste, é um grande exemplo do extraordinário comunicador que Nemésio foi. Será também um dos colaboradores do In Memoriam de Ferreira de Castro, publicado em 1976.

Thursday, June 11, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (4)

Um outro elo de proximidade foi certamente Jaime Brasil: como se sabe um dos mais íntimos amigos de Ferreira de Castro e seu biógrafo; açoriano, como Nemésio, fora o mentor literário deste, que lhe dedica o livro de poemas em francês La Voyelle Promise (1935), figurando como personagem, sob diferentes nomes, nos romances Varanda de Pilatos (1927) e Mau Tempo no Canal (1944).


Monday, June 08, 2026

correspondências

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «É o amargo tributo dos triunfadores, meu caro Ferreira de Castro! V. sabe-o infinitamente, psicólogo como é. Se V. tivesse ficado a meio caminho, encontraria a seu lado a grande maioria de todos os outros, que seriam, que teriam de ser forçosamente seus excelentes camaradas.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)