Friday, October 30, 2026

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (1)


Em memória de Maria Isabel Costa

           Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo – libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva  e Cárcere Invisível foi já abordado por Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos.[1] Para além do amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor, um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...»[2] Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, souberam estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.


[1] João Bigotte Chorão, «Francisco Costa, homem-bom de Sintra», Vária Escrita, nº 8, Sintra, Câmara Municipal, 2001, pp. 67-76.

[2]Ibidem, p. 67.

Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Wednesday, October 28, 2026

I de 'Ilegais'

«Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.» 

A Experiência (1954)

Tuesday, October 27, 2026

Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade (1)

1. Entre Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade estabeleceu-se um longo convívio intelectual, iniciado logo nos princípios dos anos 20, quando o futuro crítico e dramaturgo, então um jovem poeta, bate à porta da revista A Hora – dirigida e quase toda elaborada por Castro –, pedindo a publicação de versos seus, o que veio a suceder em duas ocasiões.[1]



[1]Ver A Hora, nº 2, Lisboa, 19 de Março de 1922 -- João Pedro de Andrade, «À ventura»; A Hora, nº 6, Lisboa, 23 de Abril de 1922 -- João Pedro de Andrade, «Crepusculo». A publicação, com o subtítulo Revista-panfleto de Arte, Actualidades e Questões Sociais, saía aos domingos. Publicaram-se apenas seis números, entre 12 de Março e 23 de Abril de 1922. Ver também o verbete de Daniel Pires, «HORA (A)», Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 1996, pp. 189 e 190. Uma edição fac-similada, coligida por Paulo Samuel, foi publicada em apêndice a Ferreira de Castro – 100 Anos de Vida Literária, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 2017.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro.

Monday, October 26, 2026

H de 'Homem'

«Era o nosso interesse pelo próprio homem, pelo seu drama biológico, pela inquietude do seu espírito e pelo seu progresso num planeta sempre hostil, que nos impelia a nós, que amamos a luz, as cores da vida ao ar livre e, sobretudo, o futuro, para essas soturnas galerias do passado onde se expõem, em vários museus do Mundo e num ambiente de mausoléu, as esculturas mesopotâmicas e egípcias, com o seu quê de vultos de pesadelo, mágicos e imobilizados, na penumbra que os cerca.» 

do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Sunday, October 25, 2026

Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (1)

A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal – Generalidades – Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.

Não se pode, com efeito, desligar o Guia de Portugal do grupo da Seara Nova e do escopo de regeneração nacional que ele se propunha. O Guia saiu dos prelos da Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960), sendo Proença chefe da Divisão dos Seviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo-bibliotecário e Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos – este último, anarco-sindicalista, futuro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e director do diário A Batalha, não integrante do grupo da Seara, a que devemos acrescentar, entre outros, os nomes de Câmara Reys (1885-1961), António Sérgio (1883-1969), Augusto Casimiro (1889-1967) e Raul Brandão (1867-1930).

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro


Friday, October 23, 2026

G de 'Gadito'

«Para o tio Joaquim aquilo constituía ocupação apenas de horas vagas, pois nas outras, a menos que fosse semana de pastorear o gadito próprio e o alheio, ele cuidava das duas courelas que possuía ao pé da encosta ou alugava os seus braços para a terra de outrem.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, October 22, 2026

Raul Brandão e os escritores anarquistas de 'A Batalha' - aproximações e distâncias (1)

 

1. O anarquismo é um tópico inescapável em Raul Brandão, abordado por vários autores que sobre o escritor se debruçaram; o que se compreende, dadas as suas formulações, suficientemente latas, inspiradas pelo tema. Por outro lado, atendendo à própria natureza heterodoxa do anarquismo, pode afirmar-se que não há um anarquismo, mas anarquismos, cujos mínimos denominadores comuns se prendem com as questões da autoridade e da liberdade individual.

Este texto resulta de uma pesquisa no suplemento literário do jornal A Batalha, e também na revista Renovação, ambos publicados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), central sindical anarco-sindicalista, com o intuito de verificar o modo como foi acolhido Raul Brandão pelos escritores que gravitavam em torno destes periódicos.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Wednesday, October 21, 2026

F de 'Farol'

«Uma só luz ardia em terra: a do farol que iluminava os degraus de acesso à varanda do barracão maioral, esse farol que eu, durante anos, fora encarregado de acender, de apagar e de limpar dos insectos que sobre ele morriam ao longo das noites tropicais.» 

«Pequena História de “A Selva”» (1955)

Tuesday, October 20, 2026

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Raul Brandão
1. Um dos textos mais interessantes e importantes do rebarbativo Mas... (1921) é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos mais emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O “Húmus” é um grande livro: – a erguer-se no campo florido do pensamento latino: – estercolando revolta, esvurmando miséria e desgraça por todas as junturas: – como o escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.»[1]



[1]Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas.., Lisboa, 1921, p. 34.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Monday, October 19, 2026

E de 'Emigração'

«E deslocam-se, e emigram, e transitam, de continente a continente, de hemisfério a hemisfério,  em busca do seu pão.»

Do «Pórtico» de Emigrantes (1928)

José Rodrigues, Monumento a Ferreira de Castro - O Sonho de uma Humanidade (1987)

 


  • Em Pedra e Bronze, podcast de Rita Mega, uma esplêndida análise da extraordinária escultura, precedida da história da sua concepção, iniciativa de Eurico Andrade Alves. Como diz Rita Mega, "o monumento impõe-se na paisagem". Eu acrescento que lhe dá profundidade.
  • Ver aqui um roteiro portuense da obra de José Rodrigues.