Thursday, September 10, 2026

Preconceito e orgulho em A TEMPESTADE (1)

 

Desde que uma obra de arte seja bela é, desde logo, duma utilidade social, independentemente da sua ética.

(Roberto Nobre)

     Publicado em 1940 pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44), em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

N de 'Nojoso'

«O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico.» 

A Tempestade (1940)

Wednesday, September 09, 2026

M de 'Mar'

«Atrás de mim, alargava-se o Atlântico, cujo rumorejar dir-se-ia um riso surdo, irónico, com uma baba de desprezo pela minha ambição a refazer-se constantemente, espumosa e branca, sobre a crista das suas ondas; em frente, o outro mar, o mar, um mar verde, que se estendia por milhares de quilómetros, desde ali, até às longínquas fronteiras do Peru e da Bolívia, severo, misterioso e imóvel.» 

«Pequena história de "A Selva"» (1955)

Monday, September 07, 2026

ETERNIDADE: canto de morte e de amor (1)

1. Contrição. Eternidade, romance de Ferreira de Castro, publicado em 1933 pela Guimarães – o primeiro na que seria a sua editora de referência –, tem um lugar particular na tábua bibliográfica do escritor. Situado entre A Selva (1930) e Terra Fria (1934), Eternidade pode(ria) desiludir em leitura inicial, efectuada por esta ordem cronológica, como sucedeu ao autor destas linhas nos idos de 1990. Duas décadas de experiência de vida a menos, e um vício de leitura que habitualmente procurava nos livros algo que não teria de lá estar (no caso, a Revolução da Madeira de 1931), fez com que, temerariamente – ressalvando o célebre «Pórtico» e a intenção subjacente – o qualificasse como «um romance falhado»1. À primeira releitura, anos mais tarde, apercebeu-se da falha de avaliação; nova leitura tornou-lhe evidente que teria de reparar o disparate. É o que se vai tentar.

1Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo – Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p. 51.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, September 06, 2026

L de 'Literatura'

«Eu pensava e penso que sem a Literatura – não a minha, evidentemente, mas a Literatura em geral – que foi sempre, no seu conjunto, espelho fiel, como nenhum outro, dos sentimentos e inquietações duma época, não se pode oferecer ao futuro um panorama exacto do nosso tempo.» 

Do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

TERRA FRIA, 17.ª

 


Edição Cavalo de Ferro, Lisboa, 2026
Capa:Duarte Lázaro

Friday, September 04, 2026

I de "Inutilidade"

«Fora preciso que Helena morresse, que a vida o atraiçoasse, matando-a prematuramente, para que ele sentisse a inutilidade de todo o esforço e se comovesse perante o labor que os outros realizavam, mesmo os que não possuíam crença alguma.» 

Eternidade (1933)

Thursday, September 03, 2026

H de 'Herói'

«Sob o hábito dum presidiário pulsa sempre o coração dum herói.» 

Mas… (1921)

Wednesday, September 02, 2026

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pensar n’A Selva trouxe-nos à ideia um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, do livro A Rosa do Povo (1945): «É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.»1 A Selva, de Ferreira de Castro, é um grande e belo livro sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.

1Carlos Drummond de Andrade, «», 65 Anos de Poesia, ed. Arnaldo saraiva, 2.ª ed., Lisboa, o jornal,

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, August 30, 2026

G de 'Guerra'

«É toda a Assíria cruel e guerreira, que cultivava, em vez da agricultura, os assaltos, o sangue e a morte, que está sintetizada nestas remotas pedras pelo génio de alguns dos seus artistas.» 

Do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, August 28, 2026

Da selva à SELVA (1)

Não há, na literatura portuguesa, outro romance como A Selva. Não há, pelo que encerra enquanto narrativa, nenhum outro que captasse a Natureza desta forma, ou obtivesse uma tão rápida difusão internacional.

Do libro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

F de 'Farejar'

«Pareceu-lhe, porém, que Januária farejava na alma dele, pois ao topar os seus olhos vira-os com uma expressão incerta, vagamente pesquisadora, que não lhe conhecia.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, August 27, 2026

No mar com os olhos postos em terra; capas e ilustrações de EMIGRANTES, de Ferreira de Castro (1928-1966) (1)

 cada vez mais azul onde o azul clarece em azul

(João Miguel Fernandes Jorge)

1. Significado de Emigrantes, de Ferreira de Castro. A emigração, enquanto fenómeno social, é um tópico caracterizador da vida do país, acentuado com a independência do Brasil e estimulada pelo fim da escravatura (1888), a procura de mão-de-obra para as culturas do algodão e do café, a que se junta, especialmente no Norte, um crescimento populacional em face da melhoria das condições de vida, que, no entanto, a economia não lograva absorver. Joel Serrão foi definitivo, sustentando tratar-se de «feição estrutural da sociedade portuguesa, moldada por séculos de história»1. No ano em que Ferreira de Castro nasce (1898), Sampaio Bruno, em O Brasil Mental alertava para o «tremendo quadro […] do êxodo colectivo»2; e Vitorino Magalhães Godinho utiliza palavras como sangria, debandada e fuga, referindo-se à saída de portugueses em busca de futuro como uma «torrente caudalosa».3

1Joel Serrão, «A emigração para o Brasil na segunda metade do século XIX – Esboço de problematização», Temas Oitocentistas – I, Lisboa, Livros Horizonte, 1980, p. 164.

2 Sampaio Bruno, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.o, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.

3Vitorino Magalhães Godinho, Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, 4,ª ed., Lisboa, Editora Arcádia, 1980, p. 47.

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro.