A segunda nota vai para a surpreendente ausência de uma mínima referência a Raul Brandão (1867-1930) -- escritor a que Nemésio não foi absolutamente indiferente –, até porque se ele já então seria um vencedor do meio século, hoje, quase cem anos após a sua morte percebemos que ele não é apenas um dos vencedores do século inteiro, como é um dos que disputa o pódio.
Monday, August 17, 2026
Sunday, August 16, 2026
Z de 'Zape-zape'
«Ela não respondia, sempre lesta no seu passo curto, zape-zape ladeira abaixo.»
A Lã e a Neve (1947)
Saturday, August 15, 2026
Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (17)
Quatro observações, para terminar: A primeira constata e vai ao encontro da minha avaliação, que vê em Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro os maiores romancistas portugueses da primeira metade do século; Régio foi também um importante romancista – e Castro salientava sempre essa condição do autor do Jogo da Cabra-Cega --, mas foi igualmente poeta, ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e mais; Régio nunca poderá ser considerado só um determinado tipo de escritor, uma vez que foi grande em todas as áreas da literatura; já Torga, que também romancista foi (tenho de fazer um esforço para o lembrar), é indubitavelmente um dos maiores poetas portugueses do século XX e também um dos seus mais importantes contistas.
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Vitorino Nemésio
Thursday, August 13, 2026
V de 'Vale de Ossela'
«Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem.»
do «Pórtico» de A Volta ao Mundo (1940-44)
Wednesday, August 12, 2026
Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (16)
Visto a 76 anos de distância, olhando para trás, não me parece que Nemésio se tenha enganado: se quiséssemos falar só do romance, escritores mais novos, mas já com uma obra apreciável,– lembremos Alves Redol (1911-1969) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), respectivamente com 39 e 34 anos -- tinham ainda muito para dar ; e o mesmo poderia dizer-se de Castro (1898-1974), com 52 anos; Régio (1901-1969), com 49 e Torga (1907-1995), com 43, embora não estivessem de modo nenhum acabados – longe disso! –, já tinham garantido, então como hoje esse lugar de escritores fundamentais da primeira metade do século XX.
Thursday, August 06, 2026
T de 'Taque-taque'
«Nem estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo.»
O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)
Wednesday, August 05, 2026
Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (15)
Finalmente – e de forma mais sucinta --, a prosa de ficção. Escreve Nemésio que «fica afirmado e principesco, o nome de Aquilino Ribeiro.» -- natural e pacificamente escolhido, pois também este encaixava nas exigências determinadas pelo romancista de Mau Tempo no Canal, nomeadamente quanto à idade, consistência e coerência da obra, bem como «à intensidade e à densidade da expressão».
E, aparentemente o de mais ninguém – o que irá forçar Nemésio a violar as próprias regras, ao destacar, como o próprio escreve, quarentões e cinquentões, para que a prosa de ficção não fique agonicamente desfalcada; e assim adiante que àquela altura do campeonato – meio século de balanço da literatura portuguesa – já se podia «esboçar o apuramento da grandeza pelo balanço do realizado. Ferreira de Castro, José Régio e Miguel Torga, creio conciliarem com justiça e sem grande discrepância uma elegibilidade manifesta.»
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Monday, August 03, 2026
S de 'Santillana del Mar'
«Cidade medieval,
esquecida do tempo, sem graves mutilações, sem pedras injuriadas,
dir-se-á recém-saída de colossal redoma, que lhe conservou todo o
seu carácter antigo.»
As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
R de 'Rapa-terra'
«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois o navio e o mar -- e o mar...»
Emigrantes (1928)
Q de 'Quadris'
«Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.»
A Missão
(1954)
Sunday, August 02, 2026
Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (14)
Estranho foi o vate açoriano ter colocado os dois poetas que menciona em conjunto com os ensaístas, assim com quem não quer a coisa – Afonso Lopes Vieira (1878-1946), já falecido, portanto inelegível, e António Correia de Oliveira (1879-1960), então com 71 anos. Lopes Vieira, que bebe na História de Portugal a substância da sua poética, Correia de Oliveira virado para a tradição e a ortodoxia católica. Estranho, pois não os juntar ao elenco prévio, pondo-os aqui, como se tivesse querido nomeá-los à força, sem lhes dar, contudo, o destaque que quis dar a Pascoais, Pessoa, Sá-Carneiro e Afonso Duarte, sendo certo que Cortesão e Sardinha foram também bons poetas, mas não foi com a poesia que principalmente se inscreveram na história literária portuguesa.
Friday, July 31, 2026
P de 'Padornelos'
«Padornelos, de sorte igual à de outras aldeolas barrosãs, parecia, no Inverno, uma grande pocilga.»
Terra Fria (1934)
O de 'Odor'
«Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes.»
A Lã e a Neve (1947)
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