Wednesday, October 07, 2026

Paisagem social e estereótipo, estesia e espalhafato: o Egipto visitado por Eça de Queirós (1869) e Ferreira de Castro (1935) (1)

 

Eça de Queirós, por Roberto Nobre
Em circunstâncias pessoais distintas (idade, motivações e obra já realizada), mas em tempos históricos e referenciais ideológicos contíguos (anarquismo de Proudhon, anarcocomunismo de Kropótkin), a presente comunicação procura identificar aproximações e distâncias, com alguma incidência sobre o relato da paisagem social e a abordagem mais ou menos condizente com o lugar-comum orientalista, a partir da formulação de Edward W. Said (1978): «Um oriental vive no Oriente uma vida de tranquilidade oriental, em estado de despotismo e sensualidade orientais, imbuído de um sentimento de fatalismo oriental»[1].



[1],, p. 111.Edward W. Said, Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente [1978], tradução de Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

 

 

 

 

 

 

 


Tuesday, October 06, 2026

A de 'Agonia'

«Ele com a garganta tão fechada como se lhe tivessem posto solda, ele com vontade de estoirar os miolos, sabendo que Julieta estava por pouco – e ele a comer, porque a luz ia já esmorecendo nos olhos dela e queria comprazê-la no momento da agonia.»

A Tempestade (1940)

Monday, October 05, 2026

'O Diabo' de Ferreira de Castro (1)

 

fonte

porque a liberdade

é a lei mais importante da criação

(Ana Hatherly)


Quando Ferreira de Castro assumiu a direcção do semanário O Diabo, em Setembro de 1935, era um ainda jovem, mas já retirado, jornalista, que passara por todos os patamares da profissão e, simultaneamente, um romancista de importância confirmada. Neste texto, veremos brevemente o percurso literário e jornalístico de Ferreira de Castro até então, o significado da sua escolha para dirigir aquele semanário de crítica literária e artística e a marca pessoal que o escritor lhe imprimiu nos dois rápidos meses em que desempenhou essa função.


(Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro)

Z de 'Ziguezaguear'

«A meio do mais lindo e radioso dia, forma-se uma tempestade, ziguezagueia um relâmpago, explode um trovão e cai uma chuvada.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)


Thursday, October 01, 2026

Ferreira de Castro e a 'Renovação' (1)

A revista Renovação é um desenvolvimento natural do projecto de A Batalha, cujo brilhante Suplemento Semanal Ilustrado se distinguiu pela qualidade das colaborações e grafismo dinâmico. 

Convém recordar que se trata de um quinzenário publicado por uma central sindical, destinado a trabalhadores. A realidade social obriga à pedagogia, pelo que são objecto de tratamento questões como as da dignidade do trabalho, convenções sociais contestáveis, a condição da mulher, o colonialismo, modos vários de alienação. Ao mesmo tempo, pretende-se formar e enriquecer intelectualmente os leitores, com perfis de revolucionários, nas ideias e nas artes, além da colaboração literária, com a dupla função de contribuir para a fruição estética e a emancipação dos trabalhadores.

Todos os autores da Renovação, com a excepção notória de Ferreira de Castro, caíram no limbo. A sua obra, a partir de Emigrantes (1928), que renovou decisivamente o romance português na primeira metade do século XX, é tributária do fervilhar de ideias que aí ocorreu. Como obra de conjunto de uma geração, de par com A Batalha, de onde promanou, ficará como importante testemunho para a história da cultura libertária.


do livro a publicar, Sobre e à Volta de Ferreira de Castro

Wednesday, September 30, 2026

V de 'Vaporzito'

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» 

Do «Pórtico de A Tempestade» (1940)

Tuesday, September 29, 2026

Da Revolta da Andaluzia a O Intervalo – Ferreira de Castro e a II República espanhola (1)


O que de substancial Ferreira de Castro escreveu sobre a Espanha republicana, como romancista e como jornalista, circunscreve-se basicamente aos três primeiros anos do novo regime. Sobre o período da Guerra Civil, por exemplo, para além de referências esparsas, só conhecemos uma brevíssima carta dirigida a Roberto Nobre, em 17 de Fevereiro de 1936, um dia depois da vitória da Frente Popular, em que o autor de Emigrantes diz apenas: «Estou radiante com as eleições espanholas.»[1] Afora isto, temos o significativo epílogo de O Intervalo, de que se falaremos no final deste texto. 

1. Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), edição de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 55. 

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro

Thursday, September 24, 2026

T de 'Tempo'

«Parecia-lhe que o tempo era uma coisa sensível, com peso e personalidade, que estava no ar, nos seus pensamentos e nas suas próprias vísceras, tudo alterando.» 

A Tempestade (1940)

Tuesday, September 22, 2026

Friday, September 18, 2026

A MISSÃO, de Ferreira de Castro: quando o Céu se agarra à terra (1)

 

1. Um dos aspectos que caracteriza a ficção de Ferreira de Castro é a exploração de um veio existencial, em que o indivíduo acaba sempre por confrontar-se consigo próprio. Em última análise, o ser humano está sempre só, apesar da importância do(s) outro(s), como podemos verificar nos romances de pendor mais social, v.g. Emigrantes (1928) ou A Lã e a Neve (1947). Obra que privilegia o prismático em vez do unívoco, rejeitando a unidimensionalidade, Castro procede, neste particular, a uma equilibrada conjugação do eu com o nós, num tempo (décadas de 1930 a 1950) em que as posições artísticas, em literatura e noutras artes, se extremavam entre psicologistas e neo-realistas.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Thursday, September 17, 2026

S de 'Senhores'

«É uma cidade heráldica, palácio a seguir a palácio, brasões em todas as fachadas, residências dos grandes senhores que se afastaram do povo, criando um mundo só para eles, um mundo altivo, onde em concorrência de vaidade e de poderio, cada qual procurou construir melhor e mais ostensivamente.» 

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)