«Apenas dois janelicos se exibiam nas quatro paredes enegrecidas de fuligem e de velhice.»
Terra Fria (1934)
um blogue para ir estando com o autor de A SELVA e os seus amigos de sempre: Assis Esperança, Jaime Brasil e Roberto Nobre (desde 30 de Abril de 2006)
«Apenas dois janelicos se exibiam nas quatro paredes enegrecidas de fuligem e de velhice.»
Terra Fria (1934)
Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo – libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva e Cárcere Invisível foi já abordado por Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos.[1] Para além do amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor, um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...»[2] Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, souberam estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.
«Ele recomeçou o andamento, mas os seus olhos volviam, teimosos, ilegais, à fachada e à praça, como ao horizonte onde se espera que uma terra se defina sob o nevoeiro do litoral.»
A Experiência (1954)
1. Entre Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade estabeleceu-se um longo convívio intelectual, iniciado logo nos princípios dos anos 20, quando o futuro crítico e dramaturgo, então um jovem poeta, bate à porta da revista A Hora – dirigida e quase toda elaborada por Castro –, pedindo a publicação de versos seus, o que veio a suceder em duas ocasiões.[1]
[1]Ver A
Hora, nº 2, Lisboa, 19 de Março de 1922 -- João Pedro de Andrade, «À
ventura»; A Hora, nº 6, Lisboa, 23 de
Abril de 1922 -- João Pedro de Andrade, «Crepusculo». A publicação, com o
subtítulo Revista-panfleto de Arte, Actualidades
e Questões Sociais, saía aos domingos. Publicaram-se apenas seis números,
entre 12 de Março e 23 de Abril de 1922. Ver também o verbete de Daniel Pires,
«HORA (A)», Dicionário da Imprensa
Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo,
1996, pp. 189 e 190. Uma edição fac-similada, coligida por Paulo Samuel, foi
publicada em apêndice a Ferreira de Castro – 100 Anos de Vida Literária,
Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 2017.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro.
«Era o nosso interesse pelo próprio homem, pelo seu drama biológico, pela inquietude do seu espírito e pelo seu progresso num planeta sempre hostil, que nos impelia a nós, que amamos a luz, as cores da vida ao ar livre e, sobretudo, o futuro, para essas soturnas galerias do passado onde se expõem, em vários museus do Mundo e num ambiente de mausoléu, as esculturas mesopotâmicas e egípcias, com o seu quê de vultos de pesadelo, mágicos e imobilizados, na penumbra que os cerca.»
do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal – Generalidades – Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.
Não se pode, com efeito, desligar o Guia de Portugal do grupo da Seara Nova e do escopo de regeneração nacional que ele se propunha. O Guia saiu dos prelos da Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960), sendo Proença chefe da Divisão dos Seviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo-bibliotecário e Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos – este último, anarco-sindicalista, futuro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e director do diário A Batalha, não integrante do grupo da Seara, a que devemos acrescentar, entre outros, os nomes de Câmara Reys (1885-1961), António Sérgio (1883-1969), Augusto Casimiro (1889-1967) e Raul Brandão (1867-1930).
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
«Para o tio Joaquim aquilo constituía ocupação apenas de horas vagas, pois nas outras, a menos que fosse semana de pastorear o gadito próprio e o alheio, ele cuidava das duas courelas que possuía ao pé da encosta ou alugava os seus braços para a terra de outrem.»
A Lã e a Neve (1947)
Este texto resulta de uma pesquisa no suplemento literário do jornal A Batalha, e também na revista Renovação, ambos publicados pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), central sindical anarco-sindicalista, com o intuito de verificar o modo como foi acolhido Raul Brandão pelos escritores que gravitavam em torno destes periódicos.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
«Uma só luz ardia em terra: a do farol que iluminava os degraus de acesso à varanda do barracão maioral, esse farol que eu, durante anos, fora encarregado de acender, de apagar e de limpar dos insectos que sobre ele morriam ao longo das noites tropicais.»
«Pequena História de “A Selva”» (1955)
1. Um dos textos mais interessantes
e importantes do rebarbativo Mas... (1921) é consagrado a Raul Brandão.
Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos mais emblemáticos que até
então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus
(1917):
Raul Brandão
«O “Húmus” é um grande livro: – a erguer-se no campo florido do pensamento
latino: – estercolando revolta, esvurmando miséria e desgraça por todas as
junturas: – como o escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma
sala de anões.»[1]
[1]Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas.., Lisboa, 1921, p. 34.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro