Thursday, March 19, 2026

Wednesday, March 18, 2026

dos «Pórticos»

«No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem.» A Lã e a Neve (1947)

«Um dia, porém, o correio trouxe-nos uma carta. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro pediam-nos uma peça para o Teatro Nacional, que eles, então, dirigiam. Sem o saber, reparavam um velho sonho perdido, uma melancolia longínqua, pois fora justamente a um concurso aberto por aquele teatro, quando era outra a sua direcção, que tínhamos enviado uma peça no amanhecer da nossa vida literária -- uma peça que não fora representada.» A Curva da Estrada (1950)

Monday, March 16, 2026

errâncias

«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

Friday, March 13, 2026

dos romances

«Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa. / -- Vamos? -- disse, dirigindo-se a Paco. E, aproximando-se mais, beijou Soriano na testa. / Nos últimos tempos esta cena tornara-se quotidiana, pois Mercedes e o sobrinho saíam juntos todas as noites, para o teatro, para o cinema, para casa de um e de outro amigo» A Curva da Estrada (1950)

«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada,  lhe pareceram mais amplas do que quando ela estava de pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» A Missão (1954)

Tuesday, March 10, 2026

o Marreta no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

Cristiana Oliveira publicou no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, dirigido por Carlos Reis uma nova entrada, desta vez sobre o Marreta,. O velho operário anarquista de A Lã e a Neve. vem juntar-se a Horácio e Idalina

Outras duas importantes personagens de Ferreira de Castro figuram neste esplêndido trabalho colectivo: Manuel da Bouça, o protagonista de Emigrantes e Alberto, o anti-herói de A Selva, ambos da autoria de Paulo Geovane e Silva.


Horácio e Marreta, vistos por Molina Sánchez




Monday, March 09, 2026

outras palavras

«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934) 

Wednesday, March 04, 2026

nas palavras dos outros

Agustina Bessa Luís (1966): «Imagens, reinos da memória, deliberação do próprio sentido da vida, tudo isso nesse momento percebi. Escrevi livros, encontrei muita gente; mas ninguém soube até hoje distinguir, como Ferreira de Castro distingue, entre o cansaço inóspito da terra, a ternura de uma estradinha clara, perdida no desenho de um velho mapa da infância, ali ao pé de nós e tão antiga.» «Ferreira de Castro», livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Monday, February 23, 2026

traduções - PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES - Andorra

«Andorra ha estat sempre, en terra portuguesa i en tot Europa, un teler de smoriures. Per ser petita? Per haver-se conservat, a través dels segles, absorta, embalida, endormiscada en el seu bressol de muntanyes? Per ser ignorada? No sempre el que és gran és el més bonic, i la major fascinació resideix sempre en allò desconegut.» - trad. Joan Peruga, Petits Mons i Velles Civilitzacions -- Andorra, 1929 (2008)

«Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, ignorada, adormecida no seu berço de montanhas? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Friday, February 20, 2026

errâncias

«O estreito famoso não conta mais de doze quilómetros de largura. Quem vê, desprevenido, o curto passo de água, apenas com dois veleiros na soledade matinal, tarda a admitir a sua magna importância. E, todavia, é bem certo que deste pequeno e líquido traço de união depende a riqueza ou a miséria, a vitória ou a derrota, de muitos povos, de centenas de milhões de vidas.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como a considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: / -- Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não... Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a 25 quilómetros daqui. E lá, quem sabe! Só de Encamp em diante é que a estrada estará boa. Ele há um caminho para Soldeu, isso há; mas os automóveis não podem, agora, romper... / -- Porquê? -- interrogo, inquieto.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Santilhana do mar termina na estrada de Santander a Comilhas e vemos de novo árvores, camionetas que passam, ciclistas que se esforçam sobre a suas máquinas, um cão a coçar-se na valeta, uma rapariga sentada a vender fruta; quase sem transição, a vida reintegrou-se na nossa época.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, February 12, 2026

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)