«Nem estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo.»
O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)
um blogue para ir estando com o autor de A SELVA e os seus amigos de sempre: Assis Esperança, Jaime Brasil e Roberto Nobre (desde 30 de Abril de 2006)
O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)
Finalmente – e de forma mais sucinta --, a prosa de ficção. Escreve Nemésio que «fica afirmado e principesco, o nome de Aquilino Ribeiro.» -- natural e pacificamente escolhido, pois também este encaixava nas exigências determinadas pelo romancista de Mau Tempo no Canal, nomeadamente quanto à idade, consistência e coerência da obra, bem como «à intensidade e à densidade da expressão».
E, aparentemente o de mais ninguém – o que irá forçar Nemésio a violar as próprias regras, ao destacar, como o próprio escreve, quarentões e cinquentões, para que a prosa de ficção não fique agonicamente desfalcada; e assim adiante que àquela altura do campeonato – meio século de balanço da literatura portuguesa – já se podia «esboçar o apuramento da grandeza pelo balanço do realizado. Ferreira de Castro, José Régio e Miguel Torga, creio conciliarem com justiça e sem grande discrepância uma elegibilidade manifesta.»
As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
«Pouco a pouco, entre ele e a paisagem foram-se interpondo novas visões: o baú de folha fechando-se sobre camisas e ceroulas; um comboio, rapa-terra, rapa-terra, até Lisboa; depois o navio e o mar -- e o mar...»
«Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.»
Estranho foi o vate açoriano ter colocado os dois poetas que menciona em conjunto com os ensaístas, assim com quem não quer a coisa – Afonso Lopes Vieira (1878-1946), já falecido, portanto inelegível, e António Correia de Oliveira (1879-1960), então com 71 anos. Lopes Vieira, que bebe na História de Portugal a substância da sua poética, Correia de Oliveira virado para a tradição e a ortodoxia católica. Estranho, pois não os juntar ao elenco prévio, pondo-os aqui, como se tivesse querido nomeá-los à força, sem lhes dar, contudo, o destaque que quis dar a Pascoais, Pessoa, Sá-Carneiro e Afonso Duarte, sendo certo que Cortesão e Sardinha foram também bons poetas, mas não foi com a poesia que principalmente se inscreveram na história literária portuguesa.
«Padornelos, de sorte igual à de outras aldeolas barrosãs, parecia, no Inverno, uma grande pocilga.»
Terra Fria (1934)
«Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes.»
A Lã e a Neve (1947)
Adiante!
Antes de passarmos à prosa de ficção, lemos um curioso parágrafo, que revela o quão espinhosa esta tarefa poderia ser -- pois leva Nemésio a estranhas associações –- e que é o que segue:
«Arredados com António Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira, alguns escritores cuja pluralidade de géneros ou confinamento no ensaio (penso nos nomes de Raul Proença, António Sérgio, Jaime Cortesão, e, também diversamente solicitado, António Sardinha) tornam os seus vultos menos firmes numa tábua de valores que tenda sobretudo à intensidade e à densidade da expressão, […]»
É natural que Nemésio tenha querido deixar referência a essa grande geração intelectual da Seara Nova: além de Aquilino – Proença (1884-1941), Sérgio (1883-1869) e Cortesão (1884-1960), só para mencionar os gigantes –; e não deixa de ser curioso que tenha incluído o mais notório dos publicistas do Integralismo Lusitano, António Sardinha (1887-1925), também ele poeta, da mesma geração dos anteriores, mas diametralmente oposto na base ideológica.
«Ao atravessar Soldeu, vindo de Paris, pareceu-me que se abrira um alçapão nos boulevards do nosso século e que eu caíra, por efeito mágico, em plena Idade Média.»
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
«Em Andorra entra-se livremente, como se devia entrar no paraíso...»
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
O pintor e documentarista brasileiro João Evangelista de Souza, radicado no Paraná, executará uma pintura ao vivo, no átrio do Museu Ferreira de Castro, acção inspirada no romance A Selva (1930), no próximo dia 30 de Julho, quinta-feira, a partir das 10,30h.
Artista
atento às questões sociais contemporâneas, esta ação insere-se num projecto
mais vasto, intitulado “Amazônia – Sangue na Floresta”, e constituirá uma
homenagem do artista a Ferreira de Castro e ao seu notável romance.
João
Evangelista de Souza realizou a primeira exposição individual em 2003, em Belo
Horizonte, sob os auspícios dos pintores Carlos Scliar, Carlos Bracher, Inimá de Paula e Siron Franco, tem o seu trabalho disperso por acervos públicos e
privados, entre os quais a prestigiadíssima coleção do embaixador Gilberto
Chateaubriand (1925-2022), detentor do maior acervo privado de pintura
brasileira, cedido em comodato ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Enquanto
documentarista, João Evangelista de Souza é autor, entre outros, do filme
“Portinari: o menino de Brodósqui” (1997), sobre o grande pintor brasileiro que
ilustrou A Selva, em 1955.
«Essa sufocação que dá a terra sem continuidade, como se o aro líquido que a estrangula se viesse fechar também em volta da nossa garganta, desperta constantes rebeldias e constantes impotências, acorda mil sentimentos ignorados, remexe, tortura, cava fundo na alma até o momento de esta se submeter por falta de mais energias.»
do «Pórtico» de Terra Fria (1934)
Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
«A sede de justiça deve ser clamada inúmeras vezes, clamada até que a justiça venha e apague a sede, pois um só grito na noite pode despertar quem dorme, criando breves momentos de expectativa e de incerteza, mas, se outros gritos não lhe sucederem, acaba-se por voltar ao sono.»