1. Um dos aspectos que caracteriza a ficção de Ferreira de Castro é a exploração de um veio existencial, em que o indivíduo acaba sempre por confrontar-se consigo próprio. Em última análise, o ser humano está sempre só, apesar da importância do(s) outro(s), como podemos verificar nos romances de pendor mais social, v.g. Emigrantes (1928) ou A Lã e a Neve (1947). Obra que privilegia o prismático em vez do unívoco, rejeitando a unidimensionalidade, Castro procede, neste particular, a uma equilibrada conjugação do eu com o nós, num tempo (décadas de 1930 a 1950) em que as posições artísticas, em literatura e noutras artes, se extremavam entre psicologistas e neo-realistas.
Friday, September 18, 2026
A MISSÃO, de Ferreira de Castro: quando o Céu se agarra à terra (1)
Thursday, September 17, 2026
S de 'Senhores'
«É uma cidade heráldica, palácio a seguir a palácio, brasões em todas as fachadas, residências dos grandes senhores que se afastaram do povo, criando um mundo só para eles, um mundo altivo, onde em concorrência de vaidade e de poderio, cada qual procurou construir melhor e mais ostensivamente.»
As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)
Wednesday, September 16, 2026
Da recepção de A LÃ E A NEVE (1)
Os escritores realmente grandes são aqueles
em que cada época pode encontrar aquilo que mais a interessa.
(Lúcia Miguel Pereira)
A Lã e a Neve (1947), extraordinário romance português do século XX, é, por isso mesmo, também considerado um dos melhores de Ferreira de Castro – ele, que, desde Emigrantes (1928) não escreveu um livro que possa ser considerado menor; e não por acaso, saliente-se, A Lã e a Neve é a segunda obra de Ferreira de Castro mais traduzida, depois de A Selva (1930).[1]
(1) Ver Ricardo António Alves, Museu Ferreira de Castro – Catálogo, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Rede Portuguesa de Museus, s.d.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
Tuesday, September 15, 2026
Monday, September 14, 2026
A LÃ E A NEVE: a História escreve-se no presente (1)
1. O romance depois de O Intervalo, a literatura de viagens e A Tempestade
Nas décadas de 1930 e 1940, a arte portuguesa, em especial a
Literatura, conheceu um forte embate ideológico cujas posições extremadas podem
grosseiramente ser bipolarizadas pelos partidários da arte pela arte, por um lado, e os da arte útil, por outro, num velho enfrentamento que vinha já do
século XIX, tomando, com a ascensão dos fascismos, do triunfo do comunismo
soviético e da eclosão da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial,
enorme acuidade entre os criadores. De um lado, os que defendiam que a arte valia por si só, não devendo
servir nenhuma causa, sob o perigo de se vender e/ou falsear; do outro, aqueles
que não concebiam que a arte pudesse estar ausente das preocupações, das
angústias e do destino dos homens. Foi uma contenda longa e, por vezes,
entrincheirada, que, por esses anos, tinha vários protagonistas de primeiro
plano.
( Do livro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro
Friday, September 11, 2026
P de 'Paisagem'
«O escuro da paisagem acidentada vista até ali, descendo vertentes, elevando-se em montanhas e formando irregular conjunto de saliências, quedas e desvãos, ia clareando em verde, cada vez mais ameno, em policromia mais deslumbrante cada vez.»
Eternidade (1933)
Thursday, September 10, 2026
Preconceito e orgulho em A TEMPESTADE (1)
Desde que uma obra de arte seja bela é, desde logo, duma utilidade social, independentemente da sua ética.
(Roberto Nobre)
Publicado em 1940 pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44), em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
N de 'Nojoso'
«O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico.»
A Tempestade (1940)
Wednesday, September 09, 2026
M de 'Mar'
«Atrás de mim, alargava-se o Atlântico, cujo rumorejar dir-se-ia um riso surdo, irónico, com uma baba de desprezo pela minha ambição a refazer-se constantemente, espumosa e branca, sobre a crista das suas ondas; em frente, o outro mar, o mar, um mar verde, que se estendia por milhares de quilómetros, desde ali, até às longínquas fronteiras do Peru e da Bolívia, severo, misterioso e imóvel.»
«Pequena história de "A Selva"» (1955)
Monday, September 07, 2026
ETERNIDADE: canto de morte e de amor (1)
1Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo – Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p. 51.
Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro
Sunday, September 06, 2026
L de 'Literatura'
«Eu pensava e penso que sem a Literatura – não a minha, evidentemente, mas a Literatura em geral – que foi sempre, no seu conjunto, espelho fiel, como nenhum outro, dos sentimentos e inquietações duma época, não se pode oferecer ao futuro um panorama exacto do nosso tempo.»
Do «Pórtico» de A Tempestade (1940)









































































