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Wednesday, September 07, 2016

FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA LITERÁRIA (Nogueira de Brito)

por Baltazar
«Ferreira de Castro, a quem acaba de ser prestada homenagem de admiração pelo seu talento* é, na moderna geração literária, um dos valores mais curiosos pela orientação mental que tem inspirado à sua obra de reconstrução moral e psíquica. O escritor que deu ultimamente às letras portuguesas um formoso livro, «Emigrantes», é, antes de tudo, um emotivo severo, pautado, sem arremedos de sentimentalismos pueris, nem devaneios lânguidos de compreensão de sentimento ou de ternura. O que caracteriza a literatura de Ferreira de Castro é a incidência do bom gosto estético na observação filosófica dos factos e dos índivíduos, levada a um grau de conclusão e apuro exactos, que faltam à maioria dos escritores que trilharam o caminho por onde ele segue, sem um desvio, sem uma tergiversação, sem uma «falha».
Os tipos, que a sua obra incarna, são exemplos da vida, e não há um gesto, um vinco de fisionismo que não atinjam uma verdade irrefutável, um sentido de exactidão a que não está acondicionado o género novela, tão escassamente conseguido. Carácter e individualidade, moral e temperamento, tendências e atavismos, andam na obra de Ferreira de Castro como coisa existente, a valer, sem deformação, sem tintas esmorecidas, antes com um vinco de beleza moral e uma característica de perfeição honrosa que impressionam. Em Ferreira de Castro não há elevação "estudada" do sentir afeiçoado à exigência da efabulação, a rebuscada irradiação de emotismo coado pela oportunidade mais ou menos feliz; há, sim, a espontaneidade que nasce da cena real da existência, sem qualquer assomo de artifício, sem clangores de retumbâncias festivas, nem estilizações frívolas de colorismos doentios e insinceros. É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.
Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.»

* Este banquete de homenagem, realizado em Janeiro de 1929, de que há registo fotográfico, foi uma manifestação de desagravo pela campanha dos sectores nativistas brasileiros contra Emigrantes,  romance pretensamente 'anti-brasileiro' na visão estreita daqueles.

Ferreira de Castro e a Sua Obra, edição de Jaime Brasil, Porto, Livraria Civilização, 1931.

Nota - Francisco Nogueira de Brito (Lisboa, 1883-1946). Crítico, historiador de arte e olisipógrafo, musicólogo, é um dos intelectuais libertários que assegura colaboração de grande qualidade no Suplemento de A Batalha e no início d'O Diabo.

Wednesday, July 01, 2015

D de «Diabo (O)» (para um Dicionário de Ferreira de Castro)

«Semanário de Crítica Literária e Artística», resultado da convergência entre anarquistas e republicanos, publicando-se entre 1934 e 1940, encerrado compulsivamente pelo regime do Estado Novo. Ferreira de Castro é um dos fundadores, colabora logo no 'número espécime' (ou n.º zero), e chega a dirigir o jornal por dois breves meses, em 1935, uma solução de recurso que assegurou a saída do hebdomadário. Descontente com o jornal, José Régio augurava, nas páginas da presença, uma melhoria com a direcção de Ferreira de Castro, que nele imprimiu nitidamente a sua marca, apesar do tempo curtíssimo como director. A seu convite, substitui-o na direcção o filólogo e professor Rodrigues Lapa, figura insigne da Oposição, com afinidades também à ideologia libertária. O jornal evoluiria para posições mais próximas do PCP, com a colaboração de jovens intelectuais comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal. Castro e O Diabo mantiveram boas relações, tendo aquele concedido um extensa e importante entrevista, em 1940, estando à frente da publicação aquele que seria o último director, Manuel Campos Lima.

(a desenvolver)

bib: o meu artigo na Castriana #5, os livros de Clara Rocha, Daniel Pires e Luís Trindade.

Saturday, January 03, 2015

Francesc Ferrer i Guardia

O boletim libertário açoriano Vida Nova  republica um texto de Ferreira de Castro n'A Batalha, evocando a execução do pedagogo anarquista catalão Francesc Ferrer i Guàrdia.
(lido aqui)


Monday, November 04, 2013

Camus, Koestler, Orwell

Leio a evocação de Albert Camus no Expresso, expressiva evocação escrita por Clara Ferreira Alves. À baila teria de vir os nomes doutros grandes escritores lucidamente antitotalitários, Arthur Koestler e George Orwell. Lúcida e corajosamente antitotalitários: era mais fácil ir na onda das verdades anunciadas, do dogmatismo político para-religioso, que resultou na mentira, na perseguição, nos hospitais psiquiátricos, na tortura e na morte.
Era mais fácil ser-se cobarde e vilmente propagandista dum embuste stalinista que todos sabiam ser um universo de crime, em nome dos grande princípios que todos os homens de bem subscrevem.
Estes tipos eram inteligentes, e certamente não se ficaram pelo papaguear das palavras-de-ordem, pela catequização funcionária do Partido. E leram, leram de certeza, o seu Lenine e o seu Marx para perceberem que aquilo era um pensamento intolerante, cuja aplicação prática não poderia ter deixado de ser o que foi: um desastre.
Em tempo: a não perder também o texto de Maria Luísa Malato e a competentíssima cronologia de Eduardo Graça.
Quantas semelhanças com o Ferreira de Castro, libertário, tolerante, humanista e lúcido! A diferença circunstanciaL ao contrário destes seus colegas, que escreveram em sociedades liberais, Castro -- um tudo-nada mais velho -- publicava num país condicionado por uma ditadura de direita com laivos parafascistas, e nunca faria o jogo desta, atacando o bolchevismo do alto do lugar destacadíssimo que conquistara como homem de letras, pelo contrário! Ele soube sempre separar os homens, com os seus dramas individuais e interiores, das doutrinas que professavam, ainda mais se elas eram também motivo de perseguição a quem, ingénua e generosamente na juventude, as professara.
Mas as ideias libertárias que professou estão todas inscritas na sua obra. Basta sabê-la ler, algo que, nas últimas décadas, a nulidade do pensamento e do gosto dominantes não soube fazer, com as devidas e honrosíssimas excepções que, já agora, assinalo aqui com imenso gosto: Eugénio Lisboa, António Cândido Franco, poucos mais.   




Saturday, August 03, 2013

Recensão a ECOS DA SEMANA -- A ARTE, A VIDA E A SOCIEDADE» (3)

O livro que agora se nos apresenta respeita ao período de 1924-1926, anos em que Castro era um jornalista free-lancer, e colige apenas a sua coluna regular de «Ecos da Semana -- A arte, a vida e a Sociedade». De fora ficou, infelizmente, um outro potencial volume, pelo menos de dimensão semelhante, de textos, ensaio e crítica. Recordemos que foi também aqui que Castro e Nobre publicaram, em 1925, A Epopeia do Trabalho, escritos e desenhos reunidos em livro no ano seguinte. Esta circunstância de independência em relação a entidades patronais que Castro manteve até 1927, ano em que ingressou nos quadros de O Século, se, por um lado, poderia induzir os mais cínicos a verem nestes textos qualquer espécie de lisonja ao público-alvo de A Batalha, a sua obra, coeva e posterior, desmente-o, de tal forma está impregnada dos valores libertários expressos no jornal, e bem assim o seu trajecto cívico e político até ao 25 de Abril de 1974. Em Fevereiro de 1926, de resto, Castro deixaria claro, numa nota oportunamente transcrita por L. Garcia e Silva na contracapa deste livro: «Eu escrevo em muitos jornais -- e em todos eles com independência. Mas há um apenas em que eu me sinto verdadeiramente livre, um apenas em que eu julgo não serem efémeras as minhas ideias, os meus períodos, as minhas palavras -- é neste. É n'A Batalha.

(continua)

Castriana #3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007

Thursday, March 14, 2013

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3)

De que forma poderemos enquadrar essa mundividência? Claramente através de um conjunto de ideias e de sensibilidades que dotara a totalidade da obra castriana de uma mensagem coerente e consistente de emancipação do Homem. Não se trata de um simples amálgama de sentimentos piedosos, vulgo «humanistas»; está para além disso, e tem uma designação bem definida na história das ideias políticas e sociais: chama-se anarquismo, e Ferreira de Castro foi um dos expoentes literários do século XX, em Portugal, dessa forma mais livre de encarar o mundo e a vida. Ela já aparece, ainda que inconscientemente, em Criminoso por Ambição (1916), através de uma pueril atmosfera de revolta e inadaptação do protagonista Simão Rafael dos Anjos (1), e é omnipresente, quase obsidiante no seu último livro, Os Fragmentos (1974), um volume que ele deixou cuidadosamente preparado para publicação.

(1) «Posfácio» a Emigrantes, edição comemorativa ilustrada por Júlio Pomar, Lisboa, Portugália Editora.

 Congresso Internacional A Selva 75 Anos -- Actas, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007.

Thursday, January 17, 2013

incidentais # 15 -- revoluções, chuva, mais remoques de ontem & de hoje

(sobre o capítulo I de O Intervalo)

*incipit: «As derradeiras notícias tivemo-las às dez da manhã.»

* Uma homenagem (já por 1936) às gerações de anarquistas, anarco-sindicalistas e sindicalistas revolucionárias, a que ele pertenceu, e que atravessariam uma noite ainda mais cruel, porque mais solitária. (1)  A acção decorre no período da Ditadura Militar e da II República espanhola.


*Alexandre Novais, "o Século XX", operário (torneiro-mecânico), antigo secretário da CGT, marcado pela policia; também alter ego de Ferreira de Castro, como já escrevi. Para já, em primeiro capítulo, uma coincidência de idades e uma viuvez partilhada (em circunstâncias diferentes, embora).

*Fiasco grevista, unidade na acção entre anarco-sindicalistas e comunistas (o que historicamente sucedeu, todavia com desentendimentos graves) («Mas os políticos é que me estão cá atravessados! Eu bem dizia que isto de políticos não dava nada!...», vocifera o militante Francisco Soares, pela "traição" dos políticos e contra o sai-não-sai dos militares -- militares, que levaram 48 anos a fingir que saíam dos quartéis...

*No rescaldo da derrota, Novais e alguns companheiros estão refugiados na habitação do companheiro Francisco Soares  um ambiente opressivo num tugúrio operário -- descrito com a segurança de meia dúzia de pinceladas (como se está longe da exasperante minúcia naturalista das habitações dos bairros operários, à Abel Botelho...).

* O cinzento do céu, a chuva miudinha que dá cabo dos nervos perpassa por todo o capítulo, acentuando a angústia do momento de incerteza por que passam aqueles insurrectos: «[...] a chuvinha persistia, escurecendo o dia, agarrando-se aos sentimentos, tornando tudo viscoso.» /
«Até admiti ser devido à chuva, sobretudo à opressora luz soturna que ela criava à nossa volta, o aumento da minha turbação cada vez mais expectante.» ("Toda a natureza é escrava da luz", dirá ele numa entrevista a Álvaro Salema, em 1973...)

* Procurado pela polícia como um dos principais dirigente grevistas, é impedido por um companheiro de, em desespero, dirigir-se à morgue, onde jaz Maria, sua companheira, atingida pela polícia: «Tu não te pertences!», dizia-lhe Leontino, pequeno funcionário público:  e o protagonista, que assume em O Intervalo o papel de narrador, examina-se intimamente: «Não nos pertencíamos a nós, mas ao nosso ideal, aos espoliados, à Humanidade que sofria, à criação dum mundo novo, onde a justiça estivesse de pé, a colmeia vivesse em igualdade e o amor aplainasse a obra feita, durante um ror de séculos, por um construtor de abismos.»

* O Intervalo esteve para intitular-se  -- revelou Jaime Brasil nos anos quarenta-- «Luta de Classes», e ainda bem que não vingou, não faria jus à grandeza literária do autor. Mas eu percebo Brasil: anarquista escaldado e de couraça dura, queria mostrar aos polícias que teorizavam o neo-realismo que não haviam sido eles a descobrir a pólvora. Conhecendo bem o seu esquema mental, deveria estar avisado sobre a forma como encaravam a História e a verdade dos factos: simples pormenores que se apagam ou manipulam conforme as conveniências da acção...

(1) Nem de propósito, acabo de ler:
«O anarquismo foi objecto duma implacável repressão nas primeiras décvadas do séc. XX. Ao longo dos anos 20 e 30, milhares de anarquistas ou de supostos tais foram presos, deportados para sítios inóspitos, morto. Essa repressão fez-se com pretextos diversos -- vagas de atentados da legião vermelha e até da camioneta fantasma, o 3 de Fevereiro no Porto e em Lisboa, a revolta da Madeira, o encerramento dos sindicatos livres e o 18 de Janeiro de 1934, o atentado a Salazar, etc. / [...] / Evidentemente que isso não poderia deixar de ter fortes reflexos na actividade anarquista que ficou reduzida à sua expressão mínima, com um Comité Confederal clandestino que só muito esporadicamente reunia, e sem capacidade para publicar de forma continuada e regular jornais de propaganda.»  José Hipólito dos Santos, «A participação de libertários em movimentos para derrubar a ditadura salazarista», A Batalha # 252, Lisboa, Nov.-Dez. 2012, p. 3.

Monday, December 24, 2012

incidentais #14 -- da Revolução e do Amor ao Estilo, passando por uma abelha moribunda

do cap. I

*o incipit: «Manhã alta, toda vestida de azul, com olhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte.»

* Diz-se que Eternidade encerra o ciclo de romances autobiográficos iniciado cinco anos antes, com Emigrantes; mas creio que só neste se poderá considerar o protagonista, Juvenal Gonçalves, como alter ego do autor, o que de modo nenhum sucede com o rústico Manuel da Bouça de Emigrantes, nem com o jovem universitário monárquico de A Selva, Alberto. Em Eternidade, autor e personagem têm a mesma idade, ambos acabam de sofrer a perda dolorosíssima da respectiva companheira (Diana de Liz, 1892-1930), os dois (como se verá com o desenrolar da narrativa) os mesmo ideais libertários. Diferem na formação académica, Castro, autodidacta; Juvenal, engenheiro silvicultor -- não por acaso engenheiro; não por acaso silvicultor. Se o engenheiro opera sobre a Natureza, transformando-a, desejavelmente, ao serviço do Homem, o silvicultor ama-a e respeita-a, o que foi sempre uma marca libertária castriana: a transformação, se quisermos a Revolução, guiada pelo Amor aos homens e aos seres vivos, naturais e vegetais, sem o qual Amor, não passarão de números, massa, entes desprovidos de individualidade e, por consequência, de dignidade.

* Livro que trata da morte, da perda, do sentido da vida, um primeiro episódio -- ainda Juvenal acorre à amurada, antes de acostar no porto do Funchal, e que dá a medida da debilidade seu estado psicológico -- em torno de uma abelha, frágil ser vivente, é das passagens mais impressivas que Ferreira de Castro escreveu.

* Também aqui brilha o estilo de Ferreira de Castro, a sua enorme capacidade descritiva, de que A Selva é o melhor exemplo. No início de Eternidade do Funchal, o casario que nos vamos aproximando é dotado de vida própria, como se possuísse um desígnio, como se fosse dotado de vontade: «E o casario, branco, risonho, aumentava sempre. Em busca de espaço e de maior largueza panorâmica, dera-se a trepar pelas encostas vizinhas, até ao Pico do Facho. Não contentava o ambicioso que cada janela fosse alegre miradoiro sobre o mar e sobre o regaço de onde ele iniciara o ponto de partida. Queria mais, e, pouco a pouco, ia sacudindo a cabeleira de colmo, substituindo-a por telha que gritava, de entre o verde-pardo do quadro, o seu vermelho novo.»

Thursday, June 21, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (21)

 Em Portugal, o Estado Novo está consolidado desde 1933, a tropa domesticada e as oposições cada uma para seu lado – divisão que a caracterizou nos 48 anos de ditadura, exceptuando o período de 19145-49, marcadas pela acção do MUD e do apoio à candidatura de Norton de Matos. Os republicanos de várias proveniências, grande parte desprestigiada pelo falhanço clamoroso da I República, haviam sido neutralizados – pela prisão, pelo exílio mas também pela cooptação por parte do novo poder; os anarquistas, a grande força organizada do trabalho durante esses dezasseis anos, principalmente através da central anarco-sindicalista CGT, detentora do influente jornal diário A Batalha, não resistira à repressão e à clandestinidade. A Revolta da Marinha Grande – articulada já com o PCP, não sem graves dissensões entre ambas as forças – seria o canto do cisne da corrente libertária enquanto movimento de massas; o PCP, finalmente, fundado em 1921, seria o principal veículo de resistência, graças a uma organização rigorosamente centralizada e a uma rede internacional de assistência e informação sediada em Moscovo.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

(imagem)

Tuesday, May 22, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (19)

Costuma dizer-se que a história é escrita pelos vencedores – e no turbilhão do século XX os anarquistas foram duplamente derrotados nos países onde tinham mais influência. Dizimados por Trotsky na União Soviética (em especial as forças de Nestor Makhno, na Ucrânia), estiveram, em Espanha sob o fogo cruzado do militarismo de extrema-direita de Francisco Franco e da duplicidade traiçoeira de José Estaline. E foram derrotados também pela sua própria natureza libertária, incapaz de sujeição às organizações de ferro em que se sustentavam os seus inimigos, o que lhes custaria décadas de rarefacção organizacional.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Tuesday, April 17, 2012

As «Notas Biográficas e Bibliográficas» de Jaime Brasil (1931) (5)

Mas é a comunhão ideológica entre dois anarquistas que nitidamente se espelha e é relevada -- tanto quanto era possível no início da década de trinta, limiar do Estado Novo. O que o leitor atento já poderia intuir após leitura de A Selva, Emigrantes ou dos livros da primeira fase, fica evidenciado neste breve escorço: escritor não-conformista (p. 7), «homem universalista pela sua ideologia» (p. 23), ateu (p. 24), propagandista «dos generosos ideais de emancipação humana» (p. 25), identificação com «as massas proletárias [...] perfilhando as suas aspirações, sem contudo se imiscuir nas lutas de classe ou de partido.» (p. 26)

(imagem)

Sunday, April 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (18)

Mário Dionísio, que tinha do neo-realismo uma visão muito precisa como expressão artística do materialismo histórico e dialéctico, é coerente quando inscreve Ferreira de Castro numa corrente de literatura social (p. 63), mas não-marxista, porque, de facto, Castro nunca foi marxista. O que ele era – e os seus livros aí estão para o comprovar –, era um comunista libertário, inspirado em autores tão importantes para o socialismo em sentido lato, e para a esquerda, como o foram Piotr Kropótkin e Errico Malatesta – fortes adversários do comunismo autoritário, estatista e centralizador – tal como o haviam sido Proudhon e Bakúnin, que defrontaram e entraram directamente em polémica com Marx. Os que extravasaram o ponto de Mário Dionísio filiando, por sectarismo e/ou ignorância, a obra castriana numa espécie de socialismo burguês (oh, insulto!) e utópico, esqueciam-se que não era menos utópico que o chamado socialismo científico que apontava para a instauração do céu na terra: extinção do estado e sociedade sem classes, e não sabiam, nem queriam saber, que nada havia de menos burguês que o anarco-sindicalismo português – de onde, aliás, emanou o próprio PCP.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Thursday, March 29, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (17)

A leitura deste livro de Vítor Viçoso mais faz sentir a necessidade de um estudo abrangente da literatura libertária e dos seus escritores – aliás uma sugestão que, generosamente, já me foi feita precisamente por Vítor Viçoso – que, por desconhecimento geral, são, conforme as percepções de quem escreve, encostados ao republicanismo reviralhista ou às vizinhanças do PCP, quando se trata de outra coisa. E essa outra coisa integra nomes tão esquecidos hoje, como Manuel Ribeiro, autor de A Catedral, Jaime de Magalhães Lima, Tomás da Fonseca, Emílio Costa, Campos Lima, Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, entre outros. E também o de Ferreira de Castro.

Thursday, March 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (16)

Para terminar as continuidades que vieram desembocar no Neo-Realismo, há que referir a constelação anarquista, tão importante como mal conhecida e pior estudada. Basta referir que a figura mais relevante dessa corrente ideológica na literatura portuguesa do século XX é Ferreira de Castro; e que O Diabo, um dos berços do neo-realismo teve na sua génese, em 1934, um grupo de escritores e jornalistas das áreas republicana e libertária. Ferreira de Castro, que foi um dos fundadores, escrevendo logo no número 0 (“espécime”), dirigiu o jornal por um breve período, acompanhando-o sempre. Uma das grandes entrevistas deste período do autor de Emigrantes é dada, em 1940, a [O Diabo de*] Manuel Campos Lima, o último director antes do seu encerramento compulsivo.

* em falta no texto original.                                         
(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Monday, February 27, 2012

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:
«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

Tuesday, February 14, 2012

Kropótkin

Piotr Kropótkin, a principal referência ideológica de Ferreira de Castro, lembrado aqui, 90 anos depois da sua morte.

Friday, January 29, 2010

Ferrer

O último número de A Batalha (237, Nov.-Dez. 2009), jornal editado pelo CEL - Centro de Estudos Libertários, evoca Francesc Ferrer i Guàrdia (1859-1909), a propósito do colóquio realizado no Museu da República e Resistência, comemorando o sesquicentenário do nascimento e assinalando o centenário do seu fuzilamento.
Entre outro material, republica o texto de Ferreira de Castro, «A morte dos apóstolos -- e o triunfo das suas ideias», saído no «Suplemento Semanal Ilustrado» n.º 46, em 23 de Outubro de 1924, exactamente 25 anos depois da morte trágica do pedagogo da Escola Moderna.

Sunday, March 29, 2009

Jaime Brasil, anarquista (1)

Publicado em Afinidades, n.º 2, II Série, Porto, Revista da Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-dez. 2005
porque a liberdade
é a lei mais importante da criação
Ana Hatherly
1. As ideias libertárias que durante o século XIX português participaram da amálgama antimonárquica, com socialistas e republicanos de vários matizes, terão atingido a sua plena autonomização e maioridade durante a I República, quando se tornou evidente que os vícios do demoliberalismo burguês haviam transitado de regime. Os trabalhadores conheciam uma organização poderosa na União Operária Nacional (depois Confederação Geral do Trabalho), anarco-sindicalista, preponderante sobre outros movimentos e partidos operários, até ao fracasso da Revolta da Marinha Grande, em 1934. O seu diário, A Batalha, era o jornal mais lido, depois de O Século e do Diário de Notícias (1). O próprio movimento comunista português, ao contrário dos congéneres de outros países, frutos de dissidência social-democrata, tiveram extracção anarquista, com Manuel ribeiro, na Federação Maximalista Portuguesa (1919) e José Carlos Rates, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português, em 1921 (2).
(1) Jacinto BAPTISTA, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a História do Diário Sindicalista A Batalha / 1919-1927, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1927, p. 99.
(2) João G. P. QUINTELA, Para a História do Movimento Comunista em Portugal: 1. A Construção do partido (1.º Período 1919-1929), porto, Afrontamento, 1976.
(continua)

Thursday, March 26, 2009

A Batalha, 90 anos

O último número de A Batalha (o 233 da VI série), publicado pelo Centro de Estudos Libertários (CEL), assinala os 90 anos do início da publicação do então diário da União Operária Nacional (depois, Confederação Geral do Trabalho - CGT), saído em 23 de Fevereiro de 1919, com a republicação de alguns artigos de colaboradores históricos do jornal: Alexandre Vieira, «Preparação de militantes operários» (1924); Manuel Joaquim de Sousa, «Igualdade e liberdade» (1923); Ferreira de Castro, «Os ferreiros» (1925); Julião Quintinha, «Os revolucionários em arte que são conservadores na vida social» (1925); Cristiano Lima, «A derrota dos livre-pensadores» (1925); Nogueira de Brito, «Felix Mendelssohn» (1924), e uma ilustração de Roberto Nobre de A Epopeia do Trabalho, que acompanhou o texto de Ferreira de Castro já referido.

Saturday, March 07, 2009

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Muncipal, 2003

Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo, libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva e Cárcere Invisível foi já abordado nas páginas da Vária Escrita por João Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos. (1) Para além o amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...» (2) Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, sobueram estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.

(1) João Bigotte Chorão, «Francisco Costa, homem-bom de Sintra»,Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2003, pp. 67-76.

(2) Ibidem, p. 67.

(continua)