Monday, June 21, 2010

A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (3)

Em Ferreira de Castro, a publicação de um texto obedece, mesmo quando solicitado -- ou apesar de quase sempre solicitado --, a um imperativo de intervenção cívica. Esta não se esgota apenas na intervenção cívica imediata, mas tem normalmente um fundo político que lhe subjaz. Mesmo a pretexto de uma simples curiosidade jornalística -- p. ex., «O último quarto de hora da minha vida» (1964) --, o escritor permite-se sempre aduzir a sua mensagem ideológica.
Vária Escrita, #3, Sintra, Câmara Municipal, 1996.

Wednesday, June 16, 2010

Os Melhores Contos Portugueses

João Pedro de Andrade (edição), Os Melhores Contos Portugueses -- 3.ª Série, Lisboa, Portugália Editora, 1959.
Autores antologiados: Guedes de Amorim, Garibaldino de Andrade, Mário Braga, Luís Cajão, Brito Camacho, Ferreira de Castro, Amândio César, Ramos da Cunha, Júlio Dantas, Adelaide Félix, Armando Ventura Ferreira, Vergílio Ferreira, Maria da Graça Freire, Natércia Freire, Rogério de Freitas, Vergílio Godinho, Patrícia Joyce, Ilse Losa, Agustina Bessa Luís, Manuel Mendes, Bourbon e Meneses, Fernando Namora, Natália Nunes, Manuel de Campos Pereira, José Cardoso Pires, Manuela Porto, Santana Quintinha, Armindo Rodrigues, Urbano Tavares Rodrigues, Antunes da Silva e António Vitorino.
O conto de Ferreira de Castro é «O Senhor dos Navegantes».

Thursday, June 10, 2010

Sete cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (3)

A película fora já distinguida com o Leão de Ouro do Festival de Veneza e prémio para a melhor actriz -- Jean Simmons no papel de Ofélia --, e tambem com os Óscares para a melhor produção e melhor actor -- Laurence Olivier, no papel de Hamlet.

«Sete Cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre», Boca do Inferno, #1, Cascais, Câmara Municipal, 1996, pp. 95-96.

Também aqui

Saturday, June 05, 2010

Canções da Vendetta (3)

Esta situação de impossibilidade criadora levou-o a a enveredar a contragosto pela literatura de viagens, com os Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38). Quem leu as páginas sobre a inóspita Andorra de 1929, dificilmente as esquecerá. Conseguir acesso ao principado era quase uma proeza épica. Então, em vez da alta-fidelidade japonesa, era o síndico quem pontificava, zelando benevolentemente pelos interesses dos patrícios.
Apresentação de Canções da Corsega, 2.ª edição, Sintra, Camara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1994.

Tuesday, June 01, 2010

errância - A VOLTA AO MUNDO (1940-1944)

[do «Início»)
Concertaram-se, na nossa época, várias formas de se dar a volta ao Mundo. Em anos de remansosa paz, um navio americano abala de Nova York e, de casco branco, mastros festonados de gaivotas, ladeia Américas e Áfricas, detém-se, aqui, ali, em três ou quatro cidades, e corta, depois, o Índico. Mas da grande Índia mostra somente Bombaim e Ceilão; da longa península de Malaca não se verá mais do que Singapura e da China imensa apenas a minúscula ilha de Hong-Kong. Outrora, ainda ele se aventurava até outras plagas. De ano para ano foi minguando, porém, as milhas da sua rota, que assim, passagens mais baratas, ajuntaria maior número de clientes. Não se cura de revelar ao Mundo os passageiros e sim de lhes permitir dizer aos amigos que eles deram a volta ao Mundo. Viagem de bom conforto, nas cidades visitadas esperam guias e automóveis, que levam os curiosos aos monumentos principais e, depois, os reconduzem a bordo, para que se lavem da poeira do Oriente, jantem bem e bailem até de madrugada, enquanto o talhamar vai singrando em direitura a outro porto. De Hong-Kong, o navio, que, até ali, só fundeou nas extremidades dos continentes, despede, a toda a brida, para algumas ilhas do Pacífico, ansioso de transpor o Panamá e em Nova York lançar a âncora, férreo ponto final em superficial capítulo. Assim e «A volta ao Mundo colectiva», cruzeiro de luxo por mares distantes. Há, também, «A volta individual ao Mundo». Companhias de navegação, para o efeito ajustadas, acordaram vender trânsito marítimo, com diminuídos preços, aos que pretendem rodear a esfera terrestre e volver ao ponto de partida. Viagem menos cómoda do que a outra, quem a realiza torna-se servo não do muito ou pouco interesse do sítio visitado, mas da entrada e saída dos navios em que o seu bilhete lhe permite embarcar. Sujeito está a quedar-se dois dias onde desejaria demorar-se duas semanas e duas semanas onde lhe bastaria ficar dois dias apenas. E a menos que possa seu tempo perder, este viajante solitário verá, enervado, partir o único navio de sua conveniência, que não é, geralmente, o navio que ele tem direito a tomar.

Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, 4.ª edição, vol. I, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1952, pp. 19-20.

Friday, May 28, 2010

«...esta necessidade permanente de assistência afectiva...» [a correpondência entre Ferreira de Castro Roberto Nobre] (3

José Roberto Dias Nobre (São Brás de Alportel, 1903 -- Lisboa, 1969) estaria destinado a seguir a profissão do pai, não fosse o seu irrequieto temperamento artístico, que o fazia saltar da ilustração para a crítica e desta para o cinema e de novo para o desenho, etc., numa dispersão que se revelou ser fecunda. Ainda no Algarve chegou a realizar uma curta metragem, Charlotim & Clarinha, cujo Charlot escolheu para a capa do seu primeiro livro sobre a 7.ª Arte, por si desenhada -- Horizontes de Cinema, Guimarães, Lisboa, 1939.


Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969}, introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 8.

Sunday, May 23, 2010

Escolas Ferreira de Castro

O 112.º aniversário do nascimento de Ferreira de Castro, também na escola.

Wednesday, May 12, 2010

testemunhos #9 - Jorge Amado

Também briguei muito pelo livro português. Naquele tempo [década de 1930] havia verdadeiros intercâmbios entre intelectuais brasileiros e escritores portugueses; foi uma coisa que com o tempo se perdeu muito, mas que existia então. Havia um interesse político comum: a luta contra o salazarismo. É desta época [1934] que data a minha amizade com Ferreira de Castro e com vários outros escritores portugueses.
De uma maneira geral, essa proximidade diminuiu logo em seguida; actualmente está voltando um pouco, mas está longe de ser aquela fraternidade que existia entre os escritores do neo-realismo português e os escritores brasileiros dos anos 30. Havia grandes trocas, grandes vínculos, tanto intelectuais quanto afectivos.
Jorge Amado, Conversas com Alice Raillard, tradução de Annie Dymetmann, Porto, Edições Asa, 1992, p. 97.

Sunday, May 09, 2010

Ferreira de Castro, agitador no Brasil (3)

A experiência dos quatro anos que passou no seringal, ironicamente chamado «Paraíso», foi matéria de que se serviu para escrever um romance que evoca os deserdados do Ceará e do Maranhão, gente que demandava a selva sonhando com uma vida melhor, mas que ficava para sempre agrilhoada ao «inferno verde».

«Ferreira de Castro, agitador no Brasil», O Jornal, Lisboa, 2 de Novembro de 1990.

Tuesday, May 04, 2010

uma capa de Jorge Barradas

para Emigrantes, de Ferreira de Castro
Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1940

Monday, May 03, 2010

depoimentos - Adelino Vieira Neves

A demonstrar em plenitude, a admiração que Ferreira de Castro tinha por Sintra, a sua serra, a sua vida, o seu povo e os seus monumentos, , expressou ele o desejo mais premente da sua espiritualidade -- o qual se eleva para além da matéria e é a verdadeira interpretação da divisa que usou no seu ex-libris, «AINDA-PARA-ALÉM DA MORTE», no desejo de ficar perpetuamente entre os penhascos da serra de Sintra, perto da Pena.*

* Não da Pena, mas a caminho do Castelo dos Mouros, como ele pretendeu.

Adelino Vieira Neves, «In Memoriam de Ferreira de Castro», In Memoriam de Ferreira de Castro, Cascais, Arquivo Biobibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976, pp. 10-11.

Saturday, May 01, 2010

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro (2)

Publicam-se, desta vez, 17 cartas de oito autores: H. Lopes de Mendonça (1856-1931), Raul Proença (1884-1941), Fidelino de Figueiredo (1889-1967), Assis Esperança (1892-1975), César de Frias (1894-?), Jaime Brasil (1896-1966), Tomás Ribeiro Colaço (1899-1965), e Roberto Nobre (1903-1969).
Cartas Inéditas a Ferreira de Castro, leitura e notas de Ricardo António Alves, separata de Vária Escrita, n.º 1, Sintra, Câmara Municipal, 1994, p. 113.

Tuesday, April 27, 2010

Rocha Peixoto, OS PUCAREIROS DE OSSELA (1908)

Tempo houve -- e os vestígios perduram -- em que, influenciados pelas loiças beirãs provindas de S. Pedro do Sul (?) e de Molelos, alguns aperfeiçoamentos se acusaram no fabrico local. Variaram, melhoraram e criaram-se novas formas, incluindo as bilhas de segredo, bules e açucareiros. Adoptou-se em todo o vasilhame o brunido, conseguindo-o o oleiro com a fricção dum seixo na peça antes de ir ao fogo, à altura em que a consistência da pasta permitia a aplicação sem o perigo de a amolgar. E por fim multiplicaram-se as ornamentações incisas, geométricas ou florais, acentuadamente com o aspecto das de Molelos, e sempre, na recta ou na curva, em linhas interrompidas.
Rocha Peixoto, «Os pucareiros de Ossela», Etnografia Portuguesa, edição de Flávio Gonçalves, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, p. 316.

Sunday, April 25, 2010

100 Cartas a Ferreira de Castro (2)

[da «Apresentação»]
Ao seleccionarmos estas 100 Cartas a Ferreira de Castro, abrangendo um período de 50 anos, procurámos dar a conhecer, pela pena de amigos e confrades, vários momentos da vida literária e cívica do autor de A Selva.
100 Cartas a Ferreira de Castro, selscção, leitura, apresentação e notas de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 5.

Castro para os mais novos

Matos Barbosa, O José Foi à Escola
Oliveira de Azeméis, Câmara Municipal, 1999

Sunday, April 18, 2010

à nossa!

uma foto do Ruela, do que se espera venha a ser um grande vinho

Formosa e Segura: Andanças de Leonor em «Servidão», de Assis Esperança (1)

«Vocês, romancistas de preocupações sociais, estão prestando um serviço imenso a esta pobre gente: revelar-lhe a própria miséria e ensiná-la a detestá-la, por impulso de dignidade humana.»
Fidelino de Figueiredo (1)
Quase quarenta anos após a juvenil estreia literária, em 1907, com um soneto, no número 14 da revista Azulejos, em que colaboraram Guerra Junqueiro e Mário de Sá-Carneiro, entre outros (2) , António Assis Esperança (Faro, 1892 -- Lisboa, 1975) viria a público com um dos seus principais livros: Servidão, editado pela Guimarães & C.ª, Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de 1946.
(1) Carta a Ferreira de Castro, a propósito de A Lã e a Neve e Servidão, Lisboa, 5 de Abril de 1947, in Ricardo António Alves (edição), 100 Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal e Instituto Português de Museus, 2007, 2.ª edição, p. 111.
(2) Cfr. Eugénio Lisboa (coordenação), Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. III, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994, pp. 439-440; Daniel Pires, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 1996, pp. 83-84.
Nova Síntese #4, Lisboa, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Edições Colibri, 2009, p. 37.

Saturday, April 17, 2010

Vai um Manuel da Bouça?

A última obra do Carlos Alberto Castro, com a arte de Albano Ruela, a provar a partir de Domingo. (Ver mais).

Sunday, March 28, 2010

Castriana #4

Daniel Aranjo, «Le mot "pays-age" appliqué au paysage de A Selva ("Forêt Vierge")»; José António Garcia de Chaves, «O discurso neo-realista na obra de Ferreira de Castro»; Célia Marques Pinho, «Génese de uma consciência intercultural em Ferreira de Castro»; Maria Eva Braz K. Letízia, «Autopia da felicidade operária configurada pelo protagonista do romance "A Lã e a Neve"».

Sunday, March 21, 2010

Chegar a Jaime Brasil através de Ferreira de Castro (2)

Quem, como eu, anda à volta dos 40 anos e teve a sorte de ter crescido numa casa com livros, a Jaime Brasil associa, não o jornalista nem o seu papel de importantíssimo mediador cultural no suplemento »Das Artes e das Letras» de O Primeiro de Janeiro, não a feição de polemista, por vezes desmesurado e violento, e menos ainda a circunstância de se tratar de um significativo autor anarquista. De Jaime Brasil lembramos as biografias, em particular as de mais recente edição ou republicação: desde logo a de Ferreira de Castro, na célebre colecção da Arcádia, «A Obra e o Homem», e as surgidas com a excelente chancela da Portugália Editora, entre as quais o Leonardo da Vinci, cuja sanguínea com que se auto-retratou na velhice, servindo de capa à edição, desde cedo me impressionou, as edições de bolso em que se reeditaram o Zola e o Victor Hugo, o ensaio sobre Balzac, uma pequena jóia de literatura biográfica, entre outras.

Das Artes e das Letras, suplemento de O Primeiro de Janeiro, Port0, 19 de Novembro de 2007, p. 1o.

Saturday, March 20, 2010

Jaime Brasil por Alexandre Cabral

Para impor o nome de Jaime Brasil como o de um escritor de boa estirpe, bastava o prefácio que escreveu para no seu belo ensaio sobre Zola ou a biografia balzaquiana que acompanha o 1.º volume da edição portuguesa da Comédia Humana, porque, com efeito, em ambos se patenteia a agudeza de juízo, a solidez de conhecimentos e, sobretudo, a ampla perspectiva de pensamento que são os pergaminhos do genuíno Homem de Letras.
«Homenagem a Jaime Brasil», Guia do Leitor, n.º 2, [coordenação de José da Cruz Santos] Lisboa, Portugália Editora, s.d.

Monday, March 15, 2010

Preconceito e orgulho em A Tempestade, de Ferreira de Castro (2)

O escritor tinha na gaveta uma obra ficcional cujo cenário era a grande insurreição anarco-sindicalista nos campos da Andaluzia e na cidade de Sevilha, em 1931, cujo surto inicial ele testemunhara como enviado especial de O Século. Trata-se de O Intervalo, escrito em 1936, e editado somente em 1974, inserido em Os Fragmentos. Também uma peça de sua autoria, redigida a pedido de Robles Monteiro para o Teatro Nacional, e que abordava o tema da pena de morte, a propósito da recente condenação do alegado raptor e assassino do filho do piloto-aviador Charles Lindbergh, fora igualmente censurada por despacho governamental. Seria publicada cerca de sessenta anos depois, em 1994. Foi por esta razão que Castro se dedicou, «com um desalento imenso»(1) à literatura de viagens.
Ferreira de Castro, Os Fragmentos, 2.ª edição, Lisboa [1974], p. 78.

Nova Síntese, n.º 2-3, Porto, Campo das Letras, 2007/8, p. 49.

Saturday, March 06, 2010

Recensão a Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade (2)

Iniciando a sua publicação em 1919, como órgão da Confederação Geral do Trabalho (CGT), anarco-sindicalista, A Batalha granjeou rapidamente uma difusão assinalável entre o público leitor, e não apenas operário, ombreando com os dois grandes títulos da imprensa de então: O Século e o Diário de Notícias. O êxito editorial permitiu que quatro anos mais tarde A Batalha avançasse com uma edição cultural, com o objectivo de valorizar a grande massa do seu público. «Saber para poder» era o título do editorial do primeiro número, de 3 de Dezembro de 1923: «Órgão de exposição doutrinária e elemento de educação e de aperfeiçoamento moral e intelectual, ele destina-se a ser o companheiro espiritual do operário e a contribuir para a formação da sua consciência revolucionária.» Esse objectivo foi servido por uma plêiade de intelectuais, escritores e publicistas marcantes dos anos vinte, alguns deles ainda muito jovens, do próprio Ferreira de Castro a Jaime Brasil, passando por Julião Quintinha, Campos Lima, Nogueira de Brito, César Porto, Mário Domingues; e muitas e muito assinaláveis colaborações irregulares, de Raul Brandão a José Régio. Não descurando a situação dos leitores a quem se dirigia, este suplemento cultural fazia também uma pedagogia cívica e social em vários domínios da vida quotidiana; a parte substancial, porém, das oito páginas do suplemento era ocupada com a criação e a crítica literárias, a divulgação da grande música (em que Nogueira de Brito teve um papel relevantíssimo), da pintura, do teatro, da vida e obra dos autores referenciais, quer em literatura (Antero e Eça, Tolstoi e Ibsen, Zola e Anatole), quer em ideias (Proudhon, Bakunine, Gandhi e, numa perspectiva crítica, embora respeitosa, Lénine). Valorizado por diversos ilustradores, como Alonso ou Roberto Nobre, foi sem dúvida o talento de Stuart Carvalhais que mais marcou o rosto do jornal.

Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007, pp 105-106.

Tuesday, March 02, 2010

de passagem - Jaime Brasil, BALZAC (s. d.)

O fenómeno Balzac é um quebra-cabeças para quem conhece a vida do escritor e lhe lê as obras. Alguns críticos procuraram, em vão, conciliar umas com a outra; mas são inconciliáveis. Quem lhe traçasse a biografia romanceada poderia intitulá-la, à maneira das más novelas do seu tempo: Balzac ou o desdobramento da personalidade.
Jaime Brasil, Balzac -- Escorço da complexa personalidade do autor de A Comédia Humana, Lisboa, Portugália Editora, s. d., p. 1.

Saturday, February 27, 2010

testemunhos - João Sarmento Pimentel

[Fernando da Fonseca] Desejava ir ao Brasil, , que desde sempre tivera o desejo de o visitar. Era a terceira vez que fazia esse projecto. E todos se malograram. Estava muito interessado em percorrer a Amazónia, para conhecer ao vivo «A Selva» de Ferreira de Castro [...].
Sarmento Pimentel ou uma Geração Traída -- Diálogos com Norberto Lopes, Lisboa, Editorial Aster, 1976, p. 204.
Nota- Fernando da Fonseca, médico eminente e professor, foi um dos clínicos de Ferreira de Castro, um dos grandes de que socorreu durante a sua vida de saúde atribulada, a que podemos juntar os nomes de Celestino da Costa, Pulido Valente e Reinaldo dos Santos.

Wednesday, February 24, 2010

100 Cartas a Ferreira de Castro - Nota à 2.ª edição (1)

O corpus castriano tem conhecido renovadas e heterogéneas leituras nos últimos quinze anos, numa dimensão não comparável com o panorama existente à época da primeira edição destas 100 Cartas a Ferreira de Castro. O número e a qualidade dos estudos dedicados ao escritor é muito diferente: um congresso internacional, vários colóquios, inúmeras conferências, teses universitárias, em Portugal e no estrangeiro, estudos monográficos, uma revista especializada, números temáticos de várias publicações -- em grande parte a propósito do seu nascimento, em 1998 --, um Centro de Estudos sedeado na sua terra natal, sem esquecer alguns inéditos e dispersos que entretanto saíram dos prelos. Nomes que vinham de trás, como Agustina Bessa Luís, Óscar Lopes ou Urbano Tavares Rodrigues, continuaram a produzir depoimentos, sempre merecedores de atenção; outros contribuíram também com visões enriquecedoras do nosso olhar sobre Ferreira de Castro: de Eugénio Lisboa a Pinharanda Gomes, passando por Álvaro Pina, António Cândido Franco, Bernard Emery, Carlos Jorge F. Jorge, Élcio Lucas de Oliveira, Karl Heinz Delille, Luciana Stegagno Picchio, Luís Garcia e Silva, Pedro Calheiros, para citar apenas alguns.

100 Cartas a Ferreira de Castro, selecção, transcrição, comentários e notas de Ricardo António Alves, 2.ª edição, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 1997, p. 5.

Tuesday, February 23, 2010

Sunday, February 21, 2010

outras palavras - O SEGREDO DAS NOSSAS DERROTAS (1928)

Sempre que eu regressava da escola, davam-me em minha casa O Comércio do Porto, e diziam-me:
-- Vê lá! Vê lá se já sabes ler!
Ferreira de Castro, «O segrêdo das nossas derrotas -- Como eu fui preso no... Limoeiro», Uma Hora de Jornalismo, Lisboa, Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, 1928, p. 85.

Tuesday, February 16, 2010

Ferreira de Castro e a II República espanhola (2)

O jornalismo é uma actividade que Ferreira de Castro inicia ainda no Brasil, para onde emigrara muito jovem, em 1911, com doze anos e meio. Quando regressa, em 1919, retoma-a com grandes dificuldades, uma vez que era totalmente desconhecido no meio. A imprensa foi para ele a «profissão socorro»(2) que lhe permitiu dedicar-se à sua vocação literária. Até 1927, é um free-lancer, escrevendo abundantemente para jornais do continente, ilhas e colónias, como meio de subsistência. Nesse ano -- que coincide com uma nova etapa da sua vida pessoal, o encontro com Diana de Liz, e também o encerramento de A Batalha, após o golpe de 28 de Maio --, o jovem escritor entra para os quadros de O Século, onde permanecerá até 1934, abandonando então a vida dos jornais como profissional, saturado dos constrangimentos impostos pela Censura do Estado Novo.
(2) Ferreira de Castro, «Origem de "O Intervalo"», Os Fragmentos, Lisboa, Guimarães & C.ª [1974]2, p. 63.
Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau - 3.º Ciclo, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007, p. 31.

Wednesday, February 10, 2010

Mais uma dedicatória no Caligrafias, desta vez num exemplar de A Curva da Estrada.

Saturday, February 06, 2010

correspondências - Jaime Brasil, CARTAS A FERREIRA DE CASTRO [1924-1964]

SINDICATO DOS PROFISSIONAIS DA IMPRENSA DE LISBOA
Rua do Loreto, 13, 2.º,
LISBOA
TELEFONE TRINDADE N.º 179

GABINETE DA DIRECÇÃO
N.º 42

Meu prezado consócio:

Esta Direcção(1) recebeu a sua carta de 1 do corrente e os documentos que a acompanhavam(2), que ficarão, conforme é seu desejo, depositados nos arquivos deste sindicato.

[Lisboa, 5 de Março de 1926]
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006, p. 14.

(1) Jaime Brasil, sócio n.º 73, era então secretário-geral do do SPIL.
(2) Referência à conferência proferida pelo sócio n.º 133, Ferreira de Castro, «A arte moderna ante a sociedade actual» (ver aqui, aqui, aqui e aqui).

Tuesday, February 02, 2010

castrianas #26 - Francisco Costa

O artista [...] deve fazer-se antes de fazer a obra: entre nós, os escritores Paço d'Arcos, Ferreira de Castro, João Gaspar Simões, Maria Archer, Alves Redol, são exemplos notórios de quanto vale a vontade de ser para operar. E se hoje não parecem universais a olhos portugueses, talvez no futuro algum crítico de além-fronteiras, cansado do que vê ao pé, sem lembre de avaliar, sem visão local, essas e outras figuras do momento literário que estamos vivendo e que não sabemos ver parce que nous sommes dedans.
Francisco Costa, «Essência e existência do romance» [1954] Diálogos Estéticos, Lisboa, Editorial Verbo, 1981, p. 77.

Sunday, January 31, 2010

Da correspondência com Ferreira de Castro (1)

Não falta quem aponte alguma pobreza à epistolografia portuguesa, em especial quando comparada com o que é dado à estampa noutros países. O trabalho pioneiro de Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965), coligindo um número elevado de autores, do Infante D. Pedro (século XV) a Florbela Espanca (século XX), ou, posteriormente, a publicação exaustiva da correspondência activa (e também a passiva) de Eça de Queirós, com destaque para os trabalhos de Guilherme de Castilho, Beatriz Berrini e A. Campos Matos, ou ainda a meritória acção de Mécia de Sena, impulsionando a edição da valiosa epistolografia do seu marido, Jorge de Sena -- desde logo consigo própria, mas também com Guilherme de Castilho, José Régio, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner Andresen, apara além das que já há muito foram anunciadas com outros escritores -- tudo isto, e mais algumas obras de vulto neste domínio ocorridas nas últimas décadas, veio demonstrar a conveniência de sermos mais parcimoniosos nos juízos definitivos.
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal e Instituto Português de Museus, 2006, p. 5.

Friday, January 29, 2010

Ferrer

O último número de A Batalha (237, Nov.-Dez. 2009), jornal editado pelo CEL - Centro de Estudos Libertários, evoca Francesc Ferrer i Guàrdia (1859-1909), a propósito do colóquio realizado no Museu da República e Resistência, comemorando o sesquicentenário do nascimento e assinalando o centenário do seu fuzilamento.
Entre outro material, republica o texto de Ferreira de Castro, «A morte dos apóstolos -- e o triunfo das suas ideias», saído no «Suplemento Semanal Ilustrado» n.º 46, em 23 de Outubro de 1924, exactamente 25 anos depois da morte trágica do pedagogo da Escola Moderna.

Saturday, January 23, 2010

Jaime Brasil, anarquista (2)

Sem nos determos na caracterização de nomes e menos ainda nos que, inicialmente anarquistas, acabaram por posicionar-se no campo ideológico oposto -- como Afonso Lopes Vieira ou Alfredo Pimenta -- ou partilharam certa comunhão de ideário socialista -- de Antero de Quental a António Sérgio --, vale dizer que a primeira metade do século XX deu a Portugal um conjunto de autores que se constituiu como uma plêiade intelectual notável. Doutrinadores como Neno Vasco, Campos Lima e Emílio Costa, romancistas como Assis Esperança e Ferreira de Castro, cientistas como Aurélio Quintanilha, publicistas de largo espectro como Julião Quintinha, Jaime Brasil e Roberto Nobre, entre muitos outros. Alguns destes autores estão em plena maturidade -- e outros haviam já começado a construir um nome literário -- ainda em vida de alguns dos mais importantes escritores libertários, como Piotr Kropótkin e Errico Malatesta, falecidos respectivamente em 1921 e 1935, e ambos, aliás, com uma profunda influência nos meios anarquistas portugueses. (3)

(3) Sobre o anarquismo ou libertarismo em Portugal, socorremo-nos, para este artigo, de Carlos da FONSECA, Para uma Análise do Movimento Libertário e da Sua História, tradução de Júlio Henriques, Lisboa, Antígona, 1988; e João FREIRE, Anarquistas e Operários -- Ideologia, Ofício e Práticas Sociais: o Anarquismo e o Operariado em Portugal, 1900-1940, Porto, Edições Afrontamento, 1992.

Afinidades, n.º 2-II Série, Porto, Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-Dez. 2005, p. 13.

Saturday, January 16, 2010

Rocha Peixoto, OS PUCAREIROS DE OSSELA (1908)

O esquema fundamental das vasilhas é a oval sabida (Id., 77*), maior ou menor, aselhada ou sem anças, predominando as panelas, os cântaros, as caçoilas e, nomeadamente, os púcaros.Ornamentação incisa insignificante ou nula.
* Rocha Peixoto, «Sobrevivência da primitiva roda de oleiro em Portugal», Portugálias, vol. II, fasc. 1.º, Porto, 15 de Julho de 1905.
Rocha Peixoto, Etnografia Portuguesa, edição de Flávio Gonçalves, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, p. 315.

Tuesday, January 12, 2010

Raul Proença, Ferreira de Castro e o «Guia de Portugal» (2)

Não se pode, com efeito, desligar o Guia de Portugal do grupo da Seara Nova e do escopo de regeneração nacional que ele se propunha. O Guia saiu dos prelos da Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960), sendo Proença chefe da Divisão dos Serviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo bibliotecário, e Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos -- este último, anarco-sindicalista, futuro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e director do diário A Batalha, não integrante do grupo da Seara, a que devemos acrescentar, entre outros, os nomes de Câmara Reys (1885-1961), Augusto Casimiro (1889-1967) e Raul Brandão (1867-1930).

Sunday, January 10, 2010

Pois está claro que fumo

Um depoimento sobre o tabaco, um dos bons vícios de Ferreira de Castro, descoberto pela T.

Sunday, January 03, 2010

Situação da Arte (1968)

Eduarda Dionísio, Almeida Faria e Luís Salgado de Matos, Situação da Arte -- Inquérito Junto de Artistas e Intelectuais Portugueses, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1968.


Respostas de: Álvaro Lapa, Álvaro Salema, António Coimbra Martins, António Gedeão, António Pedro de Vasconcelos, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Armando Ventura Ferreira, Augusto Abelaira, Bernardo Santareno, Carlos Botelho, César Pratas, Costa Ferreira, Dórdio Gomes, Eduardo Batarda Fernandes, Eduardo Lourenço, Eduardo Nery, Eduardo Prado Coelho, Ernesto de Sousa, Espiga Pinto, Eugénio de Andrade, Eunice Muñoz, Faria de Almeida, Faure da Rosa, Fernanda Botelho, Fernando Lopes, Fernando Lopes-Graça, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Francine Benoit, Francisco Keil do Amaral, Hein Semke, Humberto Lebroto, Ilse Losa, Jacinto do Prado Coelho, João César Monteiro, João de Freitas Branco, João José Cochofel, João Rui de Sousa, Joel Serrão, Jorge Barradas, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, José-Augusto França, José Escada, José Gomes Ferreira, José Palla e Carmo, José Régio, Júlio Resende, Luiz Francisco Rebello, Luzia Maria Martins, Manuel Faria de Almeida, Manoel de Oliveira, Maria Aliete Galhoz, Maria Barroso, Maria Keil, Maria Teresa Horta, Mário Dias Ramos, Mário Dionísio, Martins Correia, Natália Nunes, Nelson de Matos, Nikias Skapinakis, Orlando da Costa, Pedro Vieira de Almeida, Rogério de Freitas, Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Miranda, Vergílio Ferreira, Yvette Kace Centeno

Thursday, December 31, 2009

10 livros que não mudaram a minha vida

Do Catharsis chega este desafio. pois aqui vai: 10 livros que não mudaram a minha vida.

1- A selva e a neve, de Ferreira de Castro;
2- A velha casa, mas divorcia-se logo a seguir, de José Régio;
3- É amor, foda-se!..., de Camilo Castelo Branco;
4- Folha murcha, de Almeida Garrett;
5- O barão de Castro Guimarães, de Branquinho da Fonseca;
6- Para o infinito e mais além, de Vergílio Ferreira;
7- Ravina dos tapados, de Alves Redol;
8- Sozinho e muito infeliz, de António Nobre;
9- Tabacaria, valores selados, brindes, de Álvaro de Campos;
10- Tusa, de Marmelo e Silva.

Wednesday, December 30, 2009

Uma dedicatória de Ferreira de Castro num exemplar de Emigrantes, em 1931, no blogue Caligrafias.

Monday, December 28, 2009

Viajar com Ferreira de Castro (2)

Assim se explica que, lançado na torrente migratória, de cá para lá, fosse lá, mais propriamente na Amazónia, onde rareavam os livros, que Castro escreveu uma noveleta intitulada Criminoso por Ambição, vindo a editá-la em fascículos em 1916, em Belém. Foi na biblioteca pública dessa cidade que aproveitou os intervalos dos biscates incertos para se educar a si próprio, lendo, lendo muito, autores portugueses, brasileiros, traduções de Balzac, Hugo ou Zola e um sem-número de livros de filosofia, política, sociologia.
Viajar com Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim e Delegação Regional da Cultura do Norte, s.d., p. 1.

Monday, December 21, 2009

a aldrabice destas sondagens

Pensava que as sondagens que colocávamos aqui fossem minimamente fiáveis. Algo que não sucedeu com esta que apresentei no último ano, «Qual o livro de Ferreira de Castro que prefere?». Quando os votos alcançavam determinado patamar, aí por volta dos cinquenta, inexplicavelmente ocorria uma razia de vinte ou trinta votos, recomeçando-se a partir daí. Isto verificou-se pelo menos duas vezes; depois deixei de ligar. É pena, porque, enquanto a coisa funcionou sem sobressalto, tinha piada ver sempre muito a par «A Selva» e «A Lã e a Neve»; e no pelotão da frente, «Emigrantes» e «A Missão».
Provavelmente estas consultas não estão concebidas para um período tão dilatado. Se fizer outra, será breve.
Obrigado a todos quantos votaram.

Friday, December 18, 2009

castrianas #25 - Mário Dionísio

Do que Ferreira de Castro dá provas com a publicação de A Curva da Estrada não é apenas da sua possibilidade de escrever um grande romance ou da sua fidelidade aos assuntos que profundamente interessam o destino do homem dos nossos dias, mas de uma capacidade de renovação que é, em grande parte, a condição própria do escritor. Pode-se dizer que um escritor começa a sua obra quando encontra um estilo próprio de revelar a sua visão do mundo. Mas, na verdade, ele só consegue a realização completa quando chega a saber desdobrar esse estilo próprio nos mil aspectos que a concretização de tal visão implica. Há talvez um equívoco irremediável naqueles que encontraram um dia um modo determinado, e logo cristalizado, de planear o romance, de dividi-lo em capítulos, de abri-lo, de desenvolvê-lo, de fechá-lo, e passam o resto dos seus dias a remoê-lo partindo de assuntos diferentes -- de pretextos diferentes. A admiração por um escritor, o entusiasmo por um escritor, e, portanto, a vida e a existência de um escritor, provêm em grande parte desse íntimo movimento de surpresa que ele sabe despertar no público e que não é mais no fundo, que a novidade que cada seu novo assunto exige.

Mário Dionísio, «A CURVA DA ESTRADA -- Romance por Ferreira de Castro. Edição de Guimarães & C.ª, Lisboa, 1950», Vértice, n.º 89, Coimbra, Janeiro de 1951, pp. 454-457.

Wednesday, December 09, 2009

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa

O papel de fundamental de Francisco Costa na doação do espólio de Ferreira de Castro ao Povo de Sintra (ver depoimento em apêndice) foi o melhor remate a um diálogo que se estabelecera cinquenta anos antes, quando o jovem poeta sintrense dava os primeiros passos como autor e o não menos jovem torna-viagem sobrevivia pelos jornais, compensando pela quantidade a exiguidade da remuneração das colaborações. Estreando-se em 1920 com a colectânea de sonetos intitulada Pó, redigidos em grande parte no sanatório onde convalescerá de uma tuberculose pulmonar, Costa registou na sua autobiografia a comovida recepção dispensada pelo «jovem ateu Ferreira de Castro, jornalista aqui e acolá» (3). Desconhecendo essa nota, temos oportunidade de publicar as impressões de Castro a propósito do livro seguinte, Verbo Austero. Não se eximindo a frisar divergências («não é meu mar predilecto»), estas também não impediram o entusiasmo («é inegavelmente um poeta») por quem se reafirmava com um lirismo clássico, mas inquieto, provavelmente mais próximo de si próprio do que julgava, pela «desconformidade e heterodoxia» que -- como no prefácio salientara Fidelino de Figueiredo --, reflectiam a «sensibilidade moderna do poeta. (4)
(3) Francisco Costa, «Esboço de autobiografia literária», Última Colheita -- Poesia e Biografia, Sintra, edição do Autor, 1987, p. 71.
(4) Fidelino de Figueiredo, «Prefácio» a Francisco Costa, Verbo Austero, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1925, p. X.
Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Municipal, 2003, p. 84.

de passagem - Jaime Brasil, SOBRE JORNALISMO (1925 / 2005)

A insuficiência de trabalhos relativos à história da imprensa periódica*

Todas as instituições humanas, desde a religião à prostituição, têm os seus tratadistas e historiógrafos. Só o jornalismo não encontrou ainda quem lhe traçasse a crónica, com saber e método.

* A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 96, Lisboa, 28 de Setembro de 1925.

Jaime Brasil, Sobre Jornalismo, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Cadernos d'A Batalha, 2005, p. 7.

Monday, November 30, 2009

Castro no Almanaque Republicano

Uma foto de grupo, publicado no Almanaque Republicano, nos 50 anos de vida literária de Ferreira de Castro.
Pensão Suíça, Macieira de Cambra, 1966
(da esquerda para a direita: Assis Esperança, Mário Sacramento, Dulcídio Alegria, Ferreira de Castro, Álvaro Salema e João Sarabando)

Friday, November 27, 2009

Roberto Nobre - Uma vida por imagens (2)

Devo dizer que cheguei a Roberto Nobre através de Ferreira de Castro, que com Assis Esperança [1892-1975] e Jaime Brasil (1896-1966) formaram um núcleo duro de amigos ligados por laços fraternos de mundividêcia comum, de comunhão ideológica e afinidades estéticas. Também por essa razão o autor de A Selva estará tão presente neste opúsculo. Mas não só: a amizade entre ambos foi de tal modo intensa e fraternal que deverei repetir o que escrevi na apresentação da sua Correspondência: «muito do que é obra acabada de ambos adquiriu a forma que eles nos legaram, em parte pela fraternidade pessoal, exemplo ético e discussão estética que um deu ao outro.» (1)

(1) Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 13.

Roberto Nobre -- 1903-1069, São Brás de Alportel, Câmara Municipal, 2003, pp. 11-12.

Monday, November 23, 2009

testemunhos #3 - João de Barros

Uma das causas do êxito excepcional da obra de Ferreira de Castro reside, aliás, nessa intercompreensão do escritor e do povo. A grandeza daquela não ofusca, antes atrai, a atenção e o interesse deste. Segredo e sortilégio, que a raros pertencem, mas que em Ferreira de Castro flui, espontâneos e discretos, da mais recôndita e amorável fonte do seu íntimo ser.
João de Barros, «Humanidade», Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Friday, November 20, 2009

Um Medo Frio -- Breve nota sobre a memorialística castriana (2)

Ferreira de Castro, sendo um escritor quase com «excesso» de biografia, não tem na sua tábua bibliográfica qualquer livro de memórias. Tentaremos perceber porquê, tanto mais que a escrita memorialística pontuou o seu percurso literário, do princípio ao fim.
Sol XXI, n.º 38-39, Carcavelos, 2003, p. 7.

outras palavras - A NOITE DOS MISERÁVEIS -- COMO SE DORME NO ALBERGUE NOCTURNO (1923)

Àquela hora, na rua deserta, a fachada do Albergue Nocturno de Lisboa tinha uma estranha austeridade e, se não fosse a tabuleta que abrange toda a frontaria arcaica do prédio, dir-se-ia que este era um amplo palácio onde se refugiavam do mundo vários fidalgos perseguidos pelo tédio.

[publicado n'O Século, Lisboa, 21 de Janeiro de 1923], in Jacinto Baptista e António Valdemar, Repórteres e Reportagens de Primeira Página -- II 1910-1926, Lisboa, Assembleia da República, s.d., p. 276.

Monday, November 16, 2009

Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade (2)

Este relacionamento esteve sempre presente ao longo dos anos, como comprova o espólio do autor de Eternidade. À existência de 19 espécimes de correspondência, entre 1922 e 1964, soma-se um conjunto de cinco livros com dedicatória autógrafa que ficaram na pequena parte da sua biblioteca pessoal destinada a este Museu. São eles: Teatro (1941); O Problema do Romance Português Contemporâneo (1942); Os Melhores Contos Portugueses (1959) -- antologia em que Castro figura com O Senhor dos Navegantes; Raul Brandão; e O Diabo e o Frade (ambos de 1963). De Castro para Andrade, conhecemos, por gentileza dos seus herdeiros e descendentes, a 6. edição de A Lã e a Neve e a 4.ª de A Curva da Estrada (as duas de 1951); a edição «Portinari» de A Selva (1955); e a 1.ª edição de O Instinto Supremo (1968). Entendimento que se traduziu significativamente no facto de João Pedro de Andrade ter sido o autor dos verbetes sobre Ferreira de Castro e A Selva para o importante Dicionário das Literaturas Portuguesa, Brasileira e Galega (1960), dirigido por Jacinto do Prado Coelho. (1)

(1) Sobre o assunto, ver a carta de Andrade ao seu biografado, datada de Lisboa, em 7 de Outubro de 1955, apud Ricardo António Alves, 100 Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992, pp. 141 e 142.
Centenário de João Pdedro de Andrade, coordenação de João Marques de Almeida, Actas & Colóquios da Hemeroteca, Lisboa, Câmara Municipal, 2004, pp. 138-139.

Sunday, November 15, 2009

correspondências - ao presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis

Ferreira de Castro
Rua Misericórdia, 68
Lisboa
29 Setembro 1973
Exmo Sr. Dr. Leopoldo Soares dos Reis, ilustre presidente da Câmara de Municipal de
Oliveira de Azeméis
Quando, na minha adolescência, eu tinha uma grande sede de cultura e nenhuns recursos materiais para adquirir livros, a Biblioteca Pública de Belém do Pará foi-me imensamente útil.
Centenário do Nascimento de Ferreira de Castro, edição de Pedro Calheiros, Aveiro, Câmara Municipal, 1998, p. 23.

Wednesday, November 04, 2009

Prémio da Latinidade

Eugenio Montale, Ferreira de Castro e Jorge Amado (Paris, 1971)
Prémio da Latinidade, instituído por Anfré Malraux
(foto: Sebastião Salgado)
Fonte: Jorge Amado, Povo e Terra -- 40 Anos de Literatura, São Paulo, Martins, 1971

Monday, November 02, 2009

outras palavras - O TRABALHO (1925)

O trabalho... Devo-lhe as mais voluptuosas horas da minha vida. Horas de solidão, horas profundas, nas quais a alma sente melhor o vácuo pânico da Eternidade. Horas em que tudo se sublimiza, como se estranho condão presidisse à roda lenta dos ponteiros. Há poalha luminosa, acoirisada, oculta sob a película das minhas pupilas. E esqueço tudo que é mesquinho, inferior.
Ferreira de Castro, A Epopeia do Trabalho, Lisboa, Livraria Renascença, 1925.