Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (Só, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)

Thursday, June 25, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (7)

 

Trata-se, pois, de um inquérito, organizado no final de 1950, de balanço literário sobre a primeira metade do século XX português, que então se concluía, pedindo que fossem indicados «os escritores e as obras mais representativas da primeira metade do século.» (p. 109*), texto que foi mais tarde coligido no esplêndido livro de ensaio e crítica literária Conhecimento de Poesia, cuja primeira edição saiu no Brasil, em 1958.

         Antes de esmiuçar a resposta, quero dizer-vos que obviamente o Ferreira de Castro faz parte dessa lista de “vencedores” que Nemésio organizou – caso contrário não estaria aqui a falar dela --; e que destas breves quatro páginas incompletas (109-112), na edição que possuo*, são mencionados 26 autores, dos quais dez, tendo vivido em século anteriores, não são elegíveis para este inquérito. Restariam 16, se o critério de Nemésio não fosse de uma subtil perspicácia – mas já lá vamos.

* Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia [1958], 3.ª ed., Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 1997.

Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, June 23, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (6)

 

Convém dizer que, em 1950, Nemésio era -- e desde a década de 1930 – uma figura proeminente da nossa república das letras, erudito historiador da cultura, professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de o ter sido em Coimbra e passado por França e pela Bélgica como docente, fundador e director da Revista de Portugal (1937-1940), era o sólido autor da tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), o poeta de O Bicho Harmonioso (1938) ou Eu, Comovido a Oeste (1940) e o magno romancista de Mau Tempo no Canal (1944), entre vários outros livros de poesia e prosa, incluindo a ensaística. Ou seja, simultaneamente escritor e académico de alto coturno (entre os seus assistentes contaram-se António José Saraiva, David Mourão-Ferreira e António Machado Pires) e já ligado ao universo mediático com programas na então Emissora Nacional, as suas palavras, o seu juízo, as suas apreciações tinham peso não apenas no meio literário como junto do público leitor em geral.

Monday, June 22, 2026

dos romances

«Tudo recomendado, preparava-me para sair quando me lembrei de deitar uma olhadela à rua, através da vidraça. A princípio só lobriguei vultos disformes; depois, limpando o embaciado, vi nitidamente três indivíduos que palestravam à esquina, alheios à água que o céu peneirava.» O Intervalo (1936/1974)

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)

Thursday, June 18, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (5)

Mas Nemésio abandona os jornais e segue a vida académica, inclusive no estrangeiro, o que os afasta; também a concepção de literatura de ambos diverge – o que só por si não constitui razão para distanciamento com base em diferentes mundividências. Por isso mesmo, numa carta de 1938, Nemésio lamenta não ter dado à obra de Ferreira de Castro a atenção que ela merece, convidando-o a escrever na sua Revista de Portugal, o que não veio a suceder. Cruzavam-se, encontravam-se, trocando livros e dedicatórias. O programa televisivo que lhe dedica – o “Se bem me lembro…” -- transmitido a 6 de Julho de 1974, «Homenagem a Ferreira de Castro», precisamente uma semana depois da morte deste, é um grande exemplo do extraordinário comunicador que Nemésio foi. Será também um dos colaboradores do In Memoriam de Ferreira de Castro, publicado em 1976.

Thursday, June 11, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (4)

Um outro elo de proximidade foi certamente Jaime Brasil: como se sabe um dos mais íntimos amigos de Ferreira de Castro e seu biógrafo; açoriano, como Nemésio, fora o mentor literário deste, que lhe dedica o livro de poemas em francês La Voyelle Promise (1935), figurando como personagem, sob diferentes nomes, nos romances Varanda de Pilatos (1927) e Mau Tempo no Canal (1944).


Monday, June 08, 2026

correspondências

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «É o amargo tributo dos triunfadores, meu caro Ferreira de Castro! V. sabe-o infinitamente, psicólogo como é. Se V. tivesse ficado a meio caminho, encontraria a seu lado a grande maioria de todos os outros, que seriam, que teriam de ser forçosamente seus excelentes camaradas.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Monday, June 01, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (3)

Eram os benjamins, nas palavras do próprio Nemésio, da tertúlia de Brito Camacho no Café Chiado, à Rua Garrett, e de que faziam parte outros grandes vultos da política e do publicismo republicano, com especial destaque para Duarte Leite, antigo primeiro-ministro e ministro das Finanças, e também um dos mais importantes historiadores dos Descobrimentos.

Wednesday, May 27, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (2)

Da mesma geração (três anos de diferença – 1898/1901), ambos haviam publicado o primeiro livro em 1916: o primeiro, como sabemos, o romancete Criminoso por Ambição, escrito por volta dos 14; o segundo, um livro de poesia, Canto Matinal, composto sensivelmente com a mesma idade, os dois eliminados da respectivas bibliografias, como é normal. 

Castro e Nemésio coincidiram em Lisboa, nos jornais e nos cafés, no início da década de 1920. Ter-se-ão conhecido nas redacções, ambos participaram de uma longa greve de jornalistas e tipógrafos, entre Janeiro e Maio de 1921.

Monday, May 25, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (1)

1. O que me leva a falar de Vitorino Nemésio prende-se com a resposta a um inquérito promovido pelo Diário Popular, no final de 1950,  através de José Osório de Oliveira (1900-1964) – um ex-amigo de Ferreira de Castro, conhecedor e divulgador das literaturas brasileira e das então colónias africanas. Foi ele quem alguns jovens escritores brasileiros (José Lins do Rego, Jorge Amado) com Ferreira de Castro, como estaria, sem o saber na origem do conhecimento de A Selva pelo Blaise Cendrars.

Sempre gostei muito do aspecto lúdico inerente a listas e escalas, pelo que me pareceu um tema ao mesmo tempo suficientemente interessante e ligeiro para estes Encontros*, que são sempre uma celebração de Ferreira de Castro e dos seus livros pelos seus leitores.

*Versão do texto lido nos XII Encontros Ferreira de Castro, que este ano decorreram em Ossela e Vale de Cambra, no magnífico café-concerto de centro cultural da cidade.

Thursday, May 14, 2026

errâncias

«Mais ainda do que os Dardanelos, ele separa duas civilizações completamente diferentes. Duma das suas ribas -- e ambas se vêem a olho limpo de auxílio -- os europeus espreitam os árabes da África e, da outra, os árabes espreitam os europeus. Esta vizinhança está, porém, cheia de lonjura; tão perto geograficamente, eles encontram-se mui distantes uns dos outros, por mentalidade, costumes e religiões.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Em frente, abre-se grande vale, todo verdejante após as chuvas dos últimos dias; um ramal de estrada nova, que se vê ao longe, como esses que se dirigem para os santuários das montanhas, vai-o ladeando e subindo; e na placa da confluência, que reproduz um bisão conhecido no Mundo inteiro, fêmea de grande úbere, deitada e dobrada sobre si mesma, como se padecesse de fortes dores, lemos com emoção -- "Altamira -- 2 quilómetros".» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

Thursday, April 30, 2026

um artigo sobre Assis Esperança

Integrando o grupo do Suplemento Semanal Ilustrado do jornal A Batalha e da revista Renovação, ambos publicados sob a égide da central anarco-sindicalista Confederação Geral do Trabalho (CGT), Assis Esperança é um dos mais representativos ficcionistas dessa corrente de pensamento do romance social, que abrirá as portas ao neo-realismo. Sob a égide de alguns conceitos do anarquismo, chave a para a compreensão da sua obra, analisa-se a novela de recorte rural «Ruínas», incluída no livro Funâmbulos (1925), procurando identificar em que medida as concepções libertárias se reflectem nas personagens e na sua relação com o meio, sem esquecer as intervenções judiciosas do narrador.

Ricardo António Alves, «Terra e opressão em "Ruínas", uma novela de Assis Esperança», in Ana Cristina Carvalho, Sílvia Quinteiro e Natália Constâncio, Algarve(s) -- Imagens do Ambiente natural e Humano na Literatura de Ficção, Lisboa, By the Book, 2025.


Wednesday, April 29, 2026

correspondências

Roberto Nobre a Ferreira de Castro (1925) «Olhão, 30 de Março de 1925 // Meu caro Ferreira de Castro // Antes de tudo o grande abraço das grandes ausências. / Pergunta V. se renuncio? Eu? / Renunciar a uma luta quase antes de a ter começado? / O interesse que V. acaba de mostrar por mim não me espanta nem o agradeço. V. não é para ser agradecido. No entanto deixe-me que lhe louve a sua atenção.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «A deste seu magnífico volume, comoveu-me. V. bem sabe que me comoveu! Estimaria infinitamente mais -- estimaria-o por si -- que ela me dissesse ser eu dos muitos que ainda lhe não levou desilusões. Pelo contrário ela afirma-me como dos poucos com que tal não se tenha dado.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Tuesday, April 28, 2026

«Caminhos de Ferreira de Castro»


Um Roteiro Literário em Ossela, com 34 estações, por Carlos Alberto Oliveira Castro.
(edição do CEFC)

 

Monday, April 27, 2026

outras palavras

«Mas, logo que chegaram, meteram-se na sua toca. Só o Arturinho passeou ao fim da tare, na estrada, em frente da venda, o sobretudo novo. / A esta hora, cada um pensa especialmente nos seus. Quase todos pobres, não têm remorsos de comer mais do que os outros.» «O Natal em Ossela» (1932/1974) 

«A terra nativa parecia-me defeituosa por não ter as correntes de vento necessárias para elevar a "estrela" multicolor. Contudo, eu mentia, afirmando que já um dia um "papagaio" meu subira tão alto que eu chegara a não o distinguir no espaço. Repetia muito essa minha fantasia, mas, ao recordar-me da verdade, sentia um vácuo na alma.» «Memórias», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934) 

Friday, April 24, 2026

"Imagens Literárias das Beiras"


No Museu Ferreira de Castro, às 18 horas, 24 de Abril de 2026, com Ana Cristina Carvalho.