Tuesday, July 03, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (22)

A Espanha, aqui ao lado, despertou as consciências de muitos destes jovens escritores, e o marxismo-leninismo aparecia aureolado do prestígio de uma doutrina humanista que pretendia a superação da sociedade classista, iníqua, fautora de um mundo de desigualdades e opressão, além do sedutor apelo da heroicidade resistente à barbárie irracional e retrógrada que se levantava no teatro de operações do país vizinho. (E não devemos também esquecer que a propaganda soviética sustentava que o nazi-fascismo e sistemas demo-liberais eram, no fundo, as duas faces da mesma moeda da dominação do sistema capitalista.) Impõe-se, por isso esta pergunta: quem, com a generosidade da juventude, sensível às injustiças com que era confrontada ao pé da porta, no país e no mundo, (quem)  não se deixaria seduzir pelo apelo internacionalista e libertador do movimento comunista internacional?


(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011

Tuesday, June 26, 2012

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (4)

Se os grandes escritores valem pela sua obra, também se reconhecem pela qualidade de quem os estuda. Não sendo a camiliana passiva tão vasta quanto a sua congénere queirosiana, os nomes que povoam aquela, de Alberto Pimentel a Abel Barros Baptista, passando por António Cabral, Sousa Costa, Jacinto do Prado Coelho, Alexandre Cabral e João Bigotte Chorão, entre tantos outros, reflectem com nitidez a espessura do que se fala e de quem se fala.

Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.

Thursday, June 21, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (21)

 Em Portugal, o Estado Novo está consolidado desde 1933, a tropa domesticada e as oposições cada uma para seu lado – divisão que a caracterizou nos 48 anos de ditadura, exceptuando o período de 19145-49, marcadas pela acção do MUD e do apoio à candidatura de Norton de Matos. Os republicanos de várias proveniências, grande parte desprestigiada pelo falhanço clamoroso da I República, haviam sido neutralizados – pela prisão, pelo exílio mas também pela cooptação por parte do novo poder; os anarquistas, a grande força organizada do trabalho durante esses dezasseis anos, principalmente através da central anarco-sindicalista CGT, detentora do influente jornal diário A Batalha, não resistira à repressão e à clandestinidade. A Revolta da Marinha Grande – articulada já com o PCP, não sem graves dissensões entre ambas as forças – seria o canto do cisne da corrente libertária enquanto movimento de massas; o PCP, finalmente, fundado em 1921, seria o principal veículo de resistência, graças a uma organização rigorosamente centralizada e a uma rede internacional de assistência e informação sediada em Moscovo.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

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Thursday, June 14, 2012

Ferreira de Castro na "Cidade de Lilipute" (4)



Ferreira de Castro escreveu também livros de viagens, um dos quais -- A Volta ao Mundo (1940-1944) -- permanece como o mais significativo deste século num género com tradições centenárias na literatura portuguesa.

in Ferreira de Castro, Macau e a China, Taipa, Câmara Municipal das Ilhas, 1998.

Monday, June 04, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (20)


Estamos, pois, num tempo de crise das democracias liberais, postas numa tenaz entre os totalitarismos nazi e fascista de brutalidade sem máscara, de regimes autoritários de direita, e o totalitarismo soviético. E essa crise terá a sua máxima evidência precisamente na Guerra Civil de Espanha, com a participação no terreno, directa ou indirectamente, dos dois blocos políticos, sem que a França e a Inglaterra, principais mentores de um inoperante Comité de Não-Intervenção em Londres, lograssem sequer um mínimo de entendimento quanto às atitudes a tomar.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Wednesday, May 30, 2012

Ferreira de Castro e Reinaldo Ferreira -- Nota sobre a viagem do Repórter X à Rússia (3)

Reinaldo Ferreira e Ferreira de Castro. Não houve jornalistas mais amigos e mais diferentes -- nos temperamentos e nos processos. Ao sensacionalismo quase doentio perseguido por Reinaldo, Castro contrapunha uma seriedade na escolha e no tratamento dos temas, que, contudo, não deixavam de ter impacte. Enquanto que o X se disfarçava de mendigo ou pasmava Lisboa e o país com a investigação do assassínio da actriz Maria Alves -- temas que por vezes lhe serviam para novelas, peças de teatro e até filmes --, Castro preocupava-se com a situação dos presos no Limoeiro (2), dos vagabundos nos albergues nocturnos (3), as condições de trabalho nas Minas de S. Domingos (4), entrevistava o chefe republicano irlandês Eamon de Valera (1886-1975) (5), dava a conhecer aspectos da sociedade e da cultura corsas (6).

(2) Ferreira de Castro, «O segrêdo das nossas derrotas. Como eu fui preso... no Limoeiro», Uma Hora de Jornalismo, Lisboa, Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da imprensa de Lisboa, 1928, pp. 85-92 -- «Além do jornalista havia em mim o curioso; eu amo tanto a liberdade, que desejava averiguar como podiam viver aqueles que a não tinham» (p. 88).

(3) Ferreira de Castro, «A noite dos miseráveis -- Como se dorme num albergue nocturno», in António Valdemar e Jacinto Baptista, Repórteres e Reportagens de Primeira Página, vol. II, Lisboa, Conselho de Imprensa, 1992, pp. 276-278.


(4) Censurada na época, a reportagem seria alçada à categoria de evocação literária, ficando para a posteridade como um dos texto mais notáveis de Ferreira de Castro: «Historial da velha mina», Os Fragmentos, 2.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª [1974], pp. 17-41.


(5) O Museu Ferreira de Castro exibe um autógrafo, em gaélico, de de Valera, que o escritor entrevistou para O Século, peça publicada na edição de 22 de Novembro de 1930: Por intermédio do "Século", saúdo afectuosamente o povo de Portugal, velho amigo da Irlanda». «Dev», abundantemente citado no capítulo sobre a Irlanda, em Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, o mais marcante político irlandês deste século, fundador do IRA, foi opositor ao tratado com a Inglaterra que deixou sob a coroa britânica os seis condados que formam o Ulster. Quando Castro se encontrou com ele -- entrevista de que resultou um impressivo retrato dum homem determinado e absolutamente seguro da sua causa --, estava na oposição, após ter liderado uma das facções da guerra civil de 1922-23. Formaria governo pela primeira vez em 1932, chefiando o executivo em várias ocasiões. Foi eleito presidente da República da Irlanda por duas vezes, entre 1959 e 1973. Segundo Ferreira de Castro, o estadista era «um dos descendentes de Juan de Valera -- o célebre escritor e diplomata espanhol do século passado.» (Ferreira de Castro, Pequenos mundos e Velhas Civilizações, 5.ª edição, vol. II, Guimarães & C.ª, 1955, p. 257). desconhece-se qual a fonte do escritor. Juan de Valera y Alacalá Galiano (1825-1905) -- que se correspondeu com Oliveira martins (1845-1894) --, poeta, historiador e diplomata, ministro da Espanha em Lisboa entre 1881-83, seria o avô paterno de Eamon. os biógrafos oficiais deste referem-se de passagem ao avô como tendo estado envolvido nas negociações sobre o comércio de açúcar entre a Espanha e os Estados Unidos, que envolviam Cuba. Em 1886, ano do nascimento de «Dev», nos Estados Unidos, Juan de Valera representava o seu país em Washington. Ver Tim Pat Coogan, De Valera -- Long Fellow, Long Shadow, London, Arrow Books, 1995, pp. 6-7. 


(6) Ver capítulo dedicado à ilha em Pequenos Mundos e o opúsculo Canções da Córsega [1936], 2.ª ed., Sintra, Câmara municipal / Museu Ferreira de Castro, 1994.


Vária escrita #5, Sintra, Câmara Municipal, 1998, pp. 257-268.
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Wednesday, May 23, 2012

AS «NOTAS BIOGRÁFICAS E BIBLIOGRÁFICAS», de Jaime Brasil (1931) (6)


Como já referi noutro local, Castro, que rejeitou sempre convites apara aderir a qualquer partido, e cuja acção oposicionista durante o salazarismo se exerceu sempre num contexto unitário (MUD, Norton de Matos), atitude que decorre do seu libertário apoliticismo, esteve, quando necessário, na linha da frente dos órgãos representativos da sua classe: Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa (SPIL, anos vinte), PEN Club Português (anos trinta) e Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE, anos sessenta). E neste particular, Brasil revela que quando o 28 de Maio de 1926 encontra Castro a presidir ao SPIL, o escritor organiza um protesto «contra a violência da censura prévia à imprensa» (p. 32), respondendo o governo com o encerramento do sindicato.

Nota (8/VI/2012): desapareceu-me o resto do texto dos "rascunhos". Devo tê-lo eliminado, inadvertidamente... Retomá-lo-ei, se e quando tiver paciência.

Tuesday, May 22, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (19)

Costuma dizer-se que a história é escrita pelos vencedores – e no turbilhão do século XX os anarquistas foram duplamente derrotados nos países onde tinham mais influência. Dizimados por Trotsky na União Soviética (em especial as forças de Nestor Makhno, na Ucrânia), estiveram, em Espanha sob o fogo cruzado do militarismo de extrema-direita de Francisco Franco e da duplicidade traiçoeira de José Estaline. E foram derrotados também pela sua própria natureza libertária, incapaz de sujeição às organizações de ferro em que se sustentavam os seus inimigos, o que lhes custaria décadas de rarefacção organizacional.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Friday, May 18, 2012

Ferreira de Castro e Jorge Amado, no Dia Internacional dos Museus


ou a celebração de uma amizade impecável, ao longo de 40 anos (1934-1974), e cujos ecos se prolong(ar)am ainda para além da morte do primeiro. A partir de hoje, no Museu Ferreira de Castro.


Tuesday, April 17, 2012

As «Notas Biográficas e Bibliográficas» de Jaime Brasil (1931) (5)

Mas é a comunhão ideológica entre dois anarquistas que nitidamente se espelha e é relevada -- tanto quanto era possível no início da década de trinta, limiar do Estado Novo. O que o leitor atento já poderia intuir após leitura de A Selva, Emigrantes ou dos livros da primeira fase, fica evidenciado neste breve escorço: escritor não-conformista (p. 7), «homem universalista pela sua ideologia» (p. 23), ateu (p. 24), propagandista «dos generosos ideais de emancipação humana» (p. 25), identificação com «as massas proletárias [...] perfilhando as suas aspirações, sem contudo se imiscuir nas lutas de classe ou de partido.» (p. 26)

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Sunday, April 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (18)

Mário Dionísio, que tinha do neo-realismo uma visão muito precisa como expressão artística do materialismo histórico e dialéctico, é coerente quando inscreve Ferreira de Castro numa corrente de literatura social (p. 63), mas não-marxista, porque, de facto, Castro nunca foi marxista. O que ele era – e os seus livros aí estão para o comprovar –, era um comunista libertário, inspirado em autores tão importantes para o socialismo em sentido lato, e para a esquerda, como o foram Piotr Kropótkin e Errico Malatesta – fortes adversários do comunismo autoritário, estatista e centralizador – tal como o haviam sido Proudhon e Bakúnin, que defrontaram e entraram directamente em polémica com Marx. Os que extravasaram o ponto de Mário Dionísio filiando, por sectarismo e/ou ignorância, a obra castriana numa espécie de socialismo burguês (oh, insulto!) e utópico, esqueciam-se que não era menos utópico que o chamado socialismo científico que apontava para a instauração do céu na terra: extinção do estado e sociedade sem classes, e não sabiam, nem queriam saber, que nada havia de menos burguês que o anarco-sindicalismo português – de onde, aliás, emanou o próprio PCP.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Tuesday, April 10, 2012

As "Notas Biográficas e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (4)

Outro aspecto interessante no texto de Brasil é a caracterização física e psicológica de Ferreira de Castro. A fisionomia invulgar é descrita como «traços de uma ancestralidade eslava» (p. 7); inteligente, bondoso (p. 24), hipersensível por vezes (p. 32), era impulsivo no entusiasmo da suas causas, turvação que rapidamente se apaziguava, substituindo-se por uma atitude reservada e de ensimesmamento (p. 28). Castro muitas vezes se auto-caracterizou como um tímido, e muitos testemunhos seus contemporâneos dão nota dessa emotividade exacerbada até às lágrimas, em situações de perda ou confronto quando, por exemplo, era testemunha abonatória de presos políticos durante o Estado Novo (lembro-me, de repente, do testemunho de Alexandre Babo nas Recordações de um Caminheiro) e, principalmente, quando vinha ao de cima algo que evocasse o sofrimento por que passou nos anos da Amazónia.

Sunday, April 08, 2012

Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade (4)



Escritor que se fez a si próprio, foi no Brasil que Ferreira de Castro se auto-revelou, no meio adverso de um seringal da Amazónia, entre 1911 e 1914. Será, contudo, em Belém, capital do estado paraense, que vivia ainda sob os efeitos da ressaca de uma rubber-rush -- onde permaneceu até 1919, ano do regresso a Portugal --, que o jovem literato, entretanto trabalhando na imprensa local, editará os seus dois livros iniciais (Criminoso por Ambição e Alma Lusitana, ambos de 1916). Na Biblioteca Pública da cidade, bem fornecida de literatura portuguesa e francesa, Castro tomará contacto, pela primeira vez, na maioria dos casos, com os grandes escritores das duas línguas (2), muitos dos quais permanecerão como referências sua. Falamos, naturalmente, de Zola (1840-1902), mas também de Balzac (1799-1854) e Victor Hugo (1802-1885) ou Camilo (825-1890) e Eça (1845-1900).



(2) Ver Bernard Emery, L'Humanisme Luso-Tropical selon José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Ellug, 1992, pp. 120-121; id., «Ferreira de Castro et la culture française», Miscelânea sobre José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Centre de Recherche et d'Études Lusophones et Intertropicales, 1994, pp. 53-65.


Boca do Inferno #3, Cascais, Câmara Municipal, 1998, pp. 92-93.
(também aqui)

Thursday, March 29, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (17)

A leitura deste livro de Vítor Viçoso mais faz sentir a necessidade de um estudo abrangente da literatura libertária e dos seus escritores – aliás uma sugestão que, generosamente, já me foi feita precisamente por Vítor Viçoso – que, por desconhecimento geral, são, conforme as percepções de quem escreve, encostados ao republicanismo reviralhista ou às vizinhanças do PCP, quando se trata de outra coisa. E essa outra coisa integra nomes tão esquecidos hoje, como Manuel Ribeiro, autor de A Catedral, Jaime de Magalhães Lima, Tomás da Fonseca, Emílio Costa, Campos Lima, Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, entre outros. E também o de Ferreira de Castro.

Monday, March 26, 2012

História e Memória: Uma leitura de Os Fragmentos (4)

Ferreira de Castro foi um triunfo da vontade. A sua vida, pelo muito que teve de inverosímil -- uma criança desterrada para a selva amazónica que em adulto se elevou à condição de um dos primeiros romancistas do seu país, reconhecido além-fronteiras até ao limiar do Prémio Nobel da Literatura (2) -- teria sido susceptível de ser contada por ele próprio.
Tal não sucedeu. Ou, melhor, sucedeu parcial e fragmentariamente ao longo so seu percurso de escritor.

(2) Proposto em 1951 e 1968, a segunda conjuntamente com Jorge Amado.


Língua e Cultura II Série, #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, 1998.

Thursday, March 22, 2012

As "Notas Biográfica e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (3)

O texto é curto, pouco mais de dez páginas, e muito bem escrito, como era apanágio de Jaime Brasil, um estilista limpo e assertivo. A abrir, situa Castro como «o mais representativo dos romancistas da nova geração em Portugal» (p. 7), o que não suscita contestação, uma vez que os grandes ficcionistas de idade aproximada – José Régio, José Rodrigues Miguéis ou Vitorino Nemésio – não haviam ainda publicado as suas narrativas de maior significado.

Monday, March 19, 2012

Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropótkine (4)

Na génese do futurismo portugês participou um próximo amigo de Ferreira de Castro, Mário Lyster-Franco, que com Carlos Porfírio -- pouco depois director do Portugal Futurista --, no Heraldo de Faro, animaram, sob os pseudónimos "Fontanes" e "Nesso", uma página literária intitulada Futurismo, onde colaboraram Almada e Pessoa [ver Nuno Júdice, Poesia Futurista Portuguesa (Faro, 1916-1917), Porto, A Regra do Jogo, 1981].

O Escritor #11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998.

(imagem de Mário Lyster-Franco, daqui)

Thursday, March 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (16)

Para terminar as continuidades que vieram desembocar no Neo-Realismo, há que referir a constelação anarquista, tão importante como mal conhecida e pior estudada. Basta referir que a figura mais relevante dessa corrente ideológica na literatura portuguesa do século XX é Ferreira de Castro; e que O Diabo, um dos berços do neo-realismo teve na sua génese, em 1934, um grupo de escritores e jornalistas das áreas republicana e libertária. Ferreira de Castro, que foi um dos fundadores, escrevendo logo no número 0 (“espécime”), dirigiu o jornal por um breve período, acompanhando-o sempre. Uma das grandes entrevistas deste período do autor de Emigrantes é dada, em 1940, a [O Diabo de*] Manuel Campos Lima, o último director antes do seu encerramento compulsivo.

* em falta no texto original.                                         
(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Wednesday, March 14, 2012

morbidez brandoniana

-- Pela mesma razão que em determinado dia da minha existência tu nasceste, nasceu e cresceu o meu provável coveiro: -- nasceu e desenvolveu-se a árvore frondosa de cujo tronco alguém fará o meu esquife..

Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livraria Aillaud & Bertrand, 1924.

(também aqui)

Monday, March 12, 2012

As "Notas Biográficas e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (2)

Terminadas em Outubro de 1930, meses após a morte de Diana de Lis e durante o internamento de Ferreira de Castro, acometido de septicemia, tenho para mim (e já o escrevi) que estas notas de Jaime Brasil sobre a vida do autor do recém-publicado A Selva – abertura do volume colectivo Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) – se destinaram a um in memoriam, que, felizmente para o jovem escritor e para o romance português, não veio a concretizar-se sob esse pretexto, e a ter razão de ser senão quarenta e três anos mais tarde. Como se sabe, Castro esteve às portas da morte e chegou a ser redigido o necrológio para os jornais -- não falando da tentativa de suicídio que, só em 1994, eu teria ocasião de revelar, em apêndice à sua correspondência com Roberto Nobre – embora o tópico suicidário houvesse sido aflorado pelo próprio, precisamente nas «memórias» de infância que Ferreira de Castro e a Sua Obra encerra.