Wednesday, July 22, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (11)

Nemésio refere-se, como não podia deixar de ser, a Fernando Pessoa (1888-1935) e a Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), equiparando Pascoais a estes em grandeza, mas também a Afonso Duarte (1884-1958), então com 66 anos, vindo da Renascença Portuguesa, do mesmo Pascoais, colaborador da presença desde a primeira hora, igualmente muito considerado pelos poetas neo-realistas, e que acabara de publicar Sibila, livro expressamente referido por este perene seleccionador nacional.

À luz do seu critério, Nemésio distinguiu Pascoais também por tratar-se de um autor «de longo fôlego poemático», com uma poética orientada para «temas metafísicos e […] psicológicos que entranharam na nossa espiritualidade», entroncando-o com Bernardim Ribeiro, Luís de Camões e Frei Agostinho da Cruz.

C de 'Caos'

«Nesse tempo, eu habitava o primeiro andar duma casita da Rua Tenente Espanca, quase isolada num bairro em construção, cheio de poeira no Estio, de covas e lama no Inverno, com montões de pedras, de tijolos, de tábuas dificultando-me os passos e esse aspecto das coisas caóticas, arestosas e provisórias que sempre feriram a minha sensibilidade.» 
«Pequena História de "A Selva"» (1955)

Tuesday, July 21, 2026

B de 'Borracha'

«Mesmo na sua decadência, era ainda a borracha que movia tudo aquilo, os navios de diferentes portes e os rebocadores de agudos silvos; os guindastes de compridos braços e as vagonetas sobre carris brunidos ao longo dos cais, com um vaivém constante entre a beira da água e a fila dos galpões, vastos armazéns; e à borracha começava Alberto a sentir-se também incorporado, com uma sensação de fábula, agitado de curiosidade e de temor.» 
A Selva (1930) 


A de 'Adaptação'


«A 
princípio, esse novo cenário, todo fofo e confortável, perturbava-o; em breve, porém, Soriano se adaptara, que nem por mudar de leito os rios deixam de correr.» 

A Curva da Estrada (1950)


Monday, July 13, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (10)

Quais os outros poetas notáveis da primeira metade do século XX mencionados por Nemésio? 

Camilo Pessanha (1867-1926), autor de título único não só estava fora do critério estabelecido, como Nemésio, juntando-o a Cesário e Nobre, entre outros, parece atirá-lo para o século XIX. Não fosse esta restrição de excluir autores de livro único, talvez o poeta de Clepsidra figurasse noutro lugar. 

O par Gomes Leal (1848-1921) e Guerra Junqueiro (1850-1923), ambos falecidos na década de 1920, estavam organicamente ligados ao século anterior, nunca podendo ser representativos da primeira metade do século XX, independentemente das restrições adoptadas pelo respondente. 

Com Eugénio de Castro (1869-1944), que morrera apenas meia dúzia de anos antes deste inquérito -- e neste caso, cronologicamente elegível --, Nemésio vai considerá-lo como um corifeu de «um cânone estético determinado» – o simbolismo, e portanto muito particular e localizado no tempo, ou seja, pouco representativo da poesia portuguesa entre 1901 e 1950. De resto, com a excepção dos Últimos Versos (1938), Eugénio de Castro deixara de publicar em finais da década de 1920, e não fora daí que viera a poesia que se impôs, a do(s) modernismo(s). 

Wednesday, July 08, 2026

outras palavras

«É possível, eu julgo mesmo ser certo, que a bondade, em algumas existências humanas, tem, como causa, algumas anormalidades viscerais. Em Delfim Guimarães, porém, a tendência instintiva fora ampliada por auto-trabalho de aperfeiçoamento espiritual, por uma longa observação do panorama humano, que, quando contemplado demoradamente, à margem dos interesses de cada um, nos dá o desejo de abraçarmos todos e chorarmos todos o nosso destino.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Aos nove anos fiz o meu primeiro exame, ficando, de todos os examinandos, apenas eu e o filho do professor a estudar para o segundo. É que os pais dos meus condiscípulos entendiam que estes, para a vida, necessitavam apenas de "saber fazer as quatro operações e ler e escrever uma carta para o Brasil..."» «[Memórias]», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Tuesday, July 07, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (9)

E é assim que, ao oitavo parágrafo num total de treze, Nemésio avança com os seus dois nomes de eleição, na poesia e na prosa: Teixeira de Pascoais (1877-1952) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, à luz dos parâmetros que estabeleceu, nos parecem ainda hoje indiscutíveis. 

Pascoais, com 73, morreria dois anos depois, tendo publicado, nesse intervalo, uma novela e uma conferência sobre o poeta algarvio João Lúcio; Aquilino, com 65, viveria ainda por quase 13 anos, período em que fez sair vários livros, entre os quais A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958); no entanto, o seu lugar como o grande prosador da primeira metade do século estava já assegurado.

Wednesday, July 01, 2026

nas palavras dos outros

Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)

Thursday, June 25, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (7)

 

Trata-se, pois, de um inquérito, organizado no final de 1950, de balanço literário sobre a primeira metade do século XX português, que então se concluía, pedindo que fossem indicados «os escritores e as obras mais representativas da primeira metade do século.» (p. 109*), texto que foi mais tarde coligido no esplêndido livro de ensaio e crítica literária Conhecimento de Poesia, cuja primeira edição saiu no Brasil, em 1958.

         Antes de esmiuçar a resposta, quero dizer-vos que obviamente o Ferreira de Castro faz parte dessa lista de “vencedores” que Nemésio organizou – caso contrário não estaria aqui a falar dela --; e que destas breves quatro páginas incompletas (109-112), na edição que possuo*, são mencionados 26 autores, dos quais dez, tendo vivido em século anteriores, não são elegíveis para este inquérito. Restariam 16, se o critério de Nemésio não fosse de uma subtil perspicácia – mas já lá vamos.

* Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia [1958], 3.ª ed., Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 1997.

Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, June 23, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (6)

 

Convém dizer que, em 1950, Nemésio era -- e desde a década de 1930 – uma figura proeminente da nossa república das letras, erudito historiador da cultura, professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de o ter sido em Coimbra e passado por França e pela Bélgica como docente, fundador e director da Revista de Portugal (1937-1940), era o sólido autor da tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), o poeta de O Bicho Harmonioso (1938) ou Eu, Comovido a Oeste (1940) e o magno romancista de Mau Tempo no Canal (1944), entre vários outros livros de poesia e prosa, incluindo a ensaística. Ou seja, simultaneamente escritor e académico de alto coturno (entre os seus assistentes contaram-se António José Saraiva, David Mourão-Ferreira e António Machado Pires) e já ligado ao universo mediático com programas na então Emissora Nacional, as suas palavras, o seu juízo, as suas apreciações tinham peso não apenas no meio literário como junto do público leitor em geral.

Monday, June 22, 2026

dos romances

«Tudo recomendado, preparava-me para sair quando me lembrei de deitar uma olhadela à rua, através da vidraça. A princípio só lobriguei vultos disformes; depois, limpando o embaciado, vi nitidamente três indivíduos que palestravam à esquina, alheios à água que o céu peneirava.» O Intervalo (1936/1974)

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)

Thursday, June 18, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (5)

Mas Nemésio abandona os jornais e segue a vida académica, inclusive no estrangeiro, o que os afasta; também a concepção de literatura de ambos diverge – o que só por si não constitui razão para distanciamento com base em diferentes mundividências. Por isso mesmo, numa carta de 1938, Nemésio lamenta não ter dado à obra de Ferreira de Castro a atenção que ela merece, convidando-o a escrever na sua Revista de Portugal, o que não veio a suceder. Cruzavam-se, encontravam-se, trocando livros e dedicatórias. O programa televisivo que lhe dedica – o “Se bem me lembro…” -- transmitido a 6 de Julho de 1974, «Homenagem a Ferreira de Castro», precisamente uma semana depois da morte deste, é um grande exemplo do extraordinário comunicador que Nemésio foi. Será também um dos colaboradores do In Memoriam de Ferreira de Castro, publicado em 1976.

Thursday, June 11, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (4)

Um outro elo de proximidade foi certamente Jaime Brasil: como se sabe um dos mais íntimos amigos de Ferreira de Castro e seu biógrafo; açoriano, como Nemésio, fora o mentor literário deste, que lhe dedica o livro de poemas em francês La Voyelle Promise (1935), figurando como personagem, sob diferentes nomes, nos romances Varanda de Pilatos (1927) e Mau Tempo no Canal (1944).


Monday, June 08, 2026

correspondências

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «É o amargo tributo dos triunfadores, meu caro Ferreira de Castro! V. sabe-o infinitamente, psicólogo como é. Se V. tivesse ficado a meio caminho, encontraria a seu lado a grande maioria de todos os outros, que seriam, que teriam de ser forçosamente seus excelentes camaradas.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Monday, June 01, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (3)

Eram os benjamins, nas palavras do próprio Nemésio, da tertúlia de Brito Camacho no Café Chiado, à Rua Garrett, e de que faziam parte outros grandes vultos da política e do publicismo republicano, com especial destaque para Duarte Leite, antigo primeiro-ministro e ministro das Finanças, e também um dos mais importantes historiadores dos Descobrimentos.

Wednesday, May 27, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (2)

Da mesma geração (três anos de diferença – 1898/1901), ambos haviam publicado o primeiro livro em 1916: o primeiro, como sabemos, o romancete Criminoso por Ambição, escrito por volta dos 14; o segundo, um livro de poesia, Canto Matinal, composto sensivelmente com a mesma idade, os dois eliminados da respectivas bibliografias, como é normal. 

Castro e Nemésio coincidiram em Lisboa, nos jornais e nos cafés, no início da década de 1920. Ter-se-ão conhecido nas redacções, ambos participaram de uma longa greve de jornalistas e tipógrafos, entre Janeiro e Maio de 1921.

Monday, May 25, 2026

'Vencedores' de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (1)

1. O que me leva a falar de Vitorino Nemésio prende-se com a resposta a um inquérito promovido pelo Diário Popular, no final de 1950,  através de José Osório de Oliveira (1900-1964) – um ex-amigo de Ferreira de Castro, conhecedor e divulgador das literaturas brasileira e das então colónias africanas. Foi ele quem alguns jovens escritores brasileiros (José Lins do Rego, Jorge Amado) com Ferreira de Castro, como estaria, sem o saber na origem do conhecimento de A Selva pelo Blaise Cendrars.

Sempre gostei muito do aspecto lúdico inerente a listas e escalas, pelo que me pareceu um tema ao mesmo tempo suficientemente interessante e ligeiro para estes Encontros*, que são sempre uma celebração de Ferreira de Castro e dos seus livros pelos seus leitores.

*Versão do texto lido nos XII Encontros Ferreira de Castro, que este ano decorreram em Ossela e Vale de Cambra, no magnífico café-concerto de centro cultural da cidade.

Thursday, May 14, 2026

errâncias

«Mais ainda do que os Dardanelos, ele separa duas civilizações completamente diferentes. Duma das suas ribas -- e ambas se vêem a olho limpo de auxílio -- os europeus espreitam os árabes da África e, da outra, os árabes espreitam os europeus. Esta vizinhança está, porém, cheia de lonjura; tão perto geograficamente, eles encontram-se mui distantes uns dos outros, por mentalidade, costumes e religiões.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Em frente, abre-se grande vale, todo verdejante após as chuvas dos últimos dias; um ramal de estrada nova, que se vê ao longe, como esses que se dirigem para os santuários das montanhas, vai-o ladeando e subindo; e na placa da confluência, que reproduz um bisão conhecido no Mundo inteiro, fêmea de grande úbere, deitada e dobrada sobre si mesma, como se padecesse de fortes dores, lemos com emoção -- "Altamira -- 2 quilómetros".» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

Thursday, April 30, 2026

um artigo sobre Assis Esperança

Integrando o grupo do Suplemento Semanal Ilustrado do jornal A Batalha e da revista Renovação, ambos publicados sob a égide da central anarco-sindicalista Confederação Geral do Trabalho (CGT), Assis Esperança é um dos mais representativos ficcionistas dessa corrente de pensamento do romance social, que abrirá as portas ao neo-realismo. Sob a égide de alguns conceitos do anarquismo, chave a para a compreensão da sua obra, analisa-se a novela de recorte rural «Ruínas», incluída no livro Funâmbulos (1925), procurando identificar em que medida as concepções libertárias se reflectem nas personagens e na sua relação com o meio, sem esquecer as intervenções judiciosas do narrador.

Ricardo António Alves, «Terra e opressão em "Ruínas", uma novela de Assis Esperança», in Ana Cristina Carvalho, Sílvia Quinteiro e Natália Constâncio, Algarve(s) -- Imagens do Ambiente natural e Humano na Literatura de Ficção, Lisboa, By the Book, 2025.


Wednesday, April 29, 2026

correspondências

Roberto Nobre a Ferreira de Castro (1925) «Olhão, 30 de Março de 1925 // Meu caro Ferreira de Castro // Antes de tudo o grande abraço das grandes ausências. / Pergunta V. se renuncio? Eu? / Renunciar a uma luta quase antes de a ter começado? / O interesse que V. acaba de mostrar por mim não me espanta nem o agradeço. V. não é para ser agradecido. No entanto deixe-me que lhe louve a sua atenção.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «A deste seu magnífico volume, comoveu-me. V. bem sabe que me comoveu! Estimaria infinitamente mais -- estimaria-o por si -- que ela me dissesse ser eu dos muitos que ainda lhe não levou desilusões. Pelo contrário ela afirma-me como dos poucos com que tal não se tenha dado.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Nestas condições, não posso responsabilizar-me pela novela do Ferrarin, antes da primeira semana de Outubro. Se assim lhe fizer desarranjo, diga-me com toda a franqueza, que eu renunciarei a fazer essa tradução, embora me penalize fundamente faltar, ainda que por motivo justificado, a um trabalho que o Castro fizera o favor de confiar-me. Peço-lhe, pois, que me fale c/ franqueza. Am.º grato, o Brasil.» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Tuesday, April 28, 2026

«Caminhos de Ferreira de Castro»


Um Roteiro Literário em Ossela, com 34 estações, por Carlos Alberto Oliveira Castro.
(edição do CEFC)

 

Monday, April 27, 2026

outras palavras

«Mas, logo que chegaram, meteram-se na sua toca. Só o Arturinho passeou ao fim da tare, na estrada, em frente da venda, o sobretudo novo. / A esta hora, cada um pensa especialmente nos seus. Quase todos pobres, não têm remorsos de comer mais do que os outros.» «O Natal em Ossela» (1932/1974) 

«A terra nativa parecia-me defeituosa por não ter as correntes de vento necessárias para elevar a "estrela" multicolor. Contudo, eu mentia, afirmando que já um dia um "papagaio" meu subira tão alto que eu chegara a não o distinguir no espaço. Repetia muito essa minha fantasia, mas, ao recordar-me da verdade, sentia um vácuo na alma.» «Memórias», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934) 

Friday, April 24, 2026

"Imagens Literárias das Beiras"


No Museu Ferreira de Castro, às 18 horas, 24 de Abril de 2026, com Ana Cristina Carvalho.




 

Thursday, April 23, 2026

nas palavras dos outros

Mário Gonçalves Viana: «O objectivo deste formosíssimo e incomparável romance -- incontestàvelmente um dos mais belos que se tem escrito na língua portuguesa -- define-o o próprio autor no Pórtico: "é a conquista do pão, a miragem do ouro -- um ouro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam."» «"A Selva", uma obra-prima"»,  Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho: «Daí o desalento que invadiu os companheiros ao verem o local onde fora sepultado Felício: a plantaria tudo desfigurara: "Não demoraram a partir, amofinados, silenciosos com aquela imagem que parecia lançar raízes desde os olhos até os canais respiratórios, dificultando-lhe o acesso do ar; aquela imagem que a floresta devoraria também em breve, transfigurando-a totalmente." (p. 139)» «"O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)  

Agustina Bessa Luís: «Imagens, reinos da memória, deliberação do próprio sentido da vida, tudo isso nesse momento percebi. Escrevi livros, encontrei muita gente; mas ninguém soube até hoje distinguir, como Ferreira de Castro distingue, entre o cansaço inóspito da terra, a ternura de uma estradinha clara, perdida no desenho de um velho mapa da infância, ali ao pé de nós e tão antiga.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Friday, April 17, 2026

dos «Pórticos»

«Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém nos perturbava a cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo de toda a nossa vida.»  A Volta ao Mundo (1940-44)

«No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem.» A Lã e a Neve (1947)

«Um dia, porém, o correio trouxe-nos uma carta. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro pediam-nos uma peça para o Teatro Nacional, que eles, então, dirigiam. Sem o saber, reparavam um velho sonho perdido, uma melancolia longínqua, pois fora justamente a um concurso aberto por aquele teatro, quando era outra a sua direcção, que tínhamos enviado uma peça no amanhecer da nossa vida literária -- uma peça que não fora representada.» A Curva da Estrada (1950)

Monday, March 23, 2026

"A Amazónia pelo olhar de escritores portugueses"


Conversas sobre Ferreira de Castro, com Ana Cristina Carvalho

 

Thursday, March 19, 2026

Friday, March 13, 2026

dos romances

«Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa. / -- Vamos? -- disse, dirigindo-se a Paco. E, aproximando-se mais, beijou Soriano na testa. / Nos últimos tempos esta cena tornara-se quotidiana, pois Mercedes e o sobrinho saíam juntos todas as noites, para o teatro, para o cinema, para casa de um e de outro amigo» A Curva da Estrada (1950)

«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada,  lhe pareceram mais amplas do que quando ela estava de pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» A Missão (1954)

Tuesday, March 10, 2026

o Marreta no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa

Cristiana Oliveira publicou no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, dirigido por Carlos Reis uma nova entrada, desta vez sobre o Marreta,. O velho operário anarquista de A Lã e a Neve. vem juntar-se a Horácio e Idalina

Outras duas importantes personagens de Ferreira de Castro figuram neste esplêndido trabalho colectivo: Manuel da Bouça, o protagonista de Emigrantes e Alberto, o anti-herói de A Selva, ambos da autoria de Paulo Geovane e Silva.


Horácio e Marreta, vistos por Molina Sánchez




Monday, February 23, 2026

traduções - PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES - Andorra

«Andorra ha estat sempre, en terra portuguesa i en tot Europa, un teler de smoriures. Per ser petita? Per haver-se conservat, a través dels segles, absorta, embalida, endormiscada en el seu bressol de muntanyes? Per ser ignorada? No sempre el que és gran és el més bonic, i la major fascinació resideix sempre en allò desconegut.» - trad. Joan Peruga, Petits Mons i Velles Civilitzacions -- Andorra, 1929 (2008)

«Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, ignorada, adormecida no seu berço de montanhas? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Friday, February 20, 2026

errâncias

«O estreito famoso não conta mais de doze quilómetros de largura. Quem vê, desprevenido, o curto passo de água, apenas com dois veleiros na soledade matinal, tarda a admitir a sua magna importância. E, todavia, é bem certo que deste pequeno e líquido traço de união depende a riqueza ou a miséria, a vitória ou a derrota, de muitos povos, de centenas de milhões de vidas.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como a considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: / -- Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não... Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a 25 quilómetros daqui. E lá, quem sabe! Só de Encamp em diante é que a estrada estará boa. Ele há um caminho para Soldeu, isso há; mas os automóveis não podem, agora, romper... / -- Porquê? -- interrogo, inquieto.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Santilhana do mar termina na estrada de Santander a Comilhas e vemos de novo árvores, camionetas que passam, ciclistas que se esforçam sobre a suas máquinas, um cão a coçar-se na valeta, uma rapariga sentada a vender fruta; quase sem transição, a vida reintegrou-se na nossa época.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Wednesday, February 04, 2026

outras palavras

«Inventei também umas andas, que eu escondia no monte, a meio do caminho da escola e sobre as quais regressava, radiante, a minha casa. Construí, com alguns condiscípulos, uma bicicleta de madeira, e desesperava-me pelos meus "papagaios" não subirem tão alto como um que eu vi na praia do Furadouro.» «Memórias» (1931)

«Junto deste homem de rosto longo, com uma barba romântica -- uma barba que parecia recortada duma personagem de velho romance francês -- uns olhos sempre congestionados e uma boca sempre ofegante -- já que o coração o matava sob todos os aspectos -- aprendia-se a ser bom.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Veio, este ano, o António da Zefa, que anda no peixe, em Lisboa; veio o Arturinho, que está de caixeiro no Porto, e veio o filho do Soares lavrador, que estuda, em Coimbra, para que a freguesia tenha a honra de dar também um doutor a Portugal.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)  

Tuesday, February 03, 2026

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «O autor, porém, não a sente acolhedora e materna, criação ou reflexo de Deus: é uma força monstruosa e adversa, empenha-se em destruir o que o Homem constrói; entre o Homem que, entregue a si mesmo, realiza a História, e a Natureza bruta, de vitalidade inexaurível, trava-se uma luta incessante.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Desejaria compensá-lo do desencanto que lhe proporciono nalgumas páginas dos meus livros, com o sincero aplauso pela sua obra, digna de reconhecimento, da glória de que desfruta e doutras maiores homenagens que o tempo lhe prepara. Lembro-me sempre, como duma coisa excelente na minha carreira, daquela leitura de A Selva na sala grande, os estores despedaçados pelo sol velando a explosiva audácia de eu me reconhecer também escritora.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Obra Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Ferreira de Castro, que logrou alcançar no ano findo um êxito de que raros justamente se podem orgulhar, pois viu traduzido para espanhol e italiano os Emigrantes, prova evidente de que o sucesso daquele soberbo romance ultrapassou as fronteiras do nosso país, Ferreira de Castro -- íamos dizendo -- sem se acolher à sombra dos louros ganhos, acaba de produzir um trabalho verdadeiramente assombroso de realismo, de emoção e de beleza!» «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Monday, February 02, 2026

dos pórticos

«Mas para bem se compreender as obras de arte da antiguidade, que documentam a evolução do homem e a civilização por ele penosamente criada, para extrair das suas formas, por vezes tão rudes e ingénuas, um motivo de admiração, é imensamente útil não só conhecer-lhes a história, mas também a terra onde se geraram e voltar a examiná-las depois, quando já pudermos integrá-las no seu meio original.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«E desta feita buscou pacientemente, nos antigos livros daquele escritório que tinha dois belos crótons bicolores em frente da janela e estava ainda como eu o havia frequentado, a minha conta ali, entre as de outros párias, a minha vida sintetizada em algarismos,. como é bom e corrente uso no mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.» O Instinto Supremo (1968) 

«Sabe-se que os nossos actos são fragmentos do todo que é a vida e do que nela persiste de herdado, folhas novas que não carecem de Primavera para suceder às velhas nos troncos e nos ramos onde circula a seiva vital. E neste caso fragmentos da minha vida literária, laudas adormecidas há muitos lustros e a amarelecer como as madeiras há muito cerradas.» Os Fragmentos (póst., 1974)

Thursday, January 29, 2026

dos romances

«Ele olhava e cada vez parecia mais perplexo. Por fim, voltou-se, como para se convencer de que não havia errado no caminho. Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.» A Experiência (1954)

«-- Vai pau! -- Num instante, a frase humanizara aquela alegoria de desvario. Todas as lâmpadas se apagaram, menos a do homem que a proferira. Mas logo outras três se reacenderam, à volta da árvore que ia tombar, e por ela os seus focos subiram até a copa, onde se fixaram como se pretendessem sustê-la com essas débeis escoras de luz.» O Instinto Supremo (1968)

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Tuesday, January 27, 2026

correspondências

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «Voluntariamente exilado na província, acompanho com o coração nas mãos os seus triunfos, a sua gloriosa carreira de homem de letras. E a cada livro seu que vejo anunciado, sucedem-se dias de impaciência febril pela chagada do carteiro, que mo trará, tenho a certeza, hoje ou amanhã, com uma dedicatória toda estima, uma dedicatória fraternal, uma dedicatória-recordação de saudosos tempos, que infelizmente já não voltarão.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): «Lx.ª 19 Set 1929 // Meu querido Castro: Recebi o seu postal, e apresso-me a responder-lhe, pedindo mais uma vez desculpa da minha falta involuntária; mas, como já lhe disse, adoeci em meados do mês findo, e continuo em tratamento. Para mais, o Lança adoeceu também, e eu fiquei só na secção, trabalhosa, como V. muito bem sabe.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../...«Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração. / Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a "massa" -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase uma renúncia (ou não?) // JM Ferreira de Castro» Correspondência (1922-1969) (1994)

Thursday, January 08, 2026

errâncias

«A estação do caminho-de-ferro e umas minas próximas sugerem, com as suas torres metálicas, os seus fios, as suas placas, a terra mexicana de onde se extrai o petróleo. / Informo-me sobre o caminho para Andorra. Vou, enfim, saber como posso atingir o original país, que novo paraíso deve ser pela dificuldade em o encontrar.»  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Sunday, January 04, 2026

traduções - CANÇÕES DA CÓRSEGA

«Chants de Corse»: «Mesdames, / Messieurs // En février de cette année, je me suis retrouvé brûlant de curiosité dans un froide glacial, à San Petru de Venacu, au coeur de la Corse. / Je m'étais rendu sur l'île avec l'intention d'oberver les coutumes et, si possible, la psychologie de ses habitants.» - trad. Eugène F.-X. Gherardi, Mondes en Petit et Vieilles Civilizations (Corse, 1934) (2023) 

Canções da Córsega: «Minhas Senhoras, / Meus Senhores: // Em Fevereiro deste ano* eu encontrava-me, com muito frio e muita curiosidade, em S. Pierre de Venaco, no coração da Córsega. / Tinha ido àquela ilha com a pretensão de observar os costumes e, se fosse possível, a psicologia do seu povo.» (1936)

* 1934.

Wednesday, December 17, 2025

dos romances

Subi à casa do Rebelo e leccionei-o sobre a forma de ele pôr a bom recato o nosso material. De armas e dinamite não tinha o Governo urgência alguma e a nós, futuramente, far-nos-iam falta; além disso, era escusado ele ir malhar com os ossos na cadeia.» O Intervalo (1936/1974) 

«Pouco depois, aqui, ali, mais além soavam os golpes dos machados, na noite já toda nervosa. Lâmpadas dispersas, iluminando os pés dos troncos, quase estáticas, dir-se-iam detidas para dar tempo a decifrar uma remota inscrição. Não se enxergava quem as sustinha, nem os homens que cortavam; só se viam os machados e as mãos, ora a sair, ora a mergulhar na sombra, como os insectos chamados ao farol que os matará.» O Instinto Supremo (1968)

«Porto Santo avolumara-se, revelando-se à curiosidade fugidia e perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico. As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade quanto modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muitas mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.» Eternidade (1933)

Friday, December 12, 2025

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Garditch lhe explicará melhor o que pode fazer e não estranhe os seus limitados conhecimentos de português, p.ª tradutor, pois tem amigos que o auxiliam nas traduções. Bastará, depois, passar à peneira [?] a prosa, p.ª q. fique escorreita. / Faça pelo nosso camarada o q. puder, como se o fizesse ao // seu camarada e admirador / mto obrigado / Jaime Brasil // Lx.ª 4/V/929» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../... «Para isso, talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer-lhe que a mim agradava muito que V. principiasse a a surgir nos jornais de Lisboa.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928): «Meu querido Ferreira de Castro // Recebi há dias -- há já bastantes dias mesmo -- o seu magnífico volume. E garanto-lhe que a satisfação que ele me trouxe está na razão inversa do tempo que eu tenho levado para, com um enternecido abraço, lho agradecer. Mas os afazeres são felizmente alguns, e esta tem sido a causa da demora, que lhe peço me perdoe.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Wednesday, December 10, 2025

outras palavras

«Mas entre tanta gente, de tão diferentes atmosferas morais, afectivas e mentais, poucos tenho encontrado como Delfim Guimarães. Junto deste homem de forte estatura, com um físico propício a esses lutadores que desejam triunfar esmagando tudo e todos, aprendia-se a não esmagar ninguém, a não triunfar à custa do sacrifício de alguém, a respeitar tudo e todos.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Apesar disso, deixei-me fascinar por um jogo infantil e roubei em casa uma colecção de botões, que era de grande estimação e que me valeu um severo castigo, logo repetido quando comecei a vender, ocultamente, para comprar fogos de S. João, várias lunetas que estavam guardadas na nossa velha escrivaninha.» «[Memórias]» (1931)

«O fiel amigo, com couves e batatas, é da tradição; quem tem mais posses frita, também, a sua rabanada. O vinho corre, rosado, transparente, sobretudo à hora do magusto, quando as castanhas estalam no fogo. / Cada lar parece viver isolado do mundo, sozinho no mundo, como se para lá das paredes negras de fuligem nada mais existisse.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

Tuesday, December 09, 2025

nas palavras dos outros

Agustina Bessa Luís (1966): «Eu aprendi, porém, que o valor dos homens de raça não é senão orgulho que acrescenta os nossos direitos a seguir-lhes os passos. Em muitas coisas me repreende Ferreira de Castro as zarandas da arte a que me conduz a consciência e a própria índole.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Se há livros que mereçam a classificação de notáveis, A Selva é, incontestavelmente, um deles. Pode mesmo afirmar-se que esta obra constitui o maior acontecimento literário desta temporada. «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) 

Jacinto do Prado Coelho (1976): «A função da Natureza é dupla. Fonte de emoção estética, deslumbra e intimida, ressoam nela vozes ancestrais, profundas, enigmáticas: ao cair da noite, "sobre ela parecia baixar, vinda dos tormentos iniciais do Universo, uma poesia épica, soturna e densa, que aguardaria apenas a hora de poder exprimir o inefável, de exprimi-lo dramaticamente, em vozes ou em ritmos como jamais alguém ouvira" (p. 143).» «O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro 

Thursday, December 04, 2025

dos Pórticos

«Atrai-nos, porém, o confronto entre aqueles a quem as ilhas tornam inquietos até a neurastenia, aos grandes desesperos íntimos e os que vivem apáticos, há muitos séculos, nos fundões dos continentes, que herdam a resignação, como se fosse uma tara, e parecem não atentar, sequer, no limite do seu muindo terreno. Para isso, e sem dar por isso, criaram um mundo psíquico particular, que nem sempre se revela ao primeiro contacto, mas que persiste, bem singular e nítido, para quem o analise com aguçadas pupilas.» Terra Fria (1934)

«São numerosas as folhas dobradas, duas pilhas quadrilongas, que guardam ainda, nos seus contornos, a forma dos estreitos albergues que as recolheram durante tanto tempo. Não ignoro, porém, que dentro de alguns dias, de todas elas restarão muito poucas. Quatro ou cinco anos sobre um trabalho meu bastam para me tornar o mais impiedoso, o mais exigente e implacável crítico de mim próprio.» Os Fragmentos (1974)

«Ninguém melhor do que você, que viu, com os seus próprios olhos, algumas das cenas a que me refiro, poderá dizer se vale ou não a pena publicar os meus apontamentos. No caso afirmativo, dou-lhe inteira liberdade para suprimir o inútil, afeiçoar o aproveitável e tornar compreensível tudo aquilo que eu não consegui, talvez, exprimir nitidamente.» O Intervalo (1936/1974)

Friday, November 14, 2025

errâncias

«Afinal demorou pouco. Mal esvaziamos a chávena fumegante, voltamos ao carro e mandamo-lo, enfim, correr para as grandes noites da espécie humana, que os homens contemporâneos não conseguiram ainda iluminar de todo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Nós vamos erguer, pela segunda vez, a nossa tenda na Grécia, que da primeira não quisemos escrever e ajuizar sobre tão multiforme terra, com tantas galas vestida, sem a termos observado novamente. De caminho, porém, deter-nos-emos em Gibraltar, Argel e Palermo, ligeiros ante-rostos do Mundo que vamos trilhar.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Arribo a Hospitalet uma hora depois. Lugarejo cor de lebre, com um pequeno hotel que desempenha ali, entre as patas das serranias, o papel das antigas mala-postas, tem um ambiente de Far-West, cenário de filme de aventuras americano.» (1929) Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Tuesday, November 04, 2025

outras palavras

«Eu era um bom aluno. Tinha, porém, uma vida triste e afastava-me quase sempre dos meus condiscípulos. Certos episódios, que os deixavam indiferentes, faziam-me sofrer o dia inteiro, sobretudo na solidão que eu buscava.» [«Memórias»] (1931)

«Nas velhas cozinhas, em redor da mesa e ao fulgor da lareira, agrupa-se a família. Os velhos e as velhas, remotas esculturas enegrecidas e cariadas pelo tempo; os filhos que estavam ausentes e que puderam vir e os que ainda andam fraldiqueiros a crescer.» «O Natal em Ossela» (1932-1974)

«Delfim Guimarães fazia parte desse pequeno número. Ele sabia criar um lugar de especial ternura na alma de todos aqueles que se lhe acercavam. / Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer...» «Delfim Guimarães» (1934)

Tuesday, October 28, 2025

nas palavras dos outros

Nogueira de Brito (1929): «Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho (1976): «Bem diferente do heroísmo da epopeia literária, amplificante, era este "heroísmo nos factos necessários, sem contágios excitadores, mesmo se a naturalidade que os três homens aparentavam fosse premeditada, mesmo que a sua audácia não se tivesse consumado sem largas e ferventes apreensões." (p. 158)» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966):  «Quando escrevemos sobre um camarada das letras, quase sempre exigimos que o que pode haver de triunfal na vida não se nos depare como conselho da inveja. Por isso só sabemos louvar os vivos com brandura, não aconteça acordarmos os nossos próprios corcéis competidores.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro - 1916/1966 (1967)

Monday, October 27, 2025

correspondências

(Ferreira de Castro a Roberto Nobre, 1925) .../... «Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: -- que o boneco  seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994) 

(José Dias Sancho a Ferreira de Castro, 1927) .../... «Meu caro amigo, devo dizer-lhe que estou verdadeiramente encantado com o seu "Voo". / V. sabe como sou sincero nas minhas opiniões. / A psicologia daquela pobre rapariga da "cave" está traçada a primor / "A Reconquista da Juventude" é uma deliciosa blague. / E na complicada metamorfose da obra de arte, a que V. chama "do escultor", é assim mesmo. / Mais uma vez: um abraço! / E escreva mais livros como este! // Disponha do adm.or e am.º obscuro // José Dias Sancho» 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

(Jaime Brasil a Ferreira de Castro, 1929) .../... «Ele poderia, por exemplo, traduzir-lhe p.ª lá qualquer novela do famoso escritor modernista russo Leonid Andréve, émulo de Dostoyevesky e de Gorki e a quem Kipling considera "o maior novelista dos últimos tempos". Esse homem tem as suas obras traduzidas em todas as línguas, menos, evidentemente, em português.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Friday, October 24, 2025

dos Pórticos

«Mais tarde, numa das suas deslocações sobre as veias da Amazónia, cujo mistério renasce logo após cada violação, como ressurge o do nosso corpo a seguir ao trânsito dos Raios X, você tornou a desembarcar no seringal Paraíso, pensando de novo em mim.» O Instinto Supremo (1968)

«Este livro explicar-te-á, porém, o nosso drama. É a nossa história que eu te ofereço aqui, a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente.» Eternidade (1933)

«Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para a fruição de uma minoria.» Emigrantes (1928) 

Wednesday, October 22, 2025

dos romances

«A pega, infatigável, ora procurando na terra, ora alçando-se à copa eleita, continuava a construir o ninho. Era já uma grande mancha, um grosso volume de pauzitos seguro entre os últimos ramos do pinheiro.» Emigrantes (1928)

«Os seus olhos evitavam encontrar o corpo adormecido de Cecília. Decidiu ir deitar-se na sala de jantar. Havia lá um velho divã e uma noite em qualquer parte se passava, sobretudo uma noite como aquela! Em seguida repeliu a decisão. "Devia proceder em tudo como de costume, senão a cabra, ladina como era, podia desconfiar. E, então, ele seria mais uma vez tomado por tolo."» A Tempestade (1940)

« -- Ao Chico de Baturité, a esse mulato mesmo sem vergonha, eu adiantei umas pelegas para ele se vestir e lhe tirei a barriga de misérias, porque aquela gente vive lá num chiqueiro. E foi assim que ele me pagou! O que vale é que o "Justo Chermont" larga amanhã. Porque se demorasse mais, o resto do pessoal era capaz de pôr-se também nas trancas.» A Selva (1930)

Wednesday, October 15, 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  esta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

Monday, September 29, 2025

outras palavras

«Nem da coruja que mora na igreja velha, escorropichadora de lâmpadas há um ror de anos, ele deixa hoje ouvir o sinistro uuu-gru-gru-gru. O vento domina tudo. O vale inteiro está transido pelo seu uivar. Quem ousa pôr a cabeça fora de porta numa noite destas, que é, ademais, para ser vivida em casa?» «O Natal em Ossela» (1972-1974)

«Mas, de tantas, só algumas saem da sombra onde jazem aqueles que conhecemos e se perderam de nós, levados pelas circunstâncias do destino. Só algumas, presentes ou ausentes, adquirem lugar próprio, convívio permanente com a nossa alma, criando uma amizade singular dentro do amor plural por toda a Humanidade.» «Delfim Guimarães» (1934) 

«Veio, depois, a inveja, a única que tive na minha vida: a de não ser igual aos outros, a de não possuir o seu à-vontade, a de não ter o sangue frio de que eles dispunham e graças ao qual brilhavam nas lições mais do que eu, embora soubessem muito menos.» [Memórias] (1931)]

Tuesday, September 23, 2025

errâncias

«E, contudo, estende-se, lá fora, um luar sortílego e um mar calmo, numa noite de maravilha propícia a fazer-nos sonhar com as mais belas coisas da vida. Mas o navio está cheio dessa inquietação que, hoje, tortura os homens, no planeta inteiro.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O carro desliza numa estrada branca, que ladeia, de quando em quando, o Ariège murmurante. A paisagem torna-se adusta. Começa a severidade das montanhas e os píncaros cobrem-se com grandes chapéus de bruma.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Não lhe dizemos que a pressa nos percorre as veias e nos queima como o fogo dentro do rastilho, mas a nossa expressão deve trair-nos, porque ela logo nos adverte: / --É preciso fazê-lo. Demora alguns minutos. / Resignamo-nos, que remédio! Como podemos dar, com plena satisfação, o novo passo sobre o tempo, se nos acompanhar, seco e impertinente, o vício insatisfeito?» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Friday, September 19, 2025

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «São heróis de carne e osso, homens com as suas fraquezas, os seus desânimos, os seus impulsos instintivos, e cuja própria grandeza se insere na mediania do quotidiano. "Tudo parecia estranhamente natural, quotidiano, acto comum. Nimuendaju, Raimundo e Carolina subiam agora a ribanceira, tranquilamente, como se viessem duma pesca mediana, nem farta em capturas, nem gorda em decepções."» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Depois distanciamo-nos noutros enlevos do género literário, noutras predicações e várzeas frias do conhecimento; mas a essência da voz humana que ressoa numa e noutra obra é a mesma. Vemos de súbito que ela se reconhece naquele encontro, num caminho poeirento e silencioso.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Nogueira de Brito (1928): «É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Thursday, September 18, 2025

correspondências

(Ferreira de Castro a Roberto Nobre, 1925) .../... «O Anahory, a quem mostrei o livro p.ª crianças que V. ilustrou, ficou bem impressionado. Para sossego da sua sensibilidade, devo dizer-lhe que isto não foi devido à minha retórica ou à minha amizade por si -- mas pelo seu próprio valor e pelo Anahory -- cá para nós -- precisar de mais um desenhador... Logo tratarei com ele sobre preços.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

(Jaime Brasil a Ferreira de Castro, 1929) «Meu caro Ferreira de Castro: // Deixe-me q. lhe apresente o nosso camarada Miodrag Garditch, q., como facilmente verá, é pessoa cultíssima e de inteligência lúcida. / Precisa de trabalhar e talvez o Ferreira de Castro possa dar-lhe alguma cousa a fazer p.ª «Civilização» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

(José Dias Sancho a Ferreira de Castro, 1927) .../... «Quero destacar, porém, a primeira novela, admirável, admirável, admirável, e a última. / Qualquer delas faria de per si a reputação de um autor. / Quanto ao título do livro, não gosto, por lembrar literatura de quiosque. E chamo-lhe a atenção para o lapso de alguns verbos que pedem complemento directo, virem seguidos de complemento indirecto. Um pouco de cuidado na revisão, remedeia isso. Fica a emenda para a 2.ª edição.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Wednesday, September 17, 2025

dos romances

«A mulher volvera à sua lembrança. Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar o chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio. Dir-se-ia que as suas pernas tinham, nessa hora, uma felicidade independente do tronco, todo um desejo de folgar que começava dos joelhos para baixo.» A Missão /1954)

«Idalina desviou ligeiramente os olhos para o cão e voltou a fixá-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silêncio e Horácio volveu ao tom de voz anterior:» A Lã e a Neve (1947)

«Subitamente, porém, Januário deteve-se e ergueu a vista para o edifício que se levantava na sua frente. Os presos estavam lá, as mãos fechadas sobre as barras de ferro, mas ele mal os fixou. Os seus olhos percorreram a fachada clara, de janelas e portas emolduradas em cantaria branca, fresca, tudo lembrando construção recente, como se procurassem  alguma coisa que se não via com facilidade, alguma coisa que não se encontrava na frontaria do edifício, iluminada pelo sol, mas nas negras profundezas da memória.» A Experiência (1954) 

Tuesday, September 16, 2025

dos Pórticos

«Era o nosso interesse pelo próprio homem, pelo seu drama biológico, pela inquietude do seu espírito e pelo seu progresso num planeta sempre hostil, que nos impelia a nós, que amamos a luz, as cores da vida ao ar livre e, sobretudo, o futuro, para essas soturnas galerias do passado onde se expõem, em vários museus do Mundo e num ambiente de mausoléu, as esculturas mesopotâmicas e egípcias, com o seu quê de vultos de pesadelo, mágicos e imobilizados, na penumbra que os cerca.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Quando um final de infância agitado me levou ao Amazonas, a minha aldeia nativa, aqui, em Portugal, de tão distante e envolta na nostalgia, parecia-me uma ilusão. Só os carimbos das cartas que eu recebia me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento -- de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do Atlântico.» A Selva (1930)

«No corpo pequenino, os nossos olhos, que haviam de ficar sempre tristes, esqueciam-se horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, September 10, 2025

traduções - TERRA FRIA

Terre Froide - «Sur sa monture, qui gravissait lentement le chemin pierreux, Léonardo ressassait d'intimes préoccupations. La vie devenait impossible! Les Galiciens gâchaient le métier, tantôt en payant tous les droits exigés par les douaniers, tantôt en allant dans le silence de la nuit passer les peaux en contreband encore pour vivre, mais le putois devenait une bête rare et on ne tuait pas un blaireau tous les jours.» - trad. Louise Delapierre (1948)

Tierra Fría - «Sobre el rocín, subiendo, despacio, el sendero pedregoso, Leonardo rumiaba íntimas irritaciones. No podía ser! Los gallegos estropeaban todo, ya pagando cuantos arbitrios exigían los aduaneros, ya saliendo, en el secreto de la noche, a hacer contrabando de pieles. Si aparecieran muchas de tejón y de topo, en las que se sacaba mayor ganacia, aún se pdría ir viviendo. Pero no.» - trad. Eugenia Serrano (1946)

Terra Fria -  «Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas-fiscais lhes exigiam, quer andando, na calada da noite, a fazer contrabando de peles. Ainda se aparecessem muitas de texugo e de tourão, em que os ganhos pingavam mais, sempre se poderia ir vivendo. Mas não.» Terra Fria (1934)

Terra Fria está traduzido em alemão, castelhano, checo, flamengo e francês.