Wednesday, September 16, 2026

Da recepção de A LÃ E A NEVE (1)

 

                                                                                    Os escritores realmente grandes são aqueles

 em que cada época pode encontrar aquilo que mais a interessa.

(Lúcia Miguel Pereira)

 

         A Lã e a Neve (1947), extraordinário romance português do século XX, é, por isso mesmo, também considerado um dos melhores de Ferreira de Castro – ele, que, desde Emigrantes (1928) não escreveu um livro que possa ser considerado menor; e não por acaso, saliente-se, A Lã e a Neve é a segunda obra de Ferreira de Castro mais traduzida, depois de A Selva (1930).[1]

(1) Ver Ricardo António Alves, Museu Ferreira de Castro – Catálogo, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Rede Portuguesa de Museus, s.d.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Tuesday, September 15, 2026

R de 'Reco'

 

«Ganhando tão pouco, nem um reco sequer conseguiria sustentar.» 

Terra Fria (1934)

Monday, September 14, 2026

A LÃ E A NEVE: a História escreve-se no presente (1)

 

1. O romance depois de O Intervalo, a literatura de viagens e A Tempestade

Nas décadas de 1930 e 1940, a arte portuguesa, em especial a Literatura, conheceu um forte embate ideológico cujas posições extremadas podem grosseiramente ser bipolarizadas pelos partidários da arte pela arte, por um lado, e os da arte útil, por outro, num velho enfrentamento que vinha já do século XIX, tomando, com a ascensão dos fascismos, do triunfo do comunismo soviético e da eclosão da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial, enorme acuidade entre os criadores. De um lado, os que defendiam que a arte valia por si só, não devendo servir nenhuma causa, sob o perigo de se vender e/ou falsear; do outro, aqueles que não concebiam que a arte pudesse estar ausente das preocupações, das angústias e do destino dos homens. Foi uma contenda longa e, por vezes, entrincheirada, que, por esses anos, tinha vários protagonistas de primeiro plano.

( Do livro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Friday, September 11, 2026

P de 'Paisagem'

«O escuro da paisagem acidentada vista até ali, descendo vertentes, elevando-se em montanhas e formando irregular conjunto de saliências, quedas e desvãos, ia clareando em verde, cada vez mais ameno, em policromia mais deslumbrante cada vez.» 

Eternidade (1933)

Thursday, September 10, 2026

Preconceito e orgulho em A TEMPESTADE (1)

 

Desde que uma obra de arte seja bela é, desde logo, duma utilidade social, independentemente da sua ética.

(Roberto Nobre)

     Publicado em 1940 pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) e A Volta ao Mundo (1940-44), em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

N de 'Nojoso'

«O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico.» 

A Tempestade (1940)

Wednesday, September 09, 2026

M de 'Mar'

«Atrás de mim, alargava-se o Atlântico, cujo rumorejar dir-se-ia um riso surdo, irónico, com uma baba de desprezo pela minha ambição a refazer-se constantemente, espumosa e branca, sobre a crista das suas ondas; em frente, o outro mar, o mar, um mar verde, que se estendia por milhares de quilómetros, desde ali, até às longínquas fronteiras do Peru e da Bolívia, severo, misterioso e imóvel.» 

«Pequena história de "A Selva"» (1955)

Monday, September 07, 2026

ETERNIDADE: canto de morte e de amor (1)

1. Contrição. Eternidade, romance de Ferreira de Castro, publicado em 1933 pela Guimarães – o primeiro na que seria a sua editora de referência –, tem um lugar particular na tábua bibliográfica do escritor. Situado entre A Selva (1930) e Terra Fria (1934), Eternidade pode(ria) desiludir em leitura inicial, efectuada por esta ordem cronológica, como sucedeu ao autor destas linhas nos idos de 1990. Duas décadas de experiência de vida a menos, e um vício de leitura que habitualmente procurava nos livros algo que não teria de lá estar (no caso, a Revolução da Madeira de 1931), fez com que, temerariamente – ressalvando o célebre «Pórtico» e a intenção subjacente – o qualificasse como «um romance falhado»1. À primeira releitura, anos mais tarde, apercebeu-se da falha de avaliação; nova leitura tornou-lhe evidente que teria de reparar o disparate. É o que se vai tentar.

1Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo – Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p. 51.

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, September 06, 2026

L de 'Literatura'

«Eu pensava e penso que sem a Literatura – não a minha, evidentemente, mas a Literatura em geral – que foi sempre, no seu conjunto, espelho fiel, como nenhum outro, dos sentimentos e inquietações duma época, não se pode oferecer ao futuro um panorama exacto do nosso tempo.» 

Do «Pórtico» de A Tempestade (1940)

TERRA FRIA, 17.ª

 


Edição Cavalo de Ferro, Lisboa, 2026
Capa:Duarte Lázaro

Friday, September 04, 2026

I de "Inutilidade"

«Fora preciso que Helena morresse, que a vida o atraiçoasse, matando-a prematuramente, para que ele sentisse a inutilidade de todo o esforço e se comovesse perante o labor que os outros realizavam, mesmo os que não possuíam crença alguma.» 

Eternidade (1933)

Thursday, September 03, 2026

H de 'Herói'

«Sob o hábito dum presidiário pulsa sempre o coração dum herói.» 

Mas… (1921)

Wednesday, September 02, 2026

A SELVA como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Carlos Drummond de Andrade)


Pensar n’A Selva trouxe-nos à ideia um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, do livro A Rosa do Povo (1945): «É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.»1 A Selva, de Ferreira de Castro, é um grande e belo livro sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.

1Carlos Drummond de Andrade, «», 65 Anos de Poesia, ed. Arnaldo saraiva, 2.ª ed., Lisboa, o jornal,

Do livro a publicar, Sobre e à volta de Ferreira de Castro

Sunday, August 30, 2026

G de 'Guerra'

«É toda a Assíria cruel e guerreira, que cultivava, em vez da agricultura, os assaltos, o sangue e a morte, que está sintetizada nestas remotas pedras pelo génio de alguns dos seus artistas.» 

Do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, August 28, 2026

Da selva à SELVA (1)

Não há, na literatura portuguesa, outro romance como A Selva. Não há, pelo que encerra enquanto narrativa, nenhum outro que captasse a Natureza desta forma, ou obtivesse uma tão rápida difusão internacional.

Do libro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

F de 'Farejar'

«Pareceu-lhe, porém, que Januária farejava na alma dele, pois ao topar os seus olhos vira-os com uma expressão incerta, vagamente pesquisadora, que não lhe conhecia.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, August 27, 2026

No mar com os olhos postos em terra; capas e ilustrações de EMIGRANTES, de Ferreira de Castro (1928-1966) (1)

 cada vez mais azul onde o azul clarece em azul

(João Miguel Fernandes Jorge)

1. Significado de Emigrantes, de Ferreira de Castro. A emigração, enquanto fenómeno social, é um tópico caracterizador da vida do país, acentuado com a independência do Brasil e estimulada pelo fim da escravatura (1888), a procura de mão-de-obra para as culturas do algodão e do café, a que se junta, especialmente no Norte, um crescimento populacional em face da melhoria das condições de vida, que, no entanto, a economia não lograva absorver. Joel Serrão foi definitivo, sustentando tratar-se de «feição estrutural da sociedade portuguesa, moldada por séculos de história»1. No ano em que Ferreira de Castro nasce (1898), Sampaio Bruno, em O Brasil Mental alertava para o «tremendo quadro […] do êxodo colectivo»2; e Vitorino Magalhães Godinho utiliza palavras como sangria, debandada e fuga, referindo-se à saída de portugueses em busca de futuro como uma «torrente caudalosa».3

1Joel Serrão, «A emigração para o Brasil na segunda metade do século XIX – Esboço de problematização», Temas Oitocentistas – I, Lisboa, Livros Horizonte, 1980, p. 164.

2 Sampaio Bruno, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.o, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.

3Vitorino Magalhães Godinho, Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, 4,ª ed., Lisboa, Editora Arcádia, 1980, p. 47.

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro.

Tuesday, August 25, 2026

E de 'Embrulhada'

«O Bagatelle havia compreendido que aquela pergunta se alargava para fora da curiosidade corrente, pois alguma coisa a mais viera embrulhada com as palavras; e, pousando a lata sobre o telhado, aguardou, respeitoso.» 

A Missão (1954)

EMIGRANTES, uma bernarda no romance português (1)

Pus o meu sonho num navio

(Cecília Meireles)

1. Romance fundamental de Ferreira de Castro, Emigrantes, publicado em 1928, inicia uma nova fase do seu percurso – como já foi notado por diversos autores –, sendo os títulos publicados anteriormente (1916-1927) eliminados da tábua bibliográfica do escritor. Representa, também, na história da literatura, uma viragem dentro do romance social português, evoluindo do realismo naturalista ou regionalista para um realismo social, que será assumido pela geração seguinte, chamada neo-realista, com contornos políticos e ideológicos mais rígidos e definidos, não deixando de inovar também formalmente, nomeadamente na técnica narrativa, como notado por Carlos J. F. Jorge, por ocasião do I Centenário do nascimento de Ferreira de Castro, num colóquio organizado na Sociedade da Língua Portuguesa, por Isabel Roboredo Seara, em 14 de Maio de 1998.1

1Carlos J. F. Jorge, «Lugares do idílio e espaços do exílio nos primeiros romances de Ferreira de Castro», Língua a Cultura, II série - #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, Jan.-Jun. 1998, pp. 83-95; incluído em Ferreira de Castro: A Violência da Natureza e dos Confrontos Sociais, Ossela, CEFC-Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2025.

(Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro)


Monday, August 24, 2026

D de 'Desconhecido'

«Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)