Sunday, August 30, 2026

G de 'Guerra'

«É toda a Assíria cruel e guerreira, que cultivava, em vez da agricultura, os assaltos, o sangue e a morte, que está sintetizada nestas remotas pedras pelo génio de alguns dos seus artistas.» 

Do «Pórtico» de As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, August 28, 2026

Da selva à SELVA (1)

Não há, na literatura portuguesa, outro romance como A Selva. Não há, pelo que encerra enquanto narrativa, nenhum outro que captasse a Natureza desta forma, ou obtivesse uma tão rápida difusão internacional.

Do libro a publicar: Sobre e à volta de Ferreira de Castro

F de 'Farejar'

«Pareceu-lhe, porém, que Januária farejava na alma dele, pois ao topar os seus olhos vira-os com uma expressão incerta, vagamente pesquisadora, que não lhe conhecia.» 

A Lã e a Neve (1947)

Thursday, August 27, 2026

No mar com os olhos postos em terra; capas e ilustrações de EMIGRANTES, de Ferreira de Castro (1928-1966) (1)

 cada vez mais azul onde o azul clarece em azul

(João Miguel Fernandes Jorge)

1. Significado de Emigrantes, de Ferreira de Castro. A emigração, enquanto fenómeno social, é um tópico caracterizador da vida do país, acentuado com a independência do Brasil e estimulada pelo fim da escravatura (1888), a procura de mão-de-obra para as culturas do algodão e do café, a que se junta, especialmente no Norte, um crescimento populacional em face da melhoria das condições de vida, que, no entanto, a economia não lograva absorver. Joel Serrão foi definitivo, sustentando tratar-se de «feição estrutural da sociedade portuguesa, moldada por séculos de história»1. No ano em que Ferreira de Castro nasce (1898), Sampaio Bruno, em O Brasil Mental alertava para o «tremendo quadro […] do êxodo colectivo»2; e Vitorino Magalhães Godinho utiliza palavras como sangria, debandada e fuga, referindo-se à saída de portugueses em busca de futuro como uma «torrente caudalosa».3

1Joel Serrão, «A emigração para o Brasil na segunda metade do século XIX – Esboço de problematização», Temas Oitocentistas – I, Lisboa, Livros Horizonte, 1980, p. 164.

2 Sampaio Bruno, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.o, O Brasil Mental [1898], Porto, Lello Editores, 1997, p. 287.

3Vitorino Magalhães Godinho, Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, 4,ª ed., Lisboa, Editora Arcádia, 1980, p. 47.

Do livro a publicar: Sobre e à Volta de Ferreira de Castro.

Tuesday, August 25, 2026

E de 'Embrulhada'

«O Bagatelle havia compreendido que aquela pergunta se alargava para fora da curiosidade corrente, pois alguma coisa a mais viera embrulhada com as palavras; e, pousando a lata sobre o telhado, aguardou, respeitoso.» 

A Missão (1954)

EMIGRANTES, uma bernarda no romance português (1)

Pus o meu sonho num navio

(Cecília Meireles)

1. Romance fundamental de Ferreira de Castro, Emigrantes, publicado em 1928, inicia uma nova fase do seu percurso – como já foi notado por diversos autores –, sendo os títulos publicados anteriormente (1916-1927) eliminados da tábua bibliográfica do escritor. Representa, também, na história da literatura, uma viragem dentro do romance social português, evoluindo do realismo naturalista ou regionalista para um realismo social, que será assumido pela geração seguinte, chamada neo-realista, com contornos políticos e ideológicos mais rígidos e definidos, não deixando de inovar também formalmente, nomeadamente na técnica narrativa, como notado por Carlos J. F. Jorge, por ocasião do I Centenário do nascimento de Ferreira de Castro, num colóquio organizado na Sociedade da Língua Portuguesa, por Isabel Roboredo Seara, em 14 de Maio de 1998.1

1Carlos J. F. Jorge, «Lugares do idílio e espaços do exílio nos primeiros romances de Ferreira de Castro», Língua a Cultura, II série - #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, Jan.-Jun. 1998, pp. 83-95; incluído em Ferreira de Castro: A Violência da Natureza e dos Confrontos Sociais, Ossela, CEFC-Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2025.

(Do livro a publicar Sobre e à volta de Ferreira de Castro)


Monday, August 24, 2026

D de 'Desconhecido'

«Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.» 

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Saturday, August 22, 2026

C de 'Café'

«Na Idade Média, a Europa desconhecia a bebida negra e estimulante, boa companheira, inimiga dos nervos frouxos e das noites de chumbo; e, mesmo que a conhecesse, nunca os aristocratas de Santilhana sairiam dos seus palácios, tão adornados de panóplias como de preconceitos de castas, para irem amesendar-se na sala democrática dum Café, onde se compra a igualdade humana por alguns níqueis apenas.»  

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (20, e final)

Finalmente, a pergunta: está Ferreira de Castro entre os vencedores de todo o século XX? 

Só há escritores vivos com leitores e procura pelos seus livros. A maioria desaparece, tragada pelo tempo. Se olharmos para o século XIX, a partir do romantismo, quem são os vencedores desse século, claramente? Almeida Garrett, que escreve como se fosse ontem; assim como Júlio Dinis; Eça de Queirós acabou de escrever agora mesmo, tal como Cesário Verde; Camilo ainda nos faz pasmar e rir; António Nobre continua a emocionar e embalar; Herculano e Antero, grandes, brônzeos, inescapáveis enquanto houver língua e literatura em português. Há outros? Claro que há, a começar por Oliveira Martins, mas estão desaparecidos das livrarias, é como se não existissem.  

A minha resposta é então sim, claro -- basta ver as sucessivas reedições de toda a obra desde 1974. Tem leitores, tem procura, existe, sem precisar de apoios (mais ou menos desastrados) do Estado para fingir que nos preocupamos, mesmo quando os livros, infelizmente, teimem em não deixar os armazéns.

O facto de nós estarmos aqui, hoje [XII Encontros Ferreira de Castro, Vale de Cambra, 24-V-2026], é prova disso. Mas é o Século XXI que agora interessa, saber se se revê no que Ferreira de Castro escreveu e como o escreveu 

Friday, August 21, 2026

B de 'Badalar'

«Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar no chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio.» 

A Missão (1954)

Thursday, August 20, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (19)

A terceira observação é sobre o próprio Nemésio (1901-1978). Então com a mesma idade de Régio (49 anos), não só não se podia mencionar a si mesmo, como, para o fazer, teria de provocar mais uma entorse ao esquema que montara. Do que não tenho grandes dúvidas é de que tal como o Brandão que não aparece, também ele pode e deve ser tido como um dos mais representativos escritores portugueses de todo o Século XX, para usar a terminologia de partida.

Tuesday, August 18, 2026

A de 'Admiração'

«Há indivíduos que têm necessidade de ser admirados: – como porcos têm necessidade da lama.»

Mas... (1921)

Monday, August 17, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (18)

A segunda nota vai para a surpreendente ausência de uma mínima referência a Raul Brandão (1867-1930) -- escritor a que Nemésio não foi absolutamente indiferente –, até porque se ele já então seria um vencedor do meio século, hoje, quase cem anos após a sua morte percebemos que ele não é apenas um dos vencedores do século inteiro, como é um dos que disputa o pódio.

Sunday, August 16, 2026

Z de 'Zape-zape'

«Ela não respondia, sempre lesta no seu passo curto, zape-zape ladeira abaixo.» 

A Lã e a Neve (1947)

Saturday, August 15, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (17)

Três observações, para terminar: A primeira constata e vai ao encontro da minha avaliação, que vê em Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro os maiores romancistas portugueses da primeira metade do século; Régio foi também um importante romancista – e Castro salientava sempre essa condição do autor do Jogo da Cabra-Cega --, mas foi igualmente poeta, ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e mais; Régio nunca poderá ser considerado só um determinado tipo de escritor, uma vez que foi grande em todas as áreas da literatura; já Torga, que também romancista foi (tenho de fazer um esforço para o lembrar), é indubitavelmente um dos maiores poetas portugueses do século XX e também um dos seus mais importantes contistas.

Thursday, August 13, 2026

V de 'Vale de Ossela'


«Desse
 bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem.» 

do «Pórtico» de A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, August 12, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (16)

Visto a 76 anos de distância, olhando para trás, não me parece que Nemésio se tenha enganado: se quiséssemos falar só do romance, escritores mais novos, mas já com uma obra apreciável,– lembremos Alves Redol (1911-1969) ou Vergílio Ferreira (1916-1996), respectivamente com 39 e 34 anos -- tinham ainda muito para dar ; e o mesmo poderia dizer-se de Castro (1898-1974), com 52 anos; Régio (1901-1969), com 49 e Torga (1907-1995), com 43, embora não estivessem de modo nenhum acabados – longe disso! –, já tinham garantido, então como hoje esse lugar de escritores fundamentais da primeira metade do século XX.

Thursday, August 06, 2026

T de 'Taque-taque'


«Nem
estoiro de bomba, taque-taque de metralhadora, nem ruído de veículos ou de patas de cavalo.» 

O Intervalo (1936; n'Os Fragmentos, 1974)

Wednesday, August 05, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (15)

Finalmente – e de forma mais sucinta --, a prosa de ficção. Escreve Nemésio que «fica afirmado e principesco, o nome de Aquilino Ribeiro.» -- natural e pacificamente escolhido, pois também este encaixava nas exigências determinadas pelo romancista de Mau Tempo no Canal, nomeadamente quanto à idade, consistência e coerência da obra, bem como «à intensidade e à densidade da expressão».

E, aparentemente o de mais ninguém – o que irá forçar Nemésio a violar as próprias regras, ao destacar, como o próprio escreve, quarentões e cinquentões, para que a prosa de ficção não fique agonicamente desfalcada; e assim adiante que àquela altura do campeonato – meio século de balanço da literatura portuguesa – já se podia «esboçar o apuramento da grandeza pelo balanço do realizado. Ferreira de Castro, José Régio e Miguel Torga, creio conciliarem com justiça e sem grande discrepância uma elegibilidade manifesta.»

Monday, August 03, 2026

S de 'Santillana del Mar'

«Cidade medieval, esquecida do tempo, sem graves mutilações, sem pedras injuriadas, dir-se-á recém-saída de colossal redoma, que lhe conservou todo o seu carácter antigo.» 

As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)