Tuesday, October 28, 2025

nas palavras dos outros

Nogueira de Brito (1929): «Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho (1976): «Bem diferente do heroísmo da epopeia literária, amplificante, era este "heroísmo nos factos necessários, sem contágios excitadores, mesmo se a naturalidade que os três homens aparentavam fosse premeditada, mesmo que a sua audácia não se tivesse consumado sem largas e ferventes apreensões." (p. 158)» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966):  «Quando escrevemos sobre um camarada das letras, quase sempre exigimos que o que pode haver de triunfal na vida não se nos depare como conselho da inveja. Por isso só sabemos louvar os vivos com brandura, não aconteça acordarmos os nossos próprios corcéis competidores.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro - 1916/1966 (1967)

Monday, October 27, 2025

correspondências

(Ferreira de Castro a Roberto Nobre, 1925) .../... «Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: -- que o boneco  seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994) 

(José Dias Sancho a Ferreira de Castro, 1927) .../... «Meu caro amigo, devo dizer-lhe que estou verdadeiramente encantado com o seu "Voo". / V. sabe como sou sincero nas minhas opiniões. / A psicologia daquela pobre rapariga da "cave" está traçada a primor / "A Reconquista da Juventude" é uma deliciosa blague. / E na complicada metamorfose da obra de arte, a que V. chama "do escultor", é assim mesmo. / Mais uma vez: um abraço! / E escreva mais livros como este! // Disponha do adm.or e am.º obscuro // José Dias Sancho» 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

(Jaime Brasil a Ferreira de Castro, 1929) .../... «Ele poderia, por exemplo, traduzir-lhe p.ª lá qualquer novela do famoso escritor modernista russo Leonid Andréve, émulo de Dostoyevesky e de Gorki e a quem Kipling considera "o maior novelista dos últimos tempos". Esse homem tem as suas obras traduzidas em todas as línguas, menos, evidentemente, em português.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Friday, October 24, 2025

dos Pórticos

«Mais tarde, numa das suas deslocações sobre as veias da Amazónia, cujo mistério renasce logo após cada violação, como ressurge o do nosso corpo a seguir ao trânsito dos Raios X, você tornou a desembarcar no seringal Paraíso, pensando de novo em mim.» O Instinto Supremo (1968)

«Este livro explicar-te-á, porém, o nosso drama. É a nossa história que eu te ofereço aqui, a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente.» Eternidade (1933)

«Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para a fruição de uma minoria.» Emigrantes (1928) 

Wednesday, October 22, 2025

dos romances

«A pega, infatigável, ora procurando na terra, ora alçando-se à copa eleita, continuava a construir o ninho. Era já uma grande mancha, um grosso volume de pauzitos seguro entre os últimos ramos do pinheiro.» Emigrantes (1928)

«Os seus olhos evitavam encontrar o corpo adormecido de Cecília. Decidiu ir deitar-se na sala de jantar. Havia lá um velho divã e uma noite em qualquer parte se passava, sobretudo uma noite como aquela! Em seguida repeliu a decisão. "Devia proceder em tudo como de costume, senão a cabra, ladina como era, podia desconfiar. E, então, ele seria mais uma vez tomado por tolo."» A Tempestade (1940)

« -- Ao Chico de Baturité, a esse mulato mesmo sem vergonha, eu adiantei umas pelegas para ele se vestir e lhe tirei a barriga de misérias, porque aquela gente vive lá num chiqueiro. E foi assim que ele me pagou! O que vale é que o "Justo Chermont" larga amanhã. Porque se demorasse mais, o resto do pessoal era capaz de pôr-se também nas trancas.» A Selva (1930)

Wednesday, October 15, 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  esta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

Monday, September 29, 2025

outras palavras

«Nem da coruja que mora na igreja velha, escorropichadora de lâmpadas há um ror de anos, ele deixa hoje ouvir o sinistro uuu-gru-gru-gru. O vento domina tudo. O vale inteiro está transido pelo seu uivar. Quem ousa pôr a cabeça fora de porta numa noite destas, que é, ademais, para ser vivida em casa?» «O Natal em Ossela» (1972-1974)

«Mas, de tantas, só algumas saem da sombra onde jazem aqueles que conhecemos e se perderam de nós, levados pelas circunstâncias do destino. Só algumas, presentes ou ausentes, adquirem lugar próprio, convívio permanente com a nossa alma, criando uma amizade singular dentro do amor plural por toda a Humanidade.» «Delfim Guimarães» (1934) 

«Veio, depois, a inveja, a única que tive na minha vida: a de não ser igual aos outros, a de não possuir o seu à-vontade, a de não ter o sangue frio de que eles dispunham e graças ao qual brilhavam nas lições mais do que eu, embora soubessem muito menos.» [Memórias] (1931)]

Tuesday, September 23, 2025

errâncias

«E, contudo, estende-se, lá fora, um luar sortílego e um mar calmo, numa noite de maravilha propícia a fazer-nos sonhar com as mais belas coisas da vida. Mas o navio está cheio dessa inquietação que, hoje, tortura os homens, no planeta inteiro.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O carro desliza numa estrada branca, que ladeia, de quando em quando, o Ariège murmurante. A paisagem torna-se adusta. Começa a severidade das montanhas e os píncaros cobrem-se com grandes chapéus de bruma.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Não lhe dizemos que a pressa nos percorre as veias e nos queima como o fogo dentro do rastilho, mas a nossa expressão deve trair-nos, porque ela logo nos adverte: / --É preciso fazê-lo. Demora alguns minutos. / Resignamo-nos, que remédio! Como podemos dar, com plena satisfação, o novo passo sobre o tempo, se nos acompanhar, seco e impertinente, o vício insatisfeito?» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Friday, September 19, 2025

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «São heróis de carne e osso, homens com as suas fraquezas, os seus desânimos, os seus impulsos instintivos, e cuja própria grandeza se insere na mediania do quotidiano. "Tudo parecia estranhamente natural, quotidiano, acto comum. Nimuendaju, Raimundo e Carolina subiam agora a ribanceira, tranquilamente, como se viessem duma pesca mediana, nem farta em capturas, nem gorda em decepções."» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Depois distanciamo-nos noutros enlevos do género literário, noutras predicações e várzeas frias do conhecimento; mas a essência da voz humana que ressoa numa e noutra obra é a mesma. Vemos de súbito que ela se reconhece naquele encontro, num caminho poeirento e silencioso.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Nogueira de Brito (1928): «É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Thursday, September 18, 2025

correspondências

(Ferreira de Castro a Roberto Nobre, 1925) .../... «O Anahory, a quem mostrei o livro p.ª crianças que V. ilustrou, ficou bem impressionado. Para sossego da sua sensibilidade, devo dizer-lhe que isto não foi devido à minha retórica ou à minha amizade por si -- mas pelo seu próprio valor e pelo Anahory -- cá para nós -- precisar de mais um desenhador... Logo tratarei com ele sobre preços.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

(Jaime Brasil a Ferreira de Castro, 1929) «Meu caro Ferreira de Castro: // Deixe-me q. lhe apresente o nosso camarada Miodrag Garditch, q., como facilmente verá, é pessoa cultíssima e de inteligência lúcida. / Precisa de trabalhar e talvez o Ferreira de Castro possa dar-lhe alguma cousa a fazer p.ª «Civilização» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

(José Dias Sancho a Ferreira de Castro, 1927) .../... «Quero destacar, porém, a primeira novela, admirável, admirável, admirável, e a última. / Qualquer delas faria de per si a reputação de um autor. / Quanto ao título do livro, não gosto, por lembrar literatura de quiosque. E chamo-lhe a atenção para o lapso de alguns verbos que pedem complemento directo, virem seguidos de complemento indirecto. Um pouco de cuidado na revisão, remedeia isso. Fica a emenda para a 2.ª edição.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Wednesday, September 17, 2025

dos romances

«A mulher volvera à sua lembrança. Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar o chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio. Dir-se-ia que as suas pernas tinham, nessa hora, uma felicidade independente do tronco, todo um desejo de folgar que começava dos joelhos para baixo.» A Missão /1954)

«Idalina desviou ligeiramente os olhos para o cão e voltou a fixá-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silêncio e Horácio volveu ao tom de voz anterior:» A Lã e a Neve (1947)

«Subitamente, porém, Januário deteve-se e ergueu a vista para o edifício que se levantava na sua frente. Os presos estavam lá, as mãos fechadas sobre as barras de ferro, mas ele mal os fixou. Os seus olhos percorreram a fachada clara, de janelas e portas emolduradas em cantaria branca, fresca, tudo lembrando construção recente, como se procurassem  alguma coisa que se não via com facilidade, alguma coisa que não se encontrava na frontaria do edifício, iluminada pelo sol, mas nas negras profundezas da memória.» A Experiência (1954) 

Tuesday, September 16, 2025

dos Pórticos

«Era o nosso interesse pelo próprio homem, pelo seu drama biológico, pela inquietude do seu espírito e pelo seu progresso num planeta sempre hostil, que nos impelia a nós, que amamos a luz, as cores da vida ao ar livre e, sobretudo, o futuro, para essas soturnas galerias do passado onde se expõem, em vários museus do Mundo e num ambiente de mausoléu, as esculturas mesopotâmicas e egípcias, com o seu quê de vultos de pesadelo, mágicos e imobilizados, na penumbra que os cerca.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Quando um final de infância agitado me levou ao Amazonas, a minha aldeia nativa, aqui, em Portugal, de tão distante e envolta na nostalgia, parecia-me uma ilusão. Só os carimbos das cartas que eu recebia me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento -- de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do Atlântico.» A Selva (1930)

«No corpo pequenino, os nossos olhos, que haviam de ficar sempre tristes, esqueciam-se horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, September 10, 2025

traduções - TERRA FRIA

Terre Froide - «Sur sa monture, qui gravissait lentement le chemin pierreux, Léonardo ressassait d'intimes préoccupations. La vie devenait impossible! Les Galiciens gâchaient le métier, tantôt en payant tous les droits exigés par les douaniers, tantôt en allant dans le silence de la nuit passer les peaux en contreband encore pour vivre, mais le putois devenait une bête rare et on ne tuait pas un blaireau tous les jours.» - trad. Louise Delapierre (1948)

Tierra Fría - «Sobre el rocín, subiendo, despacio, el sendero pedregoso, Leonardo rumiaba íntimas irritaciones. No podía ser! Los gallegos estropeaban todo, ya pagando cuantos arbitrios exigían los aduaneros, ya saliendo, en el secreto de la noche, a hacer contrabando de pieles. Si aparecieran muchas de tejón y de topo, en las que se sacaba mayor ganacia, aún se pdría ir viviendo. Pero no.» - trad. Eugenia Serrano (1946)

Terra Fria -  «Sobre a montada, subindo, devagar, a trilha pedregosa, Leonardo esmoía íntimas irritações. Não podia ser! Os galegos estragavam tudo, quer pagando quantos direitos os guardas-fiscais lhes exigiam, quer andando, na calada da noite, a fazer contrabando de peles. Ainda se aparecessem muitas de texugo e de tourão, em que os ganhos pingavam mais, sempre se poderia ir vivendo. Mas não.» Terra Fria (1934)

Terra Fria está traduzido em alemão, castelhano, checo, flamengo e francês.

Tuesday, August 26, 2025

dos romances

«Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para os elementos do Partido Radical. / Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda.» A Curva da Estrada (1950) 

«Mas já se ouvia uma voz de mando, a de Amaro, baixa e curta. E rapidamente brilharam as lâminas dos terçados, seguindo as indicações das lâmpadas e rasgando as primeiras sendas, que lembravam minas a furar a tremenda espessura da brenha.» O Instinto Supremo (1968)

«Logo, metendo a direita no bolso, onde guardava o revólver, estendeu a esquerda e ajudou-o. / Lá de cima, alguns dos presos, lavrados de curiosidade e de comentários sarcásticos, viram-nos principiar a andar -- um atrás do outro. Marchavam com naturalidade, nem depressa, nem devagar, no ritmo de funcionários que chegam a horas ao seu emprego.» A Experiência (1954)

Monday, August 25, 2025

dos «Pórticos»

«Nas margens do Nilo, o felá, desgraçado campónio, trabalhava a gleba, no país onde a miséria e a servidão imperam e o chicote do árabe forte é, ainda hoje, o argumento contra o patrício débil.» A Tempestade (1940)

«O homem viera para ali há muitos séculos, mas poucos tinham sido e poucos eram ainda os que levantavam o seu abrigo de granito nos sítios mais propícios; e quando o faziam, achegavam-se uns aos outros, como se se quisessem defender da bruteza circundante. Os génios da montanha e as fúrias do céu possuíam, assim, quase toda a majestosa extensão da serrania, ermáticos domínios onde podiam transitar com passos de fantasmas ou bramir livremente.» A Lã e a Neve (1947)

«O papel escrito desceu para a gaveta e o tempo continuou a sua rota. / Em 1931, quando a República ocupou o trono de Espanha, várias artes e mutações ali operadas fizeram-nos pensar de novo na velha peça inacabada. Mas nessa época já se havia desvanecido o nosso interesse juvenil pelas fulgurâncias dos tablados.» A Curva da Estrada (1950)

Friday, August 22, 2025

errâncias

«Ao ver impresso, aqui e ali, o nome do pequeno país, sinto-me puerilmente comovido, como se fosse encontrar, após longas pesquisas, um ser amado, até esse momento perdido no Mundo... O dia mostra-se esplendente quando deixo as termas, com as suas ruas mui limpas e claras, suas árvores penteadas, todo esse ambiente garrido, luminoso, aguarelado, das vilas de águas francesas, que dir-se-ão passadas a ferro para seduzir os hóspedes.» «Andorra» [1929], Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Entramos, pois, no "Parador Gil Blas", que celebra o herói do famoso romance de Lesage. É, também, um velho palácio que o turismo adaptou a hotel. Do fundo da sala, envidraçada e com o seu todo de jardim-de-inverno, a governanta vem ao nosso encontro, alta, distinta e de olhos negros, sonhadores, como requer um albergue de bom nome literário.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Já no Atlântico, contornando a costa portuguesa e, depois, a espanhola, os passageiros que vêm de Nova Iorque entregam-se aos jornais ingleses, recém-comprados em Lisboa, reunindo-se, à noite, não em frente da orquestra, que toca, solitária, no grande salão, mas juntos dos aparelhos que espalham notícias do Mundo convulso.» A Volta ao Mundo (1940-44) 

Wednesday, August 13, 2025

dos «Pórticos»

«Papéis que jaziam no fundo, submersos pelos mais recentes, estão agora à flor dos outros; a cronologia restabeleceu-se e eles falam-me dos anos em que fui obrigado a vigiar o comportamento das palavras para além das suas imposições estéticas, nesta mesma secretária de onde eles deviam erguer voo, direitos à luz exterior, e quedaram afinal na escuridão das gavetas, como na de um túmulo.» Os Fragmentos [1974] 

«Havia-a pedido a outrem, mas foi-me remetida por si, depois de encontrar a minha carta solicitante olvidada entre as folhas de velho dicionário, amarelecida pela luz a extremidade deixada à vista; por si, que já nesse tempo entregava, perdulária e amorosamente, a sua vida e a sua paixão de biólogo, de etnógrafo e de etnólogo ao estudo das expressões físicas e humanas da floresta imensa; por si, caro Nunes Pereira, que eu não conhecia ainda.» O Instinto Supremo (1968)

«O nosso interesse pelas criações artísticas da Suméria, de Babilónia, da Assíria, do Egipto, de tantos outros povos que durante milénios se sepultaram na memória das gentes e só há pouco ressuscitaram sob as enxadas dos arqueólogos, taumaturgos dos nossos dias, não provinha apenas dessas obras de arte, mas da superação humana que elas já representavam em tão longínquos tempos.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, August 12, 2025

errâncias

«Santilhana do Mar não tem Cafés. Na Idade Média, a Europa desconhecia a bebida negra e estimulante, boa companheira, inimiga dos nervos frouxos e das noites de chumbo; e, mesmo que a conhecesse, nunca os aristocratas de Santilhana sairiam dos seus palácios, tão adornados de panóplias como de preconceitos de castas, para irem amesendar-se na sala democrática dum Café, onde se compra a igualdade humana por alguns níqueis apenas.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Inúmeras ameaças transitam no ambiente que respiramos, no que se ouve e se lê, nas paixões e nas cobiças que emprestam ao nosso tempo uma angústia mais densa do que a de velhas eras. / O "Saturnia" desce, lentamente, o Tejo e, à direita, entre as velas do rio, fulge a Torre de Belém, símbolo do país das grandes viagens. Mais abaixo, a luz vespertina enche de colorido as vivendas do Estoril, enquanto lá ao fundo, na serra de Sintra, irisada bruma dá ao castelo um aspecto fantástico.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«No dia seguinte, larguei de Toulouse em direcção a Ax-les-Thermes. O castelo de Foix, projectando a sua sombra sobre o Ariège, serve de guarda avançada, de vetusto guardião a uma paisagem deslumbrante. O comboio eléctrico passa por Hospitalet e vai até Puigcerdá, já em Espanha. Mas eu desço em Ax-les-Thermes, onde se começa a fazer, timidamente embora, propaganda turística da Andorra misteriosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) -- «Andorra» [1929]

Monday, August 11, 2025

dos romances

«O "Bagatelle"deixou a lata, pousou uma das mãos sujas sobre a escada e olhou para o beiral: / -- Vou pintar a palavra "Missão" no telhado, por causa dos bombardeamentos... / -- Muito bem. É preciso -- apoiou Mounier, sempre com um tom descuidado e já a afastar-se.» A Missão (1954)

«Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto. / Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho.» A Curva da Estrada (1950)

«Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo: / -- Olha o "Piloto"! O meu "Piloto"!» A Lã e a Neve (1947)

Wednesday, July 23, 2025

nas palavras dos outros

(Agustina Bessa Luís, 1966): «Eu disse para mim: "Também escreverei; em breve escreverei um livro". Não sei de maior força que possa ter um autor, do que esse impulso que toca o espírito dos criadores obscuros, que nele encontram revelação e uma espécie de protecção à sua vontade e ao seu ermo.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

(Nogueira de Brito, 1928): «Em Ferreira de Castro não há a elevação "estudada" do sentir afeiçoado à exigência da efabulação, a rebuscada irradiação de emotismo coado pela oportunidade mais ou menos feliz: há, sim, a espontaneidade que nasce da cena real da existência, sem qualquer assomo de artifício, sem clangores de retumbâncias festivas, nem estilizações frívolas de colorismos doentios e insinceros.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

(Jacinto do Prado Coelho, 1976): «Minúcia na descrição, própria de quem viu com seus próprios olhos, quer se trate da Natureza amazónica, esmagadora, quer dos trabalhos e preocupações quotidianas em tais regiões longínquas. E verdade humana no modo como os "heróis" se definem, tanto através de flashes retrospectivos, que os individualizam,  como pelas formas de comportamento durante a expedição.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)