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Thursday, April 28, 2016

admirar & amar

Escreve Eugénio Lisboa, no último JL («Sá-Carneiro visto por Régio -- O oiro e a neve») que os grandes escritores, relativamente aos colegas que os precederam, amam uns e admiram outros:
«Pessoa admirava Milton e amava Dickens. Flaubert admirava Zola, mas amava Hugo. Régio admirava Eça e Pessoa, mas amava Camilo e Sá-Carneiro. Há aqueles com quem sentimos afinidades e aqueles em quem admiramos qualidades que não temos nem nos interessa particularmente ter.»
Fiquei a pensar no caso de Ferreira de Castro. De imediato chegaram-se à frente dois nomes essenciais. Raul Brandão e Aquilino Ribeiro. Creio poder dizer, com segurança, que, posto assim, Castro admirava Aquilino, mas amava Brandão. Em Aquilino, a torrente lexical, mahleriana, se assim o posso dizer, e provavelmente o humor; em Raul Brandão, o poético, o trágico, o fragmentário, a dor. A dos outros, humilhados e ofendidos, as próprias, do pobre ser humano em face do enigma da morte.

Thursday, July 10, 2014

uma + uma antologia de Cabral do Nascimento sobre a Madeira

Com o mesmo excerto de Eternidade: "As levadas".


NASCIMENTO, Cabral do, Lugares Selectos de Autores Portugueses que Escreveram Sobre o Arquipélago da Madeira, Lisboa, Delegação de Turismo da Madeira, 1949; Tipografia Ideal, Lisboa; 277 págs.; 19,2x13,6x3 cm.; broch.
Género: Antologia. Autores antologiados: António Feliciano de Castilho, D. António da Costa, Travassos Valdez, Bulhão Pato, Garcia Ramos, Júlio Dinis, M. Teixeira-Gomes, Brito Camacho, P.e Fernando da Silva, Raul Brandão, J. Reis Gomes, Virgínia de Castro e Almeida, Luzia, Sousa Costa, Julião Quintinha, Norberto de Araújo, Assis Esperança, Henrique Galvão, Ferreira de Castro, Sant’Ana Dionísio, João Ameal, Luís Teixeira, Hugo Rocha, Luiz Forjaz Trigueiros, Cabral do Nascimento.



 [ actualização]NASCIMENTO, Cabral do, A Madeira, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.; colecção: «Antologia da Terra Portuguesa» #2; impressão: Imprensa Portugal-Brasil, Venda Nova; 166 págs.; 17,5x12x1,3 cm; broch.
Género: Antologia. Autores antologiados: Luís de Camões, Manuel Constantino, Manuel Tomás, Medina e Vasconcelos, Francisco Álvares de Nóbrega, António Feliciano de Castilho, Francisco Maria Bordalo, D. António da Costa, Francisco Travassos Valdês, Bulhão Pato, José Ramos Coelho, Visconde de Ervedal da Beira, Acúrsio Garcia Ramos, Júlio Dinis, Manuel Pinheiro Chagas, Gomes Leal, Pedro Ivo, Mariana Xavier da Silva, M. Teixeira-Gomes, João Augusto Martins, Brito Camacho, José Cupertino de Faria, António Nobre, Raul Brandão, J. Reis Gomes, Delfim Guimarães, Virgínia de Castro e Almeida, Luzia, Sousa Costa, João Gouveia, António Sérgio, Jaime Cortesão, Oldemiro César, António Ferreira, Julião Quintinha, Norberto de Araújo, Assis Esperança, Henrique Galvão, António Montês, Cabral do Nascimento, Ferreira de Castro, Ernesto Gonçalves, J. Vieira Natividade, José Osório de Oliveira, Norberto Lopes, Vitorino Nemésio, João Ameal, Sant’Ana Dionísio, José Loureiro Botas,  Luís Teixeira, Hugo Rocha, Ricardo Jardim, Joaquim Paço d’Arcos, João de Brito Câmara, Pedro de Moura e Sá, António Ramos de Almeida, Miguel Trigueiros.


Thursday, December 20, 2012

Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade (4)

Outro factor de proximidade entre o romancista e o ensaísta foi a admiração que ambos nutriram por Raul Brandão. Andrade é, como se sabe, autor de um excelente estudo biográfico sobre o autor do Húmus; quanto a Ferreira de Castro, que com ele privou, desde cedo proclamou o seu entusiasmo por esse escritor singular (logo em 1922, nas páginas de A Hora), num texto admirável, dizendo então não conhecer Raul Brandão nem desejar conhecê-lo pessoalmente, pois temia que alguma mesquinhez do Brandão homem pudesse toldar a admiração que ele tinha pelo Brandão escritor... (1) Foi, porém, este mesmo texto que esteve na origem de uma amizade entre Ferreira de Castro e o autor português que mais profundamente o impressionou, como já há muitos anos Jorge de Sena assinalou e nós próprios tivemos oportunidade de recentemente desenvolver. (2)

(1) Ver Ferreira de Castro, «Os grandes peninsulares -- Raul Brandão», Mas..., Lisboa, 1921, [1922] pp. 32-32. 
(2) Ver Ricardo António Alves, «"A cruel indiferença do Universo: Raul Brandão e Ferreira de Castro», Castriana #1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002, pp. 111-132.

in João Pedro de Andrade -- Centenário do Nascimento (1902-2002), Lisboa, Câmara Municipal / Hemeroteca Municipal, 2004.

Tuesday, November 20, 2012

«A cruel indiferença do Universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (4)



Na pequena parte da livraria pessoal que se conserva no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, existem alguns livros de
R aul Brandão, entre os quais a primeira edição de Os Pescadores (Lisboa, Aillaud e Bertrand, 1923), com uma dedicatória banal: «Ao ilustre escritor Ferreira de Castro, of. o / seu ador e aº / Raul Brandão / Dº [?] / 1923».  caricatura: Cruz Caldas

Wednesday, October 17, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (28)

E se Finisterra é um livro à parte no Neo-Realismo, outro livro inusitado termina esta longa digressão: Levantado do Chão, de José Saramago (1980), classificado pelo futuro Nobel como «o último romance do Neo-Realismo, fora já do tempo neo-realista» (p. 334). Vítor Viçoso sinaliza nesta obra o distanciamento irónico (p. 333) e crítico do escritor, o «prolífero ludismo verbal» (p. 334), o cepticismo em relação «à epicidade datada e algo ingénua do protagonista colectivo» (p. 334), que encerra um capítulo ou uma fase do Neo-Realismo – «o epílogo glosado de toda uma literatura que se orientou, desde o expressionismo visionário de Raul Brandão, passando pelo realismo social de Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, até à representação dialéctica classista dos neo-realistas» (p. 334-335) e abrem, segundo o autor, uma nova maneira de organizar e questionar ficcionalmente o mundo.» (p. 335) Como leitor, gostaria de ver estudada a persistência dos tópicos neo-realistas na obra de José Saramago, pós-Levantado do Chão. Talvez ficássemos surpreendidos.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Monday, September 10, 2012

incidentais #2 -- um romancista descobre-se

da "Nota à 4.ª edição":

*A assunção de uma qualidade particular de romancista: a de «biógrafo [...] das personagens que não têm lugar no mundo».

* O volte-face de um percurso marcado até aí pela perseguição do exotismo e pelas proclamações libertárias para algo de mais profundo e essencial: a busca da dignidade do Homem e de todos os homens, a condição simultaneamente de fragilidade e audácia prometeica que caracteriza o indivíduo ao longo dos tempos. 

* Ter na mão a edição princeps  (1928) e perceber e sentir o que de inaugural teve aquele romance para toda uma literatura que viria a florescer na década de 1940, o neo-realismo, imune, porém à moléstia do sectarismo, armadilha em que caíram outros mais novos do que ele.

* O título, nome colectivo, Emigrantes.

* Romance português mais morto que vivo nesse final de década: naturalismos tardios, pitorescos gastos. Sobravam Aquilino, com muito ainda para dar; Brandão, às portas da morte, de obra rematada e memórias deixadas à posteridade; Teixeira-Gomes, o hedonista exilado e livre, ressurecto para a literatura. O romance psicologista -- que nunca foi estranho à narrativa castriana -- da presença, o Elói de João Gaspar Simões, o notável Jogo da Cabra Cega, de Régio, aguarda(m) vez.

Wednesday, March 14, 2012

morbidez brandoniana

-- Pela mesma razão que em determinado dia da minha existência tu nasceste, nasceu e cresceu o meu provável coveiro: -- nasceu e desenvolveu-se a árvore frondosa de cujo tronco alguém fará o meu esquife..

Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livraria Aillaud & Bertrand, 1924.

(também aqui)

Tuesday, January 25, 2011

Um medo frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (3)

Personagem influente da cultura portuguesa novecentista, um dos últimos abencerragens do escritor-farol à maneira de um Victor Hugo, de um Guerra Junqueiro, de um Émile Zola -- mas também de um Romain Rolland ou de um Aquilino Ribeiro, Castro granjeou um prestígio como romancista e uma autoridade moral como figura intelectual da Oposição -- embora nunca arregimentada, tenazmente independente e individual  -- suficientemente significativos para ser tido como um potencial candidato às Presidenciais de 1958, sondado para o efeito por intelectuais do PCP, e cuja recusa viria a estar na origem da escolha do seu amigo e contertuliano Arlindo Vicente. Uma natural vivência intelectual intramuros e fora de portas, um estreito relacionamento com figuras como Raul Brandão ou Brito Camacho, os contactos privilegiados que teve com diversos escritores estrangeiros, de Blaise Cendrars a Louis Aragon, passando por Stefan Zweig, a amizade com Jorge Amado e muitos outros autores brasileiros que seria fastidioso enumerar, os prémios internacionais e as distinções vindas um pouco de toda a parte, em especial do Brasil e de França -- tudo isto daria para uma narrativa de memórias cheia de interesse -- porém superficial, em face da existência invulgar que foi a sua, tão exaltante quanto surpreendente.

Sol XXI #38/39, Carcavelos, 2003 

Wednesday, December 29, 2010

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (3)

Referindo-se ao que de específico existe na sua obra, à Dor e ao Sonho, à Verdade e à Descrença (assim mesmo, com maiúsculas, ibidem, p. 38), o novíssimo escritor referenciava os espectros que a povoam:

«Raul Brandão não criou personagens. Pegou na Desgraça, na Dor, no Ódio, na Cobiça, na Perversidade e pregou-lhes uma pernas cambaias. E abriu-lhes um boca disforme. » (ibid., p. 36).

Declarando não conhecer Raul Brandão, desejando mesmo não o conhecer para não se desiludir com uma mais que previsível fragilidade humana pudesse «manchar a transcendência de Raul Brandão pensador» (ibid., pp. 37-38), o texto em apreço -- aliás, previamente publicado na efémera revista A Hora (1) -- estaria na origem de uma amizade só interrompida em 1930, com a morte do criador da Candidinha: «ficara Raul Brandão meu amigo», recordará Castro décadas mais tarde, evocando este primeiro escrito. (2). Após ter lido o artigo, Brandão escreveria ao seu autor:

«São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço, para arrancar alguns farrapos ao limbo...» (3)

(1) No número 3, em 26 de Março de 1922: «Os grandes peninsulares -- Raul Brandão». Muitos dos textos do Mas... saíram previamente n'A Hora. Por outro lado, apesar de o livro ostentar a data de 1921 no frontispício, viria apenas a publicar-se no ano seguinte, uma vez que Castro foi pagando a sua impressão à medida das disponibilidades financeiras.
(2) Ferreira de Castro, «[Raul Brandão]», A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro, antologia e apresentação de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal, 1996, p. 235. Texto originalmente publicado em Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário, Guimarães, Círculo de Arte e Recreio, 1967, pp. 52-54.
(3) Nespereira, 28 de Março de 1922. In Ricardo António Alves (ed.), 100 cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal, / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 9. (Cota do documento: MFC/B-1/13904/Cx.297/Doc.1).

Sunday, November 28, 2010

Os retratos de Castro por Nobre (3)

Ele próprio ensaísta, cultor de uma literatura de ideias, em escritos de estética cinematográfica, dispersos ou reunidos em volume (9) --, os seus livros estão eivados de referências literárias, de reflexões sobre a literatura, quer como manifestação artística específica, quer a propósito da sua relação com o cinema, topando o leitor a cada passo com Camilo e Eça de Queirós, Raul Brandão e Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro e José Régio; ou Dostoievski e Zola, Anatole France, Romain Rolland e André Gide. (10) O ensaio viria assim paulatinamente a tomar o lugar do desenho, que, na década de vinte do século passado, o projectara no meio artístico lisboeta.

(9) Horizontes de Cinema (1939) e Singularidades do Cinema Português (1964) [atente-se no título queirosiano do último -- nota 2010]
(10) A correspondência de Nobre é demonstrativa do diálogo intelectual que ele estabelecia com os seus interlocutores. Ver «Seis cartas de Luís cardim a Roberto Nobre», introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Boca do Inferno #1, Cascais, Cãmara Municipal, 1996, pp. 95-109; José Régio / Roberto Nobre, «Correspondência», transcrição e notas de Eugénio Lisboa, Boletim, #4-5, Vila do Conde, Câmara Muncipal e Centro de Estudos Regianos, 1999, pp. 29-33.

Vária Escrita #8, Sintra, Câmara Municipal, 2001.

Wednesday, September 15, 2010

O POVO NA LITERATURA PORTUGUESA

O Povo na Literatura Portuguesa, selecção e prefácio de João de Barros, Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d. [1947]
autores antologiados: Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara, Gil Vicente , António Ferreira, Luís de Camões, P.e António Vieira, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, João de Deus, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Gomes Leal, Teixeira de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho d'Almeida, Cesário Verde, António Nobre, Raul Brandão, Carlos Malheiro Dias, M. Teixeira-Gomes, Manuel de Sousa Pinto, Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, António Patrício, Manuel Monteiro, Júlio Dantas, Joaquim Manso, Jaime Cortesão, Luís da Câmara Reis, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro [excerto de Eternidade]; António Arroio.

Wednesday, June 30, 2010

Maravilhas do Conto Português

Selecção prefácio e notas de Edgard Cavalheiro.
São Paulo, Editora Cultrix, 1957.
Autores: Eça de Queirós, D. João da Câmara, Fialho de Almeida, Trindade Coelho, Raul Brandão, Júlio Dantas, António Sardinha, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Régio, José Gomes Ferreira, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões, Domingos Monteiro, Branquinho da Fonseca, Maria Archer, Miguel Torga, Castro Soromenho, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora e José Cardoso Pires.
Conto antologiado: «O Senhor dos Navegantes».

Tuesday, June 22, 2010

Antologia do Conto Fantástico Português

2.ª edição, organização de E. M. de Melo e Castro, Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, 1974.
Conto antologiado: O Senhor dos Navegantes
Autores: Alexandre Herculano, Rebelo da Silva, Júlio César Machado, Júlio Dinis, Manuel Pinheiro Chagas, A. Osório de Vasconcelos, Teófilo Braga, Álvaro do Carvalhal, Eça de Queirós, M. Teixeira-Gomes, Fialho de Almeida, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros, Ferreira de Castro, José Gomes Ferreira, José Rodrigues Miguéis, José Régio, Branquinho da Fonseca, Hugo Rocha, José de Lemos, Jorge de Sena, Natália Correia, Mário Henrique Leiria, Urbano Tavares Rodrigues, Carlos Wallenstein, David Mourão-Ferreira, Ana Hatherly, Herberto Helder, Maria Alberta Meneres, Álvaro Guerra, Dórdio Guimarães, António Barahona da Fonseca, Almeida Faria.

Saturday, March 06, 2010

Recensão a Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade (2)

Iniciando a sua publicação em 1919, como órgão da Confederação Geral do Trabalho (CGT), anarco-sindicalista, A Batalha granjeou rapidamente uma difusão assinalável entre o público leitor, e não apenas operário, ombreando com os dois grandes títulos da imprensa de então: O Século e o Diário de Notícias. O êxito editorial permitiu que quatro anos mais tarde A Batalha avançasse com uma edição cultural, com o objectivo de valorizar a grande massa do seu público. «Saber para poder» era o título do editorial do primeiro número, de 3 de Dezembro de 1923: «Órgão de exposição doutrinária e elemento de educação e de aperfeiçoamento moral e intelectual, ele destina-se a ser o companheiro espiritual do operário e a contribuir para a formação da sua consciência revolucionária.» Esse objectivo foi servido por uma plêiade de intelectuais, escritores e publicistas marcantes dos anos vinte, alguns deles ainda muito jovens, do próprio Ferreira de Castro a Jaime Brasil, passando por Julião Quintinha, Campos Lima, Nogueira de Brito, César Porto, Mário Domingues; e muitas e muito assinaláveis colaborações irregulares, de Raul Brandão a José Régio. Não descurando a situação dos leitores a quem se dirigia, este suplemento cultural fazia também uma pedagogia cívica e social em vários domínios da vida quotidiana; a parte substancial, porém, das oito páginas do suplemento era ocupada com a criação e a crítica literárias, a divulgação da grande música (em que Nogueira de Brito teve um papel relevantíssimo), da pintura, do teatro, da vida e obra dos autores referenciais, quer em literatura (Antero e Eça, Tolstoi e Ibsen, Zola e Anatole), quer em ideias (Proudhon, Bakunine, Gandhi e, numa perspectiva crítica, embora respeitosa, Lénine). Valorizado por diversos ilustradores, como Alonso ou Roberto Nobre, foi sem dúvida o talento de Stuart Carvalhais que mais marcou o rosto do jornal.

Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007, pp 105-106.

Thursday, October 29, 2009

«A cruel indiferença do Universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (2)

Um dos textos mais interessantes e importantes é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O "Húmus é um grande livro: -- a erguer-se no campo florido do pensamento latino: -- estercolando revolta, esvrumando miséria e desgraça por todas as junturas: -- como um escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.» (2)

(2) Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, 1921, p. 34.

Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002, pp. 112.

Tuesday, July 21, 2009

Gloria In Excelsis -- Histórias Portuguesas de Natal

Gloria In Excelsis -- Histórias Portuguesas de Natal, apresentação e selecção de Vasco Graça Moura, Lisboa, Público - Colecção Mil Folhas, Dezembro de 2003.

Textos: Andrade Ferreira, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, D. João da Câmara, Abel Botelho, Fialho de Almeida, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro [«O Natal em Ossela», pp. 143-146], Vitorino Nemésio, José Régio, José Rodrigues Miguéis, Domingos Monteiro, Miguel Torga, Manuel da Fonseca, Jorge de Sena, Maria Judite de Carvalho, Natália Nunes, José Saramago, Urbano tavares Rodrigues, Alexandre O'Neill, Altino do Tojal e José Eduardo Agualusa.

Tuesday, February 24, 2009

Um Medo Frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (1)

Artigo publicado em Sol XXI, n.º 38/39, Carcavelos, 2003
Escrever as memórias pressuporia à partida uma existência fora do comum para o comum dos mortais. Pelo que se viveu e testemunhou, pelas teias relacionais que ao longo da vida se foram forjando. Jaime Cortesão, por exemplo, transpôs para as Memórias da Grande Guerra (1919) o seu muito próprio estilo épico, num tema que só por si se prestava às mais fortes exaltações. O relato duma experiência-limite -- a de médico voluntário nas trincheiras da Flandres -- resultou num livro que não nos deixa grande margem para fruições se pegrmos nele como leitor desprevenido, tal é a carga emocional que transporta. Mas memorialística, género eminentemente literário, está subordinada às exigências da escrita. Nas Memórias de Raul Brandão (1919-33), ao contrário do que sucede com a narrativa do historiador, dão-lhes profundidade os textos preambulares de cada volume -- expressões dramáticas do peculiar sentimento trágico da vida. E Vasco Pulido valente -- para mencionar um autor nosso contemporâneo --, em Retratos & Auto-retratos (1992), é um significativo exemplo de como uma existência desinteressante para o público não impede uma redacção de memórias de primeira água, em que o estilo, opulento, mas vigiado, é a primeira estrela dessa escrita.
(continua)

Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)

Thursday, November 27, 2008

castrianas #10 - João Pedro de Andrade

Os probemas económico-sociais não foram, está bem de ver, introduzidos na literatura pelos neo-realistas. Eles atravessam a obra de Raul Brandão (que seria considerado idealista pelos neo-realistas, se o tivessem lido), estão no Aquilino Ribeiro de Terras do Demo e A Batalha Sem Fim, mau grado o sentido pitoresco e o culto dos valores verbais, e, finalmente, no Ferreira de Castro de Emigrantes, A Selva e Terra Fria, para só falar em algumas das suas obras anteriores ao advento do neo-realismo. No entanto, pela sua atitude deliberada de intervenção, só este último havia de ser considerado percursor da nova tendência.
Ambições e Limites do Neo-Realismo Português [1955], edição de Joana Marques de Almeida, Lisboa, Acontecimento, 2002, p. 31.

Monday, March 03, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1903 (#1)

Castro - Nasce a sua irmã Matilde da Soledade (1/I).


Texto - Raul Brandão, A Farsa; João Grave, Os Famintos; Costa Lobo, História da Sociedade em Portugal no Século XV. Castro sobre Raul Brandão - [...] Raul Brandão não é um Génio: -- é a concentração diluída dos génios do século XIX: -- efeito originalíssimo dos pensadores alemães. Mas... Efeito soberano: -- onde sua personalidade íntegra impera [...] «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, ed. do Autor, 1921, p. 33 Castro sobre João Grave - Pela sua leveza, João Grave faz crónicas mesmo quando faz ensaios; pela sua agudeza crítica, faz ensaio mesmo quando traça uma crónica. «Livros e Autores», ABC, n.º 263, Lisboa, 30/VII/1925.



Confronto - Jack London, O Apelo da Selva e Povo do Abismo; Thomas Mann, Tonio Kroger. Castro e os escritores repórteres (Londres, Béraud, London) - É muito maior o número dos que escrevem livros de valia do que o daqueles que fazem, no jornalismo, grandes reportagens. / Os Albert Londres, os Henri Béraud, os Jack London, têm poucos camaradas... «As nossas grandes reportagens», O Século, Lisboa, 24/I/1930, pp. 7/27.






Contexto - Assassínio dos reis da Sérvia, Alexandre I e Draga.




Pintura de 1903 - Picasso, O Velho Guitarrista.
Instituto de Arte de Chicago


Castro sobre Picasso - [...] toda a verdadeira arte deve ser inquieta, deve ser pesquisadora, sempre insatisfeita, sempre ansiosa de ir mais além; e que Picasso foi, nesse sentido e até noutros, o pincel mais rebelde e mais original do nosso tempo. Por isso o admiro muito. Picturalmente, o século XX é ele. Da resposta ao inquérito do Diário Popular, «O que pensa de Picasso?», Lisboa, 8 de Novembro de 1966, p. 11.



Música de 1903 - Debussy, Estampas.









Escritores de 1903 - Roberto Nobre (São Brás de Alportel; m. Lisboa, 1969); George Orwell (29/XII; m. 1950); morre o Conde de Ficalho (n. Serpa, 1937). Castro sobre Roberto Nobre - Eu teria vinte e quatro anos, ele findaria os dezanove quando chegou a Lisboa, alto, muito magro, um chapéu de abas largas a encimar os grandes óculos que quase lhe anulavam o rosto; e no espírito o veemente desejo de se revelar como artista. «Vida, sonho e drama de Roberto Nobre», in Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 237.




Prémio Nobel de 1903 - Bjornstjerne Bjornson



Ecos de 1903 - Teixeira de Queirós a João de Barros (Lisboa, 9/III): As ideias religiosas, os símbolos têm para nós a grandeza de criações do espírito humano e devem ser respeitados como tais. Certamente que não foram inventados para enganar mulheres dementes nem homens sem critério, ainda que as igrejas de todas as religiões se tenham servido deles com esse fim. A lenda da Virgem Maria é encantadora como símbolo poético e é-o para mim principalmente pela sua virgindade, pela sua castidade, que lhe dá um ar elevado e puro, livre das contigências e das materialidades.» Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 21.