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Monday, November 04, 2013

Camus, Koestler, Orwell

Leio a evocação de Albert Camus no Expresso, expressiva evocação escrita por Clara Ferreira Alves. À baila teria de vir os nomes doutros grandes escritores lucidamente antitotalitários, Arthur Koestler e George Orwell. Lúcida e corajosamente antitotalitários: era mais fácil ir na onda das verdades anunciadas, do dogmatismo político para-religioso, que resultou na mentira, na perseguição, nos hospitais psiquiátricos, na tortura e na morte.
Era mais fácil ser-se cobarde e vilmente propagandista dum embuste stalinista que todos sabiam ser um universo de crime, em nome dos grande princípios que todos os homens de bem subscrevem.
Estes tipos eram inteligentes, e certamente não se ficaram pelo papaguear das palavras-de-ordem, pela catequização funcionária do Partido. E leram, leram de certeza, o seu Lenine e o seu Marx para perceberem que aquilo era um pensamento intolerante, cuja aplicação prática não poderia ter deixado de ser o que foi: um desastre.
Em tempo: a não perder também o texto de Maria Luísa Malato e a competentíssima cronologia de Eduardo Graça.
Quantas semelhanças com o Ferreira de Castro, libertário, tolerante, humanista e lúcido! A diferença circunstanciaL ao contrário destes seus colegas, que escreveram em sociedades liberais, Castro -- um tudo-nada mais velho -- publicava num país condicionado por uma ditadura de direita com laivos parafascistas, e nunca faria o jogo desta, atacando o bolchevismo do alto do lugar destacadíssimo que conquistara como homem de letras, pelo contrário! Ele soube sempre separar os homens, com os seus dramas individuais e interiores, das doutrinas que professavam, ainda mais se elas eram também motivo de perseguição a quem, ingénua e generosamente na juventude, as professara.
Mas as ideias libertárias que professou estão todas inscritas na sua obra. Basta sabê-la ler, algo que, nas últimas décadas, a nulidade do pensamento e do gosto dominantes não soube fazer, com as devidas e honrosíssimas excepções que, já agora, assinalo aqui com imenso gosto: Eugénio Lisboa, António Cândido Franco, poucos mais.   




Sunday, April 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (18)

Mário Dionísio, que tinha do neo-realismo uma visão muito precisa como expressão artística do materialismo histórico e dialéctico, é coerente quando inscreve Ferreira de Castro numa corrente de literatura social (p. 63), mas não-marxista, porque, de facto, Castro nunca foi marxista. O que ele era – e os seus livros aí estão para o comprovar –, era um comunista libertário, inspirado em autores tão importantes para o socialismo em sentido lato, e para a esquerda, como o foram Piotr Kropótkin e Errico Malatesta – fortes adversários do comunismo autoritário, estatista e centralizador – tal como o haviam sido Proudhon e Bakúnin, que defrontaram e entraram directamente em polémica com Marx. Os que extravasaram o ponto de Mário Dionísio filiando, por sectarismo e/ou ignorância, a obra castriana numa espécie de socialismo burguês (oh, insulto!) e utópico, esqueciam-se que não era menos utópico que o chamado socialismo científico que apontava para a instauração do céu na terra: extinção do estado e sociedade sem classes, e não sabiam, nem queriam saber, que nada havia de menos burguês que o anarco-sindicalismo português – de onde, aliás, emanou o próprio PCP.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Tuesday, February 14, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (13)

Numa concepção marxista, a noção de vanguarda não é despicienda, por isso assistimos em muitas narrativas ao papel preponderante que tem o operário consciente da sua situação de classe, ou mesmo de intelectuais ou técnicos, como os engenheiros, que surgem como elementos catalisadores da aquisição de uma consciência por parte dos interlocutores ou companheiros de jornada. Como escreve o autor: «[…] o “proletariado” pode ser directa ou indirectamente ficcionado como a virtual classe messiânica, enquanto classe ascendente, e, portanto, sinalizadora de uma revolução que conduziria a uma libertação de toda a humanidade.» (p. 34)  Este messianismo, é preciso não esquecer, representa o corolário da filosofia marxista, cuja feição teleológica aponta para a superação de todas as classes e a abolição do Estado quando for instaurada uma sociedade comunista, o que se prende com a matriz judaico-cristã de Karl Marx, como o autor também sinaliza (p. 39).