Saturday, July 11, 2009

testemunhos #5 - Jorge Amado

No Cais de Lisboa, em Janeiro de 1966, amigos brasileiros e portugueses acenavam para o navio espanhol onde havíamos embarcado na Bahia, Zélia, Paloma e eu -- João Jorge fora de avião. Reconheci Odylo Costa, filho, Luiz Henrique Dias Tavares, Álvaro Salema, Fernando Namora, Francisco Lyon de Castro -- o primeiro a subir a escada foi Ferreira de Castro, com a notícia de que poderíamos saltar em Lisboa, a interdição fora suspensa. O grande escritor português, naquele então o principal entre todos os que escrevíamos em língua portuguesa, não podia conter a alegria. Durante todos os longos anos de convivência, de amizade fraterna que nos ligou, Ferreira de Castro sempre foi o arauto de boas novas, mão solidária, palavra acolhedora.

«Notícia de Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Muncipal, 1996, p. 15.

Friday, July 10, 2009

de passagem - A MISSÃO (1954)

Já o pintor, levando a lata de tinta, ia perto do beiral quando ele lhe perguntou, cá de baixo:
-- Quem o mandou fazer isso?

Ferreira de Castro, A Missão, Publicações Europa-América, «Livros de Bolso», n.º 6, Mem Martins, 1971, p. 12.

Thursday, July 09, 2009

de passagem- Assis Esperança, RUÍNAS (1925)

-- Está aborrecida?...
-- Não!
-- Vai curada?...
-- Estes meses de repouso e os ares do campo, fizeram-me bem.

Assis Esperança, «Ruínas», Funâmbulos, Lisboa, Ailaud & Bertrand, 1925, p. 31.

Wednesday, July 08, 2009

errância - A VOLTA AO MUNDO (1940-1944)

[do «Pórtico»]
No corpo pequenito, os nossos olhos, que haviam de ficar toda a vida tristes, esqueciam-se, horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.

Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, vol. I, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955.

Monday, July 06, 2009

«A Selva» dos leitores

Na passada sexta-feira, dia 3, teve lugar no Museu Ferreira de Castro uma sessão do Clube de Leitura, com A Selva como livro do mês.
Anotei algumas impressões dos leitores:

1. "sintonia entre o drama das pessoas e o ambiente";
2. "reflexos da História de Portugal no percurso de Alberto";
3. "Ferreira de Castro não era um ingénuo político";
4. "romance difícil de classificar: romance de espaço, romance psicológico, romance de iniciação, romance autobiográfico";
5. "riqueza lexical";
6. "recurso a símbolos gráficos, modernismo";
7."Alberto era um progressista sem o saber";
8. "psicologismo com um cunho freudiano: a selva é um ser vivo; é a mulher";
9. " a selva humana está muito retratada";
10. "um livro de ética, um manual de humanização";
11. "um livro simples e transparente";
12. "influência do simbolismo".

Deixei-me ir na conversa, e não tomei mais notas. Foi pena.

o jovem Ferreira de Castro -- O DRAMA DA SOMBRA [1926]

Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.
Ferreira de Castro, O Drama da Sombra, Lisboa, Empresa Diário de Notícias [1926], p. 5.

Saturday, July 04, 2009

Prémio Lemniscata

O blogue O Fio de Ariadne atribuiu o prémio Lemniscata ao blogue Ferreira de Castro “O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.Texto da editora de “Pérola da cultura”.

Obrigado Ana Paula!

Thursday, July 02, 2009

Ferreira de Castro: um escritor no país do medo (2)

Exemplos

Sobre esta realidade escreveu Jorge de Sena (1919-1978), em 1960, autoexilado num Brasil ainda livre:
«Quem se debruçar sobre a literatura portuguesa -- e não só a ficção deste século -- não a entenderá, se não souber entender tal situação trágica. Felizes os grandes e livre povos! Mas será que, quando esses povos discreteiam do que é a literatura , saberão, como nós sabemos, a que ponto ela pode não ser? E sendo-o, pode não ser reconhecida(1)

(1) Jorge de Sena, «A literatura portuguesa de ficção», Estudos de Literatura Portuguesa, vol. III, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 44.

Taíra -- Revue du Centre de recherche et d'études lusophones et intertropicales, n.º 9, Grenoble, Université Stendhal, 1997, pp. 65-66.

Wednesday, July 01, 2009

de passagem - A CURVA DA ESTRADA (1950)

[do «Pórtico»]
Não chegámos a rematar o último acto, porque outra peça, escrita anteriormente, nossa frágil asa de esperança, classificada muito embora num concurso, não conseguira céu aberto para voar. A juventude que então arvorávamos não convencia ninguém e uma timidez desprotegida impedia-nos todos os passos em direcção aos empresários.

Ferreira de Castro, A Curva da Estrada, 11.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1982.


Tuesday, June 30, 2009

castrianas #18 - Jorge Dias

A literatura de viagens longínquas constitui um dos traços característicos da Cultura Portuguesa. A expansão portuguesa, iniciada no dealbar do século XV, inspirou uma notável série de relatos sobre novos espaços, costumes e religiões. A reportagem, narração, viva, directa, de acontecimentos a que o autor assistira como testemunha, representa um rasgo típico da cultura lusíada, uma grande tradição. Repórters foram Fernão Lopes, os autores de roteiros, itinerários e livros de viagens, desde Pero Vaz de Caminha a Fernão Mendes Pinto. Repórters foram ainda os epistológrafos que percorreram os ínvios caminhos do Império Tri-Continental, como o Padre António Vieira. O género da reportagem enriqueceu-se no século XIX e mais ainda no século XX. Poderiam citar-se como figuras proeminentes da reportagem Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida e Ferreira de Castro. (1)

(1) António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa (Lisboa, s.d.), pp. 315-317.

Jorge Dias, «Uma grande tradição ressurgida: A Volta ao Mundo de Ferreira de Castro, separata de Cosmica IX, Quioto, 1979, p. 1.

Monday, June 29, 2009

errância - ANDORRA - PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES (1937-38)

Não. Ia-se muito longe, devassavam-se os mais distantes recantos do planeta, mas a Andorra, que estava perto, manando, possivelmente, inéditas emoções, ninguém ia, ninguém pensava ir.

Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, «Andorra«, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955, p. 17.

Saturday, June 27, 2009

de passagem - Jaime Brasil, ZOLA -- ACUSO!... (1949)

[Nota: das 156 páginas deste volume, 21 reproduzem o célebre manifesto de Zola, as restantes são da lavra de Jaime Brasil, pelo que decidi incluí-lo na sua bibliografia activa]

Deve o artista, o escritor, o intelectual em suma, descer à praça pública, imiscuir-se nas querelas dos seus contemporâneos, fazer vida de cidadão? Ou, antes, deve manter-se na sua Torre de Marfim, indiferente às questões dos outros homens, superior aos dissídios que os separam, consagrado a criar beleza ou a distilar sabedoria?
Emílio Zola, Acuso!.... tradução prefaciada e anotada por Jaime Brasil, Lisboa, Guimarães & C.ª - Editores [1949].

A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (2)

Terá sido exactamente a condição de profissional das letras que impediu uma produção esparsa prolífica, guardando a sua mensagem essencial para uma sólida obra romanesca. Também a sua epistolografia se ressentiu dessa situação, como já tivemos oportunidade de escrever.(1) O «ódio à caneta» (2), a «repugnância pelo trabalho agravada pela obrigação de trabalhar» (3) reflectiram-se no apuro formal da correspondência trocada com os amigos mais chegados e, outrossim, na dimensão da sua obra mais circunstancial.
(1)Ver a nossa introdução a Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994.
(2) Carta de Castro a Nobre, de 6 de Julho de 1939, ibidem, p. 77.
(3) Carta de Castro a Nobre, de 12 de Agosto de 1960, ibid., p. 183.
Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Municipal, 1996, pp. 137-138.
(continua)

Thursday, June 25, 2009

memória - PREFÁCIO a «Pedras Falsas», de Diana de Liz (1931)

Devo, talvez, a este livro o estar ainda vivo. Se não fora o desejo de o publicar, eu teria seguido, possivelmente, a sua autora, quando a morte ma roubou. Era bem frágil a razão para o meu desespero, para a minha dor de viver, mas eu não tinha outra. Um livro é uma obra humana e tudo quanto era humano me parecia, nesses dias de inenarrável angústia, totalmente inútil para os problemas que me torturaram e digno apenas de fraternal piedade. Parecia-me e -- pobre de mim! -- continua a parecer, muitas vezes ainda. Ela própria me demonstrou, já à beirinha da morte, quanto são frágeis, perante o Enigma, as nossas humanas coisas. Disse-lhe eu que os seus livros, quaisquer que fossem os esforços a fazer, seriam publicados e as minhas palavras não constituíram para Ela consolo algum. Preocupava-a apenas o meu destino, que Ela adivinhava que iria ser, para sempre, de sofrimento, e a referência que eu fizera à sua obra pareceu-lhe até -- li-o nos seus olhos, vi-o na expressão do seu rosto -- motivo pueril para as horas trágicas que se iam esvaindo. Ela fora sempre assim.

de passagem - A LÃ E A NEVE (1947)

[do «Pórtico»]
O homem viera para ali há muitos séculos, mas poucos tinham sido e poucos eram ainda os que levantavam o seu abrigo de granito nos sítios mais propícios; e quando o faziam, achegavam-se uns aos outros, como se se quisessem defender da bruteza circundante. Os génios da montanha e as fúrias do céu possuíam, assim, quase toda a majestosa extensão da serrania, ermáticos domínios, onde podiam transitar com passos de fantasmas ou bramir livremente.
Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 15.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990.

Wednesday, June 24, 2009

outras palavras - Roberto Nobre, O FUNDO (1946)

Trata-se, no entanto, apenas dum projecto. Portanto cremos poder discuti-lo com toda a largueza e sinceridade. É para isso que foi publicado.

Roberto Nobre, O Fundo -- Comentários ao projecto da nova política de cinema em Portugal, Lisboa, edição do autor, 1946, p. 7.

Monday, June 22, 2009

AS MARAVILHAS ARTÍSTICAS DO MUNDO ou A prodigiosa aventura do Homem através da Arte (1959-1963)

[do «Pórtico»]
Assim, quando voltámos a entrar no Louvre, após termos percorrido o Mundo e meditado sobre as grande obras de arte que fulguram nos vários continentes, sentíamo-nos mais familiarizados com as suas antiguidades orientais do que se nunca houvéssemos saído dali. Todas elas adquiriam vida e nos falavam do seu tempo, das condições em que foram realizadas e por que o haviam sido. Falavam-nos com um tom evocativo e um ar de intimidade, como se tivéssemos vivido na mesma época e conhecido ainda os seus autores; e, à medida que o colóquio se desenvolvia, todas elas nos pareciam, por milagre imprevisto, menos velhas do que anteriormente -- menos perdidas no tempo do que antes da nossa viagem. Tudo se humanizava. Até as que, a princípio, dir-se-iam absurdas, se tornavam de repente lógicas, enquanto as monstruosas ou menos dotadas de encanto justificavam facilmente as suas grosseiras formas.

Ferreira de Castro, As Maravilhas Artísticas do Mundo, 3.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d.

Sunday, June 21, 2009

de passagem - Assis Esperança, O REBANHO (1922)

Calou-se, e sem arriscar mais um passo em direcção à mesa onde uns seis homens jogavam, ficou-se a olhar um deles, -- perfil adunco, testa duns centímetros d'altura, pele trigueira, pómulos salientes, barba rala a sujar-lhe o rosto, uma sujidade às manchas; os olhos umas vezes a rebrilharem, outras duma fixidez impaciente de fera escondida no matagal em expectativas de festim. E o garoto a recomeçar, agora com rebeliões na voz, resolvendo-se a uns passos vacilantes:
-- Pai! pai!

Assis Esperança, O Rebanho, Lisboa, Empresa de Publicações «A Hora», 1922, p. 5.

Sete cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (2)

Esta crítica foi causa próxima de um ensaio de Luís Cardim, publicado também na Seara, durante cinco números, entre 16 de Abril e 24 de Maio desse ano, sob o titulo «É o Hamlet representável?», posteriormente editado em volume, ligeiramente aumentado e com outro título: Os Problemas do «Hamlet» e as suas dificuldades cénicas. (A propósito do filme de Sir Laurence Olivier), Seara Nova, Lisboa, 1949 -- facto que a publicação anuncia em manchete (manchete ao estilo da Seara, claro está...), saudando o autor: «incontestavelmente a nossa primeira autoridade em língua e literatura inglesa, como o Dr. Paulo Quintela o é para a língua e literatura alemã.» (1)
(1) 25 de Junho de 1949.
Boca do Inferno, n.º 1, Cascais, Câmara Municipal, 1996, p. 95.
Postado também n' A Caverna de Éolo.
(continua)

Saturday, June 20, 2009

Castro com Sérgio Telles

Ferreira de Castro com Sérgio Telles na Livraria Quadrante, Lisboa, 1970
Fonte: Portugal na Obra de Sérgio Telles, Estoril, Galeria de Arte do Casino Estoril, 1991

Friday, June 19, 2009

de passagem - A TEMPESTADE (1940)

[do «Pórtico»]
Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de forno, largou de ao pé da Kars-en-Nil e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.
Ferreira de Castro, A Tempestade, 10.ª edição, Lisboa, 1980.

Thursday, June 18, 2009

outras palavras - Jaime Brasil, CHALOM!... CHALOM!... -- UMA REPORTAGEM NA PALESTINA (1948)

LIMIAR
Na hora precedente à da decisão internacional sobre a sorte da Palestina, «O PRIMEIRO DE JANEIRO» teve a iniciativa de mandar fazer uma reportagem na chamada Terra Santa.* Iniciativa duplamente corajosa, pois em Portugal não há o hábito dos grandes inquéritos internacionais. Foi ainda um acto de coragem escolher o signatário, para o enviar em missão tão delicada. A falta de treino, se outras razões não houvesse, poderia tornar a sua tarefa num malogro. Mais de um quarto de século de actividade jornalística, se lhe dava alguma experiência do trabalho redactorial, poderia ser uma contra-indicação para a reportagem. Esta requer juventude, agilidade de movimentos e uma certa pureza de visão ante o espectáculo do mundo.
* As crónicas de reportagem foram publicadas n'O Primeiro de Janeiro entre 8 de Fevereiro e 18 de Março de 1947. (R.A.A.)
Jaime Brasil, Chalom!... Chalom!... -- Uma Reportagem na Palestina, Porto, Editorial «O Primeiro de Janeiro», 1948

Wednesday, June 17, 2009

errância - A VOLTA AO MUNDO (1940-1944)

[do «Pórtico»]
Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem. Ao fundo, esboçava-se o grande sortilégio, o Mar, o imã que nos atraía ali.
Ferreira de Castro, A Volta ao Mundo, 4.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1952.

Sunday, June 14, 2009

Sete cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (1)

Publicado na Boca do Inferno, n.º 1, Cascais, Câmara Municipal, 1996

São sete as cartas de Luís Cardim que integram o espólio epistolográfico de Roberto Nobre, que agora apresentamos na íntegra, mantendo a ortografia e respeitando escrupulosamente a pontuação. Escritas entre 22 de Maio e 20 de Setembro de 1949, tiveram origem na crítica do autor de Horizontes de Cinema ao filme «Hamlet» (1948), de Laurence Olivier, estreado em Portugal no cinema Tivoli, em 24 de Janeiro do ano seguinte.
O texto de Nobre foi publicado na Seara Nova de 26 de Fevereiro de 1949 e constituiu um rasgado elogio da adaptação, enfileirando-a o crítico com A «Fera Amansada», de Fairbanks, «Romeu e Julieta», de Cukor, «Sonho de uma Noite de Verão», de Reinhardt e «Henrique V», do mesmo Olivier. Estas versões, que ele, do ponto de vista da «estética dinâmica», acolhe jubilosamente, haviam-no já levado a observar parecer ter Shakespeare escrito «não para o teatro, mas para o cinema».
(continua)

A. Lopes de Oliveira, COMO TRABALHAM OS NOSSOS ESCRITORES (1950)

Lisboa, Editorial Proença, 1950
Prefácio de Mário Gonçalves Viana, entrevista a Acúrcio Pereira, Amadeu de Freitas, Assis Esperança, Aurora Jardim [Aranha], Correia Marques, Eduardo Schwalbach, Ferreira de Castro, Guedes de Amorim, Hernâni Cidade, Hugo Rocha, Joaquim Paço d'Arcos, Luís d'Oliveira Guimarães, Gustavo de Matos Sequeira, Moreira das Neves, Mota Júnior, Natércia Freire, Norberto Lopes, Ramada Curto, Ribeiro Couto e Virgínia Vitorino.

Friday, June 12, 2009

Canções da Vendetta (2)

Afastado voluntariamente do jornalismo, a «profissão-socorro» que lhe permitia escrever os seus romances, Castro viu-se na situação de escritor profissional. Com alguns livros na gaveta (o romance O Intervalo, a peça Sim, Uma Dúvida Basta), os direitos de autor e os proventos das traduções, que começavam a surgir em grande força, eram ainda insuficientes para lhe garantir a sobrevivência.
Apresentação de Canções da Córsega, 2.ª edição, Sintra, Câmara Municipal e Museu Ferreira de Castro, 1994.

Wednesday, June 10, 2009

de passagem - SIM, UMA DÚVIDA BASTA (1936 / 1994)

GOVERNADOR -- Não importa. Não assino. Que façam nova exposição...
(Folheia) Este requerimento...

SECRETÁRIO (debruçando-se ligeiramente para a pasta) -- É ainda sobre o caso dos jardins do palácio. V. Ex.ª já o tinha examinado outro dia...

GOVERNADOR -- Sim, sim, recorda-me. (Assina.)

SECRETÁRIO (desdobrando o papel que tem na mão) -- Há três pedidos para audiências.

Ferreira de Castro, Sim, Uma Dúvida Basta, edição de Luiz Francisco Rebello, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, p. 20.

Monday, June 08, 2009

castrianas #17 - Álvaro Pina

Comemorar o cinquentenário da publicação do romance A Lã e a Neve*, de Ferreira de Castro, se permite evocar a obra e o autor, também dá azo a dois reconhecimentos culturalmente significativos: por um lado, o de que a escrita de Ferreira de Castro não mobiliza, nestes anos, a atenção dos membros das formações intelectuais ligadas ao cultivo das letras portuguesas e das memórias culturais da nação; por outro, o de que se constituiu, a meu ver hegemonicamente, um modo de lidar com as escritas de dissidência e de oposição cultura de finais dos anos 30 e do decénio de 40 deste século que as priva de relevância e de significado presentes, relegando-as para o limbo dum passado remoto, alheio ao nosso quotidiano, irrelevante para o nosso futuro.
* Em 1997.
Álvaro pina, «Conhecer a comunidade, contar a nação, autorizar a cultura: No cinquantenário da publicação de A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, Vária Escrita, n.º 5, Sintra, Câmara Municipal, 1998, p. 245.

Sunday, June 07, 2009

errância - PEQUENOS MUNDOS E VELHAS CIVILIZAÇÕES (1937-38)

Ao longo da vida temos topado muitos homens que fumaram ópio na China, tomaram vodka na Rússia, miraram o Vale dos Reis e subiram aos Andes; nenhum, impenitente vagamundo fosse ele, que nos baforasse a célebre frase: «Corri Seca e Meca e os Vales de Andorra». Nenhum que houvesse desejado ver como aquilo era e por que vivia quase independente, há tantos século já, um país tão minúsculo, quando outros maiores têm sido anexados.
Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, vol. I, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955.

castrianas #16 - Urbano Tavares Rodrigues

A obra romanesca de Ferreira de Castro, injustamente esquecida e por vezes denegrida, merece uma atenta revisão, que, na actual conjuntura política (em que o egoísmo prevalece ostensivamente sobre a solidariedade) possa iluminar os valores humanos que o seu realismo social exalta sem demagogia.

Urbano Tavres Rodrigues, «O Homem Irmão do Homem -- Ferreira de Castro e o realismo social», Língua e Cultura, n.º 7/8 , Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, Jan.-Jul. 1998, p. 81.


Saturday, June 06, 2009

... ESTA NECESSIDADE DE PERMANENTE ASSISTÊNCIA AFECTIVA... [A correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre] (2)

Houvesse ou não Assis, o encontro entre ambos teria forçosamente de dar-se, não só pela pequenez do meio lisboeta, como pelo relacionamento, mais ou menos intenso -- como este epistolário demonstra -- de Castro com a colónia de autores algarvios na capital (Dantas à parte, é claro): Bernardo Marques, Carlos Porfírio, Eduardo Frias, José Dias Sancho (tio de Nobre), Julião Quintinha ou Mário Lyster-Franco.
in Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 8.
(continua)

Friday, June 05, 2009

de passagem - Assis Esperança, VIVER! (1921)

A estes, é um igual que lhes fala. Se não forem torpes, hão-de escutar-me; se o forem, escarro-lhes na cara, clamando-os, com justiça, os mais imundos de todos os leprosos, os mais carniceiros de todos os chacais, -- sem que lhes contitua defesa a ânsia da felicidade.

Assis Esperança, Viver!, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1921.

Thursday, June 04, 2009

de passagem - TERRA FRIA (1934)

[do «Pórtico»]
As pequenas ilhas, sobretudo, fascinam-me, porque permitem observar melhor o homem entregue a si próprio fechado sobre si mesmo e, simultaneamente, disperso no infinito, entre mar e céu -- inconsciente até do labor psíquico por ele realizado perante o eterno limite.
Ferreira de Castro, Terra Fria, 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1980.

Tuesday, June 02, 2009

O jovem Ferreira de Castro - CRIMINOSO POR AMBIÇÃO (1916)

Caros leitores
Amaveis leitoras
Por um preço excessivamente módico, impressão nítida e papel regular, temos a subida honra de apresentar-vos em fasciculos de 20 paginas o sensacional romance criminoso por ambição, trabalho do escriptor Ferreira de Castro.
Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição, [Belém do Pará] Empreza Editora, 1916.

Sunday, May 31, 2009

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro (1)

Como havíamos prometido na «Apresentação» das 100 Cartas a Ferreira de Castro, voltamos a revelar mais inéditos pertencentes ao espólio do autor de A Selva.
Persistimos na correspondência. A epistolografia, género literário ela própria, é também uma fonte importante para a biografia de um autor e melhor conhecimento da mentalidade de uma época. Tem, assim, o grande mérito de aliar à fruição estética de um texto (muitas vezes) literário o acumular de informações veiculadas por um documento.

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro [separata], lidas e anotadas por Ricardo António Alves, Vária Escrita, n.º 1, Sintra, Câmara Municipal, 1994, p. 113.
(continua)

Saturday, May 30, 2009

outras palavras - Jaime Brasil - OS NOVOS ESCRITORES E O MOVIMENTO CHAMADO «NEO-REALISMO» (1945)

Estes anos cruciais da guerra têm sido, paradoxalmente, favoráveis ao desenvolvimento das letras em Portugal. Dizemos paradoxalmente, porque nem o clima interno é propício à floração do talento literário, nem o ambiente exterior é de molde a permitir aos espíritos a calma indispensável à maturação das obras de arte. Deve ser muito forte o estímulo dos jovens escritores portugueses, para os levar a vencer todas as oposições e limitações e a realizar-se, se não plenamente, pelo menos com grande pujança.

Jaime Brasil, Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», Porto, 1945, p. 3.