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Thursday, June 25, 2009

memória - PREFÁCIO a «Pedras Falsas», de Diana de Liz (1931)

Devo, talvez, a este livro o estar ainda vivo. Se não fora o desejo de o publicar, eu teria seguido, possivelmente, a sua autora, quando a morte ma roubou. Era bem frágil a razão para o meu desespero, para a minha dor de viver, mas eu não tinha outra. Um livro é uma obra humana e tudo quanto era humano me parecia, nesses dias de inenarrável angústia, totalmente inútil para os problemas que me torturaram e digno apenas de fraternal piedade. Parecia-me e -- pobre de mim! -- continua a parecer, muitas vezes ainda. Ela própria me demonstrou, já à beirinha da morte, quanto são frágeis, perante o Enigma, as nossas humanas coisas. Disse-lhe eu que os seus livros, quaisquer que fossem os esforços a fazer, seriam publicados e as minhas palavras não constituíram para Ela consolo algum. Preocupava-a apenas o meu destino, que Ela adivinhava que iria ser, para sempre, de sofrimento, e a referência que eu fizera à sua obra pareceu-lhe até -- li-o nos seus olhos, vi-o na expressão do seu rosto -- motivo pueril para as horas trágicas que se iam esvaindo. Ela fora sempre assim.

Sunday, April 08, 2007

Outras palavras #3 - Alexandra Kollontai

A sua acção revolucionaria, as suas conferencias iconoclastas, as suas doutrinas de rebelde, que a levavam a uma vida forçadamente errante, só eram conhecidas dos povos do norte da Europa. Companheira de de Kautsky, de Rosa Luxemburgo, de Clara Zetkin, esta mulher culta inteligente, gastou a sua mocidade a pregar a emancipação humana, o progresso das ideias, a integração da especie dentro duma vida mais justa, mais elevada, menos iniqua do que a actual. Sofreu, por isso, todas as perseguições [...]. Mas, com a vitória da revolução de 1917, quasi tudo isso terminou. Alexandra Kolontay constituiu mesmo uma das muitas surpresas que esse movimento trouxe ao mundo. [...]
Homens e mulheres teem sofrido, atravez de longos seculos, os mais grosseiros vetos, os mais incompreensiveis obstaculos, porque as religiões e a mentira social crearam, para a vida do sexo, origem da vida universal da especie, os anatemas e os preconceitos mais ofensivos da nossa própria inteligencia. E tão grande é o prejuizo milenario, que nem os cerebros mais rebeldes puderam fugir de todo à sua influencia, sendo, ainda hoje, frequentissimo vermos espiritos superiores sorrirem, ironicamente, das questões sexuais, como se elas constituissem, apenas, volupia de alcova, pecado desculpavel ao individuo que o pratica e não razão suprema da colectividade.
[...]
As mulheres [...] foram sempre as mais sacrificadas. Acumulavam com o papel de simples objectos de prazer masculino, o papel de escravas. Acumulavam e, de certa maneira, acumulam ainda, se não em todos os paises, pelo menos numa grande extensão do planeta.
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O novo tipo feminino, emancipado, consciente, a nova mulher que quer viver para compaheira do homem e não para sua escrava, essa mulher que veio da literatura para a vida e que Kolontai apresenta e estuda com fraternal carinho, podia constituir, só por si, o segrêdo do êxito deste livro. [...]
Êste livro corresponde à nova moral em formação, em que homens e mulheres não tenham, economicamente, de ser escravos de alguns dos seus semelhantes e, sexualmente, de cairem na devassidão ou de se protituirem, porque do amor, razão suprema da vida, fizeram uma obscenidade ou um objecto de comercio. [...]
Prefácio ao livro de Alexandra Kollontai, A Mulher Moderna e a Moral Sexual, tradução de Ester do Monte e Freitas, Lisboa, Livraria Minerva, 1933, pp. 5-14.