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Tuesday, April 26, 2016

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (8)

Mas é outra a Natureza que o cativa: a placidez do Vale de Ossela, o verde minhoto, a paisagem de Sintra. Num texto de 1964, «O último quarto de hora da minha vida», o escritor assinala inequivocamente a sua propensão metafísica para essa simbiose de matéria e espírito, que se manifesta não apenas no indivíduo José Maria Ferreira de Castro e também na própria obra e estilo do romancista, como acima se assinalou: 

«[…] Toda a minha existência de homem e de escritor está vinculada a esta paixão. Foi em convívio com a Natureza que os sentimentos de amor se sublimaram sempre em mim, foi em contacto com ela que elaborei a maioria das páginas que tenho escrito. As minhas demoradas estadas nesse pequeno mundo de beleza insigne que é Sintra, com tantas veredas dum intimismo lírico, tantos rincões secretos onde a poesia habita e tanta espiritualidade pairante, como se tudo propiciasse, às horas vespertinas, uma perfeita e voluptuosa fusão dos corpos e das almas, devem-se à irresistível fascinação que em mim exercem as grandes e verdes paisagens. […]» 

(in Museu Ferreira de Castro – Periódicos, MFC/D – Ferreira de Castro, «O último quarto de hora da minha vida», O Século Ilustrado #1369, Lisboa, 28 de Março de 1964: 12).

Tuesday, July 07, 2015

castrianas: A SELVA em referência de António Quadros numa visão de conjunto do romance brasileiro

É pouco referida a influência que os dois primeiros romances de Ferreira de Castro, Emigrantes  e A Selva, tiveram nos jovens autores do romance nordestino da década de 1930, nomeadamente Jorge Amado e José Lins do Rego. Creio que Álvaro Salema terá sido o primeiro a escrevê-lo explicitamente.
Numa excelente conferência sobre «O romance brasileiro actual», proferida no início dos anos sessenta, António Quadros, já em balanço final e referindo-se à tradição portuguesa da ficção narrativa do Brasil, associa o portuguesíssimo e universalista escritor português sem outra razão aparente que não seja a de evocar o poderoso romance que tem por cenário a magnitude vegetal amazónica, ora edénica ora -- as mais das vezes -- infernal, descrita como nenhum brasileiro o fizera.

« Vincadamente de tradição portuguesa, ainda quando formalmente pareça seguir outros modelos e estruturas, é uma literatura aberta à razão cósmica, que a assume e revela, que quereria ser a voz dos próprios paradoxos e das próprias contradições, que surpreende o homem, não como conceito, não sequer como substância, mas como puro movimento, como movimento infinitamente disponível, potencialidade constantemente a actualizar-se e a formar-se sob a reacção de novos estímulos e solicitações. Este carácter é evidentemente mais visível na tradição que designadamente passa por José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Dinah Silveira de Queiroz e Guimarães Rosa, que visionam o homem em união mais íntima com a natureza e as forças nuas do sentimento, da raça, do inconsciente, da inefável alma do universo, mas não deixa de aflorar num Aluízio de Azevedo, num Raúl Pompeia, num Machado de Assis, num Erico Veríssimo, numa Lígia Fagundes Teles, num Ferando Sabino, na medida em que as suas personagens reflectem o tumulto, a inquietação, a gratuita liberdade do urbanismo brasileiro, crescendo com o vigor cósmico de uma selva, aquela selva que Ferreira de Castro tão vigorosamente soube pintar em sua majestade irracional e misteriosa.»

in O Romance Contemporâneo, Lisboa, Sociedade Portuguesa de Escritores, 1964.

Thursday, November 28, 2013

Saturday, October 26, 2013

Formosa e Segura: Andanças de Leonor em SERVIDÃO, de Assis Esperança (2)

Para trás [de Servidão, 1946] ficavam quatro romances (3), duas recolhas de contos (4) e uma peça de teatro (5); mas o longevo escritor estava ainda a cerca de trinta anos de encerrar o seu extenso percurso, assinalado por mais três longas narrativa... (6)

(3) Vertigem (1919), Viver! (1921), Ressurgir (1928) e Gente de Bem (1939).
(4) Funâmbulos (1925) e O Dilúvio (1932; 2.ª edição, 1947). O Rebanho, conto de 1922, volumino inserido na colecção «A Hora Novelesca», que publicou também Carne Faminta, de Ferreira de Castro, e O Homem Inédito, de Eduardo Frias, seria incluído na primeira colectânea.
(5) Noite de Natal(1923)
(6) Trinta Dinheiros (1958), Pão Incerto (1964; 2.ª edição, 1968), e Fronteiras (1973).

Nova Síntese - Textos e Contextos do Neo-Realismo #4, Lisboa, Edições Colibri, 2009.

Tuesday, January 18, 2011

Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade (3)

No decorrer dos trabalhos para este Centenário, verificámos que existiu também uma ligação a Sintra, na década de 60, quando Andrade arrendou uma casa na Vila Velha, mais concretamente na Rua da Pendoa, a meio caminho do local em que hoje estamos e o velho Hotel Neto, onde Castro costumeiramente se hospedava.
Na última carta conhecida de João Pedro de Andrade, de 3 de Novembro de 1964, este informa Ferreira de Castro estar aos fins-de-semana num «tugúrio» que por cá arrendara:
Passo grande pedaços no café Paris, depois do almoço e do jantar, a caturrar com um velho amigo. E tenho devassado aquelas estradas e veredas saudavelmente a pé. (Pertenço à minoria dos portugueses que não têm automóvel.)1


1Lisboa, 3 de Novembro de 1964 -- MFC/B-1/2096/Cx.176/Doc.19/Ms.


João Pedro de Andrade, Centenário do Nascimento (1902-2002), Actas & Colóquios da Hemeroteca #2, Lisboa, Câmara Municipal, 2004.

Tuesday, July 06, 2010

Matilde Rosa Araújo

Matilde Rosa Araújo, morreu esta madrugada na sua casa em Lisboa, cidade que a viu nascer em 20 de Junho de 1921. Escritora, distinguiu-se sobretudo na área infanto-juvenil, com títulos como O Livro de Tila (1957) ou O Palhaço Verde (1962).
Foi uma grande amiga de Ferreira de Castro, amizade que se estendeu ainda para além da morte (era presença assídua no júri do Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro), e esteve com o escritor na direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE) -- que viria a ser extinta pelo regime salazarista e vandalizada pela Legião Portuguesa, na sequência da atribuição do prémio de novelística a Luuanda, de José Luandino Vieira, militante do MPLA, então preso no Tarrafal --, entre 1962 e 1964. A SPE fora fundada por Castro (associado #2) e por Aquilino (associado #1).
A direcção a que Ferreira de Castro presidiu e Matilde integrou teve ainda a participação de João José Cochofel, Manuel Ferreira e Manuel da Fonseca.
(outro post, aqui)

Monday, June 21, 2010

A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (3)

Em Ferreira de Castro, a publicação de um texto obedece, mesmo quando solicitado -- ou apesar de quase sempre solicitado --, a um imperativo de intervenção cívica. Esta não se esgota apenas na intervenção cívica imediata, mas tem normalmente um fundo político que lhe subjaz. Mesmo a pretexto de uma simples curiosidade jornalística -- p. ex., «O último quarto de hora da minha vida» (1964) --, o escritor permite-se sempre aduzir a sua mensagem ideológica.
Vária Escrita, #3, Sintra, Câmara Municipal, 1996.

Sunday, October 18, 2009

de passagem - Assis Esperança, PÃO INCERTO (1964)

Ao esboçar este seu romance, o autor pretendeu situá-lo no recuado período da dominação romana na Península, algumas das condições de vida nas «villae» rurais: trato e relações entre senhores, colonos e escravos, formas jurídicas da exploração do solo, corrupção de costumes, funções e procedimento dos «magistri» -- os capatazes de hoje -- em paralelo com o progresso moral e material dos nossos dias, muito principalmente no Alentejo e no Algarve. Acto de consciência pelo cotejo dos condicionamentos sócio-económicos de cada época, apreciaria, assim, o que fora, desde há séculos, a valorização da pessoa humana sob a pressão das contigências e retribuição do trabalho mais ou menos escravo, influências deprimentes, se não degradadoras, pela natureza das tarefas a que certas actividades sujeitaram e ainda sujeitam o Indivíduo. Houve, porém, que desistir desse intento por falta de elementos para a reconstituição avaliadora daqueles recuados tempos -- por muito que os rebuscasse na consulta a historiadores, investigadores e arqueólogos de maior crédito, Jerôme Carcopino e Menéndez Pidal (1) entre os de além-fronteiras. Quanto aos do nosso burgo, e sob aquele aspecto, nada mais que alusões. Nem admira. Quem os incita a esses estudos, subvencionado-os, ou subsidia as dispendiosas escavações arqueológicas? E sem arqueologia não há História.
(1) O leitor em parestos de curiosidade poderá consultar o 2.º volume da Historia de España: España Romana (218 anos a. C. -- 414 d. C.), dirigida por Menéndez Pidal, sobre os primitivos habitantes do Algarve, a invasão pelos Lusitanos, do Barlavento dessa província, no tempo dos Cónios, o arrasamento da sua capital, Conistorgis, a travessia para a conquista do Algarve Mauritano, e muitos outros sucessos, a darem-nos aquela tribo como laboriosa e pacífica. De interesse é, também, a hipótese de ter sido fundada, por ela, a cidade luso-romana de Conímbriga, Condeixa-a-Velha.
Assis Esperança, Pão Incerto, 2.ª edição, Lisboa, Portugália Editora, 1968, pp. 7-8.

Monday, April 06, 2009

de passagem - Roberto Nobre, das «Palavras prévias» a SINGULARIDADES DO CINEMA PORTUGUÊS [1964]

O tempo passa, corre, voa. Eu sei, é um lugar-comum dizê-lo. Mas todas as mais evidentes verdades se estratificam sempre em lugares-comuns. Já voaram trinta anos desde que iniciei esta improfícua actividade de análise e comentário de coisas de cinema. Marco a passagem dessa efeméride pessoal com este livro.

Roberto Nobre, Singularidades do Cinema Português, Lisboa, Portugália Editora [964] p. 13.