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Tuesday, September 15, 2015

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (5)


Em terceiro lugar, Castro foi um contemplativo da Natureza, em especial da natureza vegetal; e esta ocupa também um lugar de primeira importância na sua obra, como desde sempre viram exegetas mais atentos: já na década de 1930, o poeta João de Barros assinalara nas páginas da Seara Nova, em recensão crítica a Eternidade (1933), a «paisagem, humanizada pelos que nela penam e sofrem» (in Museu Ferreira de Castro – Periódicos, MFC/D, João de Barros, «Livros», Seara Nova #345, Lisboa, 1 de Junho de 1933: 141-142); e outros críticos tirarão desta humanização mais extremes e significantes consequências: de António Cândido Franco, que sublinhará, a propósito do romance A Selva (1930), «[…] uma atribuição precisa de sentido à natureza […]» (in António Cândido Franco, «O significado da selva na obra de Ferreira de Castro», Colóquio – Letras #104-105, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978: 62), a Torcato Sepúlveda, notando que o escritor, «[…] na obra como na vida, cultiv[ara] um doce paganismo em que a natureza era antropomorfizada […]» (in Torcato Sepúlveda, «A natureza como personagem de romance», Público, Lisboa, 29 de Junho de 1994: 25) – como teremos oportunidade de ver, a propósito das árvores de Sintra.

artigo completo

Tuesday, June 16, 2015

B de Barros (para um dicionário de Ferreira de Castro)

Poeta, pedagogo, político -- foi ministro dos Negócios Estrangeiros na I República -- João de Barros (Figueira da Foz, 1881 - Lisboa, 1960), é um dos últimos grandes vates pré-modernistas portugueses, autor de uma poética vitalista e inconformada, muito ao arrepio da tradição nacional, fatalista e lamentosa. Como escritor, importa referir também a importante obra cronística e ainda -- muito ligado à sua faceta de pedagogo -- a adaptação de clássicos, «contados às crianças e ao povo»,  como Os Lusíadas, entre outros. Era pai de Henrique de Barros, agrónomo e professor universitário que presidiu à Assembleia Constituinte (1975-1976) e sogro de Marcelo Caetano.
A estreita amizade com Ferreira de Castro -- foi padrinho da filha deste, Elsa -- remonta à década de 1920. Barros foi dos poucos autores em relação ao qual Castro transigiu, escrevendo um prefácio para a edição reunida de Anteu  e Sísifo (1959). Há pelo menos três poemas que lhe são dedicados.

(a desenvolver)

Bibliografia: além da activa de ambos, as 100 Cartas a Ferreira de Castro, o apêndice na Correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre sobre a propositura ao prémio Nobel, em 1951.

Wednesday, September 15, 2010

O POVO NA LITERATURA PORTUGUESA

O Povo na Literatura Portuguesa, selecção e prefácio de João de Barros, Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d. [1947]
autores antologiados: Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara, Gil Vicente , António Ferreira, Luís de Camões, P.e António Vieira, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, João de Deus, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Gomes Leal, Teixeira de Queirós, Guerra Junqueiro, Fialho d'Almeida, Cesário Verde, António Nobre, Raul Brandão, Carlos Malheiro Dias, M. Teixeira-Gomes, Manuel de Sousa Pinto, Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, António Patrício, Manuel Monteiro, Júlio Dantas, Joaquim Manso, Jaime Cortesão, Luís da Câmara Reis, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro [excerto de Eternidade]; António Arroio.

Monday, November 23, 2009

testemunhos #3 - João de Barros

Uma das causas do êxito excepcional da obra de Ferreira de Castro reside, aliás, nessa intercompreensão do escritor e do povo. A grandeza daquela não ofusca, antes atrai, a atenção e o interesse deste. Segredo e sortilégio, que a raros pertencem, mas que em Ferreira de Castro flui, espontâneos e discretos, da mais recôndita e amorável fonte do seu íntimo ser.
João de Barros, «Humanidade», Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Thursday, March 19, 2009

Homenagem a João de Barros

Homenagem a João de Barros, Lisboa, 1952.
Textos e testemunhos: Joaquim Manso, Leonardo Coimbra, João Neves da Fontoura, Costas Nearchos Ouranis, Ferreira de Castro, Pedro Calmon, Aquilino Ribeiro, João do Rio, Luís de Almeida Braga, Manuel Cardia, Manuel de Sousa Pinto, Guedes de Amorim, Augusto Frederico Schmidt, Josef Calmer, Carlos Sombrio, Ramos de Almeida, Ribeiro Couto, Vasco da Gama Fernandes, Carlos Malheiro Dias, Alberto de Monsaraz, Austregesilo de Attayde, António Iraizez, Mayer Garção, Carlos Maul, Joaquim de Carvalho, Norberto Jorge, Ramón Pérez de Ayala, João Luso, Artur Portela e Aubrey Bell

Thursday, February 05, 2009

testemunhos #3 - João de Barros


Assim o conheci vai para mais de três lustros, ao tempo do aparecimento da extraordinária «Eternidade», já tocado dos alvores da glória mundial que a publicação de «A Selva» lhe trouxera e que o acompanha hoje a toda a parte. E assim o vejo agora, modesto como sempre, apesar de traduzido nas mais diversas línguas do globo, festejado em todos os meios cultos, lido e relido por gentes da Europa, da América e da Ásia, honra e prestígio da literatura portuguesa, cujo renome tem levado às mais longínquas nações da Terra. O glorioso autor de «A Selva» continua sendo, acima de tudo, um «homem», na mais alta e mais pura expressão da palavra. Um homem sobranceiro à sua própria obra e, por conseguinte, apto a transcender-se, a superar-se sempre, qualidade característica e essencial dos verdadeiros criadores de Beleza e dos verdadeiros idealistas, que não duvidam do progresso moral e mental dos povos e a quem os povos, por isso mesmo, concedem sempre larga e afectuosa audiência. «A Lã e a Neve» e «Curva da Estrada» assim o comprovam de novo.
João de Barros, Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Sunday, January 04, 2009

correspondências - Norton de Matos a João de Barros

[sobre o livro de João de Barros, Hoje Ontem Amanhã, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950. Datada de Ponte de Lima, em 20 de Outubro de 1950]

Quanto aos outros, em grande número, que a seguir evoca, guardo carinhosamente no coração Fialho d'Almeida. Convivi muito com ele antes de partir para a Índia, em 1898, fui um dos seus grandes amigos e tive por ele sempre grande admiração e profunda compaixão. Quando 10 anos depois voltei, achei-o outro homem.

Dos outros, que os seus livros chama com as suas evocações perante o meu espírito apenas dois são meus antigos conhecidos, Oliveira Martins e Teixeira Gomes, que considero dois grandes cabouqueiros da Construção da Pátria que sonhamos, o primeiro nos alicerces, o segundo na resplandecente cimalha que foi a nossa intervenção na I.ª Grande Guerra. O edifício ainda não ruiu e temos de continuar a aguentá-lo, meu amigo.

Dos novos apenas dei por dois -- Ferreira de Castro e Aquilino. Os outros nunca dei por eles, por certo, ou por incapacidade minha ou porque a preocupação com as minhas tarefas não me deixava ver fora do âmbito delas.

Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, s.d., p. 74

Wednesday, December 03, 2008

testemunhos #3 - João de Barros

Habituara-se ao combate, ao sacrifício, e não ignorava a dor, sua e alheia,, camarada familiar da miséria e da desgraça. Fugira de casa, perdera-se na selva amazónica, batalhara pela liberdade
do espírito nas cidades onde mais tarde aportara, contruíra e fortalecera a sua nobre personalidade muitas vezes na solidão, no desespero e no desânimo. Passara fome e frio, calores excessivos, debilitantes enfermidades. Resistira sempre. Retemperava-se sempre. E, embora não se referisse jamais a esse passado de tormentosas dificulades da existência, adivinhava-se que através dele conquistara a superioridade da sua alma, a capacidade de «simpatia humana» que afirmava a cada passo, e uma consciência límpida e isenta de vaidades, que lhe permitia trabalhar com perfeito desprezo do que dele se pensava e dizia.
João de Barros, «Humanidade», Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, pp. 167-168.
[Acrescentado em 5-II-2009]

Monday, March 03, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1903 (#1)

Castro - Nasce a sua irmã Matilde da Soledade (1/I).


Texto - Raul Brandão, A Farsa; João Grave, Os Famintos; Costa Lobo, História da Sociedade em Portugal no Século XV. Castro sobre Raul Brandão - [...] Raul Brandão não é um Génio: -- é a concentração diluída dos génios do século XIX: -- efeito originalíssimo dos pensadores alemães. Mas... Efeito soberano: -- onde sua personalidade íntegra impera [...] «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, ed. do Autor, 1921, p. 33 Castro sobre João Grave - Pela sua leveza, João Grave faz crónicas mesmo quando faz ensaios; pela sua agudeza crítica, faz ensaio mesmo quando traça uma crónica. «Livros e Autores», ABC, n.º 263, Lisboa, 30/VII/1925.



Confronto - Jack London, O Apelo da Selva e Povo do Abismo; Thomas Mann, Tonio Kroger. Castro e os escritores repórteres (Londres, Béraud, London) - É muito maior o número dos que escrevem livros de valia do que o daqueles que fazem, no jornalismo, grandes reportagens. / Os Albert Londres, os Henri Béraud, os Jack London, têm poucos camaradas... «As nossas grandes reportagens», O Século, Lisboa, 24/I/1930, pp. 7/27.






Contexto - Assassínio dos reis da Sérvia, Alexandre I e Draga.




Pintura de 1903 - Picasso, O Velho Guitarrista.
Instituto de Arte de Chicago


Castro sobre Picasso - [...] toda a verdadeira arte deve ser inquieta, deve ser pesquisadora, sempre insatisfeita, sempre ansiosa de ir mais além; e que Picasso foi, nesse sentido e até noutros, o pincel mais rebelde e mais original do nosso tempo. Por isso o admiro muito. Picturalmente, o século XX é ele. Da resposta ao inquérito do Diário Popular, «O que pensa de Picasso?», Lisboa, 8 de Novembro de 1966, p. 11.



Música de 1903 - Debussy, Estampas.









Escritores de 1903 - Roberto Nobre (São Brás de Alportel; m. Lisboa, 1969); George Orwell (29/XII; m. 1950); morre o Conde de Ficalho (n. Serpa, 1937). Castro sobre Roberto Nobre - Eu teria vinte e quatro anos, ele findaria os dezanove quando chegou a Lisboa, alto, muito magro, um chapéu de abas largas a encimar os grandes óculos que quase lhe anulavam o rosto; e no espírito o veemente desejo de se revelar como artista. «Vida, sonho e drama de Roberto Nobre», in Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 237.




Prémio Nobel de 1903 - Bjornstjerne Bjornson



Ecos de 1903 - Teixeira de Queirós a João de Barros (Lisboa, 9/III): As ideias religiosas, os símbolos têm para nós a grandeza de criações do espírito humano e devem ser respeitados como tais. Certamente que não foram inventados para enganar mulheres dementes nem homens sem critério, ainda que as igrejas de todas as religiões se tenham servido deles com esse fim. A lenda da Virgem Maria é encantadora como símbolo poético e é-o para mim principalmente pela sua virgindade, pela sua castidade, que lhe dá um ar elevado e puro, livre das contigências e das materialidades.» Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 21.

Friday, January 18, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1900 (#1 )

Castro -

Texto - Carlos Malheiro Dias, Filho das Ervas; Abel Botelho, Sem Remédio; Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires e A Correspondência de Fradique Mendes (póstumos).
Castro sobre Malheiro Dias - Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho. / [...] /Mas com o tempo Malheiro Dias embotou-se, cristalizou. E a sua obra original foi preterida por uma obra coordenativa: «A História da Colonização Portuguesa no Brasil». «Exortação à mocidade...», A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 67, Lisboa, 9/3/1925, in Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários /Cadernos d'A Batalha, 2004, p. 30.
Caricatura de Arnaldo Ressano




Confronto - Anton Tchékhov, O Tio Vânia; Joseph Conrad, Lord Jim; Octave Mirbeau, Diário de uma Criada de Quarto.
Castro sobre Tchékhov - El tio Wania. -- Duas surpreendentes comédias teatrais do grande Anton Chekov, reunidas num só volume. Na primeira -- «El tio Wania» -- a velha rússia burguesa; na segunda -- «Las tres hermanas» -- um poema de melancolia, de íntimo e inefável encanto. Assinado pelos «Repórteres Associados» na rubrica «As artes e as letras -- Notícias, críticas e indiscrições», Civilização, n.º 19, Porto, Janeiro de 1930, p. 95.



Contexto - Censo da população portuguesa: 5.016.267



Pintura de 1900 - Henri Matisse, Nu Masculino: «O Escravo»


Castro sobre Matisse: Mais do que os problemas da perspectiva e do espaço, mais do que a realidade dos seres e das coisas, ele buscava o seu significado através duma incansável renovação das formas e dum grande talento de colorista. Cada um dos seus quadros correspondia, de certa maneira, a um constante criacionismo intelectual e pictural, que lhe veio do seu período «fauviste.» As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. III, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1963, p. 1036.






MoMA, Nova Iorque

Música de 1900 - Gustav Mahler, sinfonia #4




4.º andamento Orquestra Nacional da Rádio Polaca, Lynda Russell, soprano.

Poesia de 1900 -

AS ALGAS

No revoltoso Mar vogam, à superfície,
seguindo a ondulação inconstante das vagas
que se vão desfazer numa branca planície,
algas dum verde-escuro, algas de formas vagas.


Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.
Eu cuido que uma força, ignorada e imutável,
as conduz para um porto, ou negro ou resplendente
onde vão descansar num sossego infindável.



Assim também no mundo, errantes e sem guia,
entre o choro e o riso, entre a vida e agonia,
demandando, vãmente, o porto que procuro,

eu vejo flutuar meus versos de criança,
tendo, a enchê-los de vida, a cor verde da esperança
a que a tristeza dá um tom brunido e escuro.



João de Barros, Algas, Coimbra, França Amado Editor, 1900.



Castro a propósito de João de Barros - João de Barros nasceu à beira-mar, numa praia vasta e loira como uma seara da Argentina -- a sua amada Figueira da Foz. As primeiras vozes que seus ouvidos receberam eram do grande revoltado, que ora sussurrava velhas, ignoradas dores, ora estrondeava longas e tremendas cóleras, que enchiam a noite de mistério e pavor. Era uma energia permanente, desafiando os tempos incontáveis, as ameaças do Céu e da Terra, resistindo tanto às imprecações dos homens fortes como aos tímidos rogos dos fracos. Mesmo quando se calava, mesmo quando adormecia e uma brisa suave, respiração de sono calmo, anunciava a trégua, a sua presença fazia-se sentir como uma força indomável, sobre cujo breve repouso ninguém poderia tecer dúvidas, força que, dum momento para o outro, se altearia de novo -- a maior, a mais prodigiosa força de todo o Planeta. Prefácio a Anteu / Sísifo -- Poemas Dramáticos, Lisboa, Livros do Brasil, 1960, pp. 11-12.


Escritores de 1900 - José Bacelar (Lisboa; m. Lisboa, 1964); Antoine de Saint-Exupéry (m. 1944). Morrem em 1900 Eça de Queirós (a 16 de Agosto, em Paris; n. Póvoa de Varzim, 1845); Friedrich Nietzsche (a 25 de Agosto).





Castro sobre Eça de Queirós - [...] Eça de Queirós, como todos os grandes espíritos, foi, exactamente por sua grandeza, prejudicial às gerações que lhe sucederam. Porque... Do seu túmulo, ele, como se predicasse de sobre uma tribuna de mármore, continua a manter discípulos: -- a dispensar poderosas influências: -- a impor a sua forma e os seus «processos» a uma geração que sem essa tutela sepulcral ter-se-ia encontrado a si própria. «Livros novos», A Palavra, Lisboa, 17/VIII/1922, p. 4. [...] Eça de Queiroz não era um escritor de alma popular; ele parecia um aristocrata vingando-se dos seus pares. Mas um aristocrata que trazia as censuras dos intelectuais do povo a uma sociedade hipócrita, injusta e corrupta. «Eça de Queiroz é um escritor universal?» [...], Livro do Cinquentenário de Eça de Queiroz, edição de Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reys, Lisboa e Rio de Janeiro, Dois Mundos, 1945.



Castro sobre Nietzsche - Nietzsche compreendido é Nietzsche insultado. «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, Edição do Autor, 1921, p. 32.
[No ano em que Hitler rearma a Alemanha e no preciso dia (15 de Setembro) da aprovação das Leis de Nuremberga, sobre a "pureza de sangue" ariano, Castro refere-se à filiação do pensamento do fhürer no do autor de Para Além do Bem e do Mal]:
[...] aquele homem que saiu dos livros de Nietzsche, trazendo no cérebro lugares comuns ideológicos e, na boca, uma torrente de verbalismos, encontra, a facilitar-lhe o êxito individual, uma Europa que, na sua maior parte, quer viver tranquila e, para alcançar esse objectivo, se resigna, se humilha mesmo perante as mangações de toda a ordem a que a submetem. «Prestígio individual», O Diabo, n.º 64, Lisboa, 15/IX/1935, p. 1.
[...] eu duvidava confrangidamente de conseguir realizar as ambições literárias que trouxera. E então do mar das tormentas físicas e psíquicas partiu uma onda de pessimismo e de mortificado ensimesmamento, uma vaga sobre cujo dorso pregavam Schopenhauer e Nietzsche, amparos de quem nessa época se tinha por incompreendido [...]. «Pequena história de "Emigrantes"» [1966], Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007, p. 18.

Ecos de Nietzsche no jovem Ferreira de Castro - [...] Sob o hábito dum presidiário pulsa sempre o coração dum herói. [...] / E todo o preso que não for isso desonra a prisão: --É um pequeno carneiro que o rebanho na barafunda de encarcerar o pastor encarcerou-o também. Por equívoco, é lógico. Tirem-no, pois. Ele é do rebanho. É indigno de estar na prisão. Emporcalha-a. [...] «Mas... a prisão é uma coroação», Mas..., Lisboa, edição do Autor, 1921, pp. 7-8. [...] Eu nunca trouxe ao povoado a minha alma. Eu só desço ao povoado a buscar o meu quinhão. Jamais... Ninguém se pode vangloriar que se tivesse debruçado sobre a ânfora de renúncia onde encerrei todas as aspirações de minh'alma solitária. Os vermes só conhecem do lobo aquelas necessidades que ele satisfaz em comum: -- para viver: -- E servindo-se da mesma matéria que eles se servem. Não consta que na feira do povoado algum dia aparecesse exposta a alma dum lobo. / Eu não venho, pois, estabelecer-me no povoado. Transijo em comunicar com o povoado. [...] «"Os novos" -- conceitos de Zaratustra», A Hora, n.º 1, Lisboa, 12/III/1922.
Ecos de 1900 - Fialho de Almeida a Manuel Ribeiro (Cuba, 23/IV): A literatura e a arte são egoístas terríveis: e ou lhes damos a vida, ou lhe[s] passamos ao pé sem pensar mais nelas.» in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal, 2.ª edição, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 332.

Castro sobre Fialho (a propósito da crítica) - Em Portugal, como na Grécia, há a ideia de que a crítica deve ser de «porrete à esquina», género Brás Burity. Homens tão dotados como Fialho de Almeida deixaram-nos algumas lamentáveis amostras desse género. O crítico passa a ser uma espécie de arauto de todos os despeitos, incluindo, às vezes, o dele próprio, como no caso do Fialho com o Eça, e o criticado apenas um pretexto para o crítico se salientar. Isto, evidentemente, já não é consequência da pequenês, mas sim da atmosfera moral dum país. «Uma entrevista com Ferreira de Castro -- O escritor portugês contemporâneo de maior projecção universal», Ler, n.º 1, Lisboa, Abril de 1952.
actualizado em 19,22/I/2008

Saturday, March 31, 2007

Um poema de João de Barros

CAMINHO

a Ferreira de Castro

Dizem aqueles tristes que julgaram
Ter vivido num dia toda a vida:
-- É tudo engano e a alma aborrecida
Morre dos ideais que alucinaram...

E aos outros gritam: -- Onde, esta subida
Atrás das ilusões que vos chamaram?
-- Loucos, parai... Só esses que pararam
Chegaram à verdade apetecida!

Mas nós -- nem os ouvimos, nós, os fortes
Que através de mil prantos e mil mortes,
Sabemos que a verdade ou a ilusão,

-- Ideia altiva ou corpo de mulher --
Nunca podem fugir a quem tiver
Beijos de amor e garras de ambição!





Humilde Plenitude, Lisboa, Livros do Brasil, 1951