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Friday, December 20, 2013

ETERNIDADE de Ferreira de Castro: canto de morte e de amor. (1)

Eternidade, romance de Ferreira de Castro, publicado em 1933 pela Guimarães -- o primeiro na que seria a sua editora de referência --, tem um lugar particular na tábua bibliográfica do escritor. Situado entre A Selva (1930) e Terra Fria (1934), Eternidade pode(ria) desiludir em leitura inicial, efectuada por esta ordem cronológica, como sucedeu ao autor destas linhas, há vinte anos. Duas décadas de experiência de vida a menos, e um vício de leitura que habitualmente procurava nos livros algo que não teria de lá estar (no caso, a Revolução da Madeira, de 1931), fez com que, temerariamente -- ressalvando o célebre «Pórtico» e a intenção subjacente -- o qualificasse como «um romance falhado» (1). À primeira releitura, anos mais tarde, aprcebeu-se da falha de avaliação; nova leitura tornou-lhe evidente que teria de reparar um erro clamoroso. É o que se vai tentar.

(1) Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p. 51.

Islenha #48, Funchal, Janeiro-Junho 2011.

Monday, February 13, 2012

Ferreira de Castro: Um Escritor no País do Medo (4)

Em 1949, Vergílio Ferreira (1916-1996) pede a Ferreira de Castro (1898-1974) que interceda junto da Guimarães para a publicação de um livro seu, Mudança (2). E dá esta informação tranquilizadora: «O livro foi já autorizado pela Censura e isso livra-o do desastre de uma apreensão.» (3)

(2) Veio a publicar-se nesse mesmo ano, mas na Portugália. 
(3) Carta de Sintra, em 8 de Setembro de 1949, cf. Ricardo António Alves, 100 cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara municipal / Museu Ferreira de castro, 1992, p. 110.

Taíra - Revue du Centre de recherche et d'études lusophones et intertropicales # 9, Grenoble, Université Stendhal, 1997.

Friday, May 28, 2010

«...esta necessidade permanente de assistência afectiva...» [a correpondência entre Ferreira de Castro Roberto Nobre] (3

José Roberto Dias Nobre (São Brás de Alportel, 1903 -- Lisboa, 1969) estaria destinado a seguir a profissão do pai, não fosse o seu irrequieto temperamento artístico, que o fazia saltar da ilustração para a crítica e desta para o cinema e de novo para o desenho, etc., numa dispersão que se revelou ser fecunda. Ainda no Algarve chegou a realizar uma curta metragem, Charlotim & Clarinha, cujo Charlot escolheu para a capa do seu primeiro livro sobre a 7.ª Arte, por si desenhada -- Horizontes de Cinema, Guimarães, Lisboa, 1939.


Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969}, introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 8.

Friday, May 01, 2009

Chegar a Jaime Brasil através de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Das Artes, das Letras, suplemento de O Primeiro de Janeiro, Porto, 19 de Novembro de 2007.

Jaime Brasil pertence àquela constelação de autores que, proeminentes na época em que viveram, a sua memória se desvanece paulatinamente com o passar dos anos. Hoje, Brasil é um nome de alfarrabista, não obstante recuperações quase extemporâneas, como sucedeu recentemente com a reedição do J'Accuse!..., de Zola, pela Guimarães Editores -- no fundo um estudo desenvolvido pelo nosso autor sobre o Caso Dreyfus, acompanhado do panfleto do criador de Germinal, com esclarecidas anotações do punho do seu tradutor português.
(continua)

Saturday, April 18, 2009

Preconceito e orgulho em A Tempestade de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Nova Sintese, n.º 2/3, Vila Franca de Xira, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Campo das Letras, 2007
Publicado em 1940, pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.
(continua)

Friday, March 02, 2007

O que me apetece dizer

Quando eu era pequeno, passava de vez em quando pelo escritório e demorava-me nas prateleiras das biografias. Eram as grandes figuras por todos conhecidas, do Beethoven de Emil Ludwig ao Disraeli de André Maurois, passando por um diabólico Átila, o Huno, cujo nome do autor se me varreu. Havia, porém, um volume que me chamava a atenção, logo pelas letras impressas na lombada, dum vermelho vivo sobre o branco sujo do papel («Olha-me a estante em cada livro que olha.», escreveu o poeta brasileiro Pedro Kilkerry...), e pela circunstância de ser dos poucos, ou mesmo o único naquela secção, cujo nome eu podia ler sem dificuldade: tratava-se de Leonardo da Vinci e o Seu Tempo, numa boa edição da Portugália, publicada em Lisboa, no ano de 1959. O seu autor era Jaime Brasil, e começava desta forma: «Assim como há pessoas com sorte e outras toda a vida malfadadas, certas cidades parece terem surgido sob um signo feliz.»

Anos mais tarde, o nome de Jaime Brasil aparecia-me quase invariavelmente ligado a este género histórico-literário-ensaístico, tão negregado pelos epígonos nacionais da historiografia da revista Annales. De Zola a Balzac, de Victor Hugo a Diderot, de Velásquez a Rodin e Ferreira de Castro...
O privilégio que tenho de trabalhar no espólio do autor de A Selva permitiu que tomasse contacto com quarenta anos de correspondência de Brasil para Castro, e pudesse apreciar um epistológrafo de primeira água, a par do jornalista e do demiurgo que pôs em letra de forma a vida daqueles que se propôs evocar.
Encontrei um homem difícil, como todos os que com ele privaram reconhecem, impregnado de um pessimismo que só a arte e o amor em sentido lato podiam contrariar. Mas é justamente esse sentimento de fraternidade e partilha deste individualista notável que permite compreender a adequação interior a um ideal libertário presente nos seus escritos. A ele se pode aplicar a autodefinição de Romain Rolland, que se dizia racionalmente pessimista, mas optimista pela vontade.
E encontrei também um dos maiores epistológrafos portugueses. A correspondência de Jaime Brasil, não pensada para a publicação, seduz pelo brilho, a desenvoltura, a coloquialidade que logrou alcançar, como se de conversa efectiva se tratasse, para além de uma variedade de informações que nos dá.
Mas a carta funciona muitas vezes como um S.O.S de náufrago, de pedido de socorro de desterrado, seja no exílio, no cárcere ou no meio adverso de quem se encontra rodeado de seres de outro planeta, que de semelhante têm apenas a aparência. Essas solidões cheias de gente à volta são por vezes as mais dolorosas, e este epistolário é disso mesmo um testemunho amargo. É nos períodos de maior agudeza nas contariedades que surge um descarnamento que impressiona pelo modo como o auto-isolamento de Brasil é assumido. «A pobre rã que sou voltou a cair no charco.», escreve a Ferreira de Castro em momento de maior desalento. Esta circunstância, que não poucas vezes o leva ao sarcasmo mais brutal, não deixa em segundo plano a ironia, que nele é um traço estilístico distintivo.

Vejamos a Carta LXVII, datada de Paris, em 2 de Novembro de 1949 (pp. 117-120). Depois de aludir ao seu «estado depressivo», semelhante, de resto, ao que Castro lhe manifestara na missiva que lhe enviara, Brasil vê na troca de correspondência uma terapia para ambos:
«Escrevendo-lhe tenho a impressão de que converso consigo e até a ilusão de lhe poder ser útil, para ajudar a dissipar a tristeza que a sua carta reflecte.»
Parece que a depressão de Ferreira de Castro se devia, pelo menos em parte, à morte do editor já de longa data, Paulo Martins Cabral, que fundara, com Delfim Guimarães, a casa que era a sua desde o início dos anos trinta e que ainda hoje dá a chancela ao seus livros. Sabendo que as relações entre os editados e quem os publica nem sempre são as melhores -- onde há dinheiro, normalmente há também vilania --, Jaime Brasil procura consolar o seu interlocutor deste modo:
«Não desejaria que se entristecesse com a morte do Martins. Viveu uma longa vida durante a qual realizou decerto todas as suas ambições. Deve ter sido uma criatura feliz, na sua mediocridade de avarento, sem inquietações outras que não fossem arrecadar cada vez mais dinheiro. Deveria estar convencido de que era um grande trabalhador, pois escrevia ele próprio as cartas e as facturas da loja. Isso devia causar-lhe um grande orgulho.
Fez-lhe mais uma mesquinhice pouco antes de partir? Quantas não lhe fez desde que trabalhava para ele? De algumas soube eu. Outras calou-as o Castro por pudor; mas não era difícil supô-las. O pilriteiro só sabe dar pilritos. Os seres mesquinhos, medíocres, pequeninos, não podem produzir mais nada do que as flores do seu jardim. Não são nossos semlhantes. Nisto concordo com o bruto do Jorge Amado: a humanidade divide-se nos nossos semelhantes e nos outros. O desaparecimento destes não deve causar-nos abalo. Não valem os miligramas de sais duma lágrima.»
Este desabafo sarcástico prossegue, aproveitando Brasil para dar conta da expulsão de Jorge Amado, então militante do PCB no exílio, do território francês, situação que para o signatário «confirma o reaccionarismo disto aqui. Parecem apostados em dar razão aos comunistas.» O próprio Jorge Amado lembrou décadas mais tarde, numa longa entrevista a Alice Raillard, a sua condição de peão da Guerra Fria neste termos: «Guerra Fria quer dizer, os americanos impunham a sua vontade. Faziam chuva e sol, eram os patrões da França. Esta era a realidade até à chegada de De Gaulle.» Tal como sucedera já com a II Guerra, este foi um dos temas correntes das conversas epistolares de ambos. Veja-se como Jaime Brasil dá conta das dissensões entre Tito e Stálin, o aproveitamento por parte dos americanos com o Plano Marshall e os efeitos perversos que a luta contra o bloco soviético trazia para a manutenção da ditadura de Salazar (e de Franco), com alusão a mais uma fraude eleitoral acabada de ocorrer em Portugal:
«Afligem-no as más notícias dos jornais. Também a mim. As fricções na fronteira da Sérvia são de mau prenúncio. O rastilho pode começar a arder ali. Ainda se deixassem os marechais comerem-se um ao outro bem estava. O marshallismo, porém, deu-lhe para proteger os mais repugnantes ditadores, desde que isso lhe pareça útil para atingir o nº 1. Daí os tristes espectáculos da Sérvia e aquele que, mais recentemente, se deu no Extremo Ocidente
A auto-ironia, muito acentuada, tem também lugar aqui. Em situação precária em Paris, após uma surtida de enviatura ao serviço do jornal, que pretendia alargar para a situação de correspondente, sem que os patrões estivessem nessa disposição, num braço-de-ferro desigual, as dificuldades de Brasil são de monta, mas é notável como ele consegue sorrir do seu próprio desamparo:
«Por deferência para com a nossa amiga M. Paz, fui assistir à primeira conferência de Service de l'Home, sobre o problema da alimentação mundial. Jantara nesse dia um café e um croissant, para poupar cem francos para o dia seguinte; mas à entrada da conferência pediram-me os cem francos... Cómico, não acha?, sobretudo tratando-se do problema da alimentação.»
Este já vai demasiado extenso (como epistolarmente se diria). Uma nota apenas para acrescentar que o livro é mais um testemunho e um acrescentar de volume à identidade escondida e ocultada de uma geração literária e cultural anarquista, que teve em Ferreira de Castro porventura o seu maior expoente (Julião Quintinha, Assis Esperança, Roberto Nobre, entre outros são igualmente nomes a considerar), e que se viu remetida para uma situação de insularidade interna, à medida que o o Estado Novo se institucionaliza e o pujante anarco-sindicalismo da I República é definitivamente derrotado na Revolta da Marinha Grande, progressivamente substituído pelo PCP na luta contra a situação. Foi uma guerra sem tréguas, com danos colaterais. O anarquismo em Portugal passaria a ser uma atitude, um conjunto de tertúlias, algumas associações. Mas essa é outra conversa.

Saturday, August 26, 2006