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Tuesday, April 26, 2016

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (8)

Mas é outra a Natureza que o cativa: a placidez do Vale de Ossela, o verde minhoto, a paisagem de Sintra. Num texto de 1964, «O último quarto de hora da minha vida», o escritor assinala inequivocamente a sua propensão metafísica para essa simbiose de matéria e espírito, que se manifesta não apenas no indivíduo José Maria Ferreira de Castro e também na própria obra e estilo do romancista, como acima se assinalou: 

«[…] Toda a minha existência de homem e de escritor está vinculada a esta paixão. Foi em convívio com a Natureza que os sentimentos de amor se sublimaram sempre em mim, foi em contacto com ela que elaborei a maioria das páginas que tenho escrito. As minhas demoradas estadas nesse pequeno mundo de beleza insigne que é Sintra, com tantas veredas dum intimismo lírico, tantos rincões secretos onde a poesia habita e tanta espiritualidade pairante, como se tudo propiciasse, às horas vespertinas, uma perfeita e voluptuosa fusão dos corpos e das almas, devem-se à irresistível fascinação que em mim exercem as grandes e verdes paisagens. […]» 

(in Museu Ferreira de Castro – Periódicos, MFC/D – Ferreira de Castro, «O último quarto de hora da minha vida», O Século Ilustrado #1369, Lisboa, 28 de Março de 1964: 12).

Thursday, March 31, 2016

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (7)

A escolha de Sintra por Ferreira de Castro como um dos seus lugares de eleição para escreviver – como diria Cruz Malpique (ver Cruz Malpique, «O problema sentimental da emigração no romancista português Ferreira de Castro e na poetisa galega Rosalía de Castro», In Memoriam de Ferreira de Castro, Cascais, Arquivo Biobibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976: 169) –, tem um impulso sinestésico, tanto mais interessante quanto ele pôde conhecer a face negra da Natureza, em que o Homem não passa de um títere manejado inexoravelmente pela força titânica dos Elementos, que não consegue aplacar. (1)

(1)  «[…] A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. […]». (in Ferreira de Castro, A Selva [1930], Lisboa, Guimarães & C.ª – Editores, 1980(32.ª ed.): 106).

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Friday, January 15, 2016

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (6)

Também os estudos universitários em diferentes âmbitos, como o são o da linguística e o da ecocrítica, relevam este factor específico do apego à Natureza como algo central na obra castriana. Assim, Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve (1947) – uma das suas obras-primas –, refere-se
ao modo «habilíssim[o]» operado pelo estilo literário de Ferreira de Castro, reflectindo, não apenas uma estética, mas também uma singular mundividência: «A fusão do mundo físico com o mundo moral, a matéria inerte que ganha constantemente vida emotiva, o cromatismo singular da natureza, determinam indefectivelmente um estilo idiossincrático.» (in Isabel Roboredo Seara, «A Lã e a Neve – Virtualidade e originalidade dos enunciados metafóricos», Língua e Cultura #7-8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, Jan.-Jun. 1998: 130); e com enfoque em Terra Fria (1934), porém alargando à
restante obra, Ana Cristina Carvalho sustenta que aquela foi, e é, portadora de «um inequívoco discurso ecológico». [in Ana Cristina Carvalho, «Ecologia Humana no Romance Terra Fria, de Ferreira de Castro», A Ecocrítica no Brasil, João Pessoa, Universidade de Paraíba, 2013 (no prelo)].

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Tuesday, September 15, 2015

«Sob as velhas árvores românticas»: do significado de Sintra para Ferreira de Castro (5)


Em terceiro lugar, Castro foi um contemplativo da Natureza, em especial da natureza vegetal; e esta ocupa também um lugar de primeira importância na sua obra, como desde sempre viram exegetas mais atentos: já na década de 1930, o poeta João de Barros assinalara nas páginas da Seara Nova, em recensão crítica a Eternidade (1933), a «paisagem, humanizada pelos que nela penam e sofrem» (in Museu Ferreira de Castro – Periódicos, MFC/D, João de Barros, «Livros», Seara Nova #345, Lisboa, 1 de Junho de 1933: 141-142); e outros críticos tirarão desta humanização mais extremes e significantes consequências: de António Cândido Franco, que sublinhará, a propósito do romance A Selva (1930), «[…] uma atribuição precisa de sentido à natureza […]» (in António Cândido Franco, «O significado da selva na obra de Ferreira de Castro», Colóquio – Letras #104-105, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978: 62), a Torcato Sepúlveda, notando que o escritor, «[…] na obra como na vida, cultiv[ara] um doce paganismo em que a natureza era antropomorfizada […]» (in Torcato Sepúlveda, «A natureza como personagem de romance», Público, Lisboa, 29 de Junho de 1994: 25) – como teremos oportunidade de ver, a propósito das árvores de Sintra.

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Sunday, June 14, 2015

"Sob as velhas árvores românticas": Do significado de Sintra para Ferreira de Castro (1)

Resumo

A escolha de Sintra por Ferreira de Castro prende-se intimamente com as linhas de força da sua obra literária, que se liga aos homens com uma sensibilidade permeada pelo justo equilíbrio dos próprios homens entre si, e da vida destes com toda a envolvente natural, vegetal e animal, que lhe dá significado e sentido.

Palavras-chave: Ferreira de Castro, Literatura, Morte, Natureza, Sintra.

in Tritão #2, Sintra, Câmara Municipal, 2014
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Friday, February 22, 2013

incidentais #16 -- natureza austera e fragilidades humanas, ou remos para que te quero

*incipit: «Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.»

*O romance começa com uma acção furtiva e nocturna, em elemento aquático, de um grupo de homens, não sabemos ainda quem. A referência a um boto, situa-nos na Amazónia; um pouco mais à frente,  identifica-se o Maici-Mirim, Um único nome, Amaro, que os dirige. Tudo o que tem de ser feito realiza-se apressadamente e com o menor ruído possível, mesmo que se trate de abrir uma clareira. E se falamos em Amazónia, por pequena que aquela seja, há-de custar limpar uma área onde a vegetação é densa -- como já havíamos aprendido no outro livro do autor, publicado havia 38 anos, A Selva; e ainda hoje -- agora mesmo --, podemos aferir em imagens de satélite.

* As árvores como elementos natural de grande nobreza, recorrente na obra castriana; as figuras de estilo, «a fusão do mundo físico com o mundo moral», como certeiramente viu Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve, surgem desde logo, em todo o esplendor:
«O machado voltou a insistir. O tronco foi-se inclinando, estalando pouco a pouco, ainda hesitante em obedecer ao desígnio dos seus algozes. E quando, enfim, se decidiu, os galhos dos vizinhos, a que se amparava e com brutalidade ia partindo, lançaram protestos mais ruidosos e aflitos do que ele próprio, que a esse apoio forçado ficou devendo poder morrer abafadamente, como se tivesse rolado de degrau em degrau, até à cova.»
«Dir-se-ia que as próprias árvores tinham abandonado o ar austero e imóvel, essa enigmática expectativa com que haviam recebido, pouco antes, aquele bando de demónios, que tudo assarapantava em seu redor.»

* A debandada quase ao raiar da aurora, a verdadeira fuga a que o grupo se entrega, um pavor gelado, umas asas nos pés, um turbo nos remos que ainda não existia -- e nos remos não existirá --, indicia um perigo iminente. Perigo esse que nos é dado pelo frenesim dos perpetradores de algo que ainda não sabemos bem o que é (um acampamento?), como pelos sons que surgem com a primeira luz, arrepiando esses audaciosos mas timoratos indivíduos que derrubam árvores em floresta alheia:
«De súbito, assustando a paz da manhã em desenvolvimento, revoaram até elas brados de guerra, estridentes e selváticos, através dos quais a morte parecia tomar, antecipadamente, uma voz de frenética alegria; brados de triunfo, alternando com gritos de dor, tão agudos, tão desesperados, como jamais os enormes troncos, nem mesmo os mais velhos, tinham ouvido naquelas solidões do Mundo.»

Thursday, January 17, 2013

incidentais # 15 -- revoluções, chuva, mais remoques de ontem & de hoje

(sobre o capítulo I de O Intervalo)

*incipit: «As derradeiras notícias tivemo-las às dez da manhã.»

* Uma homenagem (já por 1936) às gerações de anarquistas, anarco-sindicalistas e sindicalistas revolucionárias, a que ele pertenceu, e que atravessariam uma noite ainda mais cruel, porque mais solitária. (1)  A acção decorre no período da Ditadura Militar e da II República espanhola.


*Alexandre Novais, "o Século XX", operário (torneiro-mecânico), antigo secretário da CGT, marcado pela policia; também alter ego de Ferreira de Castro, como já escrevi. Para já, em primeiro capítulo, uma coincidência de idades e uma viuvez partilhada (em circunstâncias diferentes, embora).

*Fiasco grevista, unidade na acção entre anarco-sindicalistas e comunistas (o que historicamente sucedeu, todavia com desentendimentos graves) («Mas os políticos é que me estão cá atravessados! Eu bem dizia que isto de políticos não dava nada!...», vocifera o militante Francisco Soares, pela "traição" dos políticos e contra o sai-não-sai dos militares -- militares, que levaram 48 anos a fingir que saíam dos quartéis...

*No rescaldo da derrota, Novais e alguns companheiros estão refugiados na habitação do companheiro Francisco Soares  um ambiente opressivo num tugúrio operário -- descrito com a segurança de meia dúzia de pinceladas (como se está longe da exasperante minúcia naturalista das habitações dos bairros operários, à Abel Botelho...).

* O cinzento do céu, a chuva miudinha que dá cabo dos nervos perpassa por todo o capítulo, acentuando a angústia do momento de incerteza por que passam aqueles insurrectos: «[...] a chuvinha persistia, escurecendo o dia, agarrando-se aos sentimentos, tornando tudo viscoso.» /
«Até admiti ser devido à chuva, sobretudo à opressora luz soturna que ela criava à nossa volta, o aumento da minha turbação cada vez mais expectante.» ("Toda a natureza é escrava da luz", dirá ele numa entrevista a Álvaro Salema, em 1973...)

* Procurado pela polícia como um dos principais dirigente grevistas, é impedido por um companheiro de, em desespero, dirigir-se à morgue, onde jaz Maria, sua companheira, atingida pela polícia: «Tu não te pertences!», dizia-lhe Leontino, pequeno funcionário público:  e o protagonista, que assume em O Intervalo o papel de narrador, examina-se intimamente: «Não nos pertencíamos a nós, mas ao nosso ideal, aos espoliados, à Humanidade que sofria, à criação dum mundo novo, onde a justiça estivesse de pé, a colmeia vivesse em igualdade e o amor aplainasse a obra feita, durante um ror de séculos, por um construtor de abismos.»

* O Intervalo esteve para intitular-se  -- revelou Jaime Brasil nos anos quarenta-- «Luta de Classes», e ainda bem que não vingou, não faria jus à grandeza literária do autor. Mas eu percebo Brasil: anarquista escaldado e de couraça dura, queria mostrar aos polícias que teorizavam o neo-realismo que não haviam sido eles a descobrir a pólvora. Conhecendo bem o seu esquema mental, deveria estar avisado sobre a forma como encaravam a História e a verdade dos factos: simples pormenores que se apagam ou manipulam conforme as conveniências da acção...

(1) Nem de propósito, acabo de ler:
«O anarquismo foi objecto duma implacável repressão nas primeiras décvadas do séc. XX. Ao longo dos anos 20 e 30, milhares de anarquistas ou de supostos tais foram presos, deportados para sítios inóspitos, morto. Essa repressão fez-se com pretextos diversos -- vagas de atentados da legião vermelha e até da camioneta fantasma, o 3 de Fevereiro no Porto e em Lisboa, a revolta da Madeira, o encerramento dos sindicatos livres e o 18 de Janeiro de 1934, o atentado a Salazar, etc. / [...] / Evidentemente que isso não poderia deixar de ter fortes reflexos na actividade anarquista que ficou reduzida à sua expressão mínima, com um Comité Confederal clandestino que só muito esporadicamente reunia, e sem capacidade para publicar de forma continuada e regular jornais de propaganda.»  José Hipólito dos Santos, «A participação de libertários em movimentos para derrubar a ditadura salazarista», A Batalha # 252, Lisboa, Nov.-Dez. 2012, p. 3.

Monday, December 24, 2012

incidentais #14 -- da Revolução e do Amor ao Estilo, passando por uma abelha moribunda

do cap. I

*o incipit: «Manhã alta, toda vestida de azul, com olhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte.»

* Diz-se que Eternidade encerra o ciclo de romances autobiográficos iniciado cinco anos antes, com Emigrantes; mas creio que só neste se poderá considerar o protagonista, Juvenal Gonçalves, como alter ego do autor, o que de modo nenhum sucede com o rústico Manuel da Bouça de Emigrantes, nem com o jovem universitário monárquico de A Selva, Alberto. Em Eternidade, autor e personagem têm a mesma idade, ambos acabam de sofrer a perda dolorosíssima da respectiva companheira (Diana de Liz, 1892-1930), os dois (como se verá com o desenrolar da narrativa) os mesmo ideais libertários. Diferem na formação académica, Castro, autodidacta; Juvenal, engenheiro silvicultor -- não por acaso engenheiro; não por acaso silvicultor. Se o engenheiro opera sobre a Natureza, transformando-a, desejavelmente, ao serviço do Homem, o silvicultor ama-a e respeita-a, o que foi sempre uma marca libertária castriana: a transformação, se quisermos a Revolução, guiada pelo Amor aos homens e aos seres vivos, naturais e vegetais, sem o qual Amor, não passarão de números, massa, entes desprovidos de individualidade e, por consequência, de dignidade.

* Livro que trata da morte, da perda, do sentido da vida, um primeiro episódio -- ainda Juvenal acorre à amurada, antes de acostar no porto do Funchal, e que dá a medida da debilidade seu estado psicológico -- em torno de uma abelha, frágil ser vivente, é das passagens mais impressivas que Ferreira de Castro escreveu.

* Também aqui brilha o estilo de Ferreira de Castro, a sua enorme capacidade descritiva, de que A Selva é o melhor exemplo. No início de Eternidade do Funchal, o casario que nos vamos aproximando é dotado de vida própria, como se possuísse um desígnio, como se fosse dotado de vontade: «E o casario, branco, risonho, aumentava sempre. Em busca de espaço e de maior largueza panorâmica, dera-se a trepar pelas encostas vizinhas, até ao Pico do Facho. Não contentava o ambicioso que cada janela fosse alegre miradoiro sobre o mar e sobre o regaço de onde ele iniciara o ponto de partida. Queria mais, e, pouco a pouco, ia sacudindo a cabeleira de colmo, substituindo-a por telha que gritava, de entre o verde-pardo do quadro, o seu vermelho novo.»

Monday, October 08, 2012

Castrianas - Mário Gonçalves Viana

Crítico literário do Jornal do Comércio e Colónias e polígrafo, Mário Gonçalves Viana (1900-1977) foi um dos primeiros a notar o estilo poético de Ferreira de Castro, na recensão a A Selva, acabado de sair («o maior acontecimento literário da presente temporada», dirá), classificando o romance como um «autêntico poema em prosa». 
Lendo bem o livro, não esquecerá a questão social, protagonizada pelos seringueiros, chamando contudo a atenção para o papel central da floresta na narrativa:

«[...] àparte a evocação admirável da escravidão do homem pelo homem, o enredo é quase um pormenor, um pretexto ou mesmo um incidente. o que avulta, o que emplga, o que deslumbra -- é a descrição do cenário estupendo dentro do qual o romance gravita [...].»
Mário Gonçalves Viana, «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931.

Thursday, September 22, 2011

Natureza e Homem em Ferreira de Castro



«Natureza e Homem em Ferreira de Castro: Imagens de uma relação», conferência por Ana Cristina Carvalho, sexta-feira, 23 de Setembro, pelas 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.
Ilustração: Alex Gozblau

Monday, September 20, 2010

Ferreira de Castro na "Cidade de Lilipute" (3)

Não se pense que Ferreira de Castro é um escritor de populismos fáceis. A inclinação pelos desprotegidos que se verifica nos seus livros resultou não apenas da sua vivência juvenil, como dum arreigado inconformismo ante a ordem natural das coisas, respeitasse ela à organização social injusta -- que sempre contestou -- ou à condição inevitável de finitude de cada um e todos os homens. Os seus romances reflectem, por isso, as angústias e as contradições do ser humano, independentemente da classe social a que pertençam. Castro foi também um ecologista avant la lettre. O enlevo em face do meio ambiente, em particular do mundo vegetal, não ficou atrás do interesse com que se debruçou sobre a condição humana. Significativa é a localização do seu túmulo, em plena Serra de Sintra (Património Mundial desde 1995): a seu pedido, o escritor repousa "perto dos homens, meus irmãos, e mais próximo da Lua e das estrelas, minhas amigas, tendo em frente a terra verde e o mar a perder de vista -- o mar e a terra que tanto amei." (3)

(3) Incluído por Adelino Vieira Neves (org.), In Memoriam de Ferreira de Castro, Cascais, Arquivo Biobibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, 1976, p. 211.

In Ferreira de Castro, Macau e a China, Taipa, Câmara Municipal das Ilhas, 1998.

Sunday, October 04, 2009

testemunhos #7 - Manuel Pinto Ferreira de Sousa

(foto)
O meu primeiro encontro com Ferreira de Castro deu-se em Julho de 1966, no Grande Hotel da Torre (Entre-Os-Rios). Costumava ele vir aí, desde 1956 aproximadamente, na época de veraneio para descanso e tratamento. À medida que ia estabelecendo diálogo com ele, fixei nas folhas modestas do jornal «O Penafidelense» (1), as descoloridas impressões, que colhi do seu contacto amigo. Nunca se discutiu, nem de religião, nem de política. Nunca lhe captei qualquer assomo ou ânsia metafísica. Apenas os seus passeios pelas terras de Penafiel, as conversas com o povo, os monumentos da região, os assuntos da natureza, da história e pré-história, e do trabalho de cada um alimentavam o tema espontâneo das entrevistas. Não olvidava os bons amigos seus. Para alguns deles abriu-me caminho cultural e correspondência epistolar, a qual guardo em escrínio precioso. Entre outros escritores nomeio Jaime Lopes Dias (2) e os brasileiros Homero Homem (3), Gondim da Fonseca (4)*, Carlos de Araújo Lima (5), aos quais tive a oportunidade de me referir publicamente.

(1) Vide «O Penafidelense» de 30-7-68, 2-11-68, 14-10-69, 19-1-71, 2-2-71, 16-2-71, 10-10-72, 2-10-73, 9-7-74 e 19-11-74.
(2) Vide «Etnologia -- Etnografia -- Folclore», em «Mensário das Casas do Povo», n.º 304 -- Outubro, 1971, e em «O Penafidelense», de 10-6-1969, onde faço referência à sua vasta cultura. As cartas, que me dirigiu, documentam a honrosa amizade do exímio escritor.
(3) Vide «Um poeta brasileiro», em «O Penafidelense» de 28-9-1971.
(4) vide «Camões e os Lusíadas», em «O Penafidelense», de 23-10-1973. Dele conservo cartas, que me dirigiu7 de excelente amigo e homen de letras.
* No artigo surge "Godim".
(5)Este colega e distinto Advogado enviou-me, como oferta gentil, a sua prestimosa separata do «Jornal de Letras», do Rio de Janeiro, «Com Ferreira de Castro no Minho» -- 1972.

Manuel Pinto Ferreira de Sousa, Encontros e Cartas de Ferreira de Castro, separata do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 25, Matosinhos, 1981, p. 3.

Tuesday, May 29, 2007

De passagem - EMIGRANTES (incipit)


Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.
Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 19.