Friday, April 04, 2025
as biografias de Jaime Brasil
Monday, March 24, 2025
dos romances
«Ao ver a expressão da irmã, Soriano julgou adivinhar nela uma discordância que se continha, por falta de tempo para discutir. / -- Há muitas excepções, é claro, e tu és uma delas... -- acrescentou ele a sorrir. / -- Não é isso o que me importa -- interrompeu Mercedes, pousando a chávena. -- O que me importa e irrita é essa mania que tu tens de achar bom tudo quanto é estrangeiro e mau tudo quanto é espanhol. Mas não me admira nada; mesmo nada; todos os teus correligionários são assim...» A Curva da Estrada (1950)
«Trazia o cabelo sujo e desgrenhado; alguns fios partiam da densidade do todo e enroscavam-se-lhe na testa, como as gavinhas que saem de sob as folhas das videiras à procura dum corpo para se abraçarem. / Ao atingir a porta, baixou o olhar sobre os dois degraus que tinha de descer e hesitou; o polícia compreendeu que, de mãos algemadas atrás das costas, ele não podia valer-se delas se um dos pés falhasse e ficou a observá-lo, um momento.» A Experiência (1954)
«Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra.» A Lã e a Neve (1947)
Wednesday, March 19, 2025
Conversas sobre Ferreira de Castro: "Ferreira de Castro, lido por Jaime Brasil"
Tuesday, March 18, 2025
traduções
Emigrants: «Black and white, black and white, the black smooth and shinning and the white really snow-white, was a magpie with its tail nervously twitching, moving about among the pine needles and heather, in and out of sight, and from time to time it would rise in flight to the very top of the pine tree, carrying in its beak some small sprig or dry twig.» -- trad. Dorothy Ball, 1962
Émigrants: «Noire et blanche, noire et blanche, noir de jais et blanc de neige, la pie, la queue tremblotante, inquiète, sautillait parmi la ramille et la roquette, disparaissait, reparaissait, puis s'envolait en haut d'un pin, avec, au bec, quelque menue branchette.» -- trad. A. K. Valère, 1948
Emigrantes: «Negra y blanca, negra y blanca, el negro muy brillante y muy níveo el blanco, la picaza, de cola inquieta, trémula, picoteaba entre luz y tojo, escondiéndose aqui, levantándose alli, y, por fin, surgía de un vuello hasta la alta copa del pino, llevando en el pico hojarasca o pajillas.» -- trad. Eugenia Serrano, 1946
Emigranti: «Nera e bianca, nera e bianca, il nero lucentissimo e il bianco niveo, la gazza dalla coda irrequieta saltellava tra gli arbusti, ora nascondendosi ora riapparendo e alla fine spiccava il volo verso la cima alta del pino, portando nel becco un ramoscello secco.» -- trad. A. R. Ferrarin, 1937
Emigrantes: «Negra y blanca, negra y blanca, el negro muy brillante y muy de nieve lo blanco, la urraca de cola trémula, inquieta, saltaba entre hojas y tojos, se esconde aquí, surge allá, y, por fin, levantaba el vuelo hasta la copa alta del pino, llevando en el pico un trozo de ramaje seco.» -- trad. Luis Díaz Amado Herrero e Antonio Rodríguez de León, 1930
Emigrantes: «Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde ali, surge aqui, e por fim erguia voo até à copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» (1928)
Emigrantes está traduzido nos seguintes idiomas: alemão, castelhano (2), checo, croata, eslovaco, francês, húngaro, inglês, italiano, polaco e russo.
Tuesday, March 11, 2025
dos romances
«Mounier parou: / -- Bom dia! Então qual é hoje o trabalho? / Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.» A Missão (1954)
«--É tudo uma malandragem! Ah, bom tempo em que havia relho e tronco! Então, esta canalha andava mesmo metida na ordem! Hoje, não se prende ninguém por dívidas e dizem que já não há escravos. E os outros? Os que perdem o que é seu? Vem um homem a fazer despesas, a pagar passagens e comedorias e até a emprestar dinheiro para eles deixarem às mulheres, e depois tem-se este resultado! Lhe parece bem? Ora diga, senhor Macedo: lhe parece bem?» A Selva (1930)
«["] Fora naquela mesma cama que ele tivera as núpcias com a sua primeira mulher, a santa que a morte levara, para desgraça dele. Fora ali, também, que a pobre morrera, lúcida, muito lúcida sempre preocupada, sempre a pensar no futuro dele e da filha, até o último instante. Ainda duas horas antes de expirar, obrigara-o a comer na sua frente, 'pois andava desconfiada de que, por causa dela, ele não comia.' Sofrera tanto com isso! ["]» A Tempestade (1940)
Thursday, March 06, 2025
nas palavras do outros
(Jacinto do Prado Coelho, 1976) «Mais uma vez, na pena de Ferreira de Castro, a literatura apontou um caminho e exaltou grandes valores morais. / / O Instinto Supremo conta a história simples dum punhado de homens que se propõem, arriscando a vida, trazer uma tribo de índios ao seio da civilização. Persuadi-los a, de livre vontade, quebrar uma atitude hostil e deixar o estado selvagem.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)
(Agustina Bessa Luís, 1966) «Era um dia quente e sem brisa, o espírito não contava pois com o ligeiro sopro das ribeiras; apagavam-se os verdes ao sol de Agosto. No entanto, Ferreira de Castro, sem esmorecer de atenção, disse: "Valeu a pena vir aqui ver esta estradinha... É maravilhosa..." Todos os anos passados eu levara a percorrer a pequena estrada branca, de noite, com luares circundados da piedade humilde dos pinhais, de dia ouvindo o cachoar da água, o mistério da água correndo absorta, a água matemática dos campos da minha terra -- tudo se voltou para mim do seu sequestro na memória e no hábito. E eu vi que sim, a estrada era maravilhosa.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)
(Nogueira de Brito, 1928) «Os tipos, que a sua obra incarna, são exemplos da vida, e não há um gesto, um vinco de fisionomismo que não atinjam uma verdade irrefutável, um sentido de exactidão a que não está acondicionado o género novela, tão escassamente conseguido.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)
Sunday, March 02, 2025
Ferreira de Castro no texto de balanço de vida profissional de José António Saraiva
"Não é uma despedida", aqui.
Thursday, February 27, 2025
dos pórticos
«A nossa vida está pletórica de iniquidades, de misérias, de renúncias e de sofrimentos -- e nós, apesar disso, não queremos morrer. / Tu, meu irmão longínquo, que já mataste a morte, que já criaste um novo mundo sobre o mundo em que vivemos, que já tens uma outra noção do Homem e do Universo, dificilmente compreenderás como nos foi difícil viver assim.» Eternidade (1933)
«Mas só a memória responde. Com ela, agora e logo, ressuscita também um longínquo estado da sensibilidade, um pormenor que não teve valia momentânea, mas que ficou em relevo, com a sua luz própria e o seu verdadeiro aspecto.» A Selva (1930)
«Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número de seres que o são apenas no sofrimento, no vegetar fisiológico de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixam-se ir assim, humildes, apagados, submissos, do berço ao túmulo -- a ver, pacientemente, a vida que vivem outros homens mais felizes.» Emigrantes (1928)
Monday, February 24, 2025
dos romances
«Ao fundo, cortando o declive, estendia-se a linha avermelhada dum valado, que cedia terreno e entrincheirava a multidão cerrada dos pinheiros adolescentes e mui viçosos -- a prole que os velhos não quiseram cobrir com as suas asas seculares.» Emigrantes (1928)
«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando a pouco e pouco, sob o impulso da ambição e da glória. / Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora.» Eternidade (1933)
«Então novas lâmpadas se acenderam e os seus focos inquiridores foram riscando o grande emaranhado, onde os grossos fios de lianas cosiam, uns aos outros, arbustos, plantas, árvores, e os velhos troncos de pele esbranquiçada pareciam, quando a luz por eles subia, a modo de réptil transparente, de contornos imprecisos, querer assustar os homens com a lividez de cadáver que a sua casca, de súbito, tomava.» O Instinto Supremo (1968)
Wednesday, February 19, 2025
errâncias
«Depois de exame feito a todos os programas que outros teceram, a todos eles renunciamos e estabelecemos programa próprio, sem compromisso algum com armadores, livres, completamente livres. Visitaremos, assim, os países que ilustram as viagens em redor do Orbe, organizadas por companhias de navegação, e também aqueles, de denso valor humano,, artístico e histórico, que nessas viagens nunca figuram.» A Volta ao Mundo (1940-44)
«Havia lido, não sei em que absurda gazeta, ser o bispo desta cidade quem dava o santo e a senha para se entrar na república patriarcal. Sondada, porém, aquela dignidade eclesiástica por Monsenhor Costa, velho emigrado português e director de uma das piscinas de Lourdes, a resposta foi negativa. Dirigimo-nos, então, à Compagnie du Midi e. finalmente, à Prefeitura. Nada! Para eles como para mim, Andorra só existia no mapa!» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)
«-- É a marquesa X, surda e louca -- dizem-nos e nós temos dificuldade em vencer a súbita ideia de que se trata duma ressuscitada que está ali apenas para completar o ambiente e que o seu vaivém soturno é uma forma de impaciência, enquanto ela espera que se reabra o túmulo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)