Monday, July 13, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (10)

Quais os outros poetas notáveis da primeira metade do século XX mencionados por Nemésio? 

Camilo Pessanha (1867-1926), autor de título único não só estava fora do critério estabelecido, como Nemésio, juntando-o a Cesário e Nobre, entre outros, parece atirá-lo para o século XIX. Não fosse esta restrição de excluir autores de livro único, talvez o poeta de Clepsidra figurasse noutro lugar. 

O par Gomes Leal (1848-1921) e Guerra Junqueiro (1850-1923), ambos falecidos na década de 1920, estavam organicamente ligados ao século anterior, nunca podendo ser representativos da primeira metade do século XX, independentemente das restrições adoptadas pelo respondente. 

Com Eugénio de Castro (1869-1944), que morrera apenas meia dúzia de anos antes deste inquérito -- e neste caso, cronologicamente elegível --, Nemésio vai considerá-lo como um corifeu de «um cânone estético determinado» – o simbolismo, e portanto muito particular e localizado no tempo, ou seja, pouco representativo da poesia portuguesa entre 1901 e 1950. De resto, com a excepção dos Últimos Versos (1938), Eugénio de Castro deixara de publicar em finais da década de 1920, e não fora daí que viera a poesia que se impôs, a do(s) modernismo(s). 

Wednesday, July 08, 2026

outras palavras

«É possível, eu julgo mesmo ser certo, que a bondade, em algumas existências humanas, tem, como causa, algumas anormalidades viscerais. Em Delfim Guimarães, porém, a tendência instintiva fora ampliada por auto-trabalho de aperfeiçoamento espiritual, por uma longa observação do panorama humano, que, quando contemplado demoradamente, à margem dos interesses de cada um, nos dá o desejo de abraçarmos todos e chorarmos todos o nosso destino.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Aos nove anos fiz o meu primeiro exame, ficando, de todos os examinandos, apenas eu e o filho do professor a estudar para o segundo. É que os pais dos meus condiscípulos entendiam que estes, para a vida, necessitavam apenas de "saber fazer as quatro operações e ler e escrever uma carta para o Brasil..."» «[Memórias]», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Tuesday, July 07, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (9)

E é assim que, ao oitavo parágrafo num total de treze, Nemésio avança com os seus dois nomes de eleição, na poesia e na prosa: Teixeira de Pascoais (1877-1952) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, à luz dos parâmetros que estabeleceu, nos parecem ainda hoje indiscutíveis. 

Pascoais, com 73, morreria dois anos depois, tendo publicado, nesse intervalo, uma novela e uma conferência sobre o poeta algarvio João Lúcio; Aquilino, com 65, viveria ainda por quase 13 anos, período em que fez sair vários livros, entre os quais A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958); no entanto, o seu lugar como o grande prosador da primeira metade do século estava já assegurado.

Wednesday, July 01, 2026

nas palavras dos outros

Alexandre Babo (1966): «Ontem, no salão nobre da Sociedade Nacional de Belas-Artes, foi prestada homenagem a Ferreira de Castro, pelos cinquenta anos de vida literária, encerrando-se uma exposição ali patente há dias, através da qual se podia aferir de muitos factos da sua vida, da sua obra e da repercussão dela no Mundo.» «Cinquenta anos de vida literária», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Jacinto do Prado Coelho: «Ferreira de Castro só confia no Homem, mas com um firme optimismo, uma fé inteira. A missão do Homem é arrancar à Natureza aqueles que por ela vivem subjugados. O homem civilizado é mais feliz; como diz Nimuendajú, "só quem for cego pode admitir que a vida primitiva e a ignorância trazem a felicidade aos homens (p. 103)".» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Tuesday, June 30, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (8)

Nemésio começa por elogiar este tipo de sondagens e auscultações, por chamarem a atenção e levarem à análise do que está em causa – neste caso a literatura portuguesa; mas não deixa de aludir ao melindre que é escolher – e escolher é sempre eliminar –, num meio pequeno e individualista (se formos benévolos) e de rivalidades como o português: «Somos poucos e os poucos que somos, dispersos.»

A sua escolha resultará pacífica e óbvia, avançando com alguns critérios extraliterários que a justificam: o primeiro é o de que os autores elegíveis teriam de estar todos vivos nesse ano de 1950; o segundo era o de serem adolescentes no início do século XX e, portanto, no meio século que se assinalava, estarem já suficientemente maduros e terem calcorreado um percurso que não levasse a esperar grandes mudanças da sua parte; uma outra condição prévia autoimposta foi a de privilegiar nessa escolha uma certa unidade de género literário, um poeta essencialmente poeta; um prosador (diria um romancista) que pouco se afastasse do género; finalmente, uma derradeira condicionante: a de que os autores escolhidos se caracterizassem por uma actividade regular ao longo das décadas, não se confinando a um livro único (como fora o caso, na centúria anterior, de Cesário Verde, com o seu livro póstumo (1887) ou António Nobre (, 1892), ou a um “livro-cume” -- ou seja, uma obra que se destacasse em muito de tudo o resto que escrevera; seria o caso, mais recentemente, de um Dinis Machado, com o seu O que Diz Molero (1977), livro que talvez Nemésio ainda tenha lido…

Friday, June 26, 2026

dos «Pórticos»

«Só lhe peço que não alinde os trechos essenciais, não vá o feio ficar bonito, mas falso, e a verdade, que se quer simples, parecer fantasia. Aliás, nestas páginas Você encontrará muitas influências dos seus livros, que um camarada português me enviou e foram as minhas únicas distracções em várias cadeias durante meses infindos.» O Intervalo (1936/1974)  

«A meio da tarde, o barco, com novo silvo infantil, atracou em Bedrachein. Dali nos dirigimos para Mênfis, cujos remotos túmulos a minha curiosidade esquadrinhou e, depois, fatigados da andança, buscámos sombra sob as tamareiras que debruam a antiga capital do Egipto.» A Tempestade (1940)

Thursday, June 25, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (7)

 

Trata-se, pois, de um inquérito, organizado no final de 1950, de balanço literário sobre a primeira metade do século XX português, que então se concluía, pedindo que fossem indicados «os escritores e as obras mais representativas da primeira metade do século.» (p. 109*), texto que foi mais tarde coligido no esplêndido livro de ensaio e crítica literária Conhecimento de Poesia, cuja primeira edição saiu no Brasil, em 1958.

         Antes de esmiuçar a resposta, quero dizer-vos que obviamente o Ferreira de Castro faz parte dessa lista de “vencedores” que Nemésio organizou – caso contrário não estaria aqui a falar dela --; e que destas breves quatro páginas incompletas (109-112), na edição que possuo*, são mencionados 26 autores, dos quais dez, tendo vivido em século anteriores, não são elegíveis para este inquérito. Restariam 16, se o critério de Nemésio não fosse de uma subtil perspicácia – mas já lá vamos.

* Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia [1958], 3.ª ed., Lisboa, Imprensa nacional-Casa da Moeda, 1997.

Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Tuesday, June 23, 2026

Vencedores de meio Século XX: Ferreira de Castro e Vitorino Nemésio em voo de pássaro (6)

 

Convém dizer que, em 1950, Nemésio era -- e desde a década de 1930 – uma figura proeminente da nossa república das letras, erudito historiador da cultura, professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, depois de o ter sido em Coimbra e passado por França e pela Bélgica como docente, fundador e director da Revista de Portugal (1937-1940), era o sólido autor da tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), o poeta de O Bicho Harmonioso (1938) ou Eu, Comovido a Oeste (1940) e o magno romancista de Mau Tempo no Canal (1944), entre vários outros livros de poesia e prosa, incluindo a ensaística. Ou seja, simultaneamente escritor e académico de alto coturno (entre os seus assistentes contaram-se António José Saraiva, David Mourão-Ferreira e António Machado Pires) e já ligado ao universo mediático com programas na então Emissora Nacional, as suas palavras, o seu juízo, as suas apreciações tinham peso não apenas no meio literário como junto do público leitor em geral.

Monday, June 22, 2026

dos romances

«Tudo recomendado, preparava-me para sair quando me lembrei de deitar uma olhadela à rua, através da vidraça. A princípio só lobriguei vultos disformes; depois, limpando o embaciado, vi nitidamente três indivíduos que palestravam à esquina, alheios à água que o céu peneirava.» O Intervalo (1936/1974)

«Meteu-se na cama, procurando não tocar o corpo da mulher. O calor dela, grato nas outras noites, tornava-se-lhe, nesse momento, mais nojoso do que febre de tísico. Sentia tumultos no cérebro e assomos de ira.» A Tempestade (1940)

« -- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia anti-aérea prantava-se mesmo à beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. Às vezes, era cada um, tão grandalhão, que dentro dele ninguém podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu já ouviste falar no Estoril?» A Lã e a Neve (1947)