Tuesday, January 06, 2026

dor romances

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Sunday, January 04, 2026

traduções - CANÇÕES DA CÓRSEGA

«Chants de Corse»: «Mesdames, / Messieurs // En février de cette année, je me suis retrouvé brûlant de curiosité dans un froide glacial, à San Petru de Venacu, au coeur de la Corse. / Je m'étais rendu sur l'île avec l'intention d'oberver les coutumes et, si possible, la psychologie de ses habitants.» - trad. Eugène F.-X. Gherardi, Mondes en Petit et Vieilles Civilizations (Corse, 1934) (2023) 

Canções da Córsega: «Minhas Senhoras, / Meus Senhores: // Em Fevereiro deste ano* eu encontrava-me, com muito frio e muita curiosidade, em S. Pierre de Venaco, no coração da Córsega. / Tinha ido àquela ilha com a pretensão de observar os costumes e, se fosse possível, a psicologia do seu povo.» (1936)

* 1934.

Tuesday, December 23, 2025

correspondências

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../...«Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração. / Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a "massa" -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase uma renúncia (ou não?) // JM Ferreira de Castro» Correspondência (1922-1969) (1994)

Monday, December 22, 2025

outras palavras

«Veio, este ano, o António da Zefa, que anda no peixe, em Lisboa; veio o Arturinho, que está de caixeiro no Porto, e veio o filho do Soares lavrador, que estuda, em Coimbra, para que a freguesia tenha a honra de dar também um doutor a Portugal.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)  

Friday, December 19, 2025

nas palavras dos outros

 Mário Gonçalves Viana (1930): «Ferreira de Castro, que logrou alcançar no ano findo um êxito de que raros justamente se podem orgulhar, pois viu traduzido para espanhol e italiano os Emigrantes, prova evidente de que o sucesso daquele soberbo romance ultrapassou as fronteiras do nosso país, Ferreira de Castro -- íamos dizendo -- sem se acolher à sombra dos louros ganhos, acaba de produzir um trabalho verdadeiramente assombroso de realismo, de emoção e de beleza!» «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Thursday, December 18, 2025

errâncias

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, December 17, 2025

dos romances

Subi à casa do Rebelo e leccionei-o sobre a forma de ele pôr a bom recato o nosso material. De armas e dinamite não tinha o Governo urgência alguma e a nós, futuramente, far-nos-iam falta; além disso, era escusado ele ir malhar com os ossos na cadeia.» O Intervalo (1936/1974) 

«Pouco depois, aqui, ali, mais além soavam os golpes dos machados, na noite já toda nervosa. Lâmpadas dispersas, iluminando os pés dos troncos, quase estáticas, dir-se-iam detidas para dar tempo a decifrar uma remota inscrição. Não se enxergava quem as sustinha, nem os homens que cortavam; só se viam os machados e as mãos, ora a sair, ora a mergulhar na sombra, como os insectos chamados ao farolo que os matará.» O Instinto Supremo (1968)

«Porto Santo avolumara-se, revelando-se à curiosidade fugidia e perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico. As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade quanto modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muitas mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.» Eternidade (1933)

Friday, December 12, 2025

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Garditch lhe explicará melhor o que pode fazer e não estranhe os seus limitados conhecimentos de português, p.ª tradutor, pois tem amigos que o auxiliam nas traduções. Bastará, depois, passar à peneira [?] a prosa, p.ª q. fique escorreita. / Faça pelo nosso camarada o q. puder, como se o fizesse ao // seu camarada e admirador / mto obrigado / Jaime Brasil // Lx.ª 4/V/929» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../... «Para isso, talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer-lhe que a mim agradava muito que V. principiasse a a surgir nos jornais de Lisboa.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928): «Meu querido Ferreira de Castro // Recebi há dias -- há já bastantes dias mesmo -- o seu magnífico volume. E garanto-lhe que a satisfação que ele me trouxe está na razão inversa do tempo que eu tenho levado para, com um enternecido abraço, lho agradecer. Mas os afazeres são felizmente alguns, e esta tem sido a causa da demora, que lhe peço me perdoe.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Wednesday, December 10, 2025

outras palavras

«Mas entre tanta gente, de tão diferentes atmosferas morais, afectivas e mentais, poucos tenho encontrado como Delfim Guimarães. Junto deste homem de forte estatura, com um físico propício a esses lutadores que desejam triunfar esmagando tudo e todos, aprendia-se a não esmagar ninguém, a não triunfar à custa do sacrifício de alguém, a respeitar tudo e todos.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Apesar disso, deixei-me fascinar por um jogo infantil e roubei em casa uma colecção de botões, que era de grande estimação e que me valeu um severo castigo, logo repetido quando comecei a vender, ocultamente, para comprar fogos de S. João, várias lunetas que estavam guardadas na nossa velha escrivaninha.» «[Memórias]» (1931)

«O fiel amigo, com couves e batatas, é da tradição; quem tem mais posses frita, também, a sua rabanada. O vinho corre, rosado, transparente, sobretudo à hora do magusto, quando as castanhas estalam no fogo. / Cada lar parece viver isolado do mundo, sozinho no mundo, como se para lá das paredes negras de fuligem nada mais existisse.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

Tuesday, December 09, 2025

nas palavras dos outros

Agustina Bessa Luís (1966): «Eu aprendi, porém, que o valor dos homens de raça não é senão orgulho que acrescenta os nossos direitos a seguir-lhes os passos. Em muitas coisas me repreende Ferreira de Castro as zarandas da arte a que me conduz a consciência e a própria índole.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Se há livros que mereçam a classificação de notáveis, A Selva é, incontestavelmente, um deles. Pode mesmo afirmar-se que esta obra constitui o maior acontecimento literário desta temporada. «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) 

Jacinto do Prado Coelho (1976): «A função da Natureza é dupla. Fonte de emoção estética, deslumbra e intimida, ressoam nela vozes ancestrais, profundas, enigmáticas: ao cair da noite, "sobre ela parecia baixar, vinda dos tormentos iniciais do Universo, uma poesia épica, soturna e densa, que aguardaria apenas a hora de poder exprimir o inefável, de exprimi-lo dramaticamente, em vozes ou em ritmos como jamais alguém ouvira" (p. 143).» «O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro