Tuesday, July 23, 2013

Um poema de Juan Ramón Jiménez que me remete para o Caima e para o Vale de Ossela...

...rio e vale de que Ferreira de Castro se despediu ainda criança, a caminho do Brasil; lembrança que o atormentava no cárcere amazónico; cimos da Felgueira e leito fluvial que desde menino lhe incutiram o apelo da errância, e a que o autor se refere -- se a memória não me falha -- no «Pórtico» de A Volta ao Mundo e na «Pequena História de "Emigrantes"».     
     O poema do grande Juan Ramón Jiménez pertence a Arias Tristes, e foi coligido e traduzido por José Bemto, publicada pela Relógio d'Água (Lisboa, 1992):

Rio de cristal, dormente
e encantado; doce vale,
doces margens de salgueiros
viçosos e brancos álamos.

-- Este vale possui um sonho
e um coração e sabe
dar com o seu sonho um som lânguido
de flautas e cantares --.

Rio encantado; as ramagens
dos salgueiros ensonados,
caídos sobre os remansos,
beijam os claros cristais.

E o céu é plácido e brando,
um céu flutuante e baixo;
com sua bruma de prata
afaga ondas e árvores.

-- O meu coração sonhou
com a ribeira e o vale,
e chegou até à margem
serena, para embarcar;
mas, ao passar no caminho,
chorou de amor, com um cantar
antigo, que ouviu cantando,
não sei quem, num outro vale --.

Monday, July 08, 2013

incidentais #20 -- nós e os outros

(do cap. I de A Tempestade (1940)

*Logo no primeiro parágrafo sabemos que estamos diante de um drama conjugal. Albano, Cecília, traição,
desforço.

*Neste romance de Ferreira de Castro, por si tão injustamente menosprezado, não há (ou só tenuemente) luta de classes ou situações extremas em que o homem se defronta com a vida e com a envolvente material dela. Mas há um problema social grave -- a situação da mulher, sempre dependente, entre pais e marido --; e também o enfrentamento com algo tão inextrincável como a floresta virgem: a selva de preconceitos e ideias-feitas que submergem os homens em sociedade, que os condicionam na desigual conjugalidade, cultural e socialmente imposta às duas pessoas que compõem um casal.

* A finura da análise psicológica dum pacato bancário que nunca pensaria matar ninguém, não fora a vergonha que se lhe colaria à pele como marca dum ferro em brasa, quando os outros soubessem; o turbilhão que passa pela cabeça de alguém que é impelido a fazer pagar uma afronta com o sangue: «Vendo-a adormecida, neutra, Cecília pareceu-lhe menos odiosa. Dir-se-ia que a sua vida era protegida pela sua própria incapacidade de defender-se.»

*A repugnância ao contacto com aquele corpo, até aí amado; os impropérios que mentalmente lhe desferia «[..]uma porca, [...]uma prostituta, que outro nome não merecia!»; a comparação com a primeira mulher, entretanto falecida, mãe de sua filha, Luisita; a antevisão do acto de homicídio e da sua própria autodestruição, não porque a lei não lhe fosse favorável em caso de adultério, mas pela incapacidade de persistir vivendo com uma morte na consciência: «Tinha-se deitado quase no rebordo da cama, para evitar o contacto de Cecília. Ela, porém, moveu-se e as suas nádegas encostaram-se aos joelhos dele, levando-o a afastar, rapidamente, as pernas, com a sensação de haver sido tocado por um cadáver.»

*Insone, ao ar da noite, Albano rememora, a contragosto, o início da relação, o brilho de Cecília, a elegância e a desenvoltura, opostas à sua timidez, à sua humildade de base, proveniente da província, trabalhando no comércio ainda rapaz, ascendendo ligeiramente na escala social. Os primeiros encontros, o ego lisonjeado por conquistar «uma mulher de outra classe», por educação e origem, acima da sua condição social e da dos seus amigos e colegas do banco; a própria surpresa pelo interesse que ela manifestava por si, ao repetir e alargar o tempo de cada encontro, apesar das resistências e evasivas de Cecília. Finalmente, após pedido de matrimónio, a revelação do mau passo que dera, entregando-se ao noivo, poucos dias antes do casamento -- que não viria a realizar-se por morte do noivo em acidente de automóvel -- apanhara Albano desprevenido, e depois confuso: «Via-a desvalorizada [...] sentia menor fervor por ela e uma espécie de doloroso desdém pelo mundo, de cepticismo por tudo.», desvalorização que o atingia também, retirando brilho afinal à posse de mercadoria já usada -- que é o primeiro problema que Ferreira de Castro põe neste romance: o da dignidade da mulher, sujeita às convenções morais, consoante fosse ou não virgem. De resto, e até há poucas décadas, um assunto sério que condicionou a existência de milhares da generalidade das mulheres. Mesmo casado, essa sombra persistia; e o próprio casamento faz cair a imagem idealizada: nem tinha bens, nem era a pessoa terna e compreensiva que antes se mostrara. Pelo contrário: a vida desafogada que levara em solteira, reflecte-se nos gastos do dia-a-dia, para os quais apenas o ordenado de Albano era recurso. Acaba por aperceber-se de que fora enlaçado por uma mulher que, na verdade, apenas precisava da segurança do sustento. No fim: a traição. Puxa o autoclismo para não levantar suspeitas e deita-se, de novo, ao lado de Cecília.

Monday, June 10, 2013

Preconceito e orgulho em "A Tempestade" de Ferreira de Castro (3)

A Tempestade participa dessa impotência do criador em face dos obstáculos inultrapassáveis levantados à criação artística. Não será, aliás, por acaso que um romance como A Lã e a Neve, de 1947, que tem nas greves dos operários têxteis da Covilhã como pano de fundo, vê a luz do dia precisamente nesse período de relativa distensão do controlo repressivo ocorrido entre as campanhas do MUD e a candidatura de Norton de Matos -- movimentos em que, de resto, Castro teve uma acção relevante de denúncia do estado policial a que estava sujeita a sociedade portuguesa.

Nova Síntese -- Textos e Contextos do Neo-Realismo #2/3, Vila Franca de Xira, 2007-2008. 

Friday, May 31, 2013

incidentais #19 - prisões

ilustração de Bernardo Marques
* Dizem-me que quando se entra numa prisão para lá ficar os anos seguintes, a prostração e o fastio dos primeiros dias são esmagadores. É um pouco desse alheamento que vamos encontrar em Januário, fechado numa cela que encerra mais três: o Sábio, o Palhetas e o Malafaia; o primeiro, descomunal, estabelece as regras, fala, os outros, ouvem.
*Tão perto da quinta onde lhe decorrera a infância, asilo de freiras, os dois sexos divididos por uma cerca. O Sábio impreca a má sorte de terem mudado a cadeia do centro da vila, onde a esmola caía com facilidade e o movimento era distracção. Fala, e não se cala: «O homem continuava a sorrir, um sorriso misto, vindo do passado e do futuro, do que ele já havia dito e do que se preparava para dizer»; mas Januário recolhe-se, à cabeça vêm-lhe os amigos da infância, Manecas, Chico, Jalecas, e é transportado à recordação inocente de Clarinda, pequena como ele, mirando-o e desinquietando-o por detrás da cerca. 
*À pergunta do homenzarrão, querendo saber se ele estava ali por morte de homem, Januário não responde.  Repete-se a pergunta e Januário continua calado. A realidade de presidiário parece incompatível com aquelas memórias de infância, as brincadeiras que se associa irresistivelmente às de Ferreira de Castro, na Ossela natal -- certamente por si evocadas noutro tipo de prisão, durante a adolescência: o cárcere verde da floresta amazónica, onde, num período de cerca de quatro anos, entrou menino e saiu homem

Sunday, May 26, 2013

(re)leituras

A propósito da «Pequena História de "A Selva"», aqui, numa (re)leitura pausada de alguns grandes textos ficcionais em português.

Tuesday, May 14, 2013

Ferreira de Castro na Cavalo de Ferro

Ora está uma grande notícia! Depois de décadas de deficiente trabalho editorial, Castro refresca-se às mãos da Cavalo de Ferro -- pequena-grande editora, cujo suculento catálogo alberga escritores como Mario Benedetti, Julio CortázarMircea Eliade, Hermann Hesse, Luigi PirandelloHoracio Quiroga,  Wislawa Szymborska, Lev Tólstoi, ,  Mark TwainOscar Wilde, e muitos outros,

Sunday, May 05, 2013

Chegar a Jaime Brasil através de Ferreira de Castro (3)

Mas foi através de Ferreira de Castro que cheguei verdadeiramente a Jaime Brasil. Com o magnífico romancista de A Selva, partilhou ele várias afinidades. Desde logo, profissionais. Oficial do exército na reserva até à sua expulsão na década de 40, entrara para a redacção de O Século em 1921. No mundo dos jornais se encontrou com Castro: nas páginas do diário anarco-sindicalista A Batalha, na direcção do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, presidido por aquele e dissolvido pouco depois do golpe militar de 28 de Maio de 1926, e n'O Século, quando o futuro autor de Emigrantes abandona a frágil condição de freelancer. Brasil será despedido, por razões políticas, em 1936; Castro havia já abandonado o diário dois anos antes, passando a viver dos livros, das traduções e colaborações para jornais brasileiros, pois recusara-se a voltar a escrever na imprensa portuguesa enquanto a Censura vigorasse.

O Primeiro de Janeiro, «Das Artes e das Letras», Porto, 19 de Novembro de 2007.

Tuesday, April 23, 2013

100 Cartas a Ferreira de Castro -- Nota à 2.ª edição, 2007 (2)

Publicadas no ano de reabertura do Museu Ferreira de Castro, em 1992, quisemos mostrar o que era parte do seu espólio documental e fazer uma espécie de ponto de situação do escritor e da sua obra através da correspondência passiva, que -- como escrevemos então -- também dava «a medida de um homem». Hoje, felizmente, o panorama é bem outro. Uma nova edição das 100 Cartas a Ferreira de Castro só teria sentido se pudesse espelhar, minimamente, embora, esse acréscimo de reflexão entretanto dado à estampa, mantendo o propósito de ser, antes de mais, um cartão de visita do espólio documental para todos os investigadores que procuram o Museu. Sem adulterar o espírito inicial com que foi concebida, deveria ser refundida, acrescentando-se nome que haviam ficado para trás, sem suprimir nenhum dos que figuravam na edição inicial. Esta revelará cerca de três dezenas e meia de missivas inéditas, acrescentando algumas publicadas entretanto, inseridas em estudos parcelares ou de conjunto. Umas e outras estarão assinaladas em notas de rodapé, depois da respectiva cota de arquivo. A ortografia foi actualizada, a pontuação mantida, os lapsos e gralhas assinalados em nora, os timbres mantidos com a ortografia da época.

Saturday, April 13, 2013

Ferreira de Castro e a II República Espanhola (2)

O jornalismo é uma actividade que Ferreira de Castro inicia ainda no Brasil, para onde emigrara muito jovem, em 1911, com doze anos e meio. Quando regressa, em 1919, retoma-a com grandes dificuldades, uma vez que era totalmente desconhecido no meio. A imprensa foi para ele a «profisão socorro» (2) que lhe permitiu dedicar-se à sua vocação literária. Até 1927. ele é um free lancer, escrevendo abundantemente para jornais do continente, ilhas e colónias, como meio de subsistência. Nesse ano -- que coincide com uma nova etapa da sua vida pessoal, o encontro copm Diana de Liz, e também com o encerramento de A Batalha,após o golpe do 28 de maio --, o jovem escritor entra para os quadros de O Século, onde permanecerá até 1934, abandonando então a vida dos jornais como profissional, saturado pelos constrangimentos impostos pela Censura do Estado novo. 

(2) Ferreira de Castro, «Origem de "O Intervalo"», Os Fragmentos, 2.ª ed., Lisboa, Guimarães & C.ª [1974}, p. 65.

in Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau -- 3.º Ciclo, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007.

Thursday, April 04, 2013

Jaime Brasil, anarquista (4)

Polemista destemido e truculento, travou-se de razões ao longo da carreira plumitiva com várias figuras -- de Raul Proença a Agustina Bessa Luís --, oscilando entre a cortesia sem servilismo e a grosseria quase obscena, por vezes com acentos muito camilianos...

Afinidades #2-II série, Porto, 2005.

Saturday, March 30, 2013

Uma referência de Orlando Ribeiro a A LÃ E A NEVE

imagem daqui
Orlando Ribeiro, todos o sabemos, foi o grande geógrafo português do século passado. O seu opus magnum -- ou, pelo menos, o que maior difusão teve, projectando o seu nome junto de um público mais vasto -- é Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945). 
Nesta notável monografia, escrita também com mão de mestre -- e sem contar com a epígrafe inaugural, Miguel Torga e o poema «Mensagem» -- uma única referência literária ao longo das pouco menos de 200 páginas (em corpo pequeno) é A Lã e a Neve, referência obviamente inclusa em posterior edição já que esta obra-prima de Ferreira de Castro foi publicada em 1947:

«Aí [Covilhã] se localizam ainda as fábricas de lanifícios, quase todas que fazem fio, tecidos e tinturaria, acompanhando os processos do fabrico. Temos aqui um curioso exemplo da inércia na localização industrial. A matéria-prima vem das feiras do Alentejo e da importação da Austrália e da África do Sul, sendo cada vez maior o emprego de fibras sintéticas; a energia não é mais fornecida pelas torrentes da montanha; persistem apenas a acumulação de capitais (em algumas famílias de origem judaica), a tradição da mão-de-obra (ver o excelente romance de Ferreira de Castro, A Lã e a Neve) e uma mentalidade industrial progressiva, pois que vários jovens se especializaram em escolas estrangeiras.»

Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945), 7.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1998, p. 149.

Wednesday, March 27, 2013

incidentais #18 - O radical padre Mounier só levanta problemas

Por iniciativa própria, Mounier é recebido pelo Superior, para informá-lo que havia mandado o «Bagatelle» suspender a pintura da palavra MISSÃO no telhado: Breve encontro entre dois homens de fé e da Igreja, de 50 e 65 anos, respectivamente, em que a autoridade do segundo é posta em causa por um imperativo de consciência..
Ferreira de Castro dá-nos então, neste segundo andamento de A Missão, a timidez e mal-estar de Georges Mounier: " a sua voz parecia escorregar por um precipício"; "queria que aquela inexplicável dificuldade lhe desaparecesse da garganta"; "não encontrava o tom desejado"; ao mesmo tempo que o Superior, homem ponderado e experimentado, depara com a surpresa, tanto da atitude como do argumento ético que motivou a atitude do frade: assinalar o edifício pelo ar, para que fosse visto pelos bombadeiros alemães, salvaguardando-o assim, graças às convenções internacionais, equivaleria a denunciar o edifício semelhante (primitivamente um convento de freiras adaptado a fábrica que contribuía para o esforço de guerra francês), pondo em risco a vida dos operários e das famílias que viviam nas habitações em torno: «As mesmas letras que nos protegerem podem representar uma sentença de morte para os homens que ali trabalham.» Após o que (se) pergunta, retòricamente, se as vidas de pouco mais duma dezena de religiosos valerá mais do que as daqueles.
O instinto de conservação inato apanha o Superior em contrapé: : «A luz toldara-se e no bosque onde ele se extraviava não havia apenas uma sombra, mas diversas sombras, não havia uma só vereda, mas muitas veredas cruzadas.»; acrescendo o incómodo e a contrariedade de um radicalismo que lhe era antipático, detectado em Mounier.
Como escreveu João Palma-Ferreira (e cito de cor), Castro era exímio e destacava-se no panorama literário português de então em pôr-nos diante de situações dilemáticas, fazendo-nos, através das personagens, sopesar pró e contras.  E isto -- acrescento eu agora --, apesar de uma clara orientação ideológica,   é-nos dado sem maniqueísmo nem primário preto-e-branco -- antes com a a consistência de quem sabe que cada homem é vários, como eloquentemente já escrevera e mostrara no anterior A Curva da Estrada.
O Superior a decisão até ouvir a irmandade, reunida em capítulo.

Saturday, March 23, 2013

Da correspondência com Ferreira de Castro (3)

     No caso particular deste epistolário, reflectem-se as grandes tensões vividas no período por ele abrangido. A II Guerra Mundial e a ocupação de Paris, onde se encontrava Jaime Brasil; a Guerra Fria; o prenúncio do fim do Império. Em Portugal, o Estado Novo, as prisões e a censura; as dissensões do(s) anarquista(s) com os comunistas, por um lado e os republicanos, por outro, também as vemos aqui espelhadas; e na disputa cultural, a questão do neo-realismo surge igualmente de forma clara. Do ponto de vista literário, é deveras substancial a quantidade de informações que as cartas nos trazem; o mesmo se passando com a personalidade deste autor que se distinguiu como biógrafo do seu interlocutor, logo em 1931 -- polemista, jornalista e libertário, aspectos que referimos com um pouco mais de pormenor no estudo que posfacia esta edição.

Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006.

Thursday, March 14, 2013

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3)

De que forma poderemos enquadrar essa mundividência? Claramente através de um conjunto de ideias e de sensibilidades que dotara a totalidade da obra castriana de uma mensagem coerente e consistente de emancipação do Homem. Não se trata de um simples amálgama de sentimentos piedosos, vulgo «humanistas»; está para além disso, e tem uma designação bem definida na história das ideias políticas e sociais: chama-se anarquismo, e Ferreira de Castro foi um dos expoentes literários do século XX, em Portugal, dessa forma mais livre de encarar o mundo e a vida. Ela já aparece, ainda que inconscientemente, em Criminoso por Ambição (1916), através de uma pueril atmosfera de revolta e inadaptação do protagonista Simão Rafael dos Anjos (1), e é omnipresente, quase obsidiante no seu último livro, Os Fragmentos (1974), um volume que ele deixou cuidadosamente preparado para publicação.

(1) «Posfácio» a Emigrantes, edição comemorativa ilustrada por Júlio Pomar, Lisboa, Portugália Editora.

 Congresso Internacional A Selva 75 Anos -- Actas, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007.

Saturday, March 09, 2013

incidentais #17 - campo e cidade, sonho e realidade

[do cap. I de A Lã e a Neve, 1947]

* Incipit: «Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o «Piloto» deu por findo o seu trabalho.»

* Regressado do serviço militar, cumprido no CIAAC de Cascais, Horácio, pastor de Manteigas, é farejado, encontrado, saudado e requestado pelo velho companheiro, que o surpreende com Idalina. Só para o cão ele não mudou; para a noiva e para os pais, há algo de diferente: abertos os olhos noutras paragens, a pobreza da existência torna-se-lhe inaceitável. Mudar de vida, mudar a vida, deixar o pastoreio nas faldas da serra e empregar-se na fábrica, mesmo que em Manteigas, ou, quem sabe, na Covilhã, surge para o protagonista do romance como a única oportunidade de alguma vez levantar a cabeça, de fugir da mísera mesquinhez que preenche os dias dos pais e dos outros como eles.

* A cidade como factor de mudança. Não há, nem poderia haver, um bucolismo palerma que se conformasse com a vida rudimentar aldeã. E Castro sabe-o como ninguém, pois foi dela que saiu, aos 12 anos incompletos -- para algo ainda mais opressivo. Mas, para que não haja confusões, o escritor não rejeita o campo -- pelo contrário --, senão a pobreza que lhe subjaz no Portugal dos anos quarenta.

* A cidade é também factor de estranhamento: quem de lá vem, mudou; quem ficou, sente a mudança, sem que sinta, por sua vez, a imobilidade da vida que leva. Tal será sempre um factor de tensão.

 * Aos planos do pastor atravessa-se um compromisso financeiro, um empréstimo tomado pelos pais ao antigo patrão, na sua ausência, por motivos de força maior, sendo o trabalho de Horácio o garante da  liquidação, haja ou não -- presume,-se nesta fase do romance -- trabalho nos lanifícios.

* Problemática muito castriana, a dicotomia entre sonho e realidade, o homem aprisionado ao atavismo cultural, aos compromissos que se tomam; e, como sempre, alguém de mais teres & haveres ou uma convenção social, ou ambos, exercem pressão sobre quem pouco ou nada tem.

* Temos, para já, um problema posto, que irá complexificar-se à medida que a narrativa avança. E que narrativa! -- um dos grandes romances do século XX português e uma das obras maiores de Ferreira de Castro, significativamente o seu segundo livro mais traduzido, à frente do celebrado Emigrantes e atrás, naturalmente, de A Selva.

* Mais uma nota para a mestria do estilo, para o cuidado trabalho sobre a linguagem. Eis as casas pobres de Manteigas no limiar da noite:

     «Tinham começado a descer a congosta. Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes. Dela partiam outras tortuosas vielas, que terminavam em pátios ou dobravam em cotovelos, cruzando-se, avançando para sombrios recantos, numa sugestão de labirinto. As casas, negregosas, velhentas, colavam-se umas às outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoiro do mulheredo nas horas de paleio com as vizinhas. Algumas das portas e janelas estavam abertas e, atrás delas, pairava a rúbida claridade do fogo que, lá dentro, cozinhava a ceia. Figuras de homens, mulheres e crianças, as suas caras tocadas pelo fulgor do lume, andavam no acanhado espaço doméstico, cirandavam numa confusão de movimentos humanos e de trapos dependurados.»

Friday, February 22, 2013

incidentais #16 -- natureza austera e fragilidades humanas, ou remos para que te quero

*incipit: «Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.»

*O romance começa com uma acção furtiva e nocturna, em elemento aquático, de um grupo de homens, não sabemos ainda quem. A referência a um boto, situa-nos na Amazónia; um pouco mais à frente,  identifica-se o Maici-Mirim, Um único nome, Amaro, que os dirige. Tudo o que tem de ser feito realiza-se apressadamente e com o menor ruído possível, mesmo que se trate de abrir uma clareira. E se falamos em Amazónia, por pequena que aquela seja, há-de custar limpar uma área onde a vegetação é densa -- como já havíamos aprendido no outro livro do autor, publicado havia 38 anos, A Selva; e ainda hoje -- agora mesmo --, podemos aferir em imagens de satélite.

* As árvores como elementos natural de grande nobreza, recorrente na obra castriana; as figuras de estilo, «a fusão do mundo físico com o mundo moral», como certeiramente viu Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve, surgem desde logo, em todo o esplendor:
«O machado voltou a insistir. O tronco foi-se inclinando, estalando pouco a pouco, ainda hesitante em obedecer ao desígnio dos seus algozes. E quando, enfim, se decidiu, os galhos dos vizinhos, a que se amparava e com brutalidade ia partindo, lançaram protestos mais ruidosos e aflitos do que ele próprio, que a esse apoio forçado ficou devendo poder morrer abafadamente, como se tivesse rolado de degrau em degrau, até à cova.»
«Dir-se-ia que as próprias árvores tinham abandonado o ar austero e imóvel, essa enigmática expectativa com que haviam recebido, pouco antes, aquele bando de demónios, que tudo assarapantava em seu redor.»

* A debandada quase ao raiar da aurora, a verdadeira fuga a que o grupo se entrega, um pavor gelado, umas asas nos pés, um turbo nos remos que ainda não existia -- e nos remos não existirá --, indicia um perigo iminente. Perigo esse que nos é dado pelo frenesim dos perpetradores de algo que ainda não sabemos bem o que é (um acampamento?), como pelos sons que surgem com a primeira luz, arrepiando esses audaciosos mas timoratos indivíduos que derrubam árvores em floresta alheia:
«De súbito, assustando a paz da manhã em desenvolvimento, revoaram até elas brados de guerra, estridentes e selváticos, através dos quais a morte parecia tomar, antecipadamente, uma voz de frenética alegria; brados de triunfo, alternando com gritos de dor, tão agudos, tão desesperados, como jamais os enormes troncos, nem mesmo os mais velhos, tinham ouvido naquelas solidões do Mundo.»

Friday, February 15, 2013

Castriana #5


textos: Ferreira de Castro, Dora Nunes Gago, José Laurindo Góis, Ricardo António Alves, Alfred Opitz, Luís Garcia e Silva, Vítor Pena Viçoso, Ivone Bastos Ferreira e Manuel José Matos Nunes. Ilustrações: Albano Ruela.
Pedidos: Centro de Estudos Ferreira de Castro.