Publicadas no ano de reabertura do Museu Ferreira de Castro, em 1992, quisemos mostrar o que era parte do seu espólio documental e fazer uma espécie de ponto de situação do escritor e da sua obra através da correspondência passiva, que -- como escrevemos então -- também dava «a medida de um homem». Hoje, felizmente, o panorama é bem outro. Uma nova edição das 100 Cartas a Ferreira de Castro só teria sentido se pudesse espelhar, minimamente, embora, esse acréscimo de reflexão entretanto dado à estampa, mantendo o propósito de ser, antes de mais, um cartão de visita do espólio documental para todos os investigadores que procuram o Museu. Sem adulterar o espírito inicial com que foi concebida, deveria ser refundida, acrescentando-se nome que haviam ficado para trás, sem suprimir nenhum dos que figuravam na edição inicial. Esta revelará cerca de três dezenas e meia de missivas inéditas, acrescentando algumas publicadas entretanto, inseridas em estudos parcelares ou de conjunto. Umas e outras estarão assinaladas em notas de rodapé, depois da respectiva cota de arquivo. A ortografia foi actualizada, a pontuação mantida, os lapsos e gralhas assinalados em nora, os timbres mantidos com a ortografia da época.
Tuesday, April 23, 2013
Saturday, April 13, 2013
Ferreira de Castro e a II República Espanhola (2)
O jornalismo é uma actividade que Ferreira de Castro inicia ainda no Brasil, para onde emigrara muito jovem, em 1911, com doze anos e meio. Quando regressa, em 1919, retoma-a com grandes dificuldades, uma vez que era totalmente desconhecido no meio. A imprensa foi para ele a «profisão socorro» (2) que lhe permitiu dedicar-se à sua vocação literária. Até 1927. ele é um free lancer, escrevendo abundantemente para jornais do continente, ilhas e colónias, como meio de subsistência. Nesse ano -- que coincide com uma nova etapa da sua vida pessoal, o encontro copm Diana de Liz, e também com o encerramento de A Batalha,após o golpe do 28 de maio --, o jovem escritor entra para os quadros de O Século, onde permanecerá até 1934, abandonando então a vida dos jornais como profissional, saturado pelos constrangimentos impostos pela Censura do Estado novo.
(2) Ferreira de Castro, «Origem de "O Intervalo"», Os Fragmentos, 2.ª ed., Lisboa, Guimarães & C.ª [1974}, p. 65.
in Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau -- 3.º Ciclo, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007.
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Thursday, April 04, 2013
Jaime Brasil, anarquista (4)
Polemista destemido e truculento, travou-se de razões ao longo da carreira plumitiva com várias figuras -- de Raul Proença a Agustina Bessa Luís --, oscilando entre a cortesia sem servilismo e a grosseria quase obscena, por vezes com acentos muito camilianos...
Afinidades #2-II série, Porto, 2005.
Saturday, March 30, 2013
Uma referência de Orlando Ribeiro a A LÃ E A NEVE
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Orlando Ribeiro, todos o sabemos, foi o grande geógrafo português do século passado. O seu opus magnum -- ou, pelo menos, o que maior difusão teve, projectando o seu nome junto de um público mais vasto -- é Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945).
Nesta notável monografia, escrita também com mão de mestre -- e sem contar com a epígrafe inaugural, Miguel Torga e o poema «Mensagem» -- uma única referência literária ao longo das pouco menos de 200 páginas (em corpo pequeno) é A Lã e a Neve, referência obviamente inclusa em posterior edição já que esta obra-prima de Ferreira de Castro foi publicada em 1947:
«Aí [Covilhã] se localizam ainda as fábricas de lanifícios, quase todas que fazem fio, tecidos e tinturaria, acompanhando os processos do fabrico. Temos aqui um curioso exemplo da inércia na localização industrial. A matéria-prima vem das feiras do Alentejo e da importação da Austrália e da África do Sul, sendo cada vez maior o emprego de fibras sintéticas; a energia não é mais fornecida pelas torrentes da montanha; persistem apenas a acumulação de capitais (em algumas famílias de origem judaica), a tradição da mão-de-obra (ver o excelente romance de Ferreira de Castro, A Lã e a Neve) e uma mentalidade industrial progressiva, pois que vários jovens se especializaram em escolas estrangeiras.»
Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1945), 7.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1998, p. 149.
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Wednesday, March 27, 2013
incidentais #18 - O radical padre Mounier só levanta problemas
Por iniciativa própria, Mounier é recebido pelo Superior, para informá-lo que havia mandado o «Bagatelle» suspender a pintura da palavra MISSÃO no telhado: Breve encontro entre dois homens de fé e da Igreja, de 50 e 65 anos, respectivamente, em que a autoridade do segundo é posta em causa por um imperativo de consciência..
Ferreira de Castro dá-nos então, neste segundo andamento de A Missão, a timidez e mal-estar de Georges Mounier: " a sua voz parecia escorregar por um precipício"; "queria que aquela inexplicável dificuldade lhe desaparecesse da garganta"; "não encontrava o tom desejado"; ao mesmo tempo que o Superior, homem ponderado e experimentado, depara com a surpresa, tanto da atitude como do argumento ético que motivou a atitude do frade: assinalar o edifício pelo ar, para que fosse visto pelos bombadeiros alemães, salvaguardando-o assim, graças às convenções internacionais, equivaleria a denunciar o edifício semelhante (primitivamente um convento de freiras adaptado a fábrica que contribuía para o esforço de guerra francês), pondo em risco a vida dos operários e das famílias que viviam nas habitações em torno: «As mesmas letras que nos protegerem podem representar uma sentença de morte para os homens que ali trabalham.» Após o que (se) pergunta, retòricamente, se as vidas de pouco mais duma dezena de religiosos valerá mais do que as daqueles.
O instinto de conservação inato apanha o Superior em contrapé: : «A luz toldara-se e no bosque onde ele se extraviava não havia apenas uma sombra, mas diversas sombras, não havia uma só vereda, mas muitas veredas cruzadas.»; acrescendo o incómodo e a contrariedade de um radicalismo que lhe era antipático, detectado em Mounier.
Como escreveu João Palma-Ferreira (e cito de cor), Castro era exímio e destacava-se no panorama literário português de então em pôr-nos diante de situações dilemáticas, fazendo-nos, através das personagens, sopesar pró e contras. E isto -- acrescento eu agora --, apesar de uma clara orientação ideológica, é-nos dado sem maniqueísmo nem primário preto-e-branco -- antes com a a consistência de quem sabe que cada homem é vários, como eloquentemente já escrevera e mostrara no anterior A Curva da Estrada.
O Superior a decisão até ouvir a irmandade, reunida em capítulo.
Saturday, March 23, 2013
Da correspondência com Ferreira de Castro (3)
No caso particular deste epistolário, reflectem-se as grandes tensões vividas no período por ele abrangido. A II Guerra Mundial e a ocupação de Paris, onde se encontrava Jaime Brasil; a Guerra Fria; o prenúncio do fim do Império. Em Portugal, o Estado Novo, as prisões e a censura; as dissensões do(s) anarquista(s) com os comunistas, por um lado e os republicanos, por outro, também as vemos aqui espelhadas; e na disputa cultural, a questão do neo-realismo surge igualmente de forma clara. Do ponto de vista literário, é deveras substancial a quantidade de informações que as cartas nos trazem; o mesmo se passando com a personalidade deste autor que se distinguiu como biógrafo do seu interlocutor, logo em 1931 -- polemista, jornalista e libertário, aspectos que referimos com um pouco mais de pormenor no estudo que posfacia esta edição.
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006.
Friday, March 15, 2013
Thursday, March 14, 2013
A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (3)
De que forma poderemos enquadrar essa mundividência? Claramente através de um conjunto de ideias e de sensibilidades que dotara a totalidade da obra castriana de uma mensagem coerente e consistente de emancipação do Homem. Não se trata de um simples amálgama de sentimentos piedosos, vulgo «humanistas»; está para além disso, e tem uma designação bem definida na história das ideias políticas e sociais: chama-se anarquismo, e Ferreira de Castro foi um dos expoentes literários do século XX, em Portugal, dessa forma mais livre de encarar o mundo e a vida. Ela já aparece, ainda que inconscientemente, em Criminoso por Ambição (1916), através de uma pueril atmosfera de revolta e inadaptação do protagonista Simão Rafael dos Anjos (1), e é omnipresente, quase obsidiante no seu último livro, Os Fragmentos (1974), um volume que ele deixou cuidadosamente preparado para publicação.
(1) «Posfácio» a Emigrantes, edição comemorativa ilustrada por Júlio Pomar, Lisboa, Portugália Editora.
Congresso Internacional A Selva 75 Anos -- Actas, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007.
Saturday, March 09, 2013
incidentais #17 - campo e cidade, sonho e realidade
* Incipit: «Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o «Piloto» deu por findo o seu trabalho.»
* Regressado do serviço militar, cumprido no CIAAC de Cascais, Horácio, pastor de Manteigas, é farejado, encontrado, saudado e requestado pelo velho companheiro, que o surpreende com Idalina. Só para o cão ele não mudou; para a noiva e para os pais, há algo de diferente: abertos os olhos noutras paragens, a pobreza da existência torna-se-lhe inaceitável. Mudar de vida, mudar a vida, deixar o pastoreio nas faldas da serra e empregar-se na fábrica, mesmo que em Manteigas, ou, quem sabe, na Covilhã, surge para o protagonista do romance como a única oportunidade de alguma vez levantar a cabeça, de fugir da mísera mesquinhez que preenche os dias dos pais e dos outros como eles.
* A cidade como factor de mudança. Não há, nem poderia haver, um bucolismo palerma que se conformasse com a vida rudimentar aldeã. E Castro sabe-o como ninguém, pois foi dela que saiu, aos 12 anos incompletos -- para algo ainda mais opressivo. Mas, para que não haja confusões, o escritor não rejeita o campo -- pelo contrário --, senão a pobreza que lhe subjaz no Portugal dos anos quarenta.
* A cidade é também factor de estranhamento: quem de lá vem, mudou; quem ficou, sente a mudança, sem que sinta, por sua vez, a imobilidade da vida que leva. Tal será sempre um factor de tensão.
* Aos planos do pastor atravessa-se um compromisso financeiro, um empréstimo tomado pelos pais ao antigo patrão, na sua ausência, por motivos de força maior, sendo o trabalho de Horácio o garante da liquidação, haja ou não -- presume,-se nesta fase do romance -- trabalho nos lanifícios.
* Problemática muito castriana, a dicotomia entre sonho e realidade, o homem aprisionado ao atavismo cultural, aos compromissos que se tomam; e, como sempre, alguém de mais teres & haveres ou uma convenção social, ou ambos, exercem pressão sobre quem pouco ou nada tem.
* Temos, para já, um problema posto, que irá complexificar-se à medida que a narrativa avança. E que narrativa! -- um dos grandes romances do século XX português e uma das obras maiores de Ferreira de Castro, significativamente o seu segundo livro mais traduzido, à frente do celebrado Emigrantes e atrás, naturalmente, de A Selva.
* Mais uma nota para a mestria do estilo, para o cuidado trabalho sobre a linguagem. Eis as casas pobres de Manteigas no limiar da noite:
«Tinham começado a descer a congosta. Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes. Dela partiam outras tortuosas vielas, que terminavam em pátios ou dobravam em cotovelos, cruzando-se, avançando para sombrios recantos, numa sugestão de labirinto. As casas, negregosas, velhentas, colavam-se umas às outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoiro do mulheredo nas horas de paleio com as vizinhas. Algumas das portas e janelas estavam abertas e, atrás delas, pairava a rúbida claridade do fogo que, lá dentro, cozinhava a ceia. Figuras de homens, mulheres e crianças, as suas caras tocadas pelo fulgor do lume, andavam no acanhado espaço doméstico, cirandavam numa confusão de movimentos humanos e de trapos dependurados.»
«Tinham começado a descer a congosta. Era uma rua estreitíssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de ramos verdes. Dela partiam outras tortuosas vielas, que terminavam em pátios ou dobravam em cotovelos, cruzando-se, avançando para sombrios recantos, numa sugestão de labirinto. As casas, negregosas, velhentas, colavam-se umas às outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoiro do mulheredo nas horas de paleio com as vizinhas. Algumas das portas e janelas estavam abertas e, atrás delas, pairava a rúbida claridade do fogo que, lá dentro, cozinhava a ceia. Figuras de homens, mulheres e crianças, as suas caras tocadas pelo fulgor do lume, andavam no acanhado espaço doméstico, cirandavam numa confusão de movimentos humanos e de trapos dependurados.»
Friday, February 22, 2013
incidentais #16 -- natureza austera e fragilidades humanas, ou remos para que te quero
*incipit: «Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.»
*O romance começa com uma acção furtiva e nocturna, em elemento aquático, de um grupo de homens, não sabemos ainda quem. A referência a um boto, situa-nos na Amazónia; um pouco mais à frente, identifica-se o Maici-Mirim, Um único nome, Amaro, que os dirige. Tudo o que tem de ser feito realiza-se apressadamente e com o menor ruído possível, mesmo que se trate de abrir uma clareira. E se falamos em Amazónia, por pequena que aquela seja, há-de custar limpar uma área onde a vegetação é densa -- como já havíamos aprendido no outro livro do autor, publicado havia 38 anos, A Selva; e ainda hoje -- agora mesmo --, podemos aferir em imagens de satélite.
* As árvores como elementos natural de grande nobreza, recorrente na obra castriana; as figuras de estilo, «a fusão do mundo físico com o mundo moral», como certeiramente viu Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve, surgem desde logo, em todo o esplendor:
«O machado voltou a insistir. O tronco foi-se inclinando, estalando pouco a pouco, ainda hesitante em obedecer ao desígnio dos seus algozes. E quando, enfim, se decidiu, os galhos dos vizinhos, a que se amparava e com brutalidade ia partindo, lançaram protestos mais ruidosos e aflitos do que ele próprio, que a esse apoio forçado ficou devendo poder morrer abafadamente, como se tivesse rolado de degrau em degrau, até à cova.»
«Dir-se-ia que as próprias árvores tinham abandonado o ar austero e imóvel, essa enigmática expectativa com que haviam recebido, pouco antes, aquele bando de demónios, que tudo assarapantava em seu redor.»
* A debandada quase ao raiar da aurora, a verdadeira fuga a que o grupo se entrega, um pavor gelado, umas asas nos pés, um turbo nos remos que ainda não existia -- e nos remos não existirá --, indicia um perigo iminente. Perigo esse que nos é dado pelo frenesim dos perpetradores de algo que ainda não sabemos bem o que é (um acampamento?), como pelos sons que surgem com a primeira luz, arrepiando esses audaciosos mas timoratos indivíduos que derrubam árvores em floresta alheia:
*O romance começa com uma acção furtiva e nocturna, em elemento aquático, de um grupo de homens, não sabemos ainda quem. A referência a um boto, situa-nos na Amazónia; um pouco mais à frente, identifica-se o Maici-Mirim, Um único nome, Amaro, que os dirige. Tudo o que tem de ser feito realiza-se apressadamente e com o menor ruído possível, mesmo que se trate de abrir uma clareira. E se falamos em Amazónia, por pequena que aquela seja, há-de custar limpar uma área onde a vegetação é densa -- como já havíamos aprendido no outro livro do autor, publicado havia 38 anos, A Selva; e ainda hoje -- agora mesmo --, podemos aferir em imagens de satélite.
* As árvores como elementos natural de grande nobreza, recorrente na obra castriana; as figuras de estilo, «a fusão do mundo físico com o mundo moral», como certeiramente viu Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve, surgem desde logo, em todo o esplendor:
«O machado voltou a insistir. O tronco foi-se inclinando, estalando pouco a pouco, ainda hesitante em obedecer ao desígnio dos seus algozes. E quando, enfim, se decidiu, os galhos dos vizinhos, a que se amparava e com brutalidade ia partindo, lançaram protestos mais ruidosos e aflitos do que ele próprio, que a esse apoio forçado ficou devendo poder morrer abafadamente, como se tivesse rolado de degrau em degrau, até à cova.»
«Dir-se-ia que as próprias árvores tinham abandonado o ar austero e imóvel, essa enigmática expectativa com que haviam recebido, pouco antes, aquele bando de demónios, que tudo assarapantava em seu redor.»
* A debandada quase ao raiar da aurora, a verdadeira fuga a que o grupo se entrega, um pavor gelado, umas asas nos pés, um turbo nos remos que ainda não existia -- e nos remos não existirá --, indicia um perigo iminente. Perigo esse que nos é dado pelo frenesim dos perpetradores de algo que ainda não sabemos bem o que é (um acampamento?), como pelos sons que surgem com a primeira luz, arrepiando esses audaciosos mas timoratos indivíduos que derrubam árvores em floresta alheia:
«De súbito, assustando a paz da manhã em desenvolvimento, revoaram até elas brados de guerra, estridentes e selváticos, através dos quais a morte parecia tomar, antecipadamente, uma voz de frenética alegria; brados de triunfo, alternando com gritos de dor, tão agudos, tão desesperados, como jamais os enormes troncos, nem mesmo os mais velhos, tinham ouvido naquelas solidões do Mundo.»
Friday, February 15, 2013
Castriana #5
textos: Ferreira de Castro, Dora Nunes Gago, José Laurindo Góis, Ricardo António Alves, Alfred Opitz, Luís Garcia e Silva, Vítor Pena Viçoso, Ivone Bastos Ferreira e Manuel José Matos Nunes. Ilustrações: Albano Ruela.
Pedidos: Centro de Estudos Ferreira de Castro.
Saturday, February 02, 2013
Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (4)
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| capa de Leal da Cãmara |
O tom idealista idealista deste enunciado, com a marca distintiva do estilo de Proença, é modelado pelo impulso ético, cívico e pedagógico que caracterizou a acção de grande parte dos seareiros nos anos de chumbo que se seguiram, com a ditadura militar e a institucionalização do Estado Novo. Escrevendo sobre «A crise nacional», no n.º 5, Cortesão -- uma das grandes figuras do século XX português - esclarece os mais cépticos em face de eventuais ambições políticas e desengana aqueles que vêem na Seara os desígnios de meia dúzia de utópicos, alienados da realidade. Para Cortesão e os seus companheiros, o programa da Seara Nova é um imperativo de cidadania, uma proposta que lançam à opinião pública esclarecida, a esta cabendo adoptá-la e adaptá-la -- ou não: «Os homens que dirigem a Seara Nova, nunca será demasiado repeti-lo, não pretendem o mando, nem se movem por ambições políticas pessoais. Todos eles sacrificam às angústias do presente as suas predilecções de trabalhadores do espírito. Querem, quando menos, salvar a tranquilidade das suas consciências.» (2)
(2) Ibidem, p. 105.
Castriana -- Estudos Sobre Ferreira de Castro e a Sua Geração #2, Ossela, 2004.
Wednesday, January 23, 2013
do jornalismo operário
Na recensão ao fac-simile publicado pela Câmara Municipal de Beja, em 2012, de A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de Gonçalves Correia, escreve António Cândido Franco, no último número de A Batalha:
A Batalha, VI série, #252, Lisboa, Nov.-Dez. 2012.
Thursday, January 17, 2013
incidentais # 15 -- revoluções, chuva, mais remoques de ontem & de hoje
*incipit: «As derradeiras notícias tivemo-las às dez da manhã.»
* Uma homenagem (já por 1936) às gerações de anarquistas, anarco-sindicalistas e sindicalistas revolucionárias, a que ele pertenceu, e que atravessariam uma noite ainda mais cruel, porque mais solitária. (1) A acção decorre no período da Ditadura Militar e da II República espanhola.
*Alexandre Novais, "o Século XX", operário (torneiro-mecânico), antigo secretário da CGT, marcado pela policia; também alter ego de Ferreira de Castro, como já escrevi. Para já, em primeiro capítulo, uma coincidência de idades e uma viuvez partilhada (em circunstâncias diferentes, embora).
*Fiasco grevista, unidade na acção entre anarco-sindicalistas e comunistas (o que historicamente sucedeu, todavia com desentendimentos graves) («Mas os políticos é que me estão cá atravessados! Eu bem dizia que isto de políticos não dava nada!...», vocifera o militante Francisco Soares, pela "traição" dos políticos e contra o sai-não-sai dos militares -- militares, que levaram 48 anos a fingir que saíam dos quartéis...
*No rescaldo da derrota, Novais e alguns companheiros estão refugiados na habitação do companheiro Francisco Soares um ambiente opressivo num tugúrio operário -- descrito com a segurança de meia dúzia de pinceladas (como se está longe da exasperante minúcia naturalista das habitações dos bairros operários, à Abel Botelho...).
* O cinzento do céu, a chuva miudinha que dá cabo dos nervos perpassa por todo o capítulo, acentuando a angústia do momento de incerteza por que passam aqueles insurrectos: «[...] a chuvinha persistia, escurecendo o dia, agarrando-se aos sentimentos, tornando tudo viscoso.» /
«Até admiti ser devido à chuva, sobretudo à opressora luz soturna que ela criava à nossa volta, o aumento da minha turbação cada vez mais expectante.» ("Toda a natureza é escrava da luz", dirá ele numa entrevista a Álvaro Salema, em 1973...)
* Procurado pela polícia como um dos principais dirigente grevistas, é impedido por um companheiro de, em desespero, dirigir-se à morgue, onde jaz Maria, sua companheira, atingida pela polícia: «Tu não te pertences!», dizia-lhe Leontino, pequeno funcionário público: e o protagonista, que assume em O Intervalo o papel de narrador, examina-se intimamente: «Não nos pertencíamos a nós, mas ao nosso ideal, aos espoliados, à Humanidade que sofria, à criação dum mundo novo, onde a justiça estivesse de pé, a colmeia vivesse em igualdade e o amor aplainasse a obra feita, durante um ror de séculos, por um construtor de abismos.»
* O Intervalo esteve para intitular-se -- revelou Jaime Brasil nos anos quarenta-- «Luta de Classes», e ainda bem que não vingou, não faria jus à grandeza literária do autor. Mas eu percebo Brasil: anarquista escaldado e de couraça dura, queria mostrar aos polícias que teorizavam o neo-realismo que não haviam sido eles a descobrir a pólvora. Conhecendo bem o seu esquema mental, deveria estar avisado sobre a forma como encaravam a História e a verdade dos factos: simples pormenores que se apagam ou manipulam conforme as conveniências da acção...
(1) Nem de propósito, acabo de ler:
«O anarquismo foi objecto duma implacável repressão nas primeiras décvadas do séc. XX. Ao longo dos anos 20 e 30, milhares de anarquistas ou de supostos tais foram presos, deportados para sítios inóspitos, morto. Essa repressão fez-se com pretextos diversos -- vagas de atentados da legião vermelha e até da camioneta fantasma, o 3 de Fevereiro no Porto e em Lisboa, a revolta da Madeira, o encerramento dos sindicatos livres e o 18 de Janeiro de 1934, o atentado a Salazar, etc. / [...] / Evidentemente que isso não poderia deixar de ter fortes reflexos na actividade anarquista que ficou reduzida à sua expressão mínima, com um Comité Confederal clandestino que só muito esporadicamente reunia, e sem capacidade para publicar de forma continuada e regular jornais de propaganda.» José Hipólito dos Santos, «A participação de libertários em movimentos para derrubar a ditadura salazarista», A Batalha # 252, Lisboa, Nov.-Dez. 2012, p. 3.
Monday, January 14, 2013
Sunday, January 13, 2013
Viajar com Ferreira de Castro (4)
É, pois, com Emigrantes que Castro se encontra, ao aproveitar a sua própria experiência para contar a história de Manuel da Bouça, figuração de um arquétipo. E é essa condição simbólica que torna Ferreira de Castro um autor pioneiro, um dos primeiros -- e não só na literatura portuguesa -- a optar pelo romance social, com todas as consequências que daí puderam advir. Diga-se apenas que foi ele quem em Portugal iniciou o neo-realismo no romance, sendo lido atentamente por jovens escritores nordestinos no Brasil que, por sua vez, acabaram por revolucionar a narrativa desse país e influenciar fortemente os jovens escritores portugueses da década de 40.*
* Emprego aqui a expressão neo-realismo no sentido lato, isto é: arte que procura intervir socialmente para modificar e subverter o statu quo, e não neo-realismo na concepção fechada de expressão artística, não apenas da dialéctica marxista, mas de veículo orientador das teses jdanovistas.
Viajar com... Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim e Delegação Regional da Cultura do Norte,[2004].
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Saturday, January 05, 2013
Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (4)
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| Portinari, painel da Igreja de são Francisco de Assis Belo Horizonte daqui |
«Cristão que se ignora», dirá, muitos anos depois, Francisco Costa de Ferreira de Castro (9), não por acaso o romancista de A Lã e a Neve será convidado a participar num volume comemorativo do 7.º Centenário da Morte de Santa Clara de Assis a editar pelos franciscanos portugueses) (10) ; e lembremos ainda a tese de Bernard Emery, que aborda a obra de Castro como a de um autor «luso-tropical» -- segundo os conceitos do maravilhoso Gilberto Freyre -- , na qual o «escritor ateu, mas impregnado de cristianismo» participa dessa «fraternidade dos pobres» instaurada por São Francisco de Assis. (11)
(9) Entrevista a O Primeiro de Janeiro, Porto, 24 de Junho de 1979.
(10) Carta de Frei Armindo Augusto a Ferreira de Castro, em 23 de Maio de 1953, apud Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002, pp. 189-190.
(11) Bernard EMERY, «A noção de luso-tropicalismo: realidade cultural ou utopia sócio-política?», Miscelãnea Sobre José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Centre de Recherche et d'Études Luso-Tropicales, , 1994, pp. 111-127.
Vária Escrita #10, Sintra, Câmara municipal, 2003.
Wednesday, January 02, 2013
Roberto Nobre -- Uma vida por imagens (4)
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| imagem daqui |
1. O Algarve, que no século XIX tivera João de Deus (São Bartolomeu de Messines, 1830 / Lisboa, 1896) como poeta laureado e nos alvores da centúria seguinte veria despontar o esteticismo ainda hoje inultrapassado de Manuel Teixeira-Gomes (Portimão, 1860 / Bejaia, 1941) -- um dos autores preferidos de Nobre que lhe ilustrou «Uma copejada de atum» nas páginas da Seara Nova (2) -- repartia-se pela presença suave de poetas como Bernardo de Passos (São Brás de Alportel, 1876 / Faro, 1930) e João Lúcio, (Olhão, 1880-1918) e uma nova e trepidante geração que em Faro, em 1916, nas páginas do Heraldo, respondia ao desafio de Orpheu, antecipando o Portugal Futurista na designação marinéttica. Carlos Porfírio (Faro, 1895-1970) e Mário Lyster Franco (Faro, 1902-1984) coordenavam e publicavam nessa página, conseguindo colaboração de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e (neste caso, póstuma) de Mário de Sá-Carneiro (3). José Dias Sancho (São Brás de Alportel, 1898 / Faro, 1929) e Bernardo Marques (Silves, 1899 / Lisboa, 1962) viriam engrossar essa fileira de rebeldia estética, em que marcavam também posição ideológica Julião Quintinha (Silves, 1885 / Lisboa, 1968), da geração anterior, e Assis Esperança (Faro, 1892 / Lisboa, 1975). (Não sejamos injustos a ponto de esquecermos o lacobrigense Júlio Dantas (Lagos, 1876 / Lisboa, 1962), eminência parda da cultura portuguesa do século XX, pelo peso institucional que alcançou, como pelas resistências que suscitou e de que o célebre Manifesto de Almada é apenas a ponta do iceberg. Teve, aliás, como antecessor na presidência da Academia das Ciências o também algarvio Coelho de Carvalho (Tavira, 1855 / Arade, 1934).
(1) Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 13.
(2) Ver António Ventura, O Imaginário Seareiro -- Ilustrações e Ilustradores da Revista Seara Nova (1921-1927), Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989, p.p. 105-106.
in Roberto Nobre (1903-2003), São Brás de Alportel, Câmara Municipal, 2003.
(1) Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 13.
(2) Ver António Ventura, O Imaginário Seareiro -- Ilustrações e Ilustradores da Revista Seara Nova (1921-1927), Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989, p.p. 105-106.
in Roberto Nobre (1903-2003), São Brás de Alportel, Câmara Municipal, 2003.
Monday, December 31, 2012
Castro na Oposição
A capa e a resenha d'A Sessão de 30 de Novembro de 1946 do Movimento de Unidade Democrática,
numa das grandes intervenções de Ferreira de Castro na Oposição ao Estado Novo, aqui.
Saturday, December 29, 2012
«Um medo frio» -- Breve nota sobre a memorialística castriana (4)
Ferreira de castro proveio duma família de camponeses de Ossela. Órfão de pai aos seis anos, aos doze partiria, só, para o Brasil, onde trabalharia num seringal da Amazónia, no meio dos retirantes esfomeados -- que tinham na extracção da borracha a alternativa às suas vidas secas do Ceará e do Maranhão --, entre os capatazes, os jagunços, os ex-escravos, o pavor das feras e o temor dos índios, o inferno verde... No meio desta fauna, ainda encontrou quem lhe desse que ler: jornais, charadismo, um que outro livro, por vezes de Coelho Neto; ensimesmado, teve ocasião de escrever um romancinho intitulado «O Amor de Simão», editado por si pouco depois em Belém, já com o nome definito de Criminoso por Ambição. Aos dezassete anos, fazia biscates colando cartazes na capital do Pará; se tivesse sorte podia não dormir ao relento; se o estômago estivesse composto e o peso do desespero não fosse avassalador, podia frequentar Camilo e Eça, Balzac e Zola na biblioteca pública da cidade, anotando numa agenda de bolso máximas que o impressionaram, fazendo exercícios de estilo e lembretes importantes para o escritor que ele teria forçosamente de ser. E se por essa altura ainda trabalhou como embarcadiço num navio que fazia a carreira do Oiapoque, entre Belém e Caiena -- lavando o convés e sabe-se lá mais o quê -, dois anos mais tarde, em 1917 estava como co-director dum semanário destinado à comunidade lusa, o Portugal, cuja influência permitu editar um (então) tradicional e volumoso Almanaque.
Sol XXI # 38/39, Carcavelos, 2003
(foto)
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