Friday, May 18, 2012

Ferreira de Castro e Jorge Amado, no Dia Internacional dos Museus


ou a celebração de uma amizade impecável, ao longo de 40 anos (1934-1974), e cujos ecos se prolong(ar)am ainda para além da morte do primeiro. A partir de hoje, no Museu Ferreira de Castro.


Tuesday, April 17, 2012

As «Notas Biográficas e Bibliográficas» de Jaime Brasil (1931) (5)

Mas é a comunhão ideológica entre dois anarquistas que nitidamente se espelha e é relevada -- tanto quanto era possível no início da década de trinta, limiar do Estado Novo. O que o leitor atento já poderia intuir após leitura de A Selva, Emigrantes ou dos livros da primeira fase, fica evidenciado neste breve escorço: escritor não-conformista (p. 7), «homem universalista pela sua ideologia» (p. 23), ateu (p. 24), propagandista «dos generosos ideais de emancipação humana» (p. 25), identificação com «as massas proletárias [...] perfilhando as suas aspirações, sem contudo se imiscuir nas lutas de classe ou de partido.» (p. 26)

(imagem)

Sunday, April 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (18)

Mário Dionísio, que tinha do neo-realismo uma visão muito precisa como expressão artística do materialismo histórico e dialéctico, é coerente quando inscreve Ferreira de Castro numa corrente de literatura social (p. 63), mas não-marxista, porque, de facto, Castro nunca foi marxista. O que ele era – e os seus livros aí estão para o comprovar –, era um comunista libertário, inspirado em autores tão importantes para o socialismo em sentido lato, e para a esquerda, como o foram Piotr Kropótkin e Errico Malatesta – fortes adversários do comunismo autoritário, estatista e centralizador – tal como o haviam sido Proudhon e Bakúnin, que defrontaram e entraram directamente em polémica com Marx. Os que extravasaram o ponto de Mário Dionísio filiando, por sectarismo e/ou ignorância, a obra castriana numa espécie de socialismo burguês (oh, insulto!) e utópico, esqueciam-se que não era menos utópico que o chamado socialismo científico que apontava para a instauração do céu na terra: extinção do estado e sociedade sem classes, e não sabiam, nem queriam saber, que nada havia de menos burguês que o anarco-sindicalismo português – de onde, aliás, emanou o próprio PCP.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Tuesday, April 10, 2012

As "Notas Biográficas e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (4)

Outro aspecto interessante no texto de Brasil é a caracterização física e psicológica de Ferreira de Castro. A fisionomia invulgar é descrita como «traços de uma ancestralidade eslava» (p. 7); inteligente, bondoso (p. 24), hipersensível por vezes (p. 32), era impulsivo no entusiasmo da suas causas, turvação que rapidamente se apaziguava, substituindo-se por uma atitude reservada e de ensimesmamento (p. 28). Castro muitas vezes se auto-caracterizou como um tímido, e muitos testemunhos seus contemporâneos dão nota dessa emotividade exacerbada até às lágrimas, em situações de perda ou confronto quando, por exemplo, era testemunha abonatória de presos políticos durante o Estado Novo (lembro-me, de repente, do testemunho de Alexandre Babo nas Recordações de um Caminheiro) e, principalmente, quando vinha ao de cima algo que evocasse o sofrimento por que passou nos anos da Amazónia.

Sunday, April 08, 2012

Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade (4)



Escritor que se fez a si próprio, foi no Brasil que Ferreira de Castro se auto-revelou, no meio adverso de um seringal da Amazónia, entre 1911 e 1914. Será, contudo, em Belém, capital do estado paraense, que vivia ainda sob os efeitos da ressaca de uma rubber-rush -- onde permaneceu até 1919, ano do regresso a Portugal --, que o jovem literato, entretanto trabalhando na imprensa local, editará os seus dois livros iniciais (Criminoso por Ambição e Alma Lusitana, ambos de 1916). Na Biblioteca Pública da cidade, bem fornecida de literatura portuguesa e francesa, Castro tomará contacto, pela primeira vez, na maioria dos casos, com os grandes escritores das duas línguas (2), muitos dos quais permanecerão como referências sua. Falamos, naturalmente, de Zola (1840-1902), mas também de Balzac (1799-1854) e Victor Hugo (1802-1885) ou Camilo (825-1890) e Eça (1845-1900).



(2) Ver Bernard Emery, L'Humanisme Luso-Tropical selon José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Ellug, 1992, pp. 120-121; id., «Ferreira de Castro et la culture française», Miscelânea sobre José Maria Ferreira de Castro, Grenoble, Centre de Recherche et d'Études Lusophones et Intertropicales, 1994, pp. 53-65.


Boca do Inferno #3, Cascais, Câmara Municipal, 1998, pp. 92-93.
(também aqui)

Thursday, March 29, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (17)

A leitura deste livro de Vítor Viçoso mais faz sentir a necessidade de um estudo abrangente da literatura libertária e dos seus escritores – aliás uma sugestão que, generosamente, já me foi feita precisamente por Vítor Viçoso – que, por desconhecimento geral, são, conforme as percepções de quem escreve, encostados ao republicanismo reviralhista ou às vizinhanças do PCP, quando se trata de outra coisa. E essa outra coisa integra nomes tão esquecidos hoje, como Manuel Ribeiro, autor de A Catedral, Jaime de Magalhães Lima, Tomás da Fonseca, Emílio Costa, Campos Lima, Julião Quintinha, Jaime Brasil, Assis Esperança, entre outros. E também o de Ferreira de Castro.

Monday, March 26, 2012

História e Memória: Uma leitura de Os Fragmentos (4)

Ferreira de Castro foi um triunfo da vontade. A sua vida, pelo muito que teve de inverosímil -- uma criança desterrada para a selva amazónica que em adulto se elevou à condição de um dos primeiros romancistas do seu país, reconhecido além-fronteiras até ao limiar do Prémio Nobel da Literatura (2) -- teria sido susceptível de ser contada por ele próprio.
Tal não sucedeu. Ou, melhor, sucedeu parcial e fragmentariamente ao longo so seu percurso de escritor.

(2) Proposto em 1951 e 1968, a segunda conjuntamente com Jorge Amado.


Língua e Cultura II Série, #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, 1998.

Thursday, March 22, 2012

As "Notas Biográfica e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (3)

O texto é curto, pouco mais de dez páginas, e muito bem escrito, como era apanágio de Jaime Brasil, um estilista limpo e assertivo. A abrir, situa Castro como «o mais representativo dos romancistas da nova geração em Portugal» (p. 7), o que não suscita contestação, uma vez que os grandes ficcionistas de idade aproximada – José Régio, José Rodrigues Miguéis ou Vitorino Nemésio – não haviam ainda publicado as suas narrativas de maior significado.

Monday, March 19, 2012

Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropótkine (4)

Na génese do futurismo portugês participou um próximo amigo de Ferreira de Castro, Mário Lyster-Franco, que com Carlos Porfírio -- pouco depois director do Portugal Futurista --, no Heraldo de Faro, animaram, sob os pseudónimos "Fontanes" e "Nesso", uma página literária intitulada Futurismo, onde colaboraram Almada e Pessoa [ver Nuno Júdice, Poesia Futurista Portuguesa (Faro, 1916-1917), Porto, A Regra do Jogo, 1981].

O Escritor #11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998.

(imagem de Mário Lyster-Franco, daqui)

Thursday, March 15, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (16)

Para terminar as continuidades que vieram desembocar no Neo-Realismo, há que referir a constelação anarquista, tão importante como mal conhecida e pior estudada. Basta referir que a figura mais relevante dessa corrente ideológica na literatura portuguesa do século XX é Ferreira de Castro; e que O Diabo, um dos berços do neo-realismo teve na sua génese, em 1934, um grupo de escritores e jornalistas das áreas republicana e libertária. Ferreira de Castro, que foi um dos fundadores, escrevendo logo no número 0 (“espécime”), dirigiu o jornal por um breve período, acompanhando-o sempre. Uma das grandes entrevistas deste período do autor de Emigrantes é dada, em 1940, a [O Diabo de*] Manuel Campos Lima, o último director antes do seu encerramento compulsivo.

* em falta no texto original.                                         
(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)

Wednesday, March 14, 2012

morbidez brandoniana

-- Pela mesma razão que em determinado dia da minha existência tu nasceste, nasceu e cresceu o meu provável coveiro: -- nasceu e desenvolveu-se a árvore frondosa de cujo tronco alguém fará o meu esquife..

Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livraria Aillaud & Bertrand, 1924.

(também aqui)

Monday, March 12, 2012

As "Notas Biográficas e Bibliográficas" de Jaime Brasil (1931) (2)

Terminadas em Outubro de 1930, meses após a morte de Diana de Lis e durante o internamento de Ferreira de Castro, acometido de septicemia, tenho para mim (e já o escrevi) que estas notas de Jaime Brasil sobre a vida do autor do recém-publicado A Selva – abertura do volume colectivo Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) – se destinaram a um in memoriam, que, felizmente para o jovem escritor e para o romance português, não veio a concretizar-se sob esse pretexto, e a ter razão de ser senão quarenta e três anos mais tarde. Como se sabe, Castro esteve às portas da morte e chegou a ser redigido o necrológio para os jornais -- não falando da tentativa de suicídio que, só em 1994, eu teria ocasião de revelar, em apêndice à sua correspondência com Roberto Nobre – embora o tópico suicidário houvesse sido aflorado pelo próprio, precisamente nas «memórias» de infância que Ferreira de Castro e a Sua Obra encerra.

Tuesday, March 06, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (15)

Atrevo-me, aliás, a sugerir que as posições do presencista Fernando Lopes-Graça – revista de que ele foi um dos mais importantes colaboradores –, um estrénuo defensor da arte pura, estão muitos mais próximas de Régio do que de qualquer teórico do Neo-Realismo. O que não invalida que ele, quando necessário, tivesse a necessidade de intervir explicitamente com as Canções Heróicas ou, já depois do 25 de Abril – com o seu Requiem pela Vítimas do Fascismo em Portugal.

Foto: José Régio, João Gaspar Simões, Albano Nogueira, Fernando Lopes-Graça e Adolfo Casais Monteiro, daqui.

«Obras que mudaram o Amazonas»

Uma delas, A Selva. Em Manaus, daqui.

Sunday, March 04, 2012

As «Notas Biográficas e Bibliográficas» de Jaime Brasil (1931) (1)

Jaime Brasil está omnipresente neste blogue, que também lhe é dedicado. O primeiro dos castrianos, por mais de quarenta anos deu testemunho de amizade e comunhão pessoal e ideológica ao autor de A Lã e a Neve; testemunhos por vezes afectados pela extreme admiração que lhe votava, e que não fugia à polémica vigorosa -- feição de carácter que o marcava, e género literário e estilístico de que foi um dos mais acabados cultores no seu tempo.

inesperado

Sem estar à espera, dou comigo aqui, simpático blogue do agrupamento de Escolas Ferreira de Castro, em Sintra.

Wednesday, February 29, 2012

Abd El-Krim e a História

A propósito da sangrenta Guerra do Rife, que opôs os insurrectos marroquinos, liderados por Abd El-Krim, contra os exércitos espanhol e francês, escreveu Ferreira de Castro, n'A Batalha:
«[...] a figura de Abd-el-Krim- chega a atingir um sentido epopeico e só não merece as páginas da História porque a História desde há muito está desonrada, porque a História é indigna dele.» (14 de Setembro de 1925).
Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p.67.

Para Ferreira de Castro, a desonra da História -- ou da historiografia, melhor diríamos -- tem que ver com a noção, consagrada na década seguinte pela revista Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que o registo do passado nunca poderia limitar-se à inventariação das dinastias, das batalhas, das grandes figuras, meras conjunturas das estruturas económica, social e das mentalidades de que aquelas emanavam. E é essa concepção da História que presidirá ao projecto gorado da «Biografia do Século XX» -- de que só se salvará o póstumo O Intervalo (incluído n'Os Fragmentos) ou n'As Maravilhas Artísticas do Mundo, apresentada como «A prodigiosa aventura do Homem através da Arte».
(também aqui)

Tuesday, February 28, 2012

Carlos Malheiro Dias, o romancista, melhor que Carlos Malheiro Dias, o panfletário

Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho.
«A [sic] paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. [...]
Ultimamente, porém, Malheiro Dias [...] deu-se ao necrófilo prazer de acariciar múmias, de afagar espectros -- e tornou-se, com Antero de Figueiredo, em paladino de D. Sebastião e de outras sombras pretéritas. [...]
[...] Malheiro Dias exorta a mocidade luso-brasileira a trilhar os negros caminhos do reaccionarismo; exorta-a a adorar a Deus, a pátria e seus heróis de antanho, é dizer, a adorar a escravidão e os escravizadores.*

* Carlos Malheiro Dias, Exortação à Mocidade, Lisboa, 1924.
(A Batalha, 9 de Março de 1925)

Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 30. 
(também aqui)

Gama, o pirata

Dizer que Vasco da Gama foi um arrojado pirata, é ofender os patriotas, mas é restabelecer a verdade. E a ter que escolher entre os patriotas que formam uma casta transitória de obcecados, e a verdade, que é eterna, nós optamos pela última. (A Batalha, 2 de Fevereiro de 1925)
Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 18.

(também aqui)

Charles Maurras

Charles Maurras, um maître à penser de Salazar, é escolhido por pares como o sucessor de Anatole France, «príncipe dos escritores»:
«Eu reconheço, fora de todas as divergências de ideias, que o famigerado reaccionário de "L'Action Française» é um espírito culto e um crítico, por vezes, muito penetrante. Mas daí a considerá-lo como o príncipe das letras francesas... Não, isso é querer afrontar o próprio ridículo. É afrontar a memória de Anatole, que usou aquele título -- é afrontar os escritores que futuramente o virão a usar, merecidamente.»
A Batalha, 19 de Janeiro de 1925

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 14.

(também aqui)

Monday, February 27, 2012

aproximava-se o 1.º Centenário de Camilo Castelo Branco

O que se tem feito com Camilo! O cadáver deste homem tem dado para alimentar legiões de medíocres, que nunca teriam nome, nem editor, nem leitores, se não se acolhessem à sombra trágica do romancista. (A Batalha, 22 de Dezembro de 1924)

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 6.

desenho de Tòssan
(também aqui)

O barão de Wrangel

Ferreira de Castro sobre o barão Piotr de Wrangel, um dos mais emblemáticos generais do Exército Branco, derrotado na guerra civil russa pelo Exército Vermelho, de Trotsky, n'A Batalha de 15 de Dezembro de 1924:
«Esse palhaço disfarçado de Marte, não deixa extinguir seu ódio ao novo regime russo, não pelo regime em si, mas porque supõe ver nele a encarnação da Liberdade.» 

Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2004, p. 4.
(também aqui)

Sunday, February 26, 2012

Eduardo Frias sobre Dickens


O simbolismo de Dickens é todo tecido com fantasmas arrancados à miséria de Londres. Visto [sic] por um «snob», essa miséria seria o cenário dum drama vulgar, com pretensões ridículas de realismo.
Sentida por Dickens, que foi um famélico, a tragédia estilizou-se na mais original e bizarra expressão literária.
A tragédia, a dor, atingiram a forma culminante da sugestão.
Realizada por um processo exótico, não resultou uma arte «snob» que seria sem dúvida o seu despenhadeiro, e assim os livros de Dickens tornaram-se populares em toda a Inglaterra e erraram triunfantes por todo o mundo.

A Boca da Esfinge (com Ferreira de Castro), Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924, p. 14.

(também aqui)

Tuesday, February 21, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (14)

Voltando ao lastro cultural de que o Neo-Realismo irá proceder, temos de referir a revista coimbrã presença, de José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais Monteiro. Escreve Vítor Viçoso, com toda a pertinência, que «[…] nem o psicologismo da Presença esteve totalmente afastado da literatura neo-realista, nem a socialidade como tema literário, apesar da centração egotista, esteve arredada dos pressupostos de alguns presencistas.» (p. 51). Na verdade, dos grandes nomes da revista, só João Gaspar Simões, que em 1937 proclamara o «Discurso sobre a Inutilidade da Arte», se pode considerar como um defensor da arte pela arte. José Régio ou Adolfo Casais Monteiro são, acima de tudo defensores da liberdade do artista. Régio, aceitando com naturalidade a valia de uma arte empenhada, sustenta inclusivamente, e com razão – nas páginas da presença, a propósito do filme «A Revolução de Maio», de António Lopes Ribeiro –, que a própria propaganda não tem necessariamente de ser destituída de valor artístico. Basta lembrar-nos de obras-primas do cinema propagandístico como O Triunfo da Vontade ou Olímpia, de Leni Riefensthal…

Friday, February 17, 2012

Literatura, Artes e Identidade Nacional -- Do Modernismo à Actualidade (4)

Todos estes movimentos de escola, nascem, portanto, na primeira metade do século, antagonizam-se entre si e também dentro de si próprios. O que não impede uma certa permeabilidade que as revistas demonstram: a presença recupera e promove autores da geração anterior (Pessoa, Sá-carneiro, Almada) e publica também neo-realistas como Cochofel, Manuel da Fonseca ou Namora; a Vértice é ecuménica, publicando desde Afonso Duarte, que vem da «Renascença Portuguesa», até Cesariny.

Actas dos 3.ºs Cursos Internacionais de Verão de Cascais - 1996, vol. IV, Cascais, Câmara Municipal, 1997. 

Tuesday, February 14, 2012

Kropótkin

Piotr Kropótkin, a principal referência ideológica de Ferreira de Castro, lembrado aqui, 90 anos depois da sua morte.

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (13)

Numa concepção marxista, a noção de vanguarda não é despicienda, por isso assistimos em muitas narrativas ao papel preponderante que tem o operário consciente da sua situação de classe, ou mesmo de intelectuais ou técnicos, como os engenheiros, que surgem como elementos catalisadores da aquisição de uma consciência por parte dos interlocutores ou companheiros de jornada. Como escreve o autor: «[…] o “proletariado” pode ser directa ou indirectamente ficcionado como a virtual classe messiânica, enquanto classe ascendente, e, portanto, sinalizadora de uma revolução que conduziria a uma libertação de toda a humanidade.» (p. 34)  Este messianismo, é preciso não esquecer, representa o corolário da filosofia marxista, cuja feição teleológica aponta para a superação de todas as classes e a abolição do Estado quando for instaurada uma sociedade comunista, o que se prende com a matriz judaico-cristã de Karl Marx, como o autor também sinaliza (p. 39).

Monday, February 13, 2012

Ferreira de Castro: Um Escritor no País do Medo (4)

Em 1949, Vergílio Ferreira (1916-1996) pede a Ferreira de Castro (1898-1974) que interceda junto da Guimarães para a publicação de um livro seu, Mudança (2). E dá esta informação tranquilizadora: «O livro foi já autorizado pela Censura e isso livra-o do desastre de uma apreensão.» (3)

(2) Veio a publicar-se nesse mesmo ano, mas na Portugália. 
(3) Carta de Sintra, em 8 de Setembro de 1949, cf. Ricardo António Alves, 100 cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara municipal / Museu Ferreira de castro, 1992, p. 110.

Taíra - Revue du Centre de recherche et d'études lusophones et intertropicales # 9, Grenoble, Université Stendhal, 1997.

Friday, February 10, 2012

Curt Meyer-Clason

Leio no Público, Augusto M. Seabra, notícia da morte de Curt Meyer-Clason a 13 de Janeiro último, com 101 anos. Grade lusófilo, profundo conhecedor das literaturas portuguesa e brasileira, organizou a antologia Der Gott der Seefahrer und andere portugiesische Erzhalhungen (1972), tomando para título da colectânea o conto de Ferreira de Castro «O Senhor dos Navegantes», incluído no volume A Missão (1954), e cuja tradução se deve a Ilse Losa.

Thursday, February 09, 2012

traços dum lapuz

Ao tecer o êxito futuro, a sua expressão tornara-se sombria: os olhos castanhos, pequeninos e movediços em outros azares, paravam agora em fundo querer; as faces secas desciam, sem contracções, sobre o negro e longo bigode, de lábios delgados, dentes sujos de tabaco, aquietava-se também em cima do queixo agudo, rude, plebeu. Assim imobilizado, era tosca cariátide de sobreiro aquele corpo meão mas rijo, de linhas enérgicas, sem adiposidades, todas elas atestando pertinácia no trabalho e saúde campesina, saúde dos que se levantam quando se apagam as últimas estrelas e se deitam quando as primeiras se acendem.

Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 23.


também aqui

Monday, February 06, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (12)

O autor, neste particular, evoca o conceito gramsciano de «intelectual orgânico», «um novo tipo de intelectual» (p. 38) profundamente envolvido com as classes trabalhadoras, fazendo suas as aspirações populares, doam a voz a quem a não tem: chegando alguns dos escritores a dedicar as suas obras ao povo analfabeto que as não podiam ler: (os «filhos dos homens que nunca foram meninos», de Soeiro Pereira Gomes, os «fangueiros dos campos da Golegã», de Alves Redol); e isso não se passa apenas na literatura: assiste-se ao mesmo princípio nas digressões do Coro da Academia dos Amadores de Música de Fernando Lopes-Graça, recriando a música tradicional recolhida por ele e por outros, ou, numa feição mais declaradamente politizada, divulgando as Canções Heróicas, ou, ainda um projecto de dinamização cultural como o foi o da «Biblioteca Cosmos», dirigida por Bento de Jesus Caraça.

Saturday, February 04, 2012

A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (4)

Há três livros de Ferreira de Castro em que a exploração dos estados individuais de tensão sobreleva de forma clara o conflito imanente a toda a sua criação romanesca: A Tempestade (1940), A Curva da Estrada (1950) e A Missão (1954).

Vária Escrita #3, Sintra, Câmara Municipal, 1996. 


Wednesday, February 01, 2012

Vítor Viçoso - A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (11)

É evidente que, como salienta Vítor Viçoso, há dificuldades com que o Neo-realismo se irá defrontar, a começar pela «crença “vanguardista” na capacidade de intervenção da arte no processo contraditório da transformação do mundo» (p. 28). Poderá pôr-se um problema de credibilidade: «a voz dos oprimidos» não deixará de ser «a voz do outro social» interpretada pelo «eu moral» do escritor. (pp. 35-36), correndo o risco de inautenticidade ao mitificar o povo como sujeito heróico sua própria libertação, quando a realidade demonstra, com todas as excepções, «a relativa inércia do actor colectivo que a devia protagonizar.» (p. 36). João Gaspar Simões, por exemplo, um adversário declarado de uma arte com intuitos sociais, acusava o tom épico dos neo-realistas como fantasias mais próximas das lendas arturianas que da realidade que eles pretendiam mostrar…

Tuesday, January 31, 2012

Sete Cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (4)

Ao contrário daquele que foi o mais celebrado crítico de cinema do seu tempo, a posição de Cardim é mais prudente. Decerto, não deixa de tecer elogios ao filme, à probidade do realizador, notando «o estudioso cuidado com que ele se preparou -- como aliás lhe cumpria -- para o alto cometimento, lendo, evidentemente, o que de melhor se tem escrito sobre o assunto [...]» (2)

Luís Cardim, Os Problemas do «Hamlet», p. 85.

(postado também aqui)

Friday, January 27, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA – AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (10)

O Realismo de Eça de Queirós, e o naturalismo de Abel Botelho, entre outros, tiveram igualmente uma enorme influência, com a diferença de que com Queirós e Botelho o povo era objecto da história, enquanto que agora passava a sujeito e actor da história, procedendo àquilo a que o autor designa como «a desocultação de um tradicional bucolismo pacificador e redentório» (p. 39). O campo deixa de ser visto primordialmente como o locus amoenus que nunca foi para passar a ser o cenário de conflito que nunca deixou de ser.

Wednesday, January 25, 2012

Castro & Ferro

António Ferro e Ferreira de Castro
década de 1920, pormenor de  foto de grupo
in Mafalda Ferro e Rita Ferro, Retrato de uma Família
Lisboa, Círculo de Leitores, 1999.

Tuesday, January 24, 2012

Canções da Vendetta (4)

Nestes Pequenos Mundos a Córsega é largamente tratada em capítulo próprio; mas um ano antes publicava-se em Lisboa um pequeno opúsculo sobre as canções da ilha de Napoleão, que é hoje uma raridade bibliográfica.
Apresentação de Canções da Corsega, 2.ª edição, Sintra, Camara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1994.

Sunday, January 22, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (9)

E já que nos referimos a José Régio, aproveito para abordar o lastro de que o Neo-Realismo pôde lançar mão para tornar-se no mais marcante movimento literário português no que ao romance diz respeito. Como sublinha Vítor Viçoso, o Neo-Realismo vai beber ao lirismo romântico a atenção pelo património cultural do país, preocupação de Almeida Garret com o seu Cancioneiro exemplo que teria sequência depois dele e, no Neo-Realismo, principalmente com Alves Redol e Fernando Lopes-Graça (Lopes-Graça que, quanto a mim, foi um presencista nas fileiras do Neo-Realismo…).

Thursday, January 19, 2012

no país da infância

 Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo. Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.
     Felizes esses tempos em que pastoreava a cabra pelas barrocas, roubava maçãs na quinta do Almeida e seguia, na Primavera, o voo dos pássaros de ramo em ramo!

     Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 20.
 
 
imagem: Manuel da Bouça, visto por Albano Ruela.

«...esta necessidade permanente de assistência afectiva...» [A correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre] (4)

Tentou viver em Lisboa, na primeira metade da década de vinte. Os primeiros anos foram auspiciosos, uma vez que sai vencedor de um concurso de desenhos promovido pelo clube «Bristol».

Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 8.

Tuesday, January 17, 2012

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (9)

É interessante vermos que ambas as posições, bukharinista e jdanovista, parecem ter a sua tradução nacional: Mário Dionísio caracterizando o Neo-Realismo como uma «síntese do Romantismo e do Realismo no quadro de uma apropriação e superação da nossa tradição literária.» […] isto é: «Descrever o real e contaminá-lo com o sonho […]» (p. 30), parece-me estar mais próximo de Bukhárine, enquanto que Álvaro Cunhal – no confronto com José Régio, nas páginas da Seara Nova, em 1936, ou na polémica interna do Neo-Realismo esgrimida nas páginas da Vértice, coadjuvando, a partir da prisão, pelo brilhante e ultra-ortodoxo António José Saraiva, contra João José Cochofel, Fernando Lopes-Graça e outros –, é claramente a personificação da rigidez doutrinária.

Sunday, January 15, 2012

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro (2)

Persistimos na correspondência. A epistolografia, género literário ela própria, é também uma fonte importante para a biografia de um autor e melhor conhecimento da mentalidade de uma época. Tem, assim, o grande mérito de aliar à fruição de um texto (muitas vezes) literário o acumular de informações veiculadas por um documento.

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro, separata de Vária Escrita #1, Sintra, Câmara Municipal, 1994, p. 113.

Friday, January 13, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (8)

* outro evento de grande alcance para a história do neo-realismo, foi o congresso da União de Escritores Soviéticos (1934), que teve Máximo Gorki como figura tutelar, apresentando o realismo socialista como «antídoto contra a decadência da literatura burguesa» (p. 23), tipificada por Karl Radek com Marcel Proust ou o James Joyce (dois autores referenciais para a presença); ao mesmo tempo, Nicolai Bukhárine procurava, numa intervenção, conciliar o realismo socialista com a aspiração lírica romântica. Mas o que ficaria do congresso seria a posição dirigista de Andrei Jdanov de que a literatura deveria reflectir o real no contexto da dialéctica revolucionária, desenvolvendo o conceito de «herói positivo», sem contradições, estribado na firmeza ideológica; um código de conduta com graves consequências para a arte soviética, condicionando e/ou reprimindo dezenas de artistas – e alguns dos maiores da cultura mundial: de Eisenstein a Prokofiev e Shostakhovich.

Thursday, January 12, 2012

100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO (3)

São passados em revista os tempos heróicos , de escrita fulgurante, do jornalismo dos anos vinte e das primeiras tentativas literárias de um escritor fazendo-se a si próprio, procurando o beneplácito de figuras então consagradas, muitas hoje esquecidas, ignoradas quase todas; a primeira consagração, com Emigrantes, em 1928; a atribuição do Prémio Ricardo Malheiros a Terra Fria, em 1934; as inúmeras traduções e o reconhecimento internacional; uma cuidada edição das Obras Completas, como até então não se vira em nenhum outro escritor português; a leitura  que Portinari fez da Selva para a edição comemorativa de 1955; a presidência da Sociedade Portuguesa de Escritores, entre 1962 e 1964; a candidatura, com Jorge Amado, ao Nobel da Literatura, em 1968, e o Prémio Águia de Ouro, em 1970; finalmente, o escritor tornado modelo, mestre, referência para os mais novos colegas de ofício, mesmo quando as preocupações estéticas não coincidiam.

Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 5.

Thursday, January 05, 2012

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (7)

[Um aparte: faz-se sentir a necessidade de um estudo de conjunto sobre o campo cultural do Estado Novo, não apenas na literatura, como nas artes plásticas, no cinema ou na música – campo que tem nomes importantíssimos, também eles pertencentes ao nosso património histórico-cultural: Almada Negreiros, Joaquim Paço d’Arcos, Francisco Costa, Luiz Forjaz Trigueiros, António Lopes Ribeiro, Ruy Coelho e tantos outros.]

Tuesday, January 03, 2012

A propósito dos Açores nos PEQUENOS MUNDOS

Um artigo de Dora Nunes Gago, que capta de forma feliz o espírito erramundo de Ferreira de Castro:

«Em suma, é não apenas através do olhar, mas convocando todos os outros sentidos, e, sobretudo, o coração que Ferreira de Castro esboça estas  "aguarelas" do arquipélago dos Açores. Pinturas tecidas de palavras, onde os espaços são dotados de alma (espelho da sede humanista do autor), reveladoras do deslumbramento provocado por momentos tecidos de magia, como se pertencessem verdadeiramente a um outro mundo, etéreo, diáfano e primordial.»

1 e 2

Monday, January 02, 2012

FERREIRA DE CASTRO, AGITADOR NO BRASIL (4)

Como os operários das fábricas inglesas na Revolução Industrial, também os seringueiros se enchiam de dívidas ao patrão, que lhes vendia géneros e artefactos, com os preços devidamente inflacionados. O dinheiro era coisa que minguava, e a borracha estava em queda nos mercados internacionais. Sem saldar a dívida ao patrão era impossível abandonar o seringal e voltar para a terra de origem.

O Jornal, Lisboa, 2 de Novembro de 1990.

Monday, December 26, 2011

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA – AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (6)

* uma aguerrida política de propaganda por parte do Estado Novo e do seu corifeu António Ferro, através do SPN, pondo em confronto a «estetização da política» como refere Viçoso à «politização da estética», por parte dos neo-realistas. Aliás, Vítor Viçoso regista a prevalência de «dois nacionalismos distintos» (p. 43): um retrógrado e paroquial, mas estilizado, fomentado pelo poder; o outro, universalista e humanista, no pressuposto da emancipação humana;

Sunday, December 25, 2011

Selecções Álibi

737. IPS, H. & MACOFI (selecção e notas), Selecções Álibi, vol. III, Lisboa, Editorial Álibi, s.d.; 72 págs.; 21,2x15x0,4 cm.; broch.
Género: Ficção narrativa (conto).
Categoria: Literatura portuguesa; Antologias.
Autores antologiados: Reinaldo Ferreira (Repórter X), Ferreira de Castro, Eduardo Frias, Mário Domingues, José da Natividade Gaspar, Francisco A. Branco e H. Ips & Macofi.
Estado: bom.
Obs.: «A Chinesa do Avenida Palace», de Ferreira de Castro, extraída de um Almanaque Bertrand, década de 1920; Ips &; Macofi, um pseudónimo (Mário Domingues?).
Capa: Machado.

Tuesday, December 13, 2011

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA – AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (5)

* a polémica entre José Rodrigues Miguéis e Castelo Branco Chaves nas páginas da Seara Nova – movimento de grande nobreza cívica e cultural que, nas palavras de Raul Proença, se situava à extrema-esquerda do regime republicano; dissensão que leva ao abandono da revista do primeiro, já activista comunista, deixando de reconhecer-se no liberalismo socialista do grupo de Proença, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e António Sérgio;



Monday, December 05, 2011

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (4)

* a conferência de Bento de Jesus Caraça, em 1933, A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo, proferida na Universidade Popular Portuguesa, que, segundo o autor é «um dos textos fundadores de uma nova mundividência, na qual a cultura democrática como modo de dignificação e de libertação do ser humano constituía um núcleo fecundo.» (p. 22);

Thursday, December 01, 2011

Ferreira de Castro e os seus médicos

Castro, após a sua permanência na Amazónia, teve sempre uma saúde instável. No Bernardino Machado, excelente blogue alimentado pelo seu neto, Manuel, leio sobre a justa homenagem aos docentes de Coimbra afastados das suas cátedras pelo Estado Novo. Nela figuram três dos médicos do escritor: Celestino da Costa, Fernando da Fonseca e Pulido Valente. Este, em 1953, teve uma intevenção decisiva numa grave crise que implicou três intervenções cirúrgicas. Tal como Reinaldo dos Santos, em 1931, que debelou uma septicemia -- e Rufino Ribeiro, um oftalmologista do Norte (creio que do Porto)

Wednesday, November 30, 2011

VÍTOR VIÇOSO, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA – AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (3)

Esta elite, cujo núcleos iniciais se dispersavam por Coimbra, na sua maioria, mas também Vila Franca de Xira e Lisboa, manifesta-se a partir da segunda metade da década de 1930, num ambiente político, social, económico, ideológico e cultural extremamente polarizados, e disso tratará Vítor Viçoso no capítulo inicial, significativamente intitulado «A Tragédia do Mundo e o Neo-Realismo». Aí podemos seguir algumas das etapas que levam à constituição desta corrente, significativamente pontuada por condicionantes e factos importantes ou decisivos:

Tuesday, November 22, 2011

Vítor Viçoso, A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO (2)

O autor estabelece previamente uma contextualização histórico-cultural de grande interesse e utilidade, uma vez que, como sabemos, nada nasce de geração espontânea. Há condicionantes internas e externas que são fundamentais para que elementos de uma comunidade estabeleçam entre si afinidades que posteriormente se manifestam de uma forma coerente. Desde logo uma afinidade geracional, sociológica e ideológica. E por isso, na «Introdução» somos informados de que os autores com que nos vamos defrontar pertencem a uma «elite cultural maioritariamente de origem pequeno-burguesa ou de camadas populares mais politizadas, identificadas com o marxismo ou na sua vizinhança ideológica». (p. 11)

Thursday, November 10, 2011

A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (1)

A Narrativa no Movimento Neo-Realista – As Vozes Sociais e os Universos da Ficção, de Vítor Viçoso (Lisboa, Edições Colibri, 2011) consiste num panorama vasto da narrativa neo-realista, analisada com minúcia a partir de um conjunto de 148 títulos de bibliografia activa – corpus mais do que suficiente para determinar com segurança as linhas-de-força de uma corrente literária.      
     Quando falamos em narrativa neo-realista e nos seus autores, referimo-nos à mais importante corrente literária do século XX: não na poesia – apesar de Carlos de Oliveira, Mário Dionísio ou Manuel da Fonseca; não no ensaísmo e na crítica – apesar de (outra vez) Mário Dionísio, Álvaro Salema ou António José Saraiva, entre muitos outros –, mas, claramente, na ficção narrativa e, em particular, no romance. Basta lembrar os maiores: Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, para não falar naqueles que dele se distanciaram em maior ou menor grau, como Vergílio Ferreira e José Marmelo e Silva, ou de Soeiro Pereira Gomes, que morre prematuramente apenas com um livro publicado – sem esquecer, naturalmente, Ferreira de Castro, da geração anterior, mas de quem tem sempre de ser citado com pormenor quando se aborda o neo-realismo.

(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)