Tuesday, February 23, 2010

Sunday, February 21, 2010

outras palavras - O SEGREDO DAS NOSSAS DERROTAS (1928)

Sempre que eu regressava da escola, davam-me em minha casa O Comércio do Porto, e diziam-me:
-- Vê lá! Vê lá se já sabes ler!
Ferreira de Castro, «O segrêdo das nossas derrotas -- Como eu fui preso no... Limoeiro», Uma Hora de Jornalismo, Lisboa, Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, 1928, p. 85.

Tuesday, February 16, 2010

Ferreira de Castro e a II República espanhola (2)

O jornalismo é uma actividade que Ferreira de Castro inicia ainda no Brasil, para onde emigrara muito jovem, em 1911, com doze anos e meio. Quando regressa, em 1919, retoma-a com grandes dificuldades, uma vez que era totalmente desconhecido no meio. A imprensa foi para ele a «profissão socorro»(2) que lhe permitiu dedicar-se à sua vocação literária. Até 1927, é um free-lancer, escrevendo abundantemente para jornais do continente, ilhas e colónias, como meio de subsistência. Nesse ano -- que coincide com uma nova etapa da sua vida pessoal, o encontro com Diana de Liz, e também o encerramento de A Batalha, após o golpe de 28 de Maio --, o jovem escritor entra para os quadros de O Século, onde permanecerá até 1934, abandonando então a vida dos jornais como profissional, saturado dos constrangimentos impostos pela Censura do Estado Novo.
(2) Ferreira de Castro, «Origem de "O Intervalo"», Os Fragmentos, Lisboa, Guimarães & C.ª [1974]2, p. 63.
Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau - 3.º Ciclo, Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007, p. 31.

Wednesday, February 10, 2010

Mais uma dedicatória no Caligrafias, desta vez num exemplar de A Curva da Estrada.

Sunday, February 07, 2010

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (2)

Acima de tudo uma grande obra de arte, o romance é também o testemunho da vivência do autor e veicula, como seria de esperar, a sua mundividência, a perspectiva pessoal com que o escritor encarava a vida e os problemas que se levanta[vam] ao ser humano.
Congresso Internacional A Selva 75 Anos -- Actas, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007, p. 87.

Saturday, February 06, 2010

correspondências - Jaime Brasil, CARTAS A FERREIRA DE CASTRO [1924-1964]

SINDICATO DOS PROFISSIONAIS DA IMPRENSA DE LISBOA
Rua do Loreto, 13, 2.º,
LISBOA
TELEFONE TRINDADE N.º 179

GABINETE DA DIRECÇÃO
N.º 42

Meu prezado consócio:

Esta Direcção(1) recebeu a sua carta de 1 do corrente e os documentos que a acompanhavam(2), que ficarão, conforme é seu desejo, depositados nos arquivos deste sindicato.

[Lisboa, 5 de Março de 1926]
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006, p. 14.

(1) Jaime Brasil, sócio n.º 73, era então secretário-geral do do SPIL.
(2) Referência à conferência proferida pelo sócio n.º 133, Ferreira de Castro, «A arte moderna ante a sociedade actual» (ver aqui, aqui, aqui e aqui).

Tuesday, February 02, 2010

castrianas #26 - Francisco Costa

O artista [...] deve fazer-se antes de fazer a obra: entre nós, os escritores Paço d'Arcos, Ferreira de Castro, João Gaspar Simões, Maria Archer, Alves Redol, são exemplos notórios de quanto vale a vontade de ser para operar. E se hoje não parecem universais a olhos portugueses, talvez no futuro algum crítico de além-fronteiras, cansado do que vê ao pé, sem lembre de avaliar, sem visão local, essas e outras figuras do momento literário que estamos vivendo e que não sabemos ver parce que nous sommes dedans.
Francisco Costa, «Essência e existência do romance» [1954] Diálogos Estéticos, Lisboa, Editorial Verbo, 1981, p. 77.

Sunday, January 31, 2010

Da correspondência com Ferreira de Castro (1)

Não falta quem aponte alguma pobreza à epistolografia portuguesa, em especial quando comparada com o que é dado à estampa noutros países. O trabalho pioneiro de Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (1965), coligindo um número elevado de autores, do Infante D. Pedro (século XV) a Florbela Espanca (século XX), ou, posteriormente, a publicação exaustiva da correspondência activa (e também a passiva) de Eça de Queirós, com destaque para os trabalhos de Guilherme de Castilho, Beatriz Berrini e A. Campos Matos, ou ainda a meritória acção de Mécia de Sena, impulsionando a edição da valiosa epistolografia do seu marido, Jorge de Sena -- desde logo consigo própria, mas também com Guilherme de Castilho, José Régio, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner Andresen, apara além das que já há muito foram anunciadas com outros escritores -- tudo isto, e mais algumas obras de vulto neste domínio ocorridas nas últimas décadas, veio demonstrar a conveniência de sermos mais parcimoniosos nos juízos definitivos.
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal e Instituto Português de Museus, 2006, p. 5.

Friday, January 29, 2010

Ferrer

O último número de A Batalha (237, Nov.-Dez. 2009), jornal editado pelo CEL - Centro de Estudos Libertários, evoca Francesc Ferrer i Guàrdia (1859-1909), a propósito do colóquio realizado no Museu da República e Resistência, comemorando o sesquicentenário do nascimento e assinalando o centenário do seu fuzilamento.
Entre outro material, republica o texto de Ferreira de Castro, «A morte dos apóstolos -- e o triunfo das suas ideias», saído no «Suplemento Semanal Ilustrado» n.º 46, em 23 de Outubro de 1924, exactamente 25 anos depois da morte trágica do pedagogo da Escola Moderna.

Saturday, January 23, 2010

Jaime Brasil, anarquista (2)

Sem nos determos na caracterização de nomes e menos ainda nos que, inicialmente anarquistas, acabaram por posicionar-se no campo ideológico oposto -- como Afonso Lopes Vieira ou Alfredo Pimenta -- ou partilharam certa comunhão de ideário socialista -- de Antero de Quental a António Sérgio --, vale dizer que a primeira metade do século XX deu a Portugal um conjunto de autores que se constituiu como uma plêiade intelectual notável. Doutrinadores como Neno Vasco, Campos Lima e Emílio Costa, romancistas como Assis Esperança e Ferreira de Castro, cientistas como Aurélio Quintanilha, publicistas de largo espectro como Julião Quintinha, Jaime Brasil e Roberto Nobre, entre muitos outros. Alguns destes autores estão em plena maturidade -- e outros haviam já começado a construir um nome literário -- ainda em vida de alguns dos mais importantes escritores libertários, como Piotr Kropótkin e Errico Malatesta, falecidos respectivamente em 1921 e 1935, e ambos, aliás, com uma profunda influência nos meios anarquistas portugueses. (3)

(3) Sobre o anarquismo ou libertarismo em Portugal, socorremo-nos, para este artigo, de Carlos da FONSECA, Para uma Análise do Movimento Libertário e da Sua História, tradução de Júlio Henriques, Lisboa, Antígona, 1988; e João FREIRE, Anarquistas e Operários -- Ideologia, Ofício e Práticas Sociais: o Anarquismo e o Operariado em Portugal, 1900-1940, Porto, Edições Afrontamento, 1992.

Afinidades, n.º 2-II Série, Porto, Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-Dez. 2005, p. 13.

Saturday, January 16, 2010

Rocha Peixoto, OS PUCAREIROS DE OSSELA (1908)

O esquema fundamental das vasilhas é a oval sabida (Id., 77*), maior ou menor, aselhada ou sem anças, predominando as panelas, os cântaros, as caçoilas e, nomeadamente, os púcaros.Ornamentação incisa insignificante ou nula.
* Rocha Peixoto, «Sobrevivência da primitiva roda de oleiro em Portugal», Portugálias, vol. II, fasc. 1.º, Porto, 15 de Julho de 1905.
Rocha Peixoto, Etnografia Portuguesa, edição de Flávio Gonçalves, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, p. 315.

Tuesday, January 12, 2010

Raul Proença, Ferreira de Castro e o «Guia de Portugal» (2)

Não se pode, com efeito, desligar o Guia de Portugal do grupo da Seara Nova e do escopo de regeneração nacional que ele se propunha. O Guia saiu dos prelos da Biblioteca Nacional, então dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960), sendo Proença chefe da Divisão dos Serviços Técnicos, Aquilino Ribeiro (1885-1963), segundo bibliotecário, e Alexandre Vieira (1884-1973), chefe dos Serviços Gráficos -- este último, anarco-sindicalista, futuro secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e director do diário A Batalha, não integrante do grupo da Seara, a que devemos acrescentar, entre outros, os nomes de Câmara Reys (1885-1961), Augusto Casimiro (1889-1967) e Raul Brandão (1867-1930).

Sunday, January 10, 2010

Pois está claro que fumo

Um depoimento sobre o tabaco, um dos bons vícios de Ferreira de Castro, descoberto pela T.

Sunday, January 03, 2010

Situação da Arte (1968)

Eduarda Dionísio, Almeida Faria e Luís Salgado de Matos, Situação da Arte -- Inquérito Junto de Artistas e Intelectuais Portugueses, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1968.


Respostas de: Álvaro Lapa, Álvaro Salema, António Coimbra Martins, António Gedeão, António Pedro de Vasconcelos, António Ramos Rosa, Armando Silva Carvalho, Armando Ventura Ferreira, Augusto Abelaira, Bernardo Santareno, Carlos Botelho, César Pratas, Costa Ferreira, Dórdio Gomes, Eduardo Batarda Fernandes, Eduardo Lourenço, Eduardo Nery, Eduardo Prado Coelho, Ernesto de Sousa, Espiga Pinto, Eugénio de Andrade, Eunice Muñoz, Faria de Almeida, Faure da Rosa, Fernanda Botelho, Fernando Lopes, Fernando Lopes-Graça, Fernando Namora, Ferreira de Castro, Francine Benoit, Francisco Keil do Amaral, Hein Semke, Humberto Lebroto, Ilse Losa, Jacinto do Prado Coelho, João César Monteiro, João de Freitas Branco, João José Cochofel, João Rui de Sousa, Joel Serrão, Jorge Barradas, Jorge Peixinho, Jorge de Sena, José-Augusto França, José Escada, José Gomes Ferreira, José Palla e Carmo, José Régio, Júlio Resende, Luiz Francisco Rebello, Luzia Maria Martins, Manuel Faria de Almeida, Manoel de Oliveira, Maria Aliete Galhoz, Maria Barroso, Maria Keil, Maria Teresa Horta, Mário Dias Ramos, Mário Dionísio, Martins Correia, Natália Nunes, Nelson de Matos, Nikias Skapinakis, Orlando da Costa, Pedro Vieira de Almeida, Rogério de Freitas, Sophia de Mello Breyner Andresen, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Miranda, Vergílio Ferreira, Yvette Kace Centeno

Thursday, December 31, 2009

10 livros que não mudaram a minha vida

Do Catharsis chega este desafio. pois aqui vai: 10 livros que não mudaram a minha vida.

1- A selva e a neve, de Ferreira de Castro;
2- A velha casa, mas divorcia-se logo a seguir, de José Régio;
3- É amor, foda-se!..., de Camilo Castelo Branco;
4- Folha murcha, de Almeida Garrett;
5- O barão de Castro Guimarães, de Branquinho da Fonseca;
6- Para o infinito e mais além, de Vergílio Ferreira;
7- Ravina dos tapados, de Alves Redol;
8- Sozinho e muito infeliz, de António Nobre;
9- Tabacaria, valores selados, brindes, de Álvaro de Campos;
10- Tusa, de Marmelo e Silva.

Wednesday, December 30, 2009

Uma dedicatória de Ferreira de Castro num exemplar de Emigrantes, em 1931, no blogue Caligrafias.

Monday, December 28, 2009

Viajar com Ferreira de Castro (2)

Assim se explica que, lançado na torrente migratória, de cá para lá, fosse , mais propriamente na Amazónia, onde rareavam os livros, que Castro escreveu uma noveleta intitulada Criminoso por Ambição, vindo a editá-la em fascículos em 1916, em Belém. Foi na biblioteca pública dessa cidade que aproveitou os intervalos dos biscates incertos para se educar a si próprio, lendo, lendo muito, autores portugueses, brasileiros, traduções de Balzac, Hugo ou Zola e um sem-número de livros de filosofia, política, sociologia.
Viajar com Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim e Delegação Regional da Cultura do Norte, s.d., p. 1.

Monday, December 21, 2009

a aldrabice destas sondagens

Pensava que as sondagens que colocávamos aqui fossem minimamente fiáveis. Algo que não sucedeu com esta que apresentei no último ano, «Qual o livro de Ferreira de Castro que prefere?». Quando os votos alcançavam determinado patamar, aí por volta dos cinquenta, inexplicavelmente ocorria uma razia de vinte ou trinta votos, recomeçando-se a partir daí. Isto verificou-se pelo menos duas vezes; depois deixei de ligar. É pena, porque, enquanto a coisa funcionou sem sobressalto, tinha piada ver sempre muito a par «A Selva» e «A Lã e a Neve»; e no pelotão da frente, «Emigrantes» e «A Missão».
Provavelmente estas consultas não estão concebidas para um período tão dilatado. Se fizer outra, será breve.
Obrigado a todos quantos votaram.

Friday, December 18, 2009

castrianas #25 - Mário Dionísio

Do que Ferreira de Castro dá provas com a publicação de A Curva da Estrada não é apenas da sua possibilidade de escrever um grande romance ou da sua fidelidade aos assuntos que profundamente interessam o destino do homem dos nossos dias, mas de uma capacidade de renovação que é, em grande parte, a condição própria do escritor. Pode-se dizer que um escritor começa a sua obra quando encontra um estilo próprio de revelar a sua visão do mundo. Mas, na verdade, ele só consegue a realização completa quando chega a saber desdobrar esse estilo próprio nos mil aspectos que a concretização de tal visão implica. Há talvez um equívoco irremediável naqueles que encontraram um dia um modo determinado, e logo cristalizado, de planear o romance, de dividi-lo em capítulos, de abri-lo, de desenvolvê-lo, de fechá-lo, e passam o resto dos seus dias a remoê-lo partindo de assuntos diferentes -- de pretextos diferentes. A admiração por um escritor, o entusiasmo por um escritor, e, portanto, a vida e a existência de um escritor, provêm em grande parte desse íntimo movimento de surpresa que ele sabe despertar no público e que não é mais no fundo, que a novidade que cada seu novo assunto exige.

Mário Dionísio, «A CURVA DA ESTRADA -- Romance por Ferreira de Castro. Edição de Guimarães & C.ª, Lisboa, 1950», Vértice, n.º 89, Coimbra, Janeiro de 1951, pp. 454-457.

Wednesday, December 09, 2009

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa

O papel de fundamental de Francisco Costa na doação do espólio de Ferreira de Castro ao Povo de Sintra (ver depoimento em apêndice) foi o melhor remate a um diálogo que se estabelecera cinquenta anos antes, quando o jovem poeta sintrense dava os primeiros passos como autor e o não menos jovem torna-viagem sobrevivia pelos jornais, compensando pela quantidade a exiguidade da remuneração das colaborações. Estreando-se em 1920 com a colectânea de sonetos intitulada , redigidos em grande parte no sanatório onde convalescerá de uma tuberculose pulmonar, Costa registou na sua autobiografia a comovida recepção dispensada pelo «jovem ateu Ferreira de Castro, jornalista aqui e acolá» (3). Desconhecendo essa nota, temos oportunidade de publicar as impressões de Castro a propósito do livro seguinte, Verbo Austero. Não se eximindo a frisar divergências («não é meu mar predilecto»), estas também não impediram o entusiasmo («é inegavelmente um poeta») por quem se reafirmava com um lirismo clássico, mas inquieto, provavelmente mais próximo de si próprio do que julgava, pela «desconformidade e heterodoxia» que -- como no prefácio salientara Fidelino de Figueiredo --, reflectiam a «sensibilidade moderna do poeta. (4)
(3) Francisco Costa, «Esboço de autobiografia literária», Última Colheita -- Poesia e Biografia, Sintra, edição do Autor, 1987, p. 71.
(4) Fidelino de Figueiredo, «Prefácio» a Francisco Costa, Verbo Austero, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1925, p. X.
Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Municipal, 2003, p. 84.