Saturday, July 18, 2009

outras palavras - Jaime Brasil, CARTA PARTICULAR (1950)

De Jaime Brasil, jornalista profissional,
ao autor das "Orelhas compridas", literato amador

Muita saúde!

Recebi, há meses, uma carta, assinada por uma tal Maria Agustina, a enviar-me um livro. Respondi-lhe. Voltou a escrever-me, dizendo alguns dislates. Retorqui no tom conveniente. Trocámos, assim, uma dezena de cartas. A resposta à minha última não veio pela via habitual da correspondência privada. Veio pela via pública.* Por isso, de mistura com a poeira do caminho, trazia alguns salpicos de lama.

* Bessa Luís, Os Super-Homens e "Os Orelhas Compridas" -- A Propósito do Diálogo Bessa Luís -- Jaime Brasil, Porto, edição da Autora, 1950. Brasil responde a este folheto, que terá réplica de Bessa Luís, Dissecação a um ex-Crítico de Arte, Porto, edição da Autora, 1950.

Carta Particular (com Vistas à Opinião Pública) Dirigida por Jaime Brasil ao Autor das "Orelhas Compridas", Porto, edição do Autor, 1950, p. 5.

Sunday, July 12, 2009

Literatura, Artes e Identidade Nacional -- Do Modernismo à Actualidade (2)

Como já tivemos oportunidade de escrever, um romance como Sinais de Fogo (1979) não foi, senão na sociedade livre em que se publicou. O que nos remete para a questão, por vezes irritantemente académica -- tal como o foi a do nosso feudalismo / senhorialismo, tal como o é a do nosso fascismo / autoritarismo --, que consiste no averiguar estatístico da existência, ou não, de obras-primas quedadas na gaveta, mercê de uma censura de meio-século. O crítico solerte, com argúcia de contabilista, deduzirá que muito poucos textos literários -- quase nenhuns --, vindos entretanto a lume, gozarão desse estatuto. Quando a interrogação deveria ser esta: quantos grandes romances, poemas, ensaios deixaram de ser escritos por causa da censura? (2) Houve, contudo, casos singulares, o mais notável dos quais terá sido o de Alexandre Pinheiro Torres, cuja integral produção romanesca até à data (cinco romances, entre A Nau de Quixibá, publicado em 1977, e A Quarta Invasão Francesa, de 1995) conheceu primeiras versões nos anos sessenta. (3)

(2) Ver uma aproximação a este assunto, conquanto focalizada essencialmente num autor: Ricardo António Alves, «Ferreira de Castro: Um escritor no país do medo», in Taíra, n.º 9, Crelit, Grenoble, Université Stendhal, 1997.
(3)Ver Eunice Cabral, «A gaveta prodigiosa», in JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 677, de 25 de Setembro de 1996, pp. 38-39.

Literatura, Artes e Identidade Nacional -- «Do Modernismo à Actualidade», separata das Actas dos 3.ºs Cursos Internacionais de Verão de Cascais - 1996, Cascais, Câmara Municipal, 1997, pp. 183-184.

(continua)

Saturday, July 11, 2009

testemunhos #5 - Jorge Amado

No Cais de Lisboa, em Janeiro de 1966, amigos brasileiros e portugueses acenavam para o navio espanhol onde havíamos embarcado na Bahia, Zélia, Paloma e eu -- João Jorge fora de avião. Reconheci Odylo Costa, filho, Luiz Henrique Dias Tavares, Álvaro Salema, Fernando Namora, Francisco Lyon de Castro -- o primeiro a subir a escada foi Ferreira de Castro, com a notícia de que poderíamos saltar em Lisboa, a interdição fora suspensa. O grande escritor português, naquele então o principal entre todos os que escrevíamos em língua portuguesa, não podia conter a alegria. Durante todos os longos anos de convivência, de amizade fraterna que nos ligou, Ferreira de Castro sempre foi o arauto de boas novas, mão solidária, palavra acolhedora.

«Notícia de Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Muncipal, 1996, p. 15.

Monday, July 06, 2009

«A Selva» dos leitores

Na passada sexta-feira, dia 3, teve lugar no Museu Ferreira de Castro uma sessão do Clube de Leitura, com A Selva como livro do mês.
Anotei algumas impressões dos leitores:

1. "sintonia entre o drama das pessoas e o ambiente";
2. "reflexos da História de Portugal no percurso de Alberto";
3. "Ferreira de Castro não era um ingénuo político";
4. "romance difícil de classificar: romance de espaço, romance psicológico, romance de iniciação, romance autobiográfico";
5. "riqueza lexical";
6. "recurso a símbolos gráficos, modernismo";
7."Alberto era um progressista sem o saber";
8. "psicologismo com um cunho freudiano: a selva é um ser vivo; é a mulher";
9. " a selva humana está muito retratada";
10. "um livro de ética, um manual de humanização";
11. "um livro simples e transparente";
12. "influência do simbolismo".

Deixei-me ir na conversa, e não tomei mais notas. Foi pena.

o jovem Ferreira de Castro -- O DRAMA DA SOMBRA [1926]

Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.
Ferreira de Castro, O Drama da Sombra, Lisboa, Empresa Diário de Notícias [1926], p. 5.

Saturday, July 04, 2009

Prémio Lemniscata

O blogue O Fio de Ariadne atribuiu o prémio Lemniscata ao blogue Ferreira de Castro “O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.Texto da editora de “Pérola da cultura”.

Obrigado Ana Paula!

Thursday, July 02, 2009

Ferreira de Castro: um escritor no país do medo (2)

Exemplos

Sobre esta realidade escreveu Jorge de Sena (1919-1978), em 1960, autoexilado num Brasil ainda livre:
«Quem se debruçar sobre a literatura portuguesa -- e não só a ficção deste século -- não a entenderá, se não souber entender tal situação trágica. Felizes os grandes e livre povos! Mas será que, quando esses povos discreteiam do que é a literatura , saberão, como nós sabemos, a que ponto ela pode não ser? E sendo-o, pode não ser reconhecida(1)

(1) Jorge de Sena, «A literatura portuguesa de ficção», Estudos de Literatura Portuguesa, vol. III, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 44.

Taíra -- Revue du Centre de recherche et d'études lusophones et intertropicales, n.º 9, Grenoble, Université Stendhal, 1997, pp. 65-66.

Saturday, June 27, 2009

de passagem - Jaime Brasil, ZOLA -- ACUSO!... (1949)

[Nota: das 156 páginas deste volume, 21 reproduzem o célebre manifesto de Zola, as restantes são da lavra de Jaime Brasil, pelo que decidi incluí-lo na sua bibliografia activa]

Deve o artista, o escritor, o intelectual em suma, descer à praça pública, imiscuir-se nas querelas dos seus contemporâneos, fazer vida de cidadão? Ou, antes, deve manter-se na sua Torre de Marfim, indiferente às questões dos outros homens, superior aos dissídios que os separam, consagrado a criar beleza ou a distilar sabedoria?
Emílio Zola, Acuso!.... tradução prefaciada e anotada por Jaime Brasil, Lisboa, Guimarães & C.ª - Editores [1949].

A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (2)

Terá sido exactamente a condição de profissional das letras que impediu uma produção esparsa prolífica, guardando a sua mensagem essencial para uma sólida obra romanesca. Também a sua epistolografia se ressentiu dessa situação, como já tivemos oportunidade de escrever.(1) O «ódio à caneta» (2), a «repugnância pelo trabalho agravada pela obrigação de trabalhar» (3) reflectiram-se no apuro formal da correspondência trocada com os amigos mais chegados e, outrossim, na dimensão da sua obra mais circunstancial.
(1)Ver a nossa introdução a Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994.
(2) Carta de Castro a Nobre, de 6 de Julho de 1939, ibidem, p. 77.
(3) Carta de Castro a Nobre, de 12 de Agosto de 1960, ibid., p. 183.
Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Municipal, 1996, pp. 137-138.
(continua)

Thursday, June 25, 2009

memória - PREFÁCIO a «Pedras Falsas», de Diana de Liz (1931)

Devo, talvez, a este livro o estar ainda vivo. Se não fora o desejo de o publicar, eu teria seguido, possivelmente, a sua autora, quando a morte ma roubou. Era bem frágil a razão para o meu desespero, para a minha dor de viver, mas eu não tinha outra. Um livro é uma obra humana e tudo quanto era humano me parecia, nesses dias de inenarrável angústia, totalmente inútil para os problemas que me torturaram e digno apenas de fraternal piedade. Parecia-me e -- pobre de mim! -- continua a parecer, muitas vezes ainda. Ela própria me demonstrou, já à beirinha da morte, quanto são frágeis, perante o Enigma, as nossas humanas coisas. Disse-lhe eu que os seus livros, quaisquer que fossem os esforços a fazer, seriam publicados e as minhas palavras não constituíram para Ela consolo algum. Preocupava-a apenas o meu destino, que Ela adivinhava que iria ser, para sempre, de sofrimento, e a referência que eu fizera à sua obra pareceu-lhe até -- li-o nos seus olhos, vi-o na expressão do seu rosto -- motivo pueril para as horas trágicas que se iam esvaindo. Ela fora sempre assim.

Sunday, June 21, 2009

Sete cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (2)

Esta crítica foi causa próxima de um ensaio de Luís Cardim, publicado também na Seara, durante cinco números, entre 16 de Abril e 24 de Maio desse ano, sob o titulo «É o Hamlet representável?», posteriormente editado em volume, ligeiramente aumentado e com outro título: Os Problemas do «Hamlet» e as suas dificuldades cénicas. (A propósito do filme de Sir Laurence Olivier), Seara Nova, Lisboa, 1949 -- facto que a publicação anuncia em manchete (manchete ao estilo da Seara, claro está...), saudando o autor: «incontestavelmente a nossa primeira autoridade em língua e literatura inglesa, como o Dr. Paulo Quintela o é para a língua e literatura alemã.» (1)
(1) 25 de Junho de 1949.
Boca do Inferno, n.º 1, Cascais, Câmara Municipal, 1996, p. 95.
Postado também n' A Caverna de Éolo.
(continua)

Saturday, June 20, 2009

Castro com Sérgio Telles

Ferreira de Castro com Sérgio Telles na Livraria Quadrante, Lisboa, 1970
Fonte: Portugal na Obra de Sérgio Telles, Estoril, Galeria de Arte do Casino Estoril, 1991

Thursday, June 18, 2009

outras palavras - Jaime Brasil, CHALOM!... CHALOM!... -- UMA REPORTAGEM NA PALESTINA (1948)

LIMIAR
Na hora precedente à da decisão internacional sobre a sorte da Palestina, «O PRIMEIRO DE JANEIRO» teve a iniciativa de mandar fazer uma reportagem na chamada Terra Santa.* Iniciativa duplamente corajosa, pois em Portugal não há o hábito dos grandes inquéritos internacionais. Foi ainda um acto de coragem escolher o signatário, para o enviar em missão tão delicada. A falta de treino, se outras razões não houvesse, poderia tornar a sua tarefa num malogro. Mais de um quarto de século de actividade jornalística, se lhe dava alguma experiência do trabalho redactorial, poderia ser uma contra-indicação para a reportagem. Esta requer juventude, agilidade de movimentos e uma certa pureza de visão ante o espectáculo do mundo.
* As crónicas de reportagem foram publicadas n'O Primeiro de Janeiro entre 8 de Fevereiro e 18 de Março de 1947. (R.A.A.)
Jaime Brasil, Chalom!... Chalom!... -- Uma Reportagem na Palestina, Porto, Editorial «O Primeiro de Janeiro», 1948

Sunday, June 14, 2009

Sete cartas de Luís Cardim a Roberto Nobre (1)

Publicado na Boca do Inferno, n.º 1, Cascais, Câmara Municipal, 1996

São sete as cartas de Luís Cardim que integram o espólio epistolográfico de Roberto Nobre, que agora apresentamos na íntegra, mantendo a ortografia e respeitando escrupulosamente a pontuação. Escritas entre 22 de Maio e 20 de Setembro de 1949, tiveram origem na crítica do autor de Horizontes de Cinema ao filme «Hamlet» (1948), de Laurence Olivier, estreado em Portugal no cinema Tivoli, em 24 de Janeiro do ano seguinte.
O texto de Nobre foi publicado na Seara Nova de 26 de Fevereiro de 1949 e constituiu um rasgado elogio da adaptação, enfileirando-a o crítico com A «Fera Amansada», de Fairbanks, «Romeu e Julieta», de Cukor, «Sonho de uma Noite de Verão», de Reinhardt e «Henrique V», do mesmo Olivier. Estas versões, que ele, do ponto de vista da «estética dinâmica», acolhe jubilosamente, haviam-no já levado a observar parecer ter Shakespeare escrito «não para o teatro, mas para o cinema».
(continua)

A. Lopes de Oliveira, COMO TRABALHAM OS NOSSOS ESCRITORES (1950)

Lisboa, Editorial Proença, 1950
Prefácio de Mário Gonçalves Viana, entrevista a Acúrcio Pereira, Amadeu de Freitas, Assis Esperança, Aurora Jardim [Aranha], Correia Marques, Eduardo Schwalbach, Ferreira de Castro, Guedes de Amorim, Hernâni Cidade, Hugo Rocha, Joaquim Paço d'Arcos, Luís d'Oliveira Guimarães, Gustavo de Matos Sequeira, Moreira das Neves, Mota Júnior, Natércia Freire, Norberto Lopes, Ramada Curto, Ribeiro Couto e Virgínia Vitorino.

Friday, June 12, 2009

Canções da Vendetta (2)

Afastado voluntariamente do jornalismo, a «profissão-socorro» que lhe permitia escrever os seus romances, Castro viu-se na situação de escritor profissional. Com alguns livros na gaveta (o romance O Intervalo, a peça Sim, Uma Dúvida Basta), os direitos de autor e os proventos das traduções, que começavam a surgir em grande força, eram ainda insuficientes para lhe garantir a sobrevivência.
Apresentação de Canções da Córsega, 2.ª edição, Sintra, Câmara Municipal e Museu Ferreira de Castro, 1994.

Saturday, June 06, 2009

... ESTA NECESSIDADE DE PERMANENTE ASSISTÊNCIA AFECTIVA... [A correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre] (2)

Houvesse ou não Assis, o encontro entre ambos teria forçosamente de dar-se, não só pela pequenez do meio lisboeta, como pelo relacionamento, mais ou menos intenso -- como este epistolário demonstra -- de Castro com a colónia de autores algarvios na capital (Dantas à parte, é claro): Bernardo Marques, Carlos Porfírio, Eduardo Frias, José Dias Sancho (tio de Nobre), Julião Quintinha ou Mário Lyster-Franco.
in Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 8.
(continua)

Tuesday, June 02, 2009

O jovem Ferreira de Castro - CRIMINOSO POR AMBIÇÃO (1916)

Caros leitores
Amaveis leitoras
Por um preço excessivamente módico, impressão nítida e papel regular, temos a subida honra de apresentar-vos em fasciculos de 20 paginas o sensacional romance criminoso por ambição, trabalho do escriptor Ferreira de Castro.
Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição, [Belém do Pará] Empreza Editora, 1916.

Sunday, May 31, 2009

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro (1)

Como havíamos prometido na «Apresentação» das 100 Cartas a Ferreira de Castro, voltamos a revelar mais inéditos pertencentes ao espólio do autor de A Selva.
Persistimos na correspondência. A epistolografia, género literário ela própria, é também uma fonte importante para a biografia de um autor e melhor conhecimento da mentalidade de uma época. Tem, assim, o grande mérito de aliar à fruição estética de um texto (muitas vezes) literário o acumular de informações veiculadas por um documento.

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro [separata], lidas e anotadas por Ricardo António Alves, Vária Escrita, n.º 1, Sintra, Câmara Municipal, 1994, p. 113.
(continua)

Saturday, May 30, 2009

outras palavras - Jaime Brasil - OS NOVOS ESCRITORES E O MOVIMENTO CHAMADO «NEO-REALISMO» (1945)

Estes anos cruciais da guerra têm sido, paradoxalmente, favoráveis ao desenvolvimento das letras em Portugal. Dizemos paradoxalmente, porque nem o clima interno é propício à floração do talento literário, nem o ambiente exterior é de molde a permitir aos espíritos a calma indispensável à maturação das obras de arte. Deve ser muito forte o estímulo dos jovens escritores portugueses, para os levar a vencer todas as oposições e limitações e a realizar-se, se não plenamente, pelo menos com grande pujança.

Jaime Brasil, Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», Porto, 1945, p. 3.

Friday, May 29, 2009

ficções - Cristina Leimart

Autor que se preze escreve sobre a luz. Imprime uns impulsos luminosos sempre que lhe puxa a mão para a melancolia e o agita a inspiração. Agualusa, por exemplo, n'O Vendedor de Passados, põe uma fotógrafa a alinhar as luzes de vários pontos do mundo. Tê-las-á ele visto com os próprios olhos? Talvez, consta que é viajado. Ferreira de Castro tem uma passagem soberba sobre a luz matinal que lavava a lã e dissolvia a neve da Estrela a meio do século XX. Virginia Woolf, a pretexto do híbrido Orlando, afirma que o verde na Natureza é uma coisa, e na literatura, outra, o que não é mentira nenhuma e também uma forma de dissertar sobre a luminosidade. E Machado de Assis, no D. Casmurro? O que ele se enleia em parágrafos luminosos! Onde? Pois bem, a páginas tantas e outras, aqui e ali -- não perde oportunidade. Para não falar de quando Eça se aventurou por uma China que jamais viu e pelo meio pôs um mandarim luso falando de lâmpadas derramando "claridades luarentas e sóis luzindo como opalas desmaiadas".
Cristina Leimart, «Sobre a luz», Histórias de Poucas Palavras, Lisboa, Apenas Livros, 2009, p. 13.

Thursday, May 28, 2009

castrianas #16 - Carlos Porto sobre SIM, UMA DÚVIDA BASTA

É de outra peça histórica que fala a peça de Ferreira de Castro, o conhecido romancista de «A Selva», cuja publicação constitui sem dúvida uma considerável revelação, podemos mesmo dizer um acontecimento na história da dramaturgia portuguesa recente.
Carlos Porto, «À procura de histórias», JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 14 de Setembro de 1994, p 20.

Tuesday, May 26, 2009

100 Cartas a Ferreira de Castro (1)

A correspondência passiva também pode dar a medida de um homem.

100 Cartas a Ferreira de Castro, selecção, leitura, apresentação e notas de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 5.

(continua)

Sunday, May 24, 2009

111


Ferreira de Castro nasceu há 111 anos.

Saturday, May 23, 2009

Da ABC

Mais presentes da T, aqui e aqui, velho material da revista ABC, dos anos 20, com destque para este texto sobre o Stuart.

Wednesday, May 20, 2009

Ferreira de Castro agitador no Brasil (2)

Nascido em Ossela, Oliveira de Azeméis, em 1898, Ferreira de Castro emigrou para o Brasil aos 12 anos, embarcando no vapor «Jerôme», rumo a Belém do Pará.

mercado de Ver-o-Peso, Belém do Pará

foto daqui
(continua)

Sunday, May 17, 2009

O Horóscopo

A T., no Dias que Voam, digitaliza um conto de Ferreira de Castro no Magazine Bertrand, ilustrado por Tagarro, «O Horóscopo».

Friday, May 01, 2009

Chegar a Jaime Brasil através de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Das Artes, das Letras, suplemento de O Primeiro de Janeiro, Porto, 19 de Novembro de 2007.

Jaime Brasil pertence àquela constelação de autores que, proeminentes na época em que viveram, a sua memória se desvanece paulatinamente com o passar dos anos. Hoje, Brasil é um nome de alfarrabista, não obstante recuperações quase extemporâneas, como sucedeu recentemente com a reedição do J'Accuse!..., de Zola, pela Guimarães Editores -- no fundo um estudo desenvolvido pelo nosso autor sobre o Caso Dreyfus, acompanhado do panfleto do criador de Germinal, com esclarecidas anotações do punho do seu tradutor português.
(continua)

Tuesday, April 28, 2009

de passagem - Jaime Brasil, RODIN (1944)


OS ANOS OBSCUROS


«A génese do génio»


No capítulo do seu recente livro «Du crétin au génie» (1), consagrado à «Génese do génio», escreveu o Dr. Serge Voronov: As células germinais não morrem nunca, mas transmitem-se duma geração à outra. Essas células germinais, masculina e feminina, unem-se no acto da fecundação para formar um germe, do qual, por crescimento gradual durante nove meses, a criança adquire o desenvolvimento necessário à sua vida. Casa uma dessas células é composta duma substância nutritiva, destinada ao germe -- o protoplasma -- e de um núcleo que é a parte essencial, única que detém toda a hereditariedade do pai e da mãe.

(1) Ed. de La Maison de France -- New York.

Jaime Brasil, Rodin, Porto, Edições Lopes da Silva, 1945, p. 9.

Saturday, April 18, 2009

Preconceito e orgulho em A Tempestade de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Nova Sintese, n.º 2/3, Vila Franca de Xira, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Campo das Letras, 2007
Publicado em 1940, pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.
(continua)

Tuesday, April 14, 2009

Contra as Touradas

Contra as Touradas, edição de Luís Garcia e Silva, Cadernos d'A Batalha, Lisboa, 2002.
Artigos do Suplemento Semanal Ilustrado de A Batalha, por Ferreira de Castro [A morte do touro»], Mário Domingues, Carvalhão Duarte, Adelaide Cabete, Voz que Clama no Deserto (Jaime Brasil), Serra Frazão, Abilos, Cristiano Lima, Grupos Os Rebeldes e Labareda, e da Redacção, publicado entre 1924 e 1926.

Monday, April 13, 2009

Recensão a ECOS DA SEMANA - A ARTE, A VIDA E A SOCIEDADE (2004)

Publicado em Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007

Ferreira de Castro, Ecos da Semana - A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Gacia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários / Cadernos d'A Batalha, 2004, 95 pp.

A recolha e edição de uma parte da colaboração de Ferreira de Castro no Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha é um dos grandes acontecimentos castrianos dos últimos anos. Acontecimento de importância inversamente proporcional à discrição com que nos veio parar às mãos, por iniciativa do seu responsável, Luís Garcia e Silva, e, certamente, ao quase silêncio que sobre ele se fará.

(continua)

Sunday, April 12, 2009

de passagem - Jaime Brasil, ZOLA - O ESCRITOR E A SUA ÉPOCA (1943)

Prefácio da 1.ª edição
[Nota: o título da 1.ª edição, publicado em 1943 pela Livraria Latina, do Porto, era Vida e Obras de Zola, assinada por A. Luquet. Artur Jaime Brasil Luquet Neto era o seu nome completo. Jaime Brasil, saído há pouco da prisão, estava vedado aos prelos.]
Ao terminar o seu livro Zola, em Outubro de 1931, Henrique Barbusse, depois de delinear os futuros rumos da literatura, acentuando-lhe o carácter social, escreveu: «Não basta proclamar que o amamos (a Zola) e que o deploramos. Não basta que a peregrinação que se realiza todos os anos à memória do Mestre de Médan se reduza a levar flores mortuárias e a recordar a meia-voz a importância que se revestiram, no passado, as suas iniciativas literárias e a sua atitude cívica. É preciso pôr essa grande obra não por detrás de nós, mas na nossa frente e utilizá-la no sentido da iniciação colectiva e do progresso dramático que mudará a forma do mundo -- voltá-la, não para o século XIX, mas para o século XX e os seguintes, ao eterno encontro dos homens jovens». Fez-se porventura isso, no período decorrido após a publicação das palavras de Barbusse? A jovem literatura, até a que pretende ser social, finge ignorar Zola, quando não desdenha dele.
Jaime Brasil, Zola -- O Escritor e a Sua Época, 2.ª edição, Lisboa, Portugália Editora, 1966

Thursday, April 09, 2009

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

Publicado nas Actas do Congresso Internacional A Selva 75 Anos, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Quando penso no livro que nos reúne nestes dias, aqui em Oliveira de Azeméis, ocorre-me um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo. A Selva, de Ferreira de Castro, é um livro belíssimo sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.
(continua)

Tuesday, April 07, 2009

de passagem - Assis Esperança, do prólogo de GENTE DE BEM (1938)

Esta crónica de negócios não é o panorama dum homem: é o seu clima, o seu meio, alfobre onde se criam e vivem aqueles que se acomodam, manejam e exploram todas as situações. Dar a Ataíde e Melo uma expressão simbólica, foi meu aturado empenho. Daí os seus frequentes raciocínios e solilóquios. Não quis contudo fazer dele eixo de acção romanesca, satélites as outras figuras, a gravitarem-lhe na órbita: fugia ao meu ofício de narrador. O resto é também crónica, mais ou menos vulgar, de certas famílias do nosso século. A tragédia ou a comédia -- literariamente estas expressões equivalem-se -- é a de sempre. Variaram, sim, as aspirações de cada qual. As gerações carreiam continuadamente os mas variados materiais. E se não desprezam os que havia e serviram outras épocas, esforçadamente os caldeiam segundo fórmulas actualizadas ou recentes experiências de alquimia social.
Assis Esperança, Gente de Bem, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1938.

Monday, April 06, 2009

de passagem - Roberto Nobre, das «Palavras prévias» a SINGULARIDADES DO CINEMA PORTUGUÊS [1964]

O tempo passa, corre, voa. Eu sei, é um lugar-comum dizê-lo. Mas todas as mais evidentes verdades se estratificam sempre em lugares-comuns. Já voaram trinta anos desde que iniciei esta improfícua actividade de análise e comentário de coisas de cinema. Marco a passagem dessa efeméride pessoal com este livro.

Roberto Nobre, Singularidades do Cinema Português, Lisboa, Portugália Editora [964] p. 13.

Thursday, April 02, 2009

Ferreira de Castro e a II República Espanhola (1)

Incluído em Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau (3.º Ciclo), Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007
Esta intervenção deveria intitular-se «Ferreira de Castro no dealbar da II República espanhola», uma vez que o que de substancial escreveu sobre a Espanha republicana, como romancista e como jornalista, se circunscreve aos três primeiros anos do novo regime. Sobre o período da Guerra Civil, por exemplo, para além de referências esparsas, de substancial só conheço uma brevíssima carta dirigida a Roberto Nobre, em 17 de Fevereiro de 1936, um dia depois da vitória da Frente Popular, em que o autor de Emigrantes diz apenas isto: «Estou radiante com as eleições espanholas.» (1) -- além do significativo epílogo de O Intervalo, de que se falará no final.
(1) Ferreira de CASTRO e Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), edição de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 55.
(continua)

Wednesday, April 01, 2009

correspondências - Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1922)

gostei mto, mto, da capa. É um trabalho com garra: -- mesmo sem alusão às garras do tigre...Carta de Lisboa, em 19 de Setembro de 1922
Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 17.

Sunday, March 29, 2009

de passagem - Jaime Brasil, DIDEROT E A SUA ÉPOCA (1940)

O amaneirado o precioso, o ridículo século XVIII, o século das perucas empoadas, das casacas de seda, das camisas de bofes, dos vestidos de anquinhas, dos sinais postiços no rosto -- foi um dos períodos mais fecundos da História. É que, àparte as suas frívolas exterioridades, foi o século dos filósofos, dos realizadores da maior Revolução de que há memória, não já na ordem política -- a coisa mais desordenada e transitória que imaginar se pode -- mas no domínio das ideias e do pensamento criador.
Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Jaime Brasil, anarquista (1)

Publicado em Afinidades, n.º 2, II Série, Porto, Revista da Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-dez. 2005
porque a liberdade
é a lei mais importante da criação
Ana Hatherly
1. As ideias libertárias que durante o século XIX português participaram da amálgama antimonárquica, com socialistas e republicanos de vários matizes, terão atingido a sua plena autonomização e maioridade durante a I República, quando se tornou evidente que os vícios do demoliberalismo burguês haviam transitado de regime. Os trabalhadores conheciam uma organização poderosa na União Operária Nacional (depois Confederação Geral do Trabalho), anarco-sindicalista, preponderante sobre outros movimentos e partidos operários, até ao fracasso da Revolta da Marinha Grande, em 1934. O seu diário, A Batalha, era o jornal mais lido, depois de O Século e do Diário de Notícias (1). O próprio movimento comunista português, ao contrário dos congéneres de outros países, frutos de dissidência social-democrata, tiveram extracção anarquista, com Manuel ribeiro, na Federação Maximalista Portuguesa (1919) e José Carlos Rates, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português, em 1921 (2).
(1) Jacinto BAPTISTA, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a História do Diário Sindicalista A Batalha / 1919-1927, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1927, p. 99.
(2) João G. P. QUINTELA, Para a História do Movimento Comunista em Portugal: 1. A Construção do partido (1.º Período 1919-1929), porto, Afrontamento, 1976.
(continua)

Thursday, March 26, 2009

A Batalha, 90 anos

O último número de A Batalha (o 233 da VI série), publicado pelo Centro de Estudos Libertários (CEL), assinala os 90 anos do início da publicação do então diário da União Operária Nacional (depois, Confederação Geral do Trabalho - CGT), saído em 23 de Fevereiro de 1919, com a republicação de alguns artigos de colaboradores históricos do jornal: Alexandre Vieira, «Preparação de militantes operários» (1924); Manuel Joaquim de Sousa, «Igualdade e liberdade» (1923); Ferreira de Castro, «Os ferreiros» (1925); Julião Quintinha, «Os revolucionários em arte que são conservadores na vida social» (1925); Cristiano Lima, «A derrota dos livre-pensadores» (1925); Nogueira de Brito, «Felix Mendelssohn» (1924), e uma ilustração de Roberto Nobre de A Epopeia do Trabalho, que acompanhou o texto de Ferreira de Castro já referido.

Saturday, March 21, 2009

Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (1)

Publicado em Castriana, n.º 2, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2004
A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal -- Generalidades -- Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.
(continua)

Thursday, March 19, 2009

Homenagem a João de Barros

Homenagem a João de Barros, Lisboa, 1952.
Textos e testemunhos: Joaquim Manso, Leonardo Coimbra, João Neves da Fontoura, Costas Nearchos Ouranis, Ferreira de Castro, Pedro Calmon, Aquilino Ribeiro, João do Rio, Luís de Almeida Braga, Manuel Cardia, Manuel de Sousa Pinto, Guedes de Amorim, Augusto Frederico Schmidt, Josef Calmer, Carlos Sombrio, Ramos de Almeida, Ribeiro Couto, Vasco da Gama Fernandes, Carlos Malheiro Dias, Alberto de Monsaraz, Austregesilo de Attayde, António Iraizez, Mayer Garção, Carlos Maul, Joaquim de Carvalho, Norberto Jorge, Ramón Pérez de Ayala, João Luso, Artur Portela e Aubrey Bell

Wednesday, March 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de A LÃ E A NEVE (1947)

Os primeiros teares criaram-se, em já difusos e incontáveis dias, para a lã que produziam os rebanhos dos Hermínios. O homem trabalhava, então, no seu tugúrio, erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam também e vinham rondar, famintos, a porta fechada do homem. A solidão enchia-se dos seus uivos e a neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque só a pé ou a cavalo a podiam vencer, parecia incomensurável, muito maior do que era, e de todos os seus recantos, de todos os seus picos e refegos brotavam superstições e lendas -- histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas.

Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 15.ªedição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990.

Tuesday, March 17, 2009

outras palavras - Roberto Nobre, O FUNDO (1946)

Subitamente, foi o país surpreendido com a publicação dum projecto de decreto-lei destinado a transformar radicalmente as condições em que as actividades do Cinema se exercem entre nós, tanto na produção, como na importação e exibição. Dado o papel relevante que o Cinema de há muito tem na Arte e Cultura contemporâneas, deve depreender-se a importância duma tal medida. Lendo-o atentamente, verifica-se a gravidade do que se propõe, tanto mais que reveste outros aspectos, além dos artísticos e industriais.
Roberto Nobre, O Fundo -- Comentários ao projecto da nova Política de Cinema em Portugal, Lisboa, edição do Autor, 1946, p. 7.

Viajar com Ferreira de Castro (1)

Ferreira de Castro -- O triunfo de uma vocação
Tivesse ou não emigrado para o Brasil, ainda criança e sozinho, Ferreira de Castro seria sempre escritor. Foi essa a sua convicção e é também a nossa. Um escritor diferente, por certo, sem as marcas fortíssimas da infância tornada rapidamente maturidade pela vivência imposta pelo seringal amazónico, pelos homens que aí viviam e por uma Belém do Pará em crise, mas ainda com os restos do fausto trazido pela exploração da borracha no início do século XX. A verdade é que quando o pequeno Zeca passava à porta do jornal local ou folheava O Comércio do Porto, sentia o secreto apelo da escrita como algo a que ele já estaria condenado.
Ricardo António Alves, Viajar com Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim / Ministério da Cultura, [2004], p. 1.

Friday, March 13, 2009

Ferreira e Castro e João Pedro de Andrade (1)

Publicado em João Pedro de Andrade -- Centenário do Nascimento, Actas & Colóquios da Hemeroteca, n.º 2, Lisboa, Câmara Municipal, 2004 (1)
1. É com alegria que o Museu Fereira de Castro se associa às comemorações do 1º Centenário do Nascimento de João Pedro de Andrade. Iniciativa que tem toda a razão de ser, uma vez que entre Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade se estabeleceu um longo convívio intelectual, iniciado logo no princípos dos anos 20, quando o futuro crítico e dramaturgo, então um jovem poeta, bate à porta da revista A Hora -- dirigida e quase toda ela elaborada por Castro --, pedindo a publicação de versos seus, o que veio a suceder em duas ocasiões. (2)
(1) Conferência realizada a 26 de Outubro de 2002, no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, tendo sido oradores Miguel Real e Ricardo António Alves.
(2) Ver A Hora, nº 2, Lisboa, 19 de Março de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «À ventura»; A Hora, n.º 6, 23 de Abril de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «Crepusculo». A publicação, com o subtítulo Revista-panfleto de Arte, Actualidades e Questões Sociais, saía aos domingos. Publicaram-se apenas 6 números, entre 12 de Março e 23 de Abril de 1922. O Museu Ferreira de Castro tem a colecção completa à consulta. Ver também o verbete e Daniel Pires «Hora (A)», Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 996, pp. 189-190.
(continua)

Wednesday, March 11, 2009

um poema de Alice Fergo

UM SIMPLES NUNCA SIMPLÓRIO

A Ferreira de Castro

Que idade me dás seringueiro doce
vergado na sede do pão que não colhes?

Sou uma criança de sacola ao ombro
e massajo a selva
com treze promessas
treze penas roxas em missão de pombo.
A esteira é de sangue.
A obra é desgosto.
Margarida fia arroubos de infância,
guarda-me uma ânsia
de amá-la ao sol-posto.

Vapor messiânico alisa-me a cama
eu já levo barba e uma mágoa em brasa
de tanta injustiça...

Se o rito do Verbo é orgânico
meu corpo de rama não é de ninguém
encarnei ferreiro no castro de um sonho,
pela alma da terra, (Amen.)

In Homenagem a Ferreira de Castro pelos Escritores da Tertúlia "Rio de Prata", Lisboa, Universitára Editora, 1998, p. 5.

Sunday, March 08, 2009

Nova edição de JUBIABÁ, de Jorge Amado

A Companhia das Letras, que está a editar a obra de Jorge Amado, sob direcção de Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz, publicou, no final do ano passado uma nova edição de Jubiabá (1935), o primeiro dos grandes romances do escritor baiano, que foi dedicado,entre outros a Ferreira de Castro. E, com efeito, Castro lá aprece referido, não apenas na dedicatória, na companhia de Graciliano Ramos e Oswald de Andrade, entre outros, mas também as referências do autor do posfácio, Antônio Dimas, e no apêndice documental, com uma formidável e histórica fotografia de 1953, da recepção que o nosso autor organizou a Amado no restaurante internacional da Portela, pois Amado estava proibido de entrar em Portugal. A essa foto voltarei. Basta dizer que com Amado e Castro estavam Maria Lamas, Alves Redol, Mário Dionísio, João José Cochofel, Roberto Nobre, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Fernando Piteira Santos e Francisco Lyon de Castro, cercados por pides, entre os quais Rosa Casaco, um dos assassinos de Humberto Delgado. Amado muitas vezes se referiu a este gesto de Ferreira de Castro. A esta foto voltarei.

Saturday, March 07, 2009

de passagem VICTOR HUGO, de Jaime Brasil (1940)

O século XIX, que nasceu ao fragor das batalhas e sobre ruínas fumegantes, não foi nem belicoso nem destruidor. Pode considerar-se mesmo o mais sereno e construtivo período da história moderna. E que nele, mais do que em qualquer outro, se afirmou o triunfo pleno da inteligência criadora. Em nenhum mais encontramos tantas invenções e descobertas, no domínio das ciências e das artes. Dir-se-ia ter atingido, então, o génio humano o ponto culminante da sua curva.
Jaime Brasil,Victor Hugo, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Muncipal, 2003

Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo, libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva e Cárcere Invisível foi já abordado nas páginas da Vária Escrita por João Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos. (1) Para além o amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...» (2) Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, sobueram estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.

(1) João Bigotte Chorão, «Francisco Costa, homem-bom de Sintra»,Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2003, pp. 67-76.

(2) Ibidem, p. 67.

(continua)

Tuesday, March 03, 2009

António Campos

Barrosânia - Como é que surgiu a ideia de realizar um filme sobre uma obra de Ferreira de Castro e porquê concretamente "Terra Fria"?
António Campos - O projecto "Terra Fria" surge na sequência do meu interesse em filmar, de uma maneira geral, as raízes da sociedade portuguesa. Principalmente a sociedade fechada de pequenos aglomerados, mas com características e froça próprias à semelhança dos meus filmes anteriores.
"Terra Fria", de certo modo, é um caminho para o meu desejo de filmar o povo português nessa perspectiva. Este projecto não nasceu agora. Nasceu há alguns anos, ainda Ferreira de Castro era vivo, só que na altura não se proporcionou fazê-lo por razões financeiras. Guardei a ideia até há dois anos.
Duma entrevista de António Campos a Judite Aguiar, Barrosânia, n.º 6, Lisboa, Outubro / Dezembro de 1990, p. 46

Monday, March 02, 2009

errância - Andorra (1929 / 1937-38)

Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, ignorada? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.
Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, vol. I, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955, p. 17.