Tuesday, June 02, 2009

O jovem Ferreira de Castro - CRIMINOSO POR AMBIÇÃO (1916)

Caros leitores
Amaveis leitoras
Por um preço excessivamente módico, impressão nítida e papel regular, temos a subida honra de apresentar-vos em fasciculos de 20 paginas o sensacional romance criminoso por ambição, trabalho do escriptor Ferreira de Castro.
Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição, [Belém do Pará] Empreza Editora, 1916.

Sunday, May 31, 2009

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro (1)

Como havíamos prometido na «Apresentação» das 100 Cartas a Ferreira de Castro, voltamos a revelar mais inéditos pertencentes ao espólio do autor de A Selva.
Persistimos na correspondência. A epistolografia, género literário ela própria, é também uma fonte importante para a biografia de um autor e melhor conhecimento da mentalidade de uma época. Tem, assim, o grande mérito de aliar à fruição estética de um texto (muitas vezes) literário o acumular de informações veiculadas por um documento.

Cartas Inéditas a Ferreira de Castro [separata], lidas e anotadas por Ricardo António Alves, Vária Escrita, n.º 1, Sintra, Câmara Municipal, 1994, p. 113.
(continua)

Saturday, May 30, 2009

outras palavras - Jaime Brasil - OS NOVOS ESCRITORES E O MOVIMENTO CHAMADO «NEO-REALISMO» (1945)

Estes anos cruciais da guerra têm sido, paradoxalmente, favoráveis ao desenvolvimento das letras em Portugal. Dizemos paradoxalmente, porque nem o clima interno é propício à floração do talento literário, nem o ambiente exterior é de molde a permitir aos espíritos a calma indispensável à maturação das obras de arte. Deve ser muito forte o estímulo dos jovens escritores portugueses, para os levar a vencer todas as oposições e limitações e a realizar-se, se não plenamente, pelo menos com grande pujança.

Jaime Brasil, Os Novos Escritores e o Movimento Chamado «Neo-Realismo», Porto, 1945, p. 3.

Friday, May 29, 2009

ficções - Cristina Leimart

Autor que se preze escreve sobre a luz. Imprime uns impulsos luminosos sempre que lhe puxa a mão para a melancolia e o agita a inspiração. Agualusa, por exemplo, n'O Vendedor de Passados, põe uma fotógrafa a alinhar as luzes de vários pontos do mundo. Tê-las-á ele visto com os próprios olhos? Talvez, consta que é viajado. Ferreira de Castro tem uma passagem soberba sobre a luz matinal que lavava a lã e dissolvia a neve da Estrela a meio do século XX. Virginia Woolf, a pretexto do híbrido Orlando, afirma que o verde na Natureza é uma coisa, e na literatura, outra, o que não é mentira nenhuma e também uma forma de dissertar sobre a luminosidade. E Machado de Assis, no D. Casmurro? O que ele se enleia em parágrafos luminosos! Onde? Pois bem, a páginas tantas e outras, aqui e ali -- não perde oportunidade. Para não falar de quando Eça se aventurou por uma China que jamais viu e pelo meio pôs um mandarim luso falando de lâmpadas derramando "claridades luarentas e sóis luzindo como opalas desmaiadas".
Cristina Leimart, «Sobre a luz», Histórias de Poucas Palavras, Lisboa, Apenas Livros, 2009, p. 13.

Thursday, May 28, 2009

castrianas #16 - Carlos Porto sobre SIM, UMA DÚVIDA BASTA

É de outra peça histórica que fala a peça de Ferreira de Castro, o conhecido romancista de «A Selva», cuja publicação constitui sem dúvida uma considerável revelação, podemos mesmo dizer um acontecimento na história da dramaturgia portuguesa recente.
Carlos Porto, «À procura de histórias», JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 14 de Setembro de 1994, p 20.

Tuesday, May 26, 2009

100 Cartas a Ferreira de Castro (1)

A correspondência passiva também pode dar a medida de um homem.

100 Cartas a Ferreira de Castro, selecção, leitura, apresentação e notas de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 5.

(continua)

Sunday, May 24, 2009

111


Ferreira de Castro nasceu há 111 anos.

Saturday, May 23, 2009

Da ABC

Mais presentes da T, aqui e aqui, velho material da revista ABC, dos anos 20, com destque para este texto sobre o Stuart.

Wednesday, May 20, 2009

Ferreira de Castro agitador no Brasil (2)

Nascido em Ossela, Oliveira de Azeméis, em 1898, Ferreira de Castro emigrou para o Brasil aos 12 anos, embarcando no vapor «Jerôme», rumo a Belém do Pará.

mercado de Ver-o-Peso, Belém do Pará

foto daqui
(continua)

Sunday, May 17, 2009

O Horóscopo

A T., no Dias que Voam, digitaliza um conto de Ferreira de Castro no Magazine Bertrand, ilustrado por Tagarro, «O Horóscopo».

Friday, May 01, 2009

Chegar a Jaime Brasil através de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Das Artes, das Letras, suplemento de O Primeiro de Janeiro, Porto, 19 de Novembro de 2007.

Jaime Brasil pertence àquela constelação de autores que, proeminentes na época em que viveram, a sua memória se desvanece paulatinamente com o passar dos anos. Hoje, Brasil é um nome de alfarrabista, não obstante recuperações quase extemporâneas, como sucedeu recentemente com a reedição do J'Accuse!..., de Zola, pela Guimarães Editores -- no fundo um estudo desenvolvido pelo nosso autor sobre o Caso Dreyfus, acompanhado do panfleto do criador de Germinal, com esclarecidas anotações do punho do seu tradutor português.
(continua)

Tuesday, April 28, 2009

de passagem - Jaime Brasil, RODIN (1944)


OS ANOS OBSCUROS


«A génese do génio»


No capítulo do seu recente livro «Du crétin au génie» (1), consagrado à «Génese do génio», escreveu o Dr. Serge Voronov: As células germinais não morrem nunca, mas transmitem-se duma geração à outra. Essas células germinais, masculina e feminina, unem-se no acto da fecundação para formar um germe, do qual, por crescimento gradual durante nove meses, a criança adquire o desenvolvimento necessário à sua vida. Casa uma dessas células é composta duma substância nutritiva, destinada ao germe -- o protoplasma -- e de um núcleo que é a parte essencial, única que detém toda a hereditariedade do pai e da mãe.

(1) Ed. de La Maison de France -- New York.

Jaime Brasil, Rodin, Porto, Edições Lopes da Silva, 1945, p. 9.

Saturday, April 18, 2009

Preconceito e orgulho em A Tempestade de Ferreira de Castro (1)

Publicado em Nova Sintese, n.º 2/3, Vila Franca de Xira, Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo e Campo das Letras, 2007
Publicado em 1940, pela Guimarães & C.ª, A Tempestade foi desde logo encarado por Ferreira de Castro como um romance de recurso, tal como sucedeu com os livros de viagens, em face dos constrangimentos censórios de que o seu trabalho foi vítima na segunda metade da década de 1930.
(continua)

Tuesday, April 14, 2009

Contra as Touradas

Contra as Touradas, edição de Luís Garcia e Silva, Cadernos d'A Batalha, Lisboa, 2002.
Artigos do Suplemento Semanal Ilustrado de A Batalha, por Ferreira de Castro [A morte do touro»], Mário Domingues, Carvalhão Duarte, Adelaide Cabete, Voz que Clama no Deserto (Jaime Brasil), Serra Frazão, Abilos, Cristiano Lima, Grupos Os Rebeldes e Labareda, e da Redacção, publicado entre 1924 e 1926.

Monday, April 13, 2009

Recensão a ECOS DA SEMANA - A ARTE, A VIDA E A SOCIEDADE (2004)

Publicado em Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007

Ferreira de Castro, Ecos da Semana - A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Gacia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários / Cadernos d'A Batalha, 2004, 95 pp.

A recolha e edição de uma parte da colaboração de Ferreira de Castro no Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha é um dos grandes acontecimentos castrianos dos últimos anos. Acontecimento de importância inversamente proporcional à discrição com que nos veio parar às mãos, por iniciativa do seu responsável, Luís Garcia e Silva, e, certamente, ao quase silêncio que sobre ele se fará.

(continua)

Sunday, April 12, 2009

de passagem - Jaime Brasil, ZOLA - O ESCRITOR E A SUA ÉPOCA (1943)

Prefácio da 1.ª edição
[Nota: o título da 1.ª edição, publicado em 1943 pela Livraria Latina, do Porto, era Vida e Obras de Zola, assinada por A. Luquet. Artur Jaime Brasil Luquet Neto era o seu nome completo. Jaime Brasil, saído há pouco da prisão, estava vedado aos prelos.]
Ao terminar o seu livro Zola, em Outubro de 1931, Henrique Barbusse, depois de delinear os futuros rumos da literatura, acentuando-lhe o carácter social, escreveu: «Não basta proclamar que o amamos (a Zola) e que o deploramos. Não basta que a peregrinação que se realiza todos os anos à memória do Mestre de Médan se reduza a levar flores mortuárias e a recordar a meia-voz a importância que se revestiram, no passado, as suas iniciativas literárias e a sua atitude cívica. É preciso pôr essa grande obra não por detrás de nós, mas na nossa frente e utilizá-la no sentido da iniciação colectiva e do progresso dramático que mudará a forma do mundo -- voltá-la, não para o século XIX, mas para o século XX e os seguintes, ao eterno encontro dos homens jovens». Fez-se porventura isso, no período decorrido após a publicação das palavras de Barbusse? A jovem literatura, até a que pretende ser social, finge ignorar Zola, quando não desdenha dele.
Jaime Brasil, Zola -- O Escritor e a Sua Época, 2.ª edição, Lisboa, Portugália Editora, 1966

Thursday, April 09, 2009

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

Publicado nas Actas do Congresso Internacional A Selva 75 Anos, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Quando penso no livro que nos reúne nestes dias, aqui em Oliveira de Azeméis, ocorre-me um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo. A Selva, de Ferreira de Castro, é um livro belíssimo sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.
(continua)

Tuesday, April 07, 2009

de passagem - Assis Esperança, do prólogo de GENTE DE BEM (1938)

Esta crónica de negócios não é o panorama dum homem: é o seu clima, o seu meio, alfobre onde se criam e vivem aqueles que se acomodam, manejam e exploram todas as situações. Dar a Ataíde e Melo uma expressão simbólica, foi meu aturado empenho. Daí os seus frequentes raciocínios e solilóquios. Não quis contudo fazer dele eixo de acção romanesca, satélites as outras figuras, a gravitarem-lhe na órbita: fugia ao meu ofício de narrador. O resto é também crónica, mais ou menos vulgar, de certas famílias do nosso século. A tragédia ou a comédia -- literariamente estas expressões equivalem-se -- é a de sempre. Variaram, sim, as aspirações de cada qual. As gerações carreiam continuadamente os mas variados materiais. E se não desprezam os que havia e serviram outras épocas, esforçadamente os caldeiam segundo fórmulas actualizadas ou recentes experiências de alquimia social.
Assis Esperança, Gente de Bem, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1938.

Monday, April 06, 2009

de passagem - Roberto Nobre, das «Palavras prévias» a SINGULARIDADES DO CINEMA PORTUGUÊS [1964]

O tempo passa, corre, voa. Eu sei, é um lugar-comum dizê-lo. Mas todas as mais evidentes verdades se estratificam sempre em lugares-comuns. Já voaram trinta anos desde que iniciei esta improfícua actividade de análise e comentário de coisas de cinema. Marco a passagem dessa efeméride pessoal com este livro.

Roberto Nobre, Singularidades do Cinema Português, Lisboa, Portugália Editora [964] p. 13.

Thursday, April 02, 2009

Ferreira de Castro e a II República Espanhola (1)

Incluído em Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau (3.º Ciclo), Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007
Esta intervenção deveria intitular-se «Ferreira de Castro no dealbar da II República espanhola», uma vez que o que de substancial escreveu sobre a Espanha republicana, como romancista e como jornalista, se circunscreve aos três primeiros anos do novo regime. Sobre o período da Guerra Civil, por exemplo, para além de referências esparsas, de substancial só conheço uma brevíssima carta dirigida a Roberto Nobre, em 17 de Fevereiro de 1936, um dia depois da vitória da Frente Popular, em que o autor de Emigrantes diz apenas isto: «Estou radiante com as eleições espanholas.» (1) -- além do significativo epílogo de O Intervalo, de que se falará no final.
(1) Ferreira de CASTRO e Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), edição de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 55.
(continua)

Wednesday, April 01, 2009

correspondências - Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1922)

gostei mto, mto, da capa. É um trabalho com garra: -- mesmo sem alusão às garras do tigre...Carta de Lisboa, em 19 de Setembro de 1922
Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 17.

Sunday, March 29, 2009

de passagem - Jaime Brasil, DIDEROT E A SUA ÉPOCA (1940)

O amaneirado o precioso, o ridículo século XVIII, o século das perucas empoadas, das casacas de seda, das camisas de bofes, dos vestidos de anquinhas, dos sinais postiços no rosto -- foi um dos períodos mais fecundos da História. É que, àparte as suas frívolas exterioridades, foi o século dos filósofos, dos realizadores da maior Revolução de que há memória, não já na ordem política -- a coisa mais desordenada e transitória que imaginar se pode -- mas no domínio das ideias e do pensamento criador.
Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Jaime Brasil, anarquista (1)

Publicado em Afinidades, n.º 2, II Série, Porto, Revista da Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-dez. 2005
porque a liberdade
é a lei mais importante da criação
Ana Hatherly
1. As ideias libertárias que durante o século XIX português participaram da amálgama antimonárquica, com socialistas e republicanos de vários matizes, terão atingido a sua plena autonomização e maioridade durante a I República, quando se tornou evidente que os vícios do demoliberalismo burguês haviam transitado de regime. Os trabalhadores conheciam uma organização poderosa na União Operária Nacional (depois Confederação Geral do Trabalho), anarco-sindicalista, preponderante sobre outros movimentos e partidos operários, até ao fracasso da Revolta da Marinha Grande, em 1934. O seu diário, A Batalha, era o jornal mais lido, depois de O Século e do Diário de Notícias (1). O próprio movimento comunista português, ao contrário dos congéneres de outros países, frutos de dissidência social-democrata, tiveram extracção anarquista, com Manuel ribeiro, na Federação Maximalista Portuguesa (1919) e José Carlos Rates, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português, em 1921 (2).
(1) Jacinto BAPTISTA, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a História do Diário Sindicalista A Batalha / 1919-1927, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1927, p. 99.
(2) João G. P. QUINTELA, Para a História do Movimento Comunista em Portugal: 1. A Construção do partido (1.º Período 1919-1929), porto, Afrontamento, 1976.
(continua)

Thursday, March 26, 2009

A Batalha, 90 anos

O último número de A Batalha (o 233 da VI série), publicado pelo Centro de Estudos Libertários (CEL), assinala os 90 anos do início da publicação do então diário da União Operária Nacional (depois, Confederação Geral do Trabalho - CGT), saído em 23 de Fevereiro de 1919, com a republicação de alguns artigos de colaboradores históricos do jornal: Alexandre Vieira, «Preparação de militantes operários» (1924); Manuel Joaquim de Sousa, «Igualdade e liberdade» (1923); Ferreira de Castro, «Os ferreiros» (1925); Julião Quintinha, «Os revolucionários em arte que são conservadores na vida social» (1925); Cristiano Lima, «A derrota dos livre-pensadores» (1925); Nogueira de Brito, «Felix Mendelssohn» (1924), e uma ilustração de Roberto Nobre de A Epopeia do Trabalho, que acompanhou o texto de Ferreira de Castro já referido.

Saturday, March 21, 2009

Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (1)

Publicado em Castriana, n.º 2, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2004
A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal -- Generalidades -- Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.
(continua)

Thursday, March 19, 2009

Homenagem a João de Barros

Homenagem a João de Barros, Lisboa, 1952.
Textos e testemunhos: Joaquim Manso, Leonardo Coimbra, João Neves da Fontoura, Costas Nearchos Ouranis, Ferreira de Castro, Pedro Calmon, Aquilino Ribeiro, João do Rio, Luís de Almeida Braga, Manuel Cardia, Manuel de Sousa Pinto, Guedes de Amorim, Augusto Frederico Schmidt, Josef Calmer, Carlos Sombrio, Ramos de Almeida, Ribeiro Couto, Vasco da Gama Fernandes, Carlos Malheiro Dias, Alberto de Monsaraz, Austregesilo de Attayde, António Iraizez, Mayer Garção, Carlos Maul, Joaquim de Carvalho, Norberto Jorge, Ramón Pérez de Ayala, João Luso, Artur Portela e Aubrey Bell

Wednesday, March 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de A LÃ E A NEVE (1947)

Os primeiros teares criaram-se, em já difusos e incontáveis dias, para a lã que produziam os rebanhos dos Hermínios. O homem trabalhava, então, no seu tugúrio, erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam também e vinham rondar, famintos, a porta fechada do homem. A solidão enchia-se dos seus uivos e a neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque só a pé ou a cavalo a podiam vencer, parecia incomensurável, muito maior do que era, e de todos os seus recantos, de todos os seus picos e refegos brotavam superstições e lendas -- histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas.

Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 15.ªedição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990.

Tuesday, March 17, 2009

outras palavras - Roberto Nobre, O FUNDO (1946)

Subitamente, foi o país surpreendido com a publicação dum projecto de decreto-lei destinado a transformar radicalmente as condições em que as actividades do Cinema se exercem entre nós, tanto na produção, como na importação e exibição. Dado o papel relevante que o Cinema de há muito tem na Arte e Cultura contemporâneas, deve depreender-se a importância duma tal medida. Lendo-o atentamente, verifica-se a gravidade do que se propõe, tanto mais que reveste outros aspectos, além dos artísticos e industriais.
Roberto Nobre, O Fundo -- Comentários ao projecto da nova Política de Cinema em Portugal, Lisboa, edição do Autor, 1946, p. 7.

Viajar com Ferreira de Castro (1)

Ferreira de Castro -- O triunfo de uma vocação
Tivesse ou não emigrado para o Brasil, ainda criança e sozinho, Ferreira de Castro seria sempre escritor. Foi essa a sua convicção e é também a nossa. Um escritor diferente, por certo, sem as marcas fortíssimas da infância tornada rapidamente maturidade pela vivência imposta pelo seringal amazónico, pelos homens que aí viviam e por uma Belém do Pará em crise, mas ainda com os restos do fausto trazido pela exploração da borracha no início do século XX. A verdade é que quando o pequeno Zeca passava à porta do jornal local ou folheava O Comércio do Porto, sentia o secreto apelo da escrita como algo a que ele já estaria condenado.
Ricardo António Alves, Viajar com Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim / Ministério da Cultura, [2004], p. 1.

Friday, March 13, 2009

Ferreira e Castro e João Pedro de Andrade (1)

Publicado em João Pedro de Andrade -- Centenário do Nascimento, Actas & Colóquios da Hemeroteca, n.º 2, Lisboa, Câmara Municipal, 2004 (1)
1. É com alegria que o Museu Fereira de Castro se associa às comemorações do 1º Centenário do Nascimento de João Pedro de Andrade. Iniciativa que tem toda a razão de ser, uma vez que entre Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade se estabeleceu um longo convívio intelectual, iniciado logo no princípos dos anos 20, quando o futuro crítico e dramaturgo, então um jovem poeta, bate à porta da revista A Hora -- dirigida e quase toda ela elaborada por Castro --, pedindo a publicação de versos seus, o que veio a suceder em duas ocasiões. (2)
(1) Conferência realizada a 26 de Outubro de 2002, no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, tendo sido oradores Miguel Real e Ricardo António Alves.
(2) Ver A Hora, nº 2, Lisboa, 19 de Março de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «À ventura»; A Hora, n.º 6, 23 de Abril de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «Crepusculo». A publicação, com o subtítulo Revista-panfleto de Arte, Actualidades e Questões Sociais, saía aos domingos. Publicaram-se apenas 6 números, entre 12 de Março e 23 de Abril de 1922. O Museu Ferreira de Castro tem a colecção completa à consulta. Ver também o verbete e Daniel Pires «Hora (A)», Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 996, pp. 189-190.
(continua)

Wednesday, March 11, 2009

um poema de Alice Fergo

UM SIMPLES NUNCA SIMPLÓRIO

A Ferreira de Castro

Que idade me dás seringueiro doce
vergado na sede do pão que não colhes?

Sou uma criança de sacola ao ombro
e massajo a selva
com treze promessas
treze penas roxas em missão de pombo.
A esteira é de sangue.
A obra é desgosto.
Margarida fia arroubos de infância,
guarda-me uma ânsia
de amá-la ao sol-posto.

Vapor messiânico alisa-me a cama
eu já levo barba e uma mágoa em brasa
de tanta injustiça...

Se o rito do Verbo é orgânico
meu corpo de rama não é de ninguém
encarnei ferreiro no castro de um sonho,
pela alma da terra, (Amen.)

In Homenagem a Ferreira de Castro pelos Escritores da Tertúlia "Rio de Prata", Lisboa, Universitára Editora, 1998, p. 5.

Sunday, March 08, 2009

Nova edição de JUBIABÁ, de Jorge Amado

A Companhia das Letras, que está a editar a obra de Jorge Amado, sob direcção de Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz, publicou, no final do ano passado uma nova edição de Jubiabá (1935), o primeiro dos grandes romances do escritor baiano, que foi dedicado,entre outros a Ferreira de Castro. E, com efeito, Castro lá aprece referido, não apenas na dedicatória, na companhia de Graciliano Ramos e Oswald de Andrade, entre outros, mas também as referências do autor do posfácio, Antônio Dimas, e no apêndice documental, com uma formidável e histórica fotografia de 1953, da recepção que o nosso autor organizou a Amado no restaurante internacional da Portela, pois Amado estava proibido de entrar em Portugal. A essa foto voltarei. Basta dizer que com Amado e Castro estavam Maria Lamas, Alves Redol, Mário Dionísio, João José Cochofel, Roberto Nobre, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Fernando Piteira Santos e Francisco Lyon de Castro, cercados por pides, entre os quais Rosa Casaco, um dos assassinos de Humberto Delgado. Amado muitas vezes se referiu a este gesto de Ferreira de Castro. A esta foto voltarei.

Saturday, March 07, 2009

de passagem VICTOR HUGO, de Jaime Brasil (1940)

O século XIX, que nasceu ao fragor das batalhas e sobre ruínas fumegantes, não foi nem belicoso nem destruidor. Pode considerar-se mesmo o mais sereno e construtivo período da história moderna. E que nele, mais do que em qualquer outro, se afirmou o triunfo pleno da inteligência criadora. Em nenhum mais encontramos tantas invenções e descobertas, no domínio das ciências e das artes. Dir-se-ia ter atingido, então, o génio humano o ponto culminante da sua curva.
Jaime Brasil,Victor Hugo, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Muncipal, 2003

Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo, libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva e Cárcere Invisível foi já abordado nas páginas da Vária Escrita por João Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos. (1) Para além o amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...» (2) Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, sobueram estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.

(1) João Bigotte Chorão, «Francisco Costa, homem-bom de Sintra»,Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2003, pp. 67-76.

(2) Ibidem, p. 67.

(continua)

Tuesday, March 03, 2009

António Campos

Barrosânia - Como é que surgiu a ideia de realizar um filme sobre uma obra de Ferreira de Castro e porquê concretamente "Terra Fria"?
António Campos - O projecto "Terra Fria" surge na sequência do meu interesse em filmar, de uma maneira geral, as raízes da sociedade portuguesa. Principalmente a sociedade fechada de pequenos aglomerados, mas com características e froça próprias à semelhança dos meus filmes anteriores.
"Terra Fria", de certo modo, é um caminho para o meu desejo de filmar o povo português nessa perspectiva. Este projecto não nasceu agora. Nasceu há alguns anos, ainda Ferreira de Castro era vivo, só que na altura não se proporcionou fazê-lo por razões financeiras. Guardei a ideia até há dois anos.
Duma entrevista de António Campos a Judite Aguiar, Barrosânia, n.º 6, Lisboa, Outubro / Dezembro de 1990, p. 46

Monday, March 02, 2009

errância - Andorra (1929 / 1937-38)

Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, ignorada? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.
Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, vol. I, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955, p. 17.

Saturday, February 28, 2009

Roberto Nobre -- Uma vida por imagens (1)

À memória de Maria do Céu Nobre

A obra plástica e ensaística de Roberto Nobre está à espera de quem sobre ela se debruce, não obstante algumas abordagens importantes, embora parcelares e por vezes esquemáticas, que têm sido feitas nos últimos anos. O texto que se segue padece dessas insuficiências; mas tendo alguma responsabilidade na desocultação do nome e da obra de Roberto Nobre, não poderia eximir-me a aceitar o convite honroso para evocar o percurso intelectual dum filho de São Brás de Alportel, vila de gente afável e dedicada, alfobre de artistas e homens de cultura, terra singular neste Algarve que esteve sempre no coração do ensaísta de Horizontes de Cinema.

In Roberto Nobre -- 1903-2003, São Brásde Alportel, Câmara Municipal, 2003, p. 11.

(continua)

Wednesday, February 25, 2009

de passagem - SIM, UMA DÚVIDA BASTA (1936 / 1994)

CENA I

Gabinete do Governador de New Jersey. Portas ao
fundo e à esquerda. Secretária, telefones, estantes, etc.
Por detrás da secretária, um retrato de Washington.
Perto da boca de cena três ou quatro "maples" em vol-
ta duma mesita com cinzeiro e cigarros.

Ao levantar o pano, o Governador -- quarenta a qua-
renta e cinco anos -- despacha com o secretário, que
é mais novo do que ele. O Governador está sentado à
secretária e o secretário de pé, com um papel na mão.
GOVERNADOR (examinando os papéis que estão sobre a secretária, dentro duma pasta) -- Esta pretensão da Companhia dos òleos não deve ser legítima. Não assino isto.
SECRETÁRIO -- Tem um parecer favorável da repartição e está recomendada pelo doutor Murray...
Ferreira de Castro, Sim, uma Dúvida Basta, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, p. 19.

Tuesday, February 24, 2009

Um Medo Frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (1)

Artigo publicado em Sol XXI, n.º 38/39, Carcavelos, 2003
Escrever as memórias pressuporia à partida uma existência fora do comum para o comum dos mortais. Pelo que se viveu e testemunhou, pelas teias relacionais que ao longo da vida se foram forjando. Jaime Cortesão, por exemplo, transpôs para as Memórias da Grande Guerra (1919) o seu muito próprio estilo épico, num tema que só por si se prestava às mais fortes exaltações. O relato duma experiência-limite -- a de médico voluntário nas trincheiras da Flandres -- resultou num livro que não nos deixa grande margem para fruições se pegrmos nele como leitor desprevenido, tal é a carga emocional que transporta. Mas memorialística, género eminentemente literário, está subordinada às exigências da escrita. Nas Memórias de Raul Brandão (1919-33), ao contrário do que sucede com a narrativa do historiador, dão-lhes profundidade os textos preambulares de cada volume -- expressões dramáticas do peculiar sentimento trágico da vida. E Vasco Pulido valente -- para mencionar um autor nosso contemporâneo --, em Retratos & Auto-retratos (1992), é um significativo exemplo de como uma existência desinteressante para o público não impede uma redacção de memórias de primeira água, em que o estilo, opulento, mas vigiado, é a primeira estrela dessa escrita.
(continua)

Sunday, February 22, 2009

de passagem - A QUESTÃO SEXUAL (1932)

O estudo dos problemas sociais conduz frequentemente às fronteiras da questão sexual. A produção das utilidades e a sua distribuição, a remuneração individual do trabalho e o açambarcamento da riqueza colectiva, as migrações em massa e as guerras imperialistas, são fenómenos económicos directamente influenciados pelas leis que regem os sexos. Importa, portanto, conhecer o sexualismo para avaliar até onde vai a sua acção, no campo da economia.
Jaime Brasil, A Questão Sexual, 2.ª edição, Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, 1932, p. 5.

Saturday, February 21, 2009

de passagem - do «Pórtico» de TERRA FRIA (1934)

Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta.

Ferreira de Castro, Terra Fria, 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1980.

Friday, February 20, 2009

Recordar Rocha Martins (1)

Texto publicado em desdobrável da exposição bibliográfica e documental «Rocha Martins -- 50 Anos Depois (1952-2002)», realizada no Museu Ferreira de Castro, em Maio-Junho de 2002
Jornalista, historiógrafo, cronista e ficcionista, Francisco José Rocha Martins (Belém, 30.3.1879 -- Sintra, 23.5.1952) foi um dos nomes mais marcantes da imprensa nacional. Ligado aos jornais desde muito novo, devemos destacar a Ilustração Portuguesa, ABC -- revistas que fizeram história no periodismo português -- e o Arquivo Nacional, publicação que se ocupava de uma das suas grandes paixões: a História.
(continua)

Wednesday, February 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de ETERNIDADE (1933)

Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer!
Ferreira de Castro, Eternidade, 14.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1989.

correspondências - M. Rodrigues Lapa a Paulo Duarte


[...]

Nem você calcula as fezes e aborrecimentos que me tem causado a ida ao Brasil.* [...]
1. Substituição do Ferreira de Castro. O Ferreira de Castro teve de desistir, por vários motivos, mas parece-me que o fundamental é a impossibilidade de levar a mulher. Convença-se disto, meu caro: nós, os homens que dobrámos os 50, já não podemos andar sem as nossas mulheres. Ora é o coração, ora é o fígado que reclama por elas. Tornaram-se-nos indispensáveis. Pusemo-nos logo em campo para o substituir. [...] Falámos com o Aquilino Ribeiro, que não pode ou não quer; batemos à porta do Armando Cortesão, que também não aceita. Escrevi agora ao Régio, que é uma grande figura de poeta, num corpo pequeno. Aguardo a sua resposta. Numa negativa, ainda procuraremos convencer o Miguel Torga, um dos nossos grandes escritores. [...]
[Costa da Caparica, 26 de Junho de 1954]
*Congresso Internacional de Escritores, São Paulo, 9-15 de Agosto de 1954, organizado pela Sociedade Paulista de Escritores no âmbito das comemorações do IV Centenário da cidade.
Correspondência de Rodrigues Lapa -- Selecção (1929-1985), edição de Maria Alegria Marques, Ana Paula Figueira Santos, Nuno Rosmaninho, António Breda Carvalho e Rui Godinho, Coimbra, Minerva, 1997, pp. 225-226.

Sunday, February 15, 2009

PETITS MONS i VELLES CIVILITZACIONS - ANDORRA (1929)

A tradução do primeiro capítulo de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, editado em 1937-38 pela Empresa Nacional de Publicidade -- o magnífico texto sobre Andorra --, foi recentemente editado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros deste país, incluído na colecção «L'Andorra dels viatgers». Uma bela edição, repoduzindo na sobrecapa uma vinheta de Roberto Nobre extraída da edição princeps. O livro inclui ainda textos da ministra Meritxell Mateu Pi (que, diga-se a propósito, fez uma interessante alocução no Instituto Camões, quando da apresentação pública do livro), do embaixador em Andorra la Vella, Nuno Bessa Lopes, de Ivone Bastos Ferreira, do Centro de Estudos Ferreira de Castro, do historiador Joan Peruga e uma cronologia de minha autoria.

de passagem - Assis Esperança, O REBANHO (1922)

-- Pai! -- e com olhares a ressumarem medo, a voz rastejando um tom humilde, o garotelho, oito anos cobertos de farrapos, prosseguia: -- A mãe diz que é tarde!, -- e não recebendo resposta na lenga-lenga lamurienta dos que imploram misericórdia! -- Pai! pai!
Assis Esperança, O Rebanho, Lisboa, A Hora Novelesca, n.º 2, 1922, p. 6.

Wednesday, February 11, 2009

Roberto Nobre - OS PESCADORES (1925)

Ferreira de Castro e Roberto Nobre, A Epopeia do Trabalho

Lisboa, Livraria Renascença, 1926, p. 11

Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)

Saturday, February 07, 2009

clássicos da bibliografia castriana - Alexandre Cabral

O génio, bizarra personalidade, melhor, individualidade, criador do mundo dinâmico, vertiginoso, febril, que sintetiza em si a essência divina do Homem, floresce quase sempre, por triste ironia, nos pântanos da miséria. Aí se caldeia, aí se refina a sensibilidade do futuro eleito. A miséria, a fome, o infortúnio alarga-lhe as perspectivas, desenvolve-lhe ao mais elevado grau o sentimento fraterno de solidariedade humana elevando-o acima dos outros homens. Foram eles, os eleitos, que primeiro discerniram, lá longe, embora, as possibilidades de uma modificação total da sociedade humana. Com a própria dor e sobre ela, arquitectaram e arquitectam as paredes do futuro edifício social. De tal modo a fome e a miséria têm influência no espírito do eleito que o indivíduo vulgar não pode traduzir em ritmos de beleza, em traços vigorosos, dramáticos e chocantes, os dramas da vida: esses múltiplos episódios que constituem o grande, o inconcebível drama humanao. Não pode. E não pode porque jamais a sua sensibilidade se purificou no fogo lento do sofrimento.
Alexandre Cabral, Ferreira de castro -- o Seu Drama e a Sua Obra, Lisboa, Portugália Editora, 1940, p. 9.

Thursday, February 05, 2009

testemunhos #3 - João de Barros


Assim o conheci vai para mais de três lustros, ao tempo do aparecimento da extraordinária «Eternidade», já tocado dos alvores da glória mundial que a publicação de «A Selva» lhe trouxera e que o acompanha hoje a toda a parte. E assim o vejo agora, modesto como sempre, apesar de traduzido nas mais diversas línguas do globo, festejado em todos os meios cultos, lido e relido por gentes da Europa, da América e da Ásia, honra e prestígio da literatura portuguesa, cujo renome tem levado às mais longínquas nações da Terra. O glorioso autor de «A Selva» continua sendo, acima de tudo, um «homem», na mais alta e mais pura expressão da palavra. Um homem sobranceiro à sua própria obra e, por conseguinte, apto a transcender-se, a superar-se sempre, qualidade característica e essencial dos verdadeiros criadores de Beleza e dos verdadeiros idealistas, que não duvidam do progresso moral e mental dos povos e a quem os povos, por isso mesmo, concedem sempre larga e afectuosa audiência. «A Lã e a Neve» e «Curva da Estrada» assim o comprovam de novo.
João de Barros, Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Monday, February 02, 2009

Os retratos de Castro por Nobre (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2001
A Elena Muriel Ferreira de Castro,
com profunda admiração e amizade
«Vêmo-lo muito jovem e bonito, uma cabeça
quase de adolescente, com o rosto a exprimir
plena confiança em si mesmo.»
Ferreira de Castro
Ao longo de mais de meio século de vida literária, Castro foi alvo da atenção de muitos artistas que lhe fixaram o rosto no retrato, na pintura, na gravura, na escultura, na fotografia [e na caricatura]: Eduardo Malta, Stuart Carvalhais, San-Payo, Baltasar, Elena Muriel, Santana, Manual Cabanas, Luís Jardim, António Duarte, Anjos Teixeira, Artur Bual, Júlio Pomar e João Abel Manta, entre outros -- só para falarmos de autores portugueses que, na sua maioria com felicidade, fixaram a «máscara e a alma» de uns alegados «traços duma ancestralidade eslava» (1). Mas ninguém o retratou tantas vezes como Roberto Nobre. (2)
(1) Jaime BRASIL, «notas biográficas e bibliográficas», VV. AA., Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931, p. 7.
(2) Sobre o relacionamento de ambos, ver a nossa introdução a Ferreira de CASTRO / Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, pp. 7-13.
(continua)