Monday, April 13, 2009

Recensão a ECOS DA SEMANA - A ARTE, A VIDA E A SOCIEDADE (2004)

Publicado em Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007

Ferreira de Castro, Ecos da Semana - A Arte, a Vida e a Sociedade, introdução e notas de Luís Gacia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários / Cadernos d'A Batalha, 2004, 95 pp.

A recolha e edição de uma parte da colaboração de Ferreira de Castro no Suplemento Literário Ilustrado do diário A Batalha é um dos grandes acontecimentos castrianos dos últimos anos. Acontecimento de importância inversamente proporcional à discrição com que nos veio parar às mãos, por iniciativa do seu responsável, Luís Garcia e Silva, e, certamente, ao quase silêncio que sobre ele se fará.

(continua)

Sunday, April 12, 2009

de passagem - Jaime Brasil, ZOLA - O ESCRITOR E A SUA ÉPOCA (1943)

Prefácio da 1.ª edição
[Nota: o título da 1.ª edição, publicado em 1943 pela Livraria Latina, do Porto, era Vida e Obras de Zola, assinada por A. Luquet. Artur Jaime Brasil Luquet Neto era o seu nome completo. Jaime Brasil, saído há pouco da prisão, estava vedado aos prelos.]
Ao terminar o seu livro Zola, em Outubro de 1931, Henrique Barbusse, depois de delinear os futuros rumos da literatura, acentuando-lhe o carácter social, escreveu: «Não basta proclamar que o amamos (a Zola) e que o deploramos. Não basta que a peregrinação que se realiza todos os anos à memória do Mestre de Médan se reduza a levar flores mortuárias e a recordar a meia-voz a importância que se revestiram, no passado, as suas iniciativas literárias e a sua atitude cívica. É preciso pôr essa grande obra não por detrás de nós, mas na nossa frente e utilizá-la no sentido da iniciação colectiva e do progresso dramático que mudará a forma do mundo -- voltá-la, não para o século XIX, mas para o século XX e os seguintes, ao eterno encontro dos homens jovens». Fez-se porventura isso, no período decorrido após a publicação das palavras de Barbusse? A jovem literatura, até a que pretende ser social, finge ignorar Zola, quando não desdenha dele.
Jaime Brasil, Zola -- O Escritor e a Sua Época, 2.ª edição, Lisboa, Portugália Editora, 1966

Thursday, April 09, 2009

A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro (1)

Publicado nas Actas do Congresso Internacional A Selva 75 Anos, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Quando penso no livro que nos reúne nestes dias, aqui em Oliveira de Azeméis, ocorre-me um verso do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo. A Selva, de Ferreira de Castro, é um livro belíssimo sobre a fealdade, um «livro bárbaro» como lhe chamou o seu autor, escrito com as entranhas, fruto de um sofrimento excruciante.
(continua)

Tuesday, April 07, 2009

de passagem - Assis Esperança, do prólogo de GENTE DE BEM (1938)

Esta crónica de negócios não é o panorama dum homem: é o seu clima, o seu meio, alfobre onde se criam e vivem aqueles que se acomodam, manejam e exploram todas as situações. Dar a Ataíde e Melo uma expressão simbólica, foi meu aturado empenho. Daí os seus frequentes raciocínios e solilóquios. Não quis contudo fazer dele eixo de acção romanesca, satélites as outras figuras, a gravitarem-lhe na órbita: fugia ao meu ofício de narrador. O resto é também crónica, mais ou menos vulgar, de certas famílias do nosso século. A tragédia ou a comédia -- literariamente estas expressões equivalem-se -- é a de sempre. Variaram, sim, as aspirações de cada qual. As gerações carreiam continuadamente os mas variados materiais. E se não desprezam os que havia e serviram outras épocas, esforçadamente os caldeiam segundo fórmulas actualizadas ou recentes experiências de alquimia social.
Assis Esperança, Gente de Bem, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1938.

Monday, April 06, 2009

de passagem - Roberto Nobre, das «Palavras prévias» a SINGULARIDADES DO CINEMA PORTUGUÊS [1964]

O tempo passa, corre, voa. Eu sei, é um lugar-comum dizê-lo. Mas todas as mais evidentes verdades se estratificam sempre em lugares-comuns. Já voaram trinta anos desde que iniciei esta improfícua actividade de análise e comentário de coisas de cinema. Marco a passagem dessa efeméride pessoal com este livro.

Roberto Nobre, Singularidades do Cinema Português, Lisboa, Portugália Editora [964] p. 13.

Thursday, April 02, 2009

Ferreira de Castro e a II República Espanhola (1)

Incluído em Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau (3.º Ciclo), Lisboa, Centro de Estudos Libertários, 2007
Esta intervenção deveria intitular-se «Ferreira de Castro no dealbar da II República espanhola», uma vez que o que de substancial escreveu sobre a Espanha republicana, como romancista e como jornalista, se circunscreve aos três primeiros anos do novo regime. Sobre o período da Guerra Civil, por exemplo, para além de referências esparsas, de substancial só conheço uma brevíssima carta dirigida a Roberto Nobre, em 17 de Fevereiro de 1936, um dia depois da vitória da Frente Popular, em que o autor de Emigrantes diz apenas isto: «Estou radiante com as eleições espanholas.» (1) -- além do significativo epílogo de O Intervalo, de que se falará no final.
(1) Ferreira de CASTRO e Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), edição de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 55.
(continua)

Wednesday, April 01, 2009

correspondências - Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1922)

gostei mto, mto, da capa. É um trabalho com garra: -- mesmo sem alusão às garras do tigre...Carta de Lisboa, em 19 de Setembro de 1922
Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 17.

Sunday, March 29, 2009

de passagem - Jaime Brasil, DIDEROT E A SUA ÉPOCA (1940)

O amaneirado o precioso, o ridículo século XVIII, o século das perucas empoadas, das casacas de seda, das camisas de bofes, dos vestidos de anquinhas, dos sinais postiços no rosto -- foi um dos períodos mais fecundos da História. É que, àparte as suas frívolas exterioridades, foi o século dos filósofos, dos realizadores da maior Revolução de que há memória, não já na ordem política -- a coisa mais desordenada e transitória que imaginar se pode -- mas no domínio das ideias e do pensamento criador.
Jaime Brasil, Diderot e a Sua Época, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Jaime Brasil, anarquista (1)

Publicado em Afinidades, n.º 2, II Série, Porto, Revista da Casa-Museu Abel Salazar, Jul.-dez. 2005
porque a liberdade
é a lei mais importante da criação
Ana Hatherly
1. As ideias libertárias que durante o século XIX português participaram da amálgama antimonárquica, com socialistas e republicanos de vários matizes, terão atingido a sua plena autonomização e maioridade durante a I República, quando se tornou evidente que os vícios do demoliberalismo burguês haviam transitado de regime. Os trabalhadores conheciam uma organização poderosa na União Operária Nacional (depois Confederação Geral do Trabalho), anarco-sindicalista, preponderante sobre outros movimentos e partidos operários, até ao fracasso da Revolta da Marinha Grande, em 1934. O seu diário, A Batalha, era o jornal mais lido, depois de O Século e do Diário de Notícias (1). O próprio movimento comunista português, ao contrário dos congéneres de outros países, frutos de dissidência social-democrata, tiveram extracção anarquista, com Manuel ribeiro, na Federação Maximalista Portuguesa (1919) e José Carlos Rates, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português, em 1921 (2).
(1) Jacinto BAPTISTA, Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora... Para a História do Diário Sindicalista A Batalha / 1919-1927, Venda Nova, Livraria Bertrand, 1927, p. 99.
(2) João G. P. QUINTELA, Para a História do Movimento Comunista em Portugal: 1. A Construção do partido (1.º Período 1919-1929), porto, Afrontamento, 1976.
(continua)

Thursday, March 26, 2009

A Batalha, 90 anos

O último número de A Batalha (o 233 da VI série), publicado pelo Centro de Estudos Libertários (CEL), assinala os 90 anos do início da publicação do então diário da União Operária Nacional (depois, Confederação Geral do Trabalho - CGT), saído em 23 de Fevereiro de 1919, com a republicação de alguns artigos de colaboradores históricos do jornal: Alexandre Vieira, «Preparação de militantes operários» (1924); Manuel Joaquim de Sousa, «Igualdade e liberdade» (1923); Ferreira de Castro, «Os ferreiros» (1925); Julião Quintinha, «Os revolucionários em arte que são conservadores na vida social» (1925); Cristiano Lima, «A derrota dos livre-pensadores» (1925); Nogueira de Brito, «Felix Mendelssohn» (1924), e uma ilustração de Roberto Nobre de A Epopeia do Trabalho, que acompanhou o texto de Ferreira de Castro já referido.

Saturday, March 21, 2009

Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal (1)

Publicado em Castriana, n.º 2, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2004
A edição, em 1924, do primeiro tomo do Guia de Portugal -- Generalidades -- Lisboa e Arredores, dirigido e organizado por Raul Proença (1884-1941), é um dos mais nítidos exemplos do intelectual em acção, de acordo com o ideário seareiro de que o publicista foi o mais acérrimo propagandista.
(continua)

Thursday, March 19, 2009

Homenagem a João de Barros

Homenagem a João de Barros, Lisboa, 1952.
Textos e testemunhos: Joaquim Manso, Leonardo Coimbra, João Neves da Fontoura, Costas Nearchos Ouranis, Ferreira de Castro, Pedro Calmon, Aquilino Ribeiro, João do Rio, Luís de Almeida Braga, Manuel Cardia, Manuel de Sousa Pinto, Guedes de Amorim, Augusto Frederico Schmidt, Josef Calmer, Carlos Sombrio, Ramos de Almeida, Ribeiro Couto, Vasco da Gama Fernandes, Carlos Malheiro Dias, Alberto de Monsaraz, Austregesilo de Attayde, António Iraizez, Mayer Garção, Carlos Maul, Joaquim de Carvalho, Norberto Jorge, Ramón Pérez de Ayala, João Luso, Artur Portela e Aubrey Bell

Wednesday, March 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de A LÃ E A NEVE (1947)

Os primeiros teares criaram-se, em já difusos e incontáveis dias, para a lã que produziam os rebanhos dos Hermínios. O homem trabalhava, então, no seu tugúrio, erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam também e vinham rondar, famintos, a porta fechada do homem. A solidão enchia-se dos seus uivos e a neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque só a pé ou a cavalo a podiam vencer, parecia incomensurável, muito maior do que era, e de todos os seus recantos, de todos os seus picos e refegos brotavam superstições e lendas -- histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas.

Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 15.ªedição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990.

Tuesday, March 17, 2009

outras palavras - Roberto Nobre, O FUNDO (1946)

Subitamente, foi o país surpreendido com a publicação dum projecto de decreto-lei destinado a transformar radicalmente as condições em que as actividades do Cinema se exercem entre nós, tanto na produção, como na importação e exibição. Dado o papel relevante que o Cinema de há muito tem na Arte e Cultura contemporâneas, deve depreender-se a importância duma tal medida. Lendo-o atentamente, verifica-se a gravidade do que se propõe, tanto mais que reveste outros aspectos, além dos artísticos e industriais.
Roberto Nobre, O Fundo -- Comentários ao projecto da nova Política de Cinema em Portugal, Lisboa, edição do Autor, 1946, p. 7.

Viajar com Ferreira de Castro (1)

Ferreira de Castro -- O triunfo de uma vocação
Tivesse ou não emigrado para o Brasil, ainda criança e sozinho, Ferreira de Castro seria sempre escritor. Foi essa a sua convicção e é também a nossa. Um escritor diferente, por certo, sem as marcas fortíssimas da infância tornada rapidamente maturidade pela vivência imposta pelo seringal amazónico, pelos homens que aí viviam e por uma Belém do Pará em crise, mas ainda com os restos do fausto trazido pela exploração da borracha no início do século XX. A verdade é que quando o pequeno Zeca passava à porta do jornal local ou folheava O Comércio do Porto, sentia o secreto apelo da escrita como algo a que ele já estaria condenado.
Ricardo António Alves, Viajar com Ferreira de Castro, Porto, Edições Caixotim / Ministério da Cultura, [2004], p. 1.

Friday, March 13, 2009

Ferreira e Castro e João Pedro de Andrade (1)

Publicado em João Pedro de Andrade -- Centenário do Nascimento, Actas & Colóquios da Hemeroteca, n.º 2, Lisboa, Câmara Municipal, 2004 (1)
1. É com alegria que o Museu Fereira de Castro se associa às comemorações do 1º Centenário do Nascimento de João Pedro de Andrade. Iniciativa que tem toda a razão de ser, uma vez que entre Ferreira de Castro e João Pedro de Andrade se estabeleceu um longo convívio intelectual, iniciado logo no princípos dos anos 20, quando o futuro crítico e dramaturgo, então um jovem poeta, bate à porta da revista A Hora -- dirigida e quase toda ela elaborada por Castro --, pedindo a publicação de versos seus, o que veio a suceder em duas ocasiões. (2)
(1) Conferência realizada a 26 de Outubro de 2002, no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, tendo sido oradores Miguel Real e Ricardo António Alves.
(2) Ver A Hora, nº 2, Lisboa, 19 de Março de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «À ventura»; A Hora, n.º 6, 23 de Abril de 1922 -- João Pedro de ANDRADE, «Crepusculo». A publicação, com o subtítulo Revista-panfleto de Arte, Actualidades e Questões Sociais, saía aos domingos. Publicaram-se apenas 6 números, entre 12 de Março e 23 de Abril de 1922. O Museu Ferreira de Castro tem a colecção completa à consulta. Ver também o verbete e Daniel Pires «Hora (A)», Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 996, pp. 189-190.
(continua)

Wednesday, March 11, 2009

um poema de Alice Fergo

UM SIMPLES NUNCA SIMPLÓRIO

A Ferreira de Castro

Que idade me dás seringueiro doce
vergado na sede do pão que não colhes?

Sou uma criança de sacola ao ombro
e massajo a selva
com treze promessas
treze penas roxas em missão de pombo.
A esteira é de sangue.
A obra é desgosto.
Margarida fia arroubos de infância,
guarda-me uma ânsia
de amá-la ao sol-posto.

Vapor messiânico alisa-me a cama
eu já levo barba e uma mágoa em brasa
de tanta injustiça...

Se o rito do Verbo é orgânico
meu corpo de rama não é de ninguém
encarnei ferreiro no castro de um sonho,
pela alma da terra, (Amen.)

In Homenagem a Ferreira de Castro pelos Escritores da Tertúlia "Rio de Prata", Lisboa, Universitára Editora, 1998, p. 5.

Sunday, March 08, 2009

Nova edição de JUBIABÁ, de Jorge Amado

A Companhia das Letras, que está a editar a obra de Jorge Amado, sob direcção de Alberto da Costa e Silva e Lilia Moritz Schwarcz, publicou, no final do ano passado uma nova edição de Jubiabá (1935), o primeiro dos grandes romances do escritor baiano, que foi dedicado,entre outros a Ferreira de Castro. E, com efeito, Castro lá aprece referido, não apenas na dedicatória, na companhia de Graciliano Ramos e Oswald de Andrade, entre outros, mas também as referências do autor do posfácio, Antônio Dimas, e no apêndice documental, com uma formidável e histórica fotografia de 1953, da recepção que o nosso autor organizou a Amado no restaurante internacional da Portela, pois Amado estava proibido de entrar em Portugal. A essa foto voltarei. Basta dizer que com Amado e Castro estavam Maria Lamas, Alves Redol, Mário Dionísio, João José Cochofel, Roberto Nobre, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Fernando Piteira Santos e Francisco Lyon de Castro, cercados por pides, entre os quais Rosa Casaco, um dos assassinos de Humberto Delgado. Amado muitas vezes se referiu a este gesto de Ferreira de Castro. A esta foto voltarei.

Saturday, March 07, 2009

de passagem VICTOR HUGO, de Jaime Brasil (1940)

O século XIX, que nasceu ao fragor das batalhas e sobre ruínas fumegantes, não foi nem belicoso nem destruidor. Pode considerar-se mesmo o mais sereno e construtivo período da história moderna. E que nele, mais do que em qualquer outro, se afirmou o triunfo pleno da inteligência criadora. Em nenhum mais encontramos tantas invenções e descobertas, no domínio das ciências e das artes. Dir-se-ia ter atingido, então, o génio humano o ponto culminante da sua curva.
Jaime Brasil,Victor Hugo, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940, p. 7.

Para além das ortodoxias: Ferreira de Castro e Francisco Costa (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 10, Sintra, Câmara Muncipal, 2003

Qual a relação possível entre dois escritores da mesma geração, Ferreira de Castro (n. 1898) e Francisco Costa (n. 1900), ideologicamente posicionados em dois extremos do pensamento político-social contemporâneo, libertário, um, activamente internacionalista, revolucionário, antimilitarista, oposicionista e ateu; conservador, o outro, monárquico, próximo do Estado Novo, católico praticante? O diálogo entre os autores de A Selva e Cárcere Invisível foi já abordado nas páginas da Vária Escrita por João Bigotte Chorão, com a profundidade e elegância que caracterizam os seus textos. (1) Para além o amor a Sintra que os irmanava, a circunstância de divergirem ideologicamente, seria, no entender do autor um factor de aproximação: «Não há, muitas vezes, pior companhia que a dos chamados correligionários e irmãos na fé...» (2) Existindo realmente as diferenças de mundividência, homens de pensamento e convicções, ambos romancistas atentos à dignidade essencial de cada indivíduo, sobueram estabelecer pontes que valorizavam o muito que os aproximava.

(1) João Bigotte Chorão, «Francisco Costa, homem-bom de Sintra»,Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2003, pp. 67-76.

(2) Ibidem, p. 67.

(continua)

Tuesday, March 03, 2009

António Campos

Barrosânia - Como é que surgiu a ideia de realizar um filme sobre uma obra de Ferreira de Castro e porquê concretamente "Terra Fria"?
António Campos - O projecto "Terra Fria" surge na sequência do meu interesse em filmar, de uma maneira geral, as raízes da sociedade portuguesa. Principalmente a sociedade fechada de pequenos aglomerados, mas com características e froça próprias à semelhança dos meus filmes anteriores.
"Terra Fria", de certo modo, é um caminho para o meu desejo de filmar o povo português nessa perspectiva. Este projecto não nasceu agora. Nasceu há alguns anos, ainda Ferreira de Castro era vivo, só que na altura não se proporcionou fazê-lo por razões financeiras. Guardei a ideia até há dois anos.
Duma entrevista de António Campos a Judite Aguiar, Barrosânia, n.º 6, Lisboa, Outubro / Dezembro de 1990, p. 46

Monday, March 02, 2009

errância - Andorra (1929 / 1937-38)

Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, ignorada? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no que é desconhecido.
Ferreira de Castro, Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, vol. I, 5.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1955, p. 17.

Saturday, February 28, 2009

Roberto Nobre -- Uma vida por imagens (1)

À memória de Maria do Céu Nobre

A obra plástica e ensaística de Roberto Nobre está à espera de quem sobre ela se debruce, não obstante algumas abordagens importantes, embora parcelares e por vezes esquemáticas, que têm sido feitas nos últimos anos. O texto que se segue padece dessas insuficiências; mas tendo alguma responsabilidade na desocultação do nome e da obra de Roberto Nobre, não poderia eximir-me a aceitar o convite honroso para evocar o percurso intelectual dum filho de São Brás de Alportel, vila de gente afável e dedicada, alfobre de artistas e homens de cultura, terra singular neste Algarve que esteve sempre no coração do ensaísta de Horizontes de Cinema.

In Roberto Nobre -- 1903-2003, São Brásde Alportel, Câmara Municipal, 2003, p. 11.

(continua)

Wednesday, February 25, 2009

de passagem - SIM, UMA DÚVIDA BASTA (1936 / 1994)

CENA I

Gabinete do Governador de New Jersey. Portas ao
fundo e à esquerda. Secretária, telefones, estantes, etc.
Por detrás da secretária, um retrato de Washington.
Perto da boca de cena três ou quatro "maples" em vol-
ta duma mesita com cinzeiro e cigarros.

Ao levantar o pano, o Governador -- quarenta a qua-
renta e cinco anos -- despacha com o secretário, que
é mais novo do que ele. O Governador está sentado à
secretária e o secretário de pé, com um papel na mão.
GOVERNADOR (examinando os papéis que estão sobre a secretária, dentro duma pasta) -- Esta pretensão da Companhia dos òleos não deve ser legítima. Não assino isto.
SECRETÁRIO -- Tem um parecer favorável da repartição e está recomendada pelo doutor Murray...
Ferreira de Castro, Sim, uma Dúvida Basta, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, p. 19.

Tuesday, February 24, 2009

Um Medo Frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (1)

Artigo publicado em Sol XXI, n.º 38/39, Carcavelos, 2003
Escrever as memórias pressuporia à partida uma existência fora do comum para o comum dos mortais. Pelo que se viveu e testemunhou, pelas teias relacionais que ao longo da vida se foram forjando. Jaime Cortesão, por exemplo, transpôs para as Memórias da Grande Guerra (1919) o seu muito próprio estilo épico, num tema que só por si se prestava às mais fortes exaltações. O relato duma experiência-limite -- a de médico voluntário nas trincheiras da Flandres -- resultou num livro que não nos deixa grande margem para fruições se pegrmos nele como leitor desprevenido, tal é a carga emocional que transporta. Mas memorialística, género eminentemente literário, está subordinada às exigências da escrita. Nas Memórias de Raul Brandão (1919-33), ao contrário do que sucede com a narrativa do historiador, dão-lhes profundidade os textos preambulares de cada volume -- expressões dramáticas do peculiar sentimento trágico da vida. E Vasco Pulido valente -- para mencionar um autor nosso contemporâneo --, em Retratos & Auto-retratos (1992), é um significativo exemplo de como uma existência desinteressante para o público não impede uma redacção de memórias de primeira água, em que o estilo, opulento, mas vigiado, é a primeira estrela dessa escrita.
(continua)

Sunday, February 22, 2009

de passagem - A QUESTÃO SEXUAL (1932)

O estudo dos problemas sociais conduz frequentemente às fronteiras da questão sexual. A produção das utilidades e a sua distribuição, a remuneração individual do trabalho e o açambarcamento da riqueza colectiva, as migrações em massa e as guerras imperialistas, são fenómenos económicos directamente influenciados pelas leis que regem os sexos. Importa, portanto, conhecer o sexualismo para avaliar até onde vai a sua acção, no campo da economia.
Jaime Brasil, A Questão Sexual, 2.ª edição, Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, 1932, p. 5.

Saturday, February 21, 2009

de passagem - do «Pórtico» de TERRA FRIA (1934)

Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta.

Ferreira de Castro, Terra Fria, 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1980.

Friday, February 20, 2009

Recordar Rocha Martins (1)

Texto publicado em desdobrável da exposição bibliográfica e documental «Rocha Martins -- 50 Anos Depois (1952-2002)», realizada no Museu Ferreira de Castro, em Maio-Junho de 2002
Jornalista, historiógrafo, cronista e ficcionista, Francisco José Rocha Martins (Belém, 30.3.1879 -- Sintra, 23.5.1952) foi um dos nomes mais marcantes da imprensa nacional. Ligado aos jornais desde muito novo, devemos destacar a Ilustração Portuguesa, ABC -- revistas que fizeram história no periodismo português -- e o Arquivo Nacional, publicação que se ocupava de uma das suas grandes paixões: a História.
(continua)

Wednesday, February 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de ETERNIDADE (1933)

Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer!
Ferreira de Castro, Eternidade, 14.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1989.

correspondências - M. Rodrigues Lapa a Paulo Duarte


[...]

Nem você calcula as fezes e aborrecimentos que me tem causado a ida ao Brasil.* [...]
1. Substituição do Ferreira de Castro. O Ferreira de Castro teve de desistir, por vários motivos, mas parece-me que o fundamental é a impossibilidade de levar a mulher. Convença-se disto, meu caro: nós, os homens que dobrámos os 50, já não podemos andar sem as nossas mulheres. Ora é o coração, ora é o fígado que reclama por elas. Tornaram-se-nos indispensáveis. Pusemo-nos logo em campo para o substituir. [...] Falámos com o Aquilino Ribeiro, que não pode ou não quer; batemos à porta do Armando Cortesão, que também não aceita. Escrevi agora ao Régio, que é uma grande figura de poeta, num corpo pequeno. Aguardo a sua resposta. Numa negativa, ainda procuraremos convencer o Miguel Torga, um dos nossos grandes escritores. [...]
[Costa da Caparica, 26 de Junho de 1954]
*Congresso Internacional de Escritores, São Paulo, 9-15 de Agosto de 1954, organizado pela Sociedade Paulista de Escritores no âmbito das comemorações do IV Centenário da cidade.
Correspondência de Rodrigues Lapa -- Selecção (1929-1985), edição de Maria Alegria Marques, Ana Paula Figueira Santos, Nuno Rosmaninho, António Breda Carvalho e Rui Godinho, Coimbra, Minerva, 1997, pp. 225-226.

Sunday, February 15, 2009

PETITS MONS i VELLES CIVILITZACIONS - ANDORRA (1929)

A tradução do primeiro capítulo de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, editado em 1937-38 pela Empresa Nacional de Publicidade -- o magnífico texto sobre Andorra --, foi recentemente editado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros deste país, incluído na colecção «L'Andorra dels viatgers». Uma bela edição, repoduzindo na sobrecapa uma vinheta de Roberto Nobre extraída da edição princeps. O livro inclui ainda textos da ministra Meritxell Mateu Pi (que, diga-se a propósito, fez uma interessante alocução no Instituto Camões, quando da apresentação pública do livro), do embaixador em Andorra la Vella, Nuno Bessa Lopes, de Ivone Bastos Ferreira, do Centro de Estudos Ferreira de Castro, do historiador Joan Peruga e uma cronologia de minha autoria.

de passagem - Assis Esperança, O REBANHO (1922)

-- Pai! -- e com olhares a ressumarem medo, a voz rastejando um tom humilde, o garotelho, oito anos cobertos de farrapos, prosseguia: -- A mãe diz que é tarde!, -- e não recebendo resposta na lenga-lenga lamurienta dos que imploram misericórdia! -- Pai! pai!
Assis Esperança, O Rebanho, Lisboa, A Hora Novelesca, n.º 2, 1922, p. 6.

Wednesday, February 11, 2009

Roberto Nobre - OS PESCADORES (1925)

Ferreira de Castro e Roberto Nobre, A Epopeia do Trabalho

Lisboa, Livraria Renascença, 1926, p. 11

Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)

Saturday, February 07, 2009

clássicos da bibliografia castriana - Alexandre Cabral

O génio, bizarra personalidade, melhor, individualidade, criador do mundo dinâmico, vertiginoso, febril, que sintetiza em si a essência divina do Homem, floresce quase sempre, por triste ironia, nos pântanos da miséria. Aí se caldeia, aí se refina a sensibilidade do futuro eleito. A miséria, a fome, o infortúnio alarga-lhe as perspectivas, desenvolve-lhe ao mais elevado grau o sentimento fraterno de solidariedade humana elevando-o acima dos outros homens. Foram eles, os eleitos, que primeiro discerniram, lá longe, embora, as possibilidades de uma modificação total da sociedade humana. Com a própria dor e sobre ela, arquitectaram e arquitectam as paredes do futuro edifício social. De tal modo a fome e a miséria têm influência no espírito do eleito que o indivíduo vulgar não pode traduzir em ritmos de beleza, em traços vigorosos, dramáticos e chocantes, os dramas da vida: esses múltiplos episódios que constituem o grande, o inconcebível drama humanao. Não pode. E não pode porque jamais a sua sensibilidade se purificou no fogo lento do sofrimento.
Alexandre Cabral, Ferreira de castro -- o Seu Drama e a Sua Obra, Lisboa, Portugália Editora, 1940, p. 9.

Thursday, February 05, 2009

testemunhos #3 - João de Barros


Assim o conheci vai para mais de três lustros, ao tempo do aparecimento da extraordinária «Eternidade», já tocado dos alvores da glória mundial que a publicação de «A Selva» lhe trouxera e que o acompanha hoje a toda a parte. E assim o vejo agora, modesto como sempre, apesar de traduzido nas mais diversas línguas do globo, festejado em todos os meios cultos, lido e relido por gentes da Europa, da América e da Ásia, honra e prestígio da literatura portuguesa, cujo renome tem levado às mais longínquas nações da Terra. O glorioso autor de «A Selva» continua sendo, acima de tudo, um «homem», na mais alta e mais pura expressão da palavra. Um homem sobranceiro à sua própria obra e, por conseguinte, apto a transcender-se, a superar-se sempre, qualidade característica e essencial dos verdadeiros criadores de Beleza e dos verdadeiros idealistas, que não duvidam do progresso moral e mental dos povos e a quem os povos, por isso mesmo, concedem sempre larga e afectuosa audiência. «A Lã e a Neve» e «Curva da Estrada» assim o comprovam de novo.
João de Barros, Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Monday, February 02, 2009

Os retratos de Castro por Nobre (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2001
A Elena Muriel Ferreira de Castro,
com profunda admiração e amizade
«Vêmo-lo muito jovem e bonito, uma cabeça
quase de adolescente, com o rosto a exprimir
plena confiança em si mesmo.»
Ferreira de Castro
Ao longo de mais de meio século de vida literária, Castro foi alvo da atenção de muitos artistas que lhe fixaram o rosto no retrato, na pintura, na gravura, na escultura, na fotografia [e na caricatura]: Eduardo Malta, Stuart Carvalhais, San-Payo, Baltasar, Elena Muriel, Santana, Manual Cabanas, Luís Jardim, António Duarte, Anjos Teixeira, Artur Bual, Júlio Pomar e João Abel Manta, entre outros -- só para falarmos de autores portugueses que, na sua maioria com felicidade, fixaram a «máscara e a alma» de uns alegados «traços duma ancestralidade eslava» (1). Mas ninguém o retratou tantas vezes como Roberto Nobre. (2)
(1) Jaime BRASIL, «notas biográficas e bibliográficas», VV. AA., Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931, p. 7.
(2) Sobre o relacionamento de ambos, ver a nossa introdução a Ferreira de CASTRO / Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, pp. 7-13.
(continua)

Saturday, January 31, 2009

de passagem - VIVER! (1921)

A todos os magistrados, por vontade dos homens, encarregados do meu julgamento, aos médicos, aos legisladores; a ti, minha esposa, flor d'altura, para que não me condenes antes de me ouvir; a toda essa coorte de inúteis, a toda essa caterva de animais feridos de morte, a toda essa legião de criminosos sem consciência, que são os incubadores dum mal.
Assis Esperança, Viver!, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1921

Thursday, January 29, 2009

Castro em Macau

A Lã e a Neve, traduzido para o cantonês por Li Ping
Instituto Cultural de Macau, 1988
capa de Miao Pang Fei

Tuesday, January 27, 2009

Castro, Assis, Brasil, Nobre -- ou a tertúlia dos anarquistas


Ferreira de Castro
(1898-1974)


Jaime Brasil
(1896-1966)


Roberto Nobre
(1903-1969)









Assis Esperança
(1892-1975)
A partir de hoje, este blogue é mais dos quatro do que até aqui já era.

Tuesday, January 20, 2009

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (1)


[introduçaõ às »Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 6, Sintra, Câmara Municiapl, 1999]
Autores há tão devotadamente dedicados a um assunto, que todo o seu restante trabalho literário é secundarizado e obscurecido pela força com que o estudo tornado paixão se lhes impõe.
Foi o caso de Alexandre Cabral (José dos Santos Cabral, 1917-1996). Estreando-se como ficcionista com Cinzas da Nossa Alma, em 1937, sob pseudónimo de Z. Larbak, até muito tarde não se conformou com a subalternização que os estudos camilianos infligiam à sua obra romanesca. Uma das cartas que agora publicamos dá nota disso mesmo: «A ficção trago-a desprezada. Regressarei a ela não tarda.» (1)
(1) Lisboa, 19 de Março de 1967.

Wednesday, January 07, 2009

História e memória: uma leitura de Os Fragmentos (1)

Publicado em Língua e Cultura, n.º 8-9, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, 1998

«A infância, esse grande território donde todos saímos! Pois
donde sou eu? Sou da minha infância como se é de um país...»
Antoine de Saint-Exupéry
«O passado pode ser, sem história e sem memória, sem azedu-
me ou saudade, sem culpa ou inquietação, um espaço em que se
pára, menos para rgeressar a ele, que para estar nele sem regresso
algum.»
Jorge de Sena
Razões de uma escolha
A primeira obra póstuma de Ferreira de Castro, Os Fragmentos (Um Romance e Algumas Evocações), editada em 1974, ano da sua morte, não conheceu o favor do público.
Estão ainda no mercado as duas edições que então vieram a lume: a chamada «popular» e a que integrou as «Obras Completas», com ilustrações de João Abel Manta. Não obstante, Os Fragmentos fizeram jus a mais de quarenta anos de internacionalização literária do seu autor, com uma tradução norueguesa de O Intervalo, publicado em Oslo, em 1976. (1)
(1) Ferreira de Castro, Vendepunktet, tradução e prefácio de Leif Sletsjoe, Oslo, Tiden Norsk Forlag, 1976.
(continua)

Sunday, January 04, 2009

correspondências - Norton de Matos a João de Barros

[sobre o livro de João de Barros, Hoje Ontem Amanhã, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950. Datada de Ponte de Lima, em 20 de Outubro de 1950]

Quanto aos outros, em grande número, que a seguir evoca, guardo carinhosamente no coração Fialho d'Almeida. Convivi muito com ele antes de partir para a Índia, em 1898, fui um dos seus grandes amigos e tive por ele sempre grande admiração e profunda compaixão. Quando 10 anos depois voltei, achei-o outro homem.

Dos outros, que os seus livros chama com as suas evocações perante o meu espírito apenas dois são meus antigos conhecidos, Oliveira Martins e Teixeira Gomes, que considero dois grandes cabouqueiros da Construção da Pátria que sonhamos, o primeiro nos alicerces, o segundo na resplandecente cimalha que foi a nossa intervenção na I.ª Grande Guerra. O edifício ainda não ruiu e temos de continuar a aguentá-lo, meu amigo.

Dos novos apenas dei por dois -- Ferreira de Castro e Aquilino. Os outros nunca dei por eles, por certo, ou por incapacidade minha ou porque a preocupação com as minhas tarefas não me deixava ver fora do âmbito delas.

Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, s.d., p. 74

Thursday, December 25, 2008

Ferreira de Castro e Reinaldo Ferreira -- Nota sobre a viagem do Repórter X à Rússia (1)


Publicado em Vária Escrita, n.º 5, Sintra, Câmara Municipal, 1998

Está por fazer o estudo sistemático da actividade jornalística de Ferreira de Castro (1898-1974), iniciada no Brasil em 1915, no Jornal dos Novos, de Belém do Pará, retomada em Lisboa, quando fundou O Luso (1920), e terminada n'O Século em 1934, com um remate final como director de O Diabo, entre 8 de Setembro e 10 de Novembro do ano seguinte. Pelo meio, entre as dezenas de títulos em que colaborou, deve registar-se a importante experiência do semanário Portugal (1917-1919), destinado à comunidade portuguesa de Belém, de que foi co-director; A Batalha, órgão sindicalista da Confederação Geral do Trabalho, dirigido por Alexandre Vieira (1884-1973) e o quinzenário Renovação, também da C.G.T., com Pinto Quartim (1887-1970) na direcção; as revistas ABC, de Rocha Martins (1879-1952), e Civilização, que com Campos Monteiro (1876-1934) lançou e dirigiu entre 1928 e 1930.

Monday, December 08, 2008

uma reportagem fotográfica


A T (Dias que Voam) reincidiu, e ofereceu-me, lá do seu blogue, estas duas
páginas da Eva, uma reportagem fotográfica de certo modo intimista, por ocasião dos 25 anos de publicação de A Selva (1930). Obrigado, T, um abraço!

Wednesday, December 03, 2008

testemunhos #3 - João de Barros

Habituara-se ao combate, ao sacrifício, e não ignorava a dor, sua e alheia,, camarada familiar da miséria e da desgraça. Fugira de casa, perdera-se na selva amazónica, batalhara pela liberdade
do espírito nas cidades onde mais tarde aportara, contruíra e fortalecera a sua nobre personalidade muitas vezes na solidão, no desespero e no desânimo. Passara fome e frio, calores excessivos, debilitantes enfermidades. Resistira sempre. Retemperava-se sempre. E, embora não se referisse jamais a esse passado de tormentosas dificulades da existência, adivinhava-se que através dele conquistara a superioridade da sua alma, a capacidade de «simpatia humana» que afirmava a cada passo, e uma consciência límpida e isenta de vaidades, que lhe permitia trabalhar com perfeito desprezo do que dele se pensava e dizia.
João de Barros, «Humanidade», Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, pp. 167-168.
[Acrescentado em 5-II-2009]