Saturday, February 28, 2009

Roberto Nobre -- Uma vida por imagens (1)

À memória de Maria do Céu Nobre

A obra plástica e ensaística de Roberto Nobre está à espera de quem sobre ela se debruce, não obstante algumas abordagens importantes, embora parcelares e por vezes esquemáticas, que têm sido feitas nos últimos anos. O texto que se segue padece dessas insuficiências; mas tendo alguma responsabilidade na desocultação do nome e da obra de Roberto Nobre, não poderia eximir-me a aceitar o convite honroso para evocar o percurso intelectual dum filho de São Brás de Alportel, vila de gente afável e dedicada, alfobre de artistas e homens de cultura, terra singular neste Algarve que esteve sempre no coração do ensaísta de Horizontes de Cinema.

In Roberto Nobre -- 1903-2003, São Brásde Alportel, Câmara Municipal, 2003, p. 11.

(continua)

Wednesday, February 25, 2009

de passagem - SIM, UMA DÚVIDA BASTA (1936 / 1994)

CENA I

Gabinete do Governador de New Jersey. Portas ao
fundo e à esquerda. Secretária, telefones, estantes, etc.
Por detrás da secretária, um retrato de Washington.
Perto da boca de cena três ou quatro "maples" em vol-
ta duma mesita com cinzeiro e cigarros.

Ao levantar o pano, o Governador -- quarenta a qua-
renta e cinco anos -- despacha com o secretário, que
é mais novo do que ele. O Governador está sentado à
secretária e o secretário de pé, com um papel na mão.
GOVERNADOR (examinando os papéis que estão sobre a secretária, dentro duma pasta) -- Esta pretensão da Companhia dos òleos não deve ser legítima. Não assino isto.
SECRETÁRIO -- Tem um parecer favorável da repartição e está recomendada pelo doutor Murray...
Ferreira de Castro, Sim, uma Dúvida Basta, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, p. 19.

Tuesday, February 24, 2009

Um Medo Frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (1)

Artigo publicado em Sol XXI, n.º 38/39, Carcavelos, 2003
Escrever as memórias pressuporia à partida uma existência fora do comum para o comum dos mortais. Pelo que se viveu e testemunhou, pelas teias relacionais que ao longo da vida se foram forjando. Jaime Cortesão, por exemplo, transpôs para as Memórias da Grande Guerra (1919) o seu muito próprio estilo épico, num tema que só por si se prestava às mais fortes exaltações. O relato duma experiência-limite -- a de médico voluntário nas trincheiras da Flandres -- resultou num livro que não nos deixa grande margem para fruições se pegrmos nele como leitor desprevenido, tal é a carga emocional que transporta. Mas memorialística, género eminentemente literário, está subordinada às exigências da escrita. Nas Memórias de Raul Brandão (1919-33), ao contrário do que sucede com a narrativa do historiador, dão-lhes profundidade os textos preambulares de cada volume -- expressões dramáticas do peculiar sentimento trágico da vida. E Vasco Pulido valente -- para mencionar um autor nosso contemporâneo --, em Retratos & Auto-retratos (1992), é um significativo exemplo de como uma existência desinteressante para o público não impede uma redacção de memórias de primeira água, em que o estilo, opulento, mas vigiado, é a primeira estrela dessa escrita.
(continua)

Sunday, February 22, 2009

de passagem - A QUESTÃO SEXUAL (1932)

O estudo dos problemas sociais conduz frequentemente às fronteiras da questão sexual. A produção das utilidades e a sua distribuição, a remuneração individual do trabalho e o açambarcamento da riqueza colectiva, as migrações em massa e as guerras imperialistas, são fenómenos económicos directamente influenciados pelas leis que regem os sexos. Importa, portanto, conhecer o sexualismo para avaliar até onde vai a sua acção, no campo da economia.
Jaime Brasil, A Questão Sexual, 2.ª edição, Lisboa, Casa Editora Nunes de Carvalho, 1932, p. 5.

Saturday, February 21, 2009

de passagem - do «Pórtico» de TERRA FRIA (1934)

Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta.

Ferreira de Castro, Terra Fria, 12.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1980.

Friday, February 20, 2009

Recordar Rocha Martins (1)

Texto publicado em desdobrável da exposição bibliográfica e documental «Rocha Martins -- 50 Anos Depois (1952-2002)», realizada no Museu Ferreira de Castro, em Maio-Junho de 2002
Jornalista, historiógrafo, cronista e ficcionista, Francisco José Rocha Martins (Belém, 30.3.1879 -- Sintra, 23.5.1952) foi um dos nomes mais marcantes da imprensa nacional. Ligado aos jornais desde muito novo, devemos destacar a Ilustração Portuguesa, ABC -- revistas que fizeram história no periodismo português -- e o Arquivo Nacional, publicação que se ocupava de uma das suas grandes paixões: a História.
(continua)

Wednesday, February 18, 2009

de passagem - do «Pórtico» de ETERNIDADE (1933)

Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer!
Ferreira de Castro, Eternidade, 14.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1989.

correspondências - M. Rodrigues Lapa a Paulo Duarte


[...]

Nem você calcula as fezes e aborrecimentos que me tem causado a ida ao Brasil.* [...]
1. Substituição do Ferreira de Castro. O Ferreira de Castro teve de desistir, por vários motivos, mas parece-me que o fundamental é a impossibilidade de levar a mulher. Convença-se disto, meu caro: nós, os homens que dobrámos os 50, já não podemos andar sem as nossas mulheres. Ora é o coração, ora é o fígado que reclama por elas. Tornaram-se-nos indispensáveis. Pusemo-nos logo em campo para o substituir. [...] Falámos com o Aquilino Ribeiro, que não pode ou não quer; batemos à porta do Armando Cortesão, que também não aceita. Escrevi agora ao Régio, que é uma grande figura de poeta, num corpo pequeno. Aguardo a sua resposta. Numa negativa, ainda procuraremos convencer o Miguel Torga, um dos nossos grandes escritores. [...]
[Costa da Caparica, 26 de Junho de 1954]
*Congresso Internacional de Escritores, São Paulo, 9-15 de Agosto de 1954, organizado pela Sociedade Paulista de Escritores no âmbito das comemorações do IV Centenário da cidade.
Correspondência de Rodrigues Lapa -- Selecção (1929-1985), edição de Maria Alegria Marques, Ana Paula Figueira Santos, Nuno Rosmaninho, António Breda Carvalho e Rui Godinho, Coimbra, Minerva, 1997, pp. 225-226.

Sunday, February 15, 2009

PETITS MONS i VELLES CIVILITZACIONS - ANDORRA (1929)

A tradução do primeiro capítulo de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações, editado em 1937-38 pela Empresa Nacional de Publicidade -- o magnífico texto sobre Andorra --, foi recentemente editado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros deste país, incluído na colecção «L'Andorra dels viatgers». Uma bela edição, repoduzindo na sobrecapa uma vinheta de Roberto Nobre extraída da edição princeps. O livro inclui ainda textos da ministra Meritxell Mateu Pi (que, diga-se a propósito, fez uma interessante alocução no Instituto Camões, quando da apresentação pública do livro), do embaixador em Andorra la Vella, Nuno Bessa Lopes, de Ivone Bastos Ferreira, do Centro de Estudos Ferreira de Castro, do historiador Joan Peruga e uma cronologia de minha autoria.

de passagem - Assis Esperança, O REBANHO (1922)

-- Pai! -- e com olhares a ressumarem medo, a voz rastejando um tom humilde, o garotelho, oito anos cobertos de farrapos, prosseguia: -- A mãe diz que é tarde!, -- e não recebendo resposta na lenga-lenga lamurienta dos que imploram misericórdia! -- Pai! pai!
Assis Esperança, O Rebanho, Lisboa, A Hora Novelesca, n.º 2, 1922, p. 6.

Wednesday, February 11, 2009

Roberto Nobre - OS PESCADORES (1925)

Ferreira de Castro e Roberto Nobre, A Epopeia do Trabalho

Lisboa, Livraria Renascença, 1926, p. 11

Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)

Saturday, February 07, 2009

clássicos da bibliografia castriana - Alexandre Cabral

O génio, bizarra personalidade, melhor, individualidade, criador do mundo dinâmico, vertiginoso, febril, que sintetiza em si a essência divina do Homem, floresce quase sempre, por triste ironia, nos pântanos da miséria. Aí se caldeia, aí se refina a sensibilidade do futuro eleito. A miséria, a fome, o infortúnio alarga-lhe as perspectivas, desenvolve-lhe ao mais elevado grau o sentimento fraterno de solidariedade humana elevando-o acima dos outros homens. Foram eles, os eleitos, que primeiro discerniram, lá longe, embora, as possibilidades de uma modificação total da sociedade humana. Com a própria dor e sobre ela, arquitectaram e arquitectam as paredes do futuro edifício social. De tal modo a fome e a miséria têm influência no espírito do eleito que o indivíduo vulgar não pode traduzir em ritmos de beleza, em traços vigorosos, dramáticos e chocantes, os dramas da vida: esses múltiplos episódios que constituem o grande, o inconcebível drama humanao. Não pode. E não pode porque jamais a sua sensibilidade se purificou no fogo lento do sofrimento.
Alexandre Cabral, Ferreira de castro -- o Seu Drama e a Sua Obra, Lisboa, Portugália Editora, 1940, p. 9.

Thursday, February 05, 2009

testemunhos #3 - João de Barros


Assim o conheci vai para mais de três lustros, ao tempo do aparecimento da extraordinária «Eternidade», já tocado dos alvores da glória mundial que a publicação de «A Selva» lhe trouxera e que o acompanha hoje a toda a parte. E assim o vejo agora, modesto como sempre, apesar de traduzido nas mais diversas línguas do globo, festejado em todos os meios cultos, lido e relido por gentes da Europa, da América e da Ásia, honra e prestígio da literatura portuguesa, cujo renome tem levado às mais longínquas nações da Terra. O glorioso autor de «A Selva» continua sendo, acima de tudo, um «homem», na mais alta e mais pura expressão da palavra. Um homem sobranceiro à sua própria obra e, por conseguinte, apto a transcender-se, a superar-se sempre, qualidade característica e essencial dos verdadeiros criadores de Beleza e dos verdadeiros idealistas, que não duvidam do progresso moral e mental dos povos e a quem os povos, por isso mesmo, concedem sempre larga e afectuosa audiência. «A Lã e a Neve» e «Curva da Estrada» assim o comprovam de novo.
João de Barros, Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, p. 168.

Monday, February 02, 2009

Os retratos de Castro por Nobre (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2001
A Elena Muriel Ferreira de Castro,
com profunda admiração e amizade
«Vêmo-lo muito jovem e bonito, uma cabeça
quase de adolescente, com o rosto a exprimir
plena confiança em si mesmo.»
Ferreira de Castro
Ao longo de mais de meio século de vida literária, Castro foi alvo da atenção de muitos artistas que lhe fixaram o rosto no retrato, na pintura, na gravura, na escultura, na fotografia [e na caricatura]: Eduardo Malta, Stuart Carvalhais, San-Payo, Baltasar, Elena Muriel, Santana, Manual Cabanas, Luís Jardim, António Duarte, Anjos Teixeira, Artur Bual, Júlio Pomar e João Abel Manta, entre outros -- só para falarmos de autores portugueses que, na sua maioria com felicidade, fixaram a «máscara e a alma» de uns alegados «traços duma ancestralidade eslava» (1). Mas ninguém o retratou tantas vezes como Roberto Nobre. (2)
(1) Jaime BRASIL, «notas biográficas e bibliográficas», VV. AA., Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931, p. 7.
(2) Sobre o relacionamento de ambos, ver a nossa introdução a Ferreira de CASTRO / Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, pp. 7-13.
(continua)

Saturday, January 31, 2009

de passagem - VIVER! (1921)

A todos os magistrados, por vontade dos homens, encarregados do meu julgamento, aos médicos, aos legisladores; a ti, minha esposa, flor d'altura, para que não me condenes antes de me ouvir; a toda essa coorte de inúteis, a toda essa caterva de animais feridos de morte, a toda essa legião de criminosos sem consciência, que são os incubadores dum mal.
Assis Esperança, Viver!, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1921

Thursday, January 29, 2009

Castro em Macau

A Lã e a Neve, traduzido para o cantonês por Li Ping
Instituto Cultural de Macau, 1988
capa de Miao Pang Fei

Tuesday, January 27, 2009

Castro, Assis, Brasil, Nobre -- ou a tertúlia dos anarquistas


Ferreira de Castro
(1898-1974)


Jaime Brasil
(1896-1966)


Roberto Nobre
(1903-1969)









Assis Esperança
(1892-1975)
A partir de hoje, este blogue é mais dos quatro do que até aqui já era.

Tuesday, January 20, 2009

Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro (1)


[introduçaõ às »Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 6, Sintra, Câmara Municiapl, 1999]
Autores há tão devotadamente dedicados a um assunto, que todo o seu restante trabalho literário é secundarizado e obscurecido pela força com que o estudo tornado paixão se lhes impõe.
Foi o caso de Alexandre Cabral (José dos Santos Cabral, 1917-1996). Estreando-se como ficcionista com Cinzas da Nossa Alma, em 1937, sob pseudónimo de Z. Larbak, até muito tarde não se conformou com a subalternização que os estudos camilianos infligiam à sua obra romanesca. Uma das cartas que agora publicamos dá nota disso mesmo: «A ficção trago-a desprezada. Regressarei a ela não tarda.» (1)
(1) Lisboa, 19 de Março de 1967.

Wednesday, January 07, 2009

História e memória: uma leitura de Os Fragmentos (1)

Publicado em Língua e Cultura, n.º 8-9, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, 1998

«A infância, esse grande território donde todos saímos! Pois
donde sou eu? Sou da minha infância como se é de um país...»
Antoine de Saint-Exupéry
«O passado pode ser, sem história e sem memória, sem azedu-
me ou saudade, sem culpa ou inquietação, um espaço em que se
pára, menos para rgeressar a ele, que para estar nele sem regresso
algum.»
Jorge de Sena
Razões de uma escolha
A primeira obra póstuma de Ferreira de Castro, Os Fragmentos (Um Romance e Algumas Evocações), editada em 1974, ano da sua morte, não conheceu o favor do público.
Estão ainda no mercado as duas edições que então vieram a lume: a chamada «popular» e a que integrou as «Obras Completas», com ilustrações de João Abel Manta. Não obstante, Os Fragmentos fizeram jus a mais de quarenta anos de internacionalização literária do seu autor, com uma tradução norueguesa de O Intervalo, publicado em Oslo, em 1976. (1)
(1) Ferreira de Castro, Vendepunktet, tradução e prefácio de Leif Sletsjoe, Oslo, Tiden Norsk Forlag, 1976.
(continua)

Sunday, January 04, 2009

correspondências - Norton de Matos a João de Barros

[sobre o livro de João de Barros, Hoje Ontem Amanhã, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950. Datada de Ponte de Lima, em 20 de Outubro de 1950]

Quanto aos outros, em grande número, que a seguir evoca, guardo carinhosamente no coração Fialho d'Almeida. Convivi muito com ele antes de partir para a Índia, em 1898, fui um dos seus grandes amigos e tive por ele sempre grande admiração e profunda compaixão. Quando 10 anos depois voltei, achei-o outro homem.

Dos outros, que os seus livros chama com as suas evocações perante o meu espírito apenas dois são meus antigos conhecidos, Oliveira Martins e Teixeira Gomes, que considero dois grandes cabouqueiros da Construção da Pátria que sonhamos, o primeiro nos alicerces, o segundo na resplandecente cimalha que foi a nossa intervenção na I.ª Grande Guerra. O edifício ainda não ruiu e temos de continuar a aguentá-lo, meu amigo.

Dos novos apenas dei por dois -- Ferreira de Castro e Aquilino. Os outros nunca dei por eles, por certo, ou por incapacidade minha ou porque a preocupação com as minhas tarefas não me deixava ver fora do âmbito delas.

Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, s.d., p. 74

Thursday, December 25, 2008

Ferreira de Castro e Reinaldo Ferreira -- Nota sobre a viagem do Repórter X à Rússia (1)


Publicado em Vária Escrita, n.º 5, Sintra, Câmara Municipal, 1998

Está por fazer o estudo sistemático da actividade jornalística de Ferreira de Castro (1898-1974), iniciada no Brasil em 1915, no Jornal dos Novos, de Belém do Pará, retomada em Lisboa, quando fundou O Luso (1920), e terminada n'O Século em 1934, com um remate final como director de O Diabo, entre 8 de Setembro e 10 de Novembro do ano seguinte. Pelo meio, entre as dezenas de títulos em que colaborou, deve registar-se a importante experiência do semanário Portugal (1917-1919), destinado à comunidade portuguesa de Belém, de que foi co-director; A Batalha, órgão sindicalista da Confederação Geral do Trabalho, dirigido por Alexandre Vieira (1884-1973) e o quinzenário Renovação, também da C.G.T., com Pinto Quartim (1887-1970) na direcção; as revistas ABC, de Rocha Martins (1879-1952), e Civilização, que com Campos Monteiro (1876-1934) lançou e dirigiu entre 1928 e 1930.

Monday, December 08, 2008

uma reportagem fotográfica


A T (Dias que Voam) reincidiu, e ofereceu-me, lá do seu blogue, estas duas
páginas da Eva, uma reportagem fotográfica de certo modo intimista, por ocasião dos 25 anos de publicação de A Selva (1930). Obrigado, T, um abraço!

Wednesday, December 03, 2008

testemunhos #3 - João de Barros

Habituara-se ao combate, ao sacrifício, e não ignorava a dor, sua e alheia,, camarada familiar da miséria e da desgraça. Fugira de casa, perdera-se na selva amazónica, batalhara pela liberdade
do espírito nas cidades onde mais tarde aportara, contruíra e fortalecera a sua nobre personalidade muitas vezes na solidão, no desespero e no desânimo. Passara fome e frio, calores excessivos, debilitantes enfermidades. Resistira sempre. Retemperava-se sempre. E, embora não se referisse jamais a esse passado de tormentosas dificulades da existência, adivinhava-se que através dele conquistara a superioridade da sua alma, a capacidade de «simpatia humana» que afirmava a cada passo, e uma consciência límpida e isenta de vaidades, que lhe permitia trabalhar com perfeito desprezo do que dele se pensava e dizia.
João de Barros, «Humanidade», Hoje, Ontem, Amanhã..., Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950, pp. 167-168.
[Acrescentado em 5-II-2009]

Thursday, November 27, 2008

castrianas #10 - João Pedro de Andrade

Os probemas económico-sociais não foram, está bem de ver, introduzidos na literatura pelos neo-realistas. Eles atravessam a obra de Raul Brandão (que seria considerado idealista pelos neo-realistas, se o tivessem lido), estão no Aquilino Ribeiro de Terras do Demo e A Batalha Sem Fim, mau grado o sentido pitoresco e o culto dos valores verbais, e, finalmente, no Ferreira de Castro de Emigrantes, A Selva e Terra Fria, para só falar em algumas das suas obras anteriores ao advento do neo-realismo. No entanto, pela sua atitude deliberada de intervenção, só este último havia de ser considerado percursor da nova tendência.
Ambições e Limites do Neo-Realismo Português [1955], edição de Joana Marques de Almeida, Lisboa, Acontecimento, 2002, p. 31.

Wednesday, November 26, 2008

Ferreira de Castro na "Cidade de Lilipute" (1)

Apresentação do capítulo sobre a China de A Volta ao Mundo, publicado em Macau pela Câmara Municipal das Ilhas, Taipa, 1998 -- ano do centenário do nascimento do escritor. (Existe edição em cantonês, com tradução de Chau Heng Chon)
No romance português, há um antes e um depois de Ferreira de Castro (1898-1974). Este escritor autodidacta, de origens camponesas humildes, nascido no litoral centro[-norte] de Portugal, emigrado aos doze anos incompletos, só, para o Brasil, onde trabalhou num seringal, em plena Amazónia (1911-1914), e depois como afixador de cartazes, marinheiro e, por fim, jornalista, em Belém do Pará, em cuja biblioteca leu avidamente Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós, Balzac e Zola, Nietzsche e Gorki; o literato que após o regresso ao seu país continuou no jornalismo, apenas como meio de sustento que lhe possibilitasse escrever os seus primeiros livros; o jovem Ferreira de Castro, aos trinta anos, com o livro Emigrantes (1028), mudou o rumo da ficção narrativa portuguesa, passando a ser uma das figuras de proa -- ou a figura de proa -- entre os finais dos anos vinte e a primeira metade da década de cinquenta.
(continua)

Sunday, November 09, 2008

Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine (1)

Publicado em O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998
"O que este livro tem, para mim, de menos
grato é precisamente não se parecer com
nenhum dos meus outros livros, é ser
demasiado humano -- é não possuir nada
de excepcional. Procurei o 'caso' mais
frequente, o personagem-multidão. [...] ele
aqui fica, em nome da solidariedade humana.»
Nota final à 1.ª edição de Emigrantes (1928)
Quando Ferreira de Castro publicou Emigrantes, dando à estampa algo de diferente no romance português, sentiu aquela incomodidade de quem se vê obrigado a arrepiar caminho, impelido por uma força (um valor, uma causa) mais poderosa.
(continua)

Sunday, November 02, 2008

"A Batalha: 90 Anos de Imprensa Sindicalista»

Dia 4 (Obama's Day, I hope...), irei falar um pouco sobre a revista Renovação, publicada entre Julho de 1925 e Junho de 1926, pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a colaboração de Ferreira de Castro nela. Na Biblioteca-Museu República e Resistência, pelas 18.30h.

Saturday, November 01, 2008

Inquérito, 1951

Porque gosta da sua mulher? Inquérito da revista Eva, em 1951.
No Dias que Voam.
Um abraço, T.

Monday, October 27, 2008

dedicatória

Uma edição de A Curva da Estrada, com dedicatória de Ferreira de Castro a António Quadros, em licitação aqui
Informação do Mário Casa Nova Martins

Friday, October 24, 2008

Três escritores em tempo de catástrofe: Castro, Zweig e Eliade (1)



Publicado em Boca do Inferno, n.º 3, Cascais, Câmara Municipal, 1998
Ao Professor Victor de Sá
Três escritores procuraram no Estoril e em Cascais um asilo para o absurdo do seu momento histórico. Apenas um deles era um permanente apátrida de facto, apesar da recente naturalização inglesa. Quando por aqui passou já estava moralmente liquidado. Outro, exercendo funções diplomáticas, vindo do oriente do Ocidente, sentiu-se arrancado à história pela pátria que lhe seria vedada e pela mulher que perdera. A provação do labirinto foi a derrocada do seu mundo, pois só somos quando somos em função de algo e de alguém. Por último, um português, visceralmente escritor, só escritor, por vocação e profissão, impossibilitado de sê-lo como entendia dever ser, agarrando-se como tábua de salvação a outras narrativas com desalento e raiva.
Três escritores que a história nos legou, vivendo condicionados no mesmo espaço geográfico pela tragédia de não-ser, de não poder ser.
(continua)

Tuesday, October 21, 2008

Ecologia

«Ferreira de Castro e a ecologia», um artigo no último Avante!, da autoria de Francisco Silva.

Sunday, October 19, 2008

A SELVA 75 Anos - Actas do Congresso Internacional


A Selva 75 Anos -- Actas do Congresso Internacional (2005), Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007

Comunicações: Robério Braga, «O Amazonas ao tempo de Ferreira de Castro»; Eugénio Lisboa, «A Selva: no coração das trevas»; Ricardo António Alves, «A Selva como expressão das ideias libertárias de Ferreira de Castro»; Karl Heinz Delille, «Casa Viejas -- Um episódio da recepção alemã de Ferreira de Castro»; Olímpia R. Santana, «A Selva -- Após a ruptura com o silêncio»; Bernard Emery, «O "negro" dos Camarões»; Artur Anselmo, «Aspectos do indianismo na obra de Ferreira de Castro»; Reinaldo F. Silva, «A recepção anglófona de A Selva e de outras obras de Ferreira de Castro»; Silas Granjo, «Notas para uma história textual de A Selva»; Ivone Bastos Ferreira, «A primeira edição brasileira de A Selva ou de como se critica sem ler e se põe em causa as virtudes das mulheres de Faro»; João Minhoto Marques, «Representações da utopia em A Selva»; Daniel Aranjo, «Le paysage dans A Selva»; Margarida Pandeirada, «A paisagem humanizada em A Selva de Ferreira de Castro»; Joaquim Correia, «Originalidade e perenidade artística de A Selva»; Miguel Real, «Naturalismo e realismo em A Selva»; Liliana Dias Carvalho, «Paisagens sem rosto -- Para o estudo da primeira edição ilustrada de A Selva»; Antônio Dimas, «Dois europeus e uma Amazônia: Júlio Verne e Ferreira de Castro»; José Alonso T. Freire, «A Selva e a literatura da Amazônia»; Manuel Pires Bastos, «Dois humanistas oliveirenses no Amazonas: Caetano Brandão (século XVIII) e Ferreira de Castro(século XX)»; Neide Gondim, «A contribuição portuguesa para a literatura do Amazonas»; Vítor Pena Viçoso, «O simbolismo da Amazónia em Ferreira de Castro e Carlos de Oliveira»; Beatriz Berrini, «Breves reflexões sobre A Selva»; António Cândido Franco, «A Selva e O Instinto Supremo»; Elcio Lucas de Oliveira, «A paradoxal atualidade de A Selva»; Carlos Jorge F. Jorge, «A descrição como referência poética e documentário n'A Selva de Ferreira de Castro»; Márcio Souza, «A primeira versão de A Selva no cinema»; Liliana Dias Carvalho, «O utópico convívio entre a câmara e a pena -- A Selva entre Ferreira de Castro e Leonel Vieira»; Óscar Cruz, «A produção de A Selva de Leonel Vieira».

Tuesday, October 14, 2008

Ferreira de Castro: Um escritor no país do medo (1)

Taíra - Revue du Centre de Recherche et d'Etudes Lusophones et Intertropicales, Grenoble, CRELIT / Université Stendhal, 1997

Dos prejuízos que disto [Censura]
advém para o país, para o seu tesouro
intelectual e artístico, para o seu
legado ao futuro e até aos outros povos, é inútil falar [...]

Os portugueses, na sua maioria, vivem
numa permanente desconfiança.

FERREIRA DE CASTRO (1949)


Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra para o medo.

NATÁLIA CORREIA


Lugares-comuns
Uma ideia que tem feito carreira com sucesso é a da inexistência de grande obras reveladas após o 25 de Abril, dessas que aguardaram publicação durante anos nas gavetas dos seus autores. Concluir-se-ia, portanto, que, apesar da Censura, não foi ela que impediu a livre criação durante o Estado Novo.
É difícil perceber este raciocínio, uma vez que quem o faz esquece-se da autocensura que os escritores, nomeadamente, se infligiam, além da outra, exercida pelo Estado, reprimindo aqueles e menorizando o público.
(continua)

Wednesday, October 08, 2008

TERRA FRIA por Bernardo Marques

ilustração de Bernardo Marques para Terra Fria
edição comemorativa dos 50 Anos de Vida Literária, 1966
Lisboa, Guimarães Editores, 1966

Saturday, October 04, 2008

correspondências - Jaime Brasil

Meus caros Ferreira de Castro e Eduardo Frias:


Recebi o vosso livro*. Muito obrigado por vos terdes lembrado de mim. A mim, q. tão afastado ando dos cenáculos literários e q. nas galés do jornalismo sou o último dos últimos, sensibilizou-me a vossa gentil manifestação de camaradagem espiritual. E porque entendo bem o altivo grito de angústia, erguido nas primeiras páginas do livro, aqui vos dou, irmãmente, o abraço q. traduz a minha admiração pelo vosso talento e a minha solidariedade nessa nobre revolta, contra o existente, o convencional, o medíocre.

[20-VI-1924]


* Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal/Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006, p. 11.

Monday, September 29, 2008

Literatura, Artes e Identidade Nacional -- Do Modernismo à Actualidade (1)


Literatura, Artes e Identidade Nacional -- «Do Modernismo à Actualidade»
separata das Actas dos 3.ºs Cursos Internacionais de Verão de Cascais - 1996
Cascais, Câmara Municipal, 1997
Se olharmos para os oitenta anos que decorreram desde 1915, quando se publica a revista Orpheu, verificamos que, na maior parte deste período, a criação fez-se sob o controlo de uma censura severa, acompanhada da inevitável repressão dos criadores, menorizando o público.
Eloquente testemunho desta realidade deu-nos Jorge de Sena, em 1960: «Quem se debruçar sobre a literatura portuguesa -- e não só a ficção deste século -- não a entenderá se não souber entender tal situação trágica. Felizes os grandes e livres povos! Mas será que, quando esses povos discreteiam do que é a literatura, saberão, como nós sabemos, a que ponto ela pode não ser?» (1)
(1) «A literatura contemporânea de ficção», Estudos de Literatura Portuguesa, Lisboa, Edições 70, 1988, p. 44.
(continua)

Thursday, September 25, 2008

Neo-realismo: contributo para dificultar um problema (1)


II parte de Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século, Lisboa, Âncora Editora, 2002
De uma maneira geral, tenho pouca estima pela ideologia, creio que ela sempre termina levando ao sectarismo, sempre conduz a uma falsificação da realidade -- que é colocada segundo alguns cânones ideológicos, e, asiim, a ideologia só é analisada a partir de simesma. -- Jorge Amado, Conversas com Alice Raillard
«Precursor do neo-realismo». Esta formulação equívoca tanto pode significar que o autor de Terra Fria foi o iniciador do romance de intenções socialmente revolucionárias -- de alteração do real --, como, simplesmente, que o enunciou sem ir mais além, não o levando até às últimas consequências. É precisamente esta última noção que, quanto a nós, está subjacente ao lugar-comum que foi ganhando estatuto de truísmo.
(continua)

Monday, September 22, 2008

O Museu Ferreira de Castro (9)

O ESPÓLIO
O riquíssimo espólio documental, composto por mais de vinte mil documentos de correspondência, largas dezenas de títulos de periódicos, manuscritos e inúmeros espécimes diversos, está aberto aos investigadores, doutorandos, mestrandos e estudantes universitários.
Da correspondência de escritores, artistas plásticos, cientistas, políticos e editores, constam nomes tão diversos quanto Eugénio de Andrade, João Lúcio de Azevedo, João de Barros, Agustina Bessa-Luís, António Botto, Jaime Brasil, Alexandre Cabral, Joaquim de Carvalho, Augusto Casimiro, Fernanda de Castro, Natália Correia, Jaime Cortesão, Júlio Dantas, Mário Dionísio, Sant`Ana Dionísio, Assis Esperança, Vergílio Ferreira, M. Rodrigues Lapa., Ruben A., Óscar Lopes, Ilse Losa, Vitorino Nemésio, Joaquim Paço d`Arcos, João Sarmento Pimentel, Raul Proença, Álvaro Salema, António Sérgio, Alberto de Serpa e Erico Veríssimo, entre muitos outros.

Saturday, September 20, 2008

A Unidade Fragmentada - Dispersos de Ferreira de Castro (1)


Apresentação da colectânea de dispersos, publicada em Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Municipal, 1996.
«Creio que é difícil ser-se honesto. Quanto a pretender dizer a verdade...
é impossível! Talvez por essa razão optei por tonar-me romancista. Não
obedeço a qualquer dogma, exploro o género humano.»
William Golding
1. As circunstâncias de escrita
Não são abundantes os textos dispersos de Ferreira de Castro, se considerarmos apenas o período posterior a 1934, ano em que abandona o jornalismo, centrando-se exclusivamente na sua produção literária.
(c0ntinua)

Friday, September 19, 2008

O Museu Ferreira de Castro (8)

O GABINETE DE TRABALHO

O escritório de Ferreira de Castro foi reconstituído tal como existia na sua casa de Lisboa. Pode ver-se a secretária do escritor, sobre a qual estão diversos objectos pessoais, decorativos e de escrita, bem como quadros, com destaque para retratos seus da autoria de Eduardo Malta, Roberto Nobre e Stuart, além de fotografia de alguns amigos.
Da biblioteca pessoal constam livros dedicados de autores contemporâneos como Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Egas Moniz, Gago Coutinho, Fidelino de Figueiredo, Hernâni Cidade, José Régio, José Rodrigues Miguéis, Alves Redol, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Valle-Inclán, Louis Aragon, Somerset Maugham, entre muitos outros.

Sunday, September 14, 2008

...esta necessidade de permanente assistência afectiva... [A Correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre] (1)




Introdução à Correspondência (1922-1969) de Ferreira de Castro e Roberto Nobre
Editorial e Notícias e Câmara Municipal de Sintra, Lisboa, 1994


O que é escrito adquire um valor
«moral» e prático que transcende de
muito o facto de apenas ser escrito, que,
entretanto, é uma coisa puramente material...
Antonio Gramsci
O que vem até à carta não é em nós
o mais profundo mas o mais sociável, o
que pode transaccionar-se numa comunicação
de superfície. Uma carta é um acto de pudor.
O mais sério fica oculto.
Vergílio Ferreira
Foi o escritor Assis Esperança quem aproximou Ferreira de Castro e Roberto Nobre. Castro frequentava a sua casa, à Rua do Passadiço, o mesmo sucedendo com Nobre, que tinha por Assis uma amizade de irmão -- apesar de quinze anos mais novo --, sentimento que se cimentara quando, ainda adolescente, convivia na tertúlia do pai -- conhecido cirurgião em Faro --, que integrava o futuro autor de O Dilúvio.
(continua)

Sunday, September 07, 2008

O Museu Ferreira de Castro (7)


7. Um escritor à conquista do mundo

«O génio de Ferreira de Castro está em ter sabido descrever, com um poder incomparável, não apenas a condição portuguesa ou brasileira, mas toda a condição humana.» ROBERT BRÉCHON (1966)


A última sala do Museu Ferreira de Castro mostra espécimes relacionados com a internacionalização da obra do escritor, que continua hoje a merecer a atenção não apenas dos leitores portugueses, como de editores estrangeiros.

Wednesday, September 03, 2008

Cançoes da Vendetta (1)

Texto das badanas da segunda edição de Canções da Córsega,
Sintra, Museu Ferreira de Castro, Cãmara Municipal, 1994


Em 7 de de Abril de 1934, um sábado, O Século dava a conhecer aos seus leitores «A Vida Fantástica de André Spada, "bandido de honra"». Era o último trabalho da série «Uma Reportagem na Córsega», que Ferreira de Castro vinha a publicar naquele diário.
Poucos dias depois, o autor do recente Terra Fria entrava no gabinete de João Pereira da Rosa e pedia-lhe uma licença sem vencimento ilimitada. Corria pelos cafés e redacções do Bairro Alto que um empréstimo contraído oficialmente enfeudaria O Século à Situação, de forma irremediável.
«Pensi logo em sair dali.», escreveu Castro quarenta anos mais tarde, em «Origem de "O Intervalo"». Havia já oito anos que a liberdade findara, explicou, «e eu não desejava servir um novo altifalante da autocracia que no-la tinha suprimido.»
(continua)