Saturday, February 16, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1902 (#1)

Castro -
Texto - Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu; Carolina Michaëlis de Vasconcelos, A Infanta D. Maria; Eça de Queirós, Contos (póstumo). Castro sobre o livro de Carlos Malheiro Dias - «A paixão de Maria do Céu», se não é um dos melhores romances da literatura portuguesa dos últimos anos, é, pelo menos, um dos mais interessantes. «Exortação à mocidade...», A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 67, Lisboa, 9/III/1925, in Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários / A Batalha, 2004, p. 30. Eça, Castro e outros mais, segundo Jorge de Sena - [...] como Miguéis e como Ferreira de Castro, o Régio ficcionista deve muito pouco a essa sombra tirânica [...]. «José Régio aos sessenta anos», Régio, Casais, «a presença» e Outros Afins, Porto, brasília Editora, 1977, p. 130.
Confronto - Anatole France, O Caso Crainquebille;Karl Kautsky, A Revolução Social. Castro sobre Anatole - Anatole France gozava, em vida, do título de «príncipe dos escritores franceses contemporâneos». / Sua obra, seu génio, davam-lhe direito a esse título -- e os próprios inimigos de Anatole reconheciam que ninguém como este, na França do primeiro quartel do século XX merecia aquela regalia honorífica. «O "príncipe dos escritores", A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 60, Lisboa, 19/I/1925, in Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários /
Cartoon de 1902 - Rafael Bordalo Pinheiro, Pena de Pato... d'Ouro.(caricatura de Bulhão Pato, a última do Álbum das Glórias)
Cinema de 1902 - Méliès, Viagem à Lua.


Escritores de 1902 - José Loureiro Botas (Vieira de Leiria; m.Lisboa, 1963), Marcel Aymé (m. 1967); morrem em 1902 Émile Zola (n. 1840). Castro sobre Zola - Zola teve um grande papel na Literatura. Para se avaliar toda a sua extensão, basta imaginarmos que ele não existiu; basta imaginar a literatura dos últimos oitenta anos sem a sua presença. Depois deste pequeno passatempo, rapidamente encontraremos um enorme vazio, que não sabemos como preencher, uma enorme corrente partida, que não sabemos como ligar... «Émile Zola», Vértice, n.º 114, vol. XIII, Coimbra Fevereiro de 1953. Escrito para Présence de Zola, volume colectivo, Paris, 1953.


Prémio Nobel da Literatura de 1902 - Theodor Mommsen


Ecos de 1902 - Luís de Magalhães a Emília de Castro Eça de Queirós (Moreira, 16-XI): Os Contos ficaram um livro adorável e encerram alguns dos mais belos que o José Maria escreveu. O Defunto, Adão e Eva, José Matias, A Perfeição, O Suave Milagre, são pequenas mas verdadeiras obras-primas -- maravilhas da imaginação e da fantasia, de graça, de ironia, de emoção, de estilo.

(imagem daqui)

Wednesday, January 30, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1901 (#1)

Castro - Nasce a irmã Ludovina da Conceição (8/IV)

Texto - Raul Brandão, O Padre; Carlos Malheiro Dias, Os Teles de Albergaria; Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póstumo). Castro sobre Raul Brandão - Raul Brandão tem uma quantidade ínfima de leitores: -- tão diminuta quão muitos sentidos são necessários a compreender-se um grande. «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, Edição do Autor, 1921, p. 32.






Confronto - Thomas Mann, Os Buddenbrook.












Contexto - João Franco cria o Partido Regenerador Liberal. Castro sobre João Franco (e D. Carlos I) - Peçam-nos que esqueçamos as injúrias, as perseguições, os desvarios e os despotismos daqueles dois personagens trágicos, fatais, na vida portuguesa, e nós encontraremos na alma bastante valor para esquecer, para olvidar... «Lograr a posteridade»[1924], Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários / A Batalha, 2004, p. 9.
Pintura de 1901 - Gauguin, E o Ouro dos Seus Corpos. Castro sobre Gauguin - Tudo na sua vida e na sua obra parece teimar em demonstrar-nos que um homem, desde que abastado de virtualidades como ele era, pode chegar a grande pintor apenas porque deseja sê-lo. As Maravilhas Artísticas do Mundo [1959-1963], vol. III, Lisboa, Guimarães Editores, 1971, p. 301.

Museu d'Orsay, Paris

Música de 1901 - Rachmaninov, Concerto #2 para piano.




Rachmaninov toca o 2.º andamento, acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Filadélfia, dirigida por Leopold Stokowski (1929)


Escritores de 1901 - Nascem José Régio (Vila do Conde, morre em 1969, na mesma cidade), Vitorino Nemésio (Praia da Vitória, morre em Lisboa, 1978); morrem Amorim Viana em Lisboa (n. Lisboa, 1822); Tomás Ribeiro em Carnaxide (?) (n. Parada de Gonta, 1831). Castro evoca Tomás Ribeiro - «À sombra de velhas árvores de Parada de Gonta, que ainda viram Tomás Ribeiro compor alguns dos versos do seu "D. Jaime", concluí "O Intervalo" em 3 de Setembro de 1936, já havia então guerra civil em Espanha.» «Origem de "O Intervalo"», Os Fragmentos, 2.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª [1974], pp. 76-77.







Ecos de 1901 - Domício da Gama a Emília de Castro Eça de Queirós (Londres, 5/III) - Não é bom dar balanço aos minutos felizes e às horas amargas: ninguém resiste à depressão que trazem consigo esses momentos retrospectivos. Há gente que desejaria reviver a vida: são os sadios, os que ficaram de todo curados das suas grandes penas, tanto que a memória delas os não aflige. In Beatriz Berrini, Brasil e Portugal: A Geração de 70, Porto, Campo das Letras, 2003, p. 111.






Prémio Nobel da Literatura - Sully Prudhomme

Friday, January 18, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1900 (#1 )

Castro -

Texto - Carlos Malheiro Dias, Filho das Ervas; Abel Botelho, Sem Remédio; Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires e A Correspondência de Fradique Mendes (póstumos).
Castro sobre Malheiro Dias - Malheiro Dias foi, durante alguns anos, um escritor muito apreciável, que pôde fazer, à margem da sua obra política, uma obra literária de grande brilho. / [...] /Mas com o tempo Malheiro Dias embotou-se, cristalizou. E a sua obra original foi preterida por uma obra coordenativa: «A História da Colonização Portuguesa no Brasil». «Exortação à mocidade...», A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 67, Lisboa, 9/3/1925, in Ferreira de Castro, Ecos da Semana -- A Arte, a Vida e a Sociedade, edição de Luís Garcia e Silva, Lisboa, Centro de Estudos Libertários /Cadernos d'A Batalha, 2004, p. 30.
Caricatura de Arnaldo Ressano




Confronto - Anton Tchékhov, O Tio Vânia; Joseph Conrad, Lord Jim; Octave Mirbeau, Diário de uma Criada de Quarto.
Castro sobre Tchékhov - El tio Wania. -- Duas surpreendentes comédias teatrais do grande Anton Chekov, reunidas num só volume. Na primeira -- «El tio Wania» -- a velha rússia burguesa; na segunda -- «Las tres hermanas» -- um poema de melancolia, de íntimo e inefável encanto. Assinado pelos «Repórteres Associados» na rubrica «As artes e as letras -- Notícias, críticas e indiscrições», Civilização, n.º 19, Porto, Janeiro de 1930, p. 95.



Contexto - Censo da população portuguesa: 5.016.267



Pintura de 1900 - Henri Matisse, Nu Masculino: «O Escravo»


Castro sobre Matisse: Mais do que os problemas da perspectiva e do espaço, mais do que a realidade dos seres e das coisas, ele buscava o seu significado através duma incansável renovação das formas e dum grande talento de colorista. Cada um dos seus quadros correspondia, de certa maneira, a um constante criacionismo intelectual e pictural, que lhe veio do seu período «fauviste.» As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. III, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1963, p. 1036.






MoMA, Nova Iorque

Música de 1900 - Gustav Mahler, sinfonia #4




4.º andamento Orquestra Nacional da Rádio Polaca, Lynda Russell, soprano.

Poesia de 1900 -

AS ALGAS

No revoltoso Mar vogam, à superfície,
seguindo a ondulação inconstante das vagas
que se vão desfazer numa branca planície,
algas dum verde-escuro, algas de formas vagas.


Vão, sem destino, errando ao sabor da corrente.
Eu cuido que uma força, ignorada e imutável,
as conduz para um porto, ou negro ou resplendente
onde vão descansar num sossego infindável.



Assim também no mundo, errantes e sem guia,
entre o choro e o riso, entre a vida e agonia,
demandando, vãmente, o porto que procuro,

eu vejo flutuar meus versos de criança,
tendo, a enchê-los de vida, a cor verde da esperança
a que a tristeza dá um tom brunido e escuro.



João de Barros, Algas, Coimbra, França Amado Editor, 1900.



Castro a propósito de João de Barros - João de Barros nasceu à beira-mar, numa praia vasta e loira como uma seara da Argentina -- a sua amada Figueira da Foz. As primeiras vozes que seus ouvidos receberam eram do grande revoltado, que ora sussurrava velhas, ignoradas dores, ora estrondeava longas e tremendas cóleras, que enchiam a noite de mistério e pavor. Era uma energia permanente, desafiando os tempos incontáveis, as ameaças do Céu e da Terra, resistindo tanto às imprecações dos homens fortes como aos tímidos rogos dos fracos. Mesmo quando se calava, mesmo quando adormecia e uma brisa suave, respiração de sono calmo, anunciava a trégua, a sua presença fazia-se sentir como uma força indomável, sobre cujo breve repouso ninguém poderia tecer dúvidas, força que, dum momento para o outro, se altearia de novo -- a maior, a mais prodigiosa força de todo o Planeta. Prefácio a Anteu / Sísifo -- Poemas Dramáticos, Lisboa, Livros do Brasil, 1960, pp. 11-12.


Escritores de 1900 - José Bacelar (Lisboa; m. Lisboa, 1964); Antoine de Saint-Exupéry (m. 1944). Morrem em 1900 Eça de Queirós (a 16 de Agosto, em Paris; n. Póvoa de Varzim, 1845); Friedrich Nietzsche (a 25 de Agosto).





Castro sobre Eça de Queirós - [...] Eça de Queirós, como todos os grandes espíritos, foi, exactamente por sua grandeza, prejudicial às gerações que lhe sucederam. Porque... Do seu túmulo, ele, como se predicasse de sobre uma tribuna de mármore, continua a manter discípulos: -- a dispensar poderosas influências: -- a impor a sua forma e os seus «processos» a uma geração que sem essa tutela sepulcral ter-se-ia encontrado a si própria. «Livros novos», A Palavra, Lisboa, 17/VIII/1922, p. 4. [...] Eça de Queiroz não era um escritor de alma popular; ele parecia um aristocrata vingando-se dos seus pares. Mas um aristocrata que trazia as censuras dos intelectuais do povo a uma sociedade hipócrita, injusta e corrupta. «Eça de Queiroz é um escritor universal?» [...], Livro do Cinquentenário de Eça de Queiroz, edição de Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reys, Lisboa e Rio de Janeiro, Dois Mundos, 1945.



Castro sobre Nietzsche - Nietzsche compreendido é Nietzsche insultado. «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, Edição do Autor, 1921, p. 32.
[No ano em que Hitler rearma a Alemanha e no preciso dia (15 de Setembro) da aprovação das Leis de Nuremberga, sobre a "pureza de sangue" ariano, Castro refere-se à filiação do pensamento do fhürer no do autor de Para Além do Bem e do Mal]:
[...] aquele homem que saiu dos livros de Nietzsche, trazendo no cérebro lugares comuns ideológicos e, na boca, uma torrente de verbalismos, encontra, a facilitar-lhe o êxito individual, uma Europa que, na sua maior parte, quer viver tranquila e, para alcançar esse objectivo, se resigna, se humilha mesmo perante as mangações de toda a ordem a que a submetem. «Prestígio individual», O Diabo, n.º 64, Lisboa, 15/IX/1935, p. 1.
[...] eu duvidava confrangidamente de conseguir realizar as ambições literárias que trouxera. E então do mar das tormentas físicas e psíquicas partiu uma onda de pessimismo e de mortificado ensimesmamento, uma vaga sobre cujo dorso pregavam Schopenhauer e Nietzsche, amparos de quem nessa época se tinha por incompreendido [...]. «Pequena história de "Emigrantes"» [1966], Castriana, n.º 3, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2007, p. 18.

Ecos de Nietzsche no jovem Ferreira de Castro - [...] Sob o hábito dum presidiário pulsa sempre o coração dum herói. [...] / E todo o preso que não for isso desonra a prisão: --É um pequeno carneiro que o rebanho na barafunda de encarcerar o pastor encarcerou-o também. Por equívoco, é lógico. Tirem-no, pois. Ele é do rebanho. É indigno de estar na prisão. Emporcalha-a. [...] «Mas... a prisão é uma coroação», Mas..., Lisboa, edição do Autor, 1921, pp. 7-8. [...] Eu nunca trouxe ao povoado a minha alma. Eu só desço ao povoado a buscar o meu quinhão. Jamais... Ninguém se pode vangloriar que se tivesse debruçado sobre a ânfora de renúncia onde encerrei todas as aspirações de minh'alma solitária. Os vermes só conhecem do lobo aquelas necessidades que ele satisfaz em comum: -- para viver: -- E servindo-se da mesma matéria que eles se servem. Não consta que na feira do povoado algum dia aparecesse exposta a alma dum lobo. / Eu não venho, pois, estabelecer-me no povoado. Transijo em comunicar com o povoado. [...] «"Os novos" -- conceitos de Zaratustra», A Hora, n.º 1, Lisboa, 12/III/1922.
Ecos de 1900 - Fialho de Almeida a Manuel Ribeiro (Cuba, 23/IV): A literatura e a arte são egoístas terríveis: e ou lhes damos a vida, ou lhe[s] passamos ao pé sem pensar mais nelas.» in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal, 2.ª edição, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 332.

Castro sobre Fialho (a propósito da crítica) - Em Portugal, como na Grécia, há a ideia de que a crítica deve ser de «porrete à esquina», género Brás Burity. Homens tão dotados como Fialho de Almeida deixaram-nos algumas lamentáveis amostras desse género. O crítico passa a ser uma espécie de arauto de todos os despeitos, incluindo, às vezes, o dele próprio, como no caso do Fialho com o Eça, e o criticado apenas um pretexto para o crítico se salientar. Isto, evidentemente, já não é consequência da pequenês, mas sim da atmosfera moral dum país. «Uma entrevista com Ferreira de Castro -- O escritor portugês contemporâneo de maior projecção universal», Ler, n.º 1, Lisboa, Abril de 1952.
actualizado em 19,22/I/2008

Wednesday, January 16, 2008

uma capa de Stuart

Emigrantes, 3.ª edição
Livraria Editora Guimarães, Lisboa [1932]
(1.ª edição na Guimarães Editores)
Rectificado em 21/I/2008

Wednesday, January 09, 2008

Ferreira de Castro e o seu tempo - O ano de 1899 (#1)

CASTRO - Nasce a sua irmã Rita Cássia (2/X).


TEXTO - M. Teixeira-Gomes, Inventário de Junho
Relato duma conferência de Castro sobre Teixeira-Gomes, nos Rotários de Portimão, por C.M.: [...] / O grande enlevo que ficou ao orador dessa noite, ao tomar contacto com a leitura das «Cartas sem moral nenhuma», da «Gente singular», dos «Regressos» e com outras obras de Teixeira Gomes -- foi-nos comunicado com a fluência fácil, incisiva e plástica que Ferreira de Castro põe nos seus livros e transparecem também na sua palavra. E o elogio literário que rendeu àquele seu camarada nas Letras foi feito com a convicta admiração de quem sabe bem sopesar o mérito alheio, e medir a altura dos homens pela estatura própria... / [...] / Teixeira Gomes terminou volutariamente o seu mandato de Presidente, renunciando ao cargo. Não se entendia com os políticos e os políticos talvez o não pudessem entender a ele... / Exilou-se apagadamente para uma cidadezinha do Norte de África e aí, num modesto quarto de hotel, só com as suas recordações e alguns livros, foi rememorando uma grande parte da sua vida e escrevendo alguns dos deliciosos volumes que são o seu espólio literário [...] / Ferreira de Castro disse, quase ao terminar a sua conferência: «tenho a minha casa forrada de livros e de algumas lembranças. Não tenho um único móvel de preço! A única preciosidade que guardo com a melhor veneração é uma medalha* que me foi oferecida por Manuel Teixeira Gomes». M.C. «O grande escritor Ferreira de Castro evocou em Portimão o notável escritor Teixeira Gomes», Correio do Sul, n.º 2706, Faro, 21/V/1970.
* Trata-se de um lapso. Teixeira-Gomes ofereceu um magnífico fauno em bronze, 240mm de altura, exposto no Museu Ferreira de Castro.
CONFRONTO - Octave Mirbeau, O Jardim dos Suplícios
Castro sobre Mirbeau - Deitado no divan de forro tocando uns longes de japonismo, fofo e exótico, pousando sobre o peito o livro histérico de Mirbeau «Jardim dos Suplícios», Afrânio debruou a dor que lhe alagava as pupilas num reflexo de Dor mais entranhada, sorrindo [...]. Mas..., edição do Autor, Lisboa, 1921, p. 77. [...] esse condor altivo que foi Mirbeau [...]. «A situação dos literatos em Portugal», A Batalha -- Suplemento Literário, n.º 2, Lisboa, 10-XII-1923, p. 3.



CONTEXTO - Recondenação de Alfred Dreyfus.
PINTURA DE 1899 - Claude Monet, A Ponte dos Nenúfares.
Castro sobre Monet e a «série dos nenúfares» - Nos últimos anos da sua esticada vida [...], Monet dedicou-se principalmente ao estudo dos efeitos que a luz produzia, alterando constantemente as cores, sobre a água duma lagoa onde vibravam miríades de reflexos. Ali ele cultivava nenúfares brancos, que imortalizaria em «As ninfeias», a sua famosa série de telas. Alguns desses trabalhos, de enormes superfícies, forram hoje as paredes duma sala, vagamente iluminada, um pouco como se fosse de sonho, no Museu de Orangerie, em Paris. E nesse ambiente de cripta, tão misterioso e suspenso que os próprios visitantes se sentem impelidos a falar por murmúrios, toda uma estrofe de cor e de luz, que os pincéis do artista escreveram e onde a figuração é quase nada, se vai declamando a ela própria, lenta e silenciosamente. Cerebral, sempre estudioso e insatisfeito, Monet batalharia até á morte por uma originalidade cada vez maior do seu estilo e com «As ninfeias», que são realidades subjacentes, se antecederia, de certa maneira, à pintura abstracta. As Maravilhas Artísticas do Mundo [1959-63], vol. III, s. ed., Lisboa, Guimarães & C.ª, 1971, p. 297.

MoMA, Nova Iorque

MÚSICA DE 1899 - Debussy, Nocturnos
Castro refere-se a Debussy (e a Fídias, Fra Angelico e Rodin) - «Não é ao cinzel de Fídias ou de Rodin, não é a Debussy nem a Fra Angelico que a humanidade deve o desbravamento da selva do Passado, para a abertura de novas sendas -- de sendas que a conduzam a uma maior perfeição. / É na árvore de natal da Literatura que sucessivamente se têm enforcado os fantoches do Preconceito -- os Dogmas e os Vetos da humanidade de outrora -- Muitas vezes a simples cançoneta dum poeta anónimo bastou para aluir a solidez dum trono. «A situação dos literatos em Portugal», A Batalha - Suplemento Literário, Lisboa, 10/XII/1923, p. 3.



3.º quadro, «Sereias». Orquestra Sinfónica de Filadélfia, dirigida por Leopold Stokowski, 1943.

ESCRITORES DE 1899 - António Aleixo, em18/II , Vila Real de Santo António (m. Loulé, 1949). Vladimir Nabokov, 22/IV (m. 1977).

ECOS DE 1899 - Forest par Chaumes, 26/IX
Eça de Queirós a Domício da Gama - Também eu senti grande tristeza com a indecente recondenação do Dreyfus. Sobretudo, talvez, porque com ela morreram os últimos restos, ainda teimosos, do meu velho amor latino pela França. Correspondência, vol. II, edição de Guilherme de Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 520-521.

Castro sobre Eça de Queirós - V. abre o Eça, abre o Machado de Assis e não encontra a paridade estilográfica de que os acusaram mas V. abre dois séculos à re[c]taguarda a Voltaire («Cândido o o[p]timista», por exemplo) e nele verá já a Eça de Queirós, -- quer, por vezes, no estilo, -- quer na criação das personagens. Pangloss sobrevive em quase todos os livros de Eça. E eu estou convencido que o Eça não teve influências de Voltaire. «Carta de Ferreira de Castro a José Dias Sancho», Correio do Sul, n.º 150, Faro, 17/XII/1922.

Actualizações: 10,11,12,13,22/I/2008

Autor do mês

Ferreira de Castro, autor do mês em Oliveira de Azeméis e no Redondo.

Saturday, January 05, 2008

Castriana 3

Castriana -- Estudos sobre Ferreira de Castro e a sua Geração

Sumário do n.º 3:

Arquivo -- Ferreira de Castro: «Pequena história de "Emigrantes"»

José Alonso Tôrres Freire: «Uma voz dissidente em O Instinto Supremo»

Inédito: Carta de Ferreira de Castro a Orlando da Costa

Memória: Orlando da Costa. «Ao correr da pena... -- momentos soltos numa relação fraterna entre gerações: Ferreira de Castro e eu, ou, antes, eu e Ferreira de Castro?

Bernard Emery: «Do mito amazónico à reinvenção do luso-tropicalismo: o caso de José Maria Ferreira de Castro»

Leituras: recensões de Ricardo António Alves, Sérgio Duarte, Silas Granjo e Luís Garcia e Silva

Extratexto de Elena Muriel: Estrada antes do pontão nos Salgueiros, óleo s/tela, 1940


edição do Centro de Estudos Ferreira de Castro, Ossela

Wednesday, December 19, 2007

Ferreira de Castro e o seu tempo - o ano de 1898 (#1)

Dou hoje início a um projecto de cronologia de Ferreira de Castro, articulada com a da época em que viveu.
O método de postagem será fragmentário e não-linear, o que significa que não haverá um grande respeito cronológico...
Para futura orientação, recomendo a consulta dos marcadores, no final de cada post.



1898


Castro - 24/V - Nasce nos Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro. Filho de José Eustáquio Ferreira de Castro e Maria Rosa Soares de Castro, camponeses, caseiros da família Gomes Barbosa.
Castro sobre Ossela - A distância sublima a aldeia: anula os seus defeitos, agiganta e doira as suas virtudes. A nostalgia que me torturou durante os nove anos de emigração, sem o conforto de saber se poderia jamais voltar, foi, dos muitos outros sofrimentos que suportei no espírito, um dos dois mais cruéis de toda a minha vida. / Para mim, a aldeia em que nasci não é apenas a infância que nela me decorreu, incompreendida e triste, é também a poesia que já então lhe captava, a poesia que ela tinha, mais tarde inflamada por aquela de que eu mesmo a impregnei. Poesia que tantas vezes me retira a lembrança dos dias infantis, para recordar apenas o encanto da Natureza, que eu não conseguia evocar, lá longe, nas ardentes paragens do exílio, sem fervor e sem desespero. «A aldeia nativa», Os Fragmentos, 2.ª edição, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores [974] pp. 45-46.






Texto - Abel Botelho, Mulheres da Beira e O Livro de Alda.
Castro sobre Botelho - Quereis personagem mais romântico e mais humano que o protagonista do «Amanhã», de Abel Botelho -- que se sacrifica entre as asas do Amor e a alvorada do Ideal -- e cuja cabeça, sangrenta, decapitada, rola como um troféu raro, como um destroço do Sonho, até aos pés da mulher amada -- dessa mulher a quem a luz dum novo dia vai envolvendo, suavemente, redentoramente? «Os românticos do realismo», A Batalha -- Suplemento Semanal Ilustrado, n.º 38, Lisboa, 18/VIII/1924.




Confronto - Joseph Conrad, Histórias Inquietas e O Negro do Narciso.
Castro sobre Conrad [a propósito de Mar Morto, de Jorge Amado] - Conrad, que amava as figuras dos oceanos, é, comparado com Jorge Amado, um... frio matemático. Diário de Lisboa, 1936, apud Jorge Amado: Trinta Anos de Literatura, São Paulo, Livraria Martins, 1961, p. 140.






Contexto - 9/II - Concessão de Hong Kong aos ingleses, por 99 anos.

A baía de Hong Kong (1939).
Foto FCastro/Elena Muriel, in A Volta ao Mundo, Lisboa Empresa Nacional de Publicidade, 1939

Castro sobre Hong Kong - Antes mesmo de pisar terra, quem arriba surpreende, no porto, espectáculo bem oriental. No meio dos navios fundeados há uma incontável multidão de juncos [...]. Cerca de 100 000 chineses vivem, permanentemente, com as mulheres e os filhos, nestas embarcações. [...] No estreito convés realizam todos os actos da vida doméstica. [...] não falta, sequer, um galinheiro à popa. [...] Rechonchudas crianças, de dois ou três anos, andam tranquilamente no rebordo dos barcos, ali onde qualquer de nós teria de fazer, para não cair, equilíbrios de homem em corda bamba. As mães destes pequeninos chineses usam calças e exibem o tronco em plena nudez, as tetas caídas e queimadas pelo sol. Como as de terra, estas mulheres a tudo se sacrificam, resignadamente. Elas acorrem a todas as necessidades da meia dúzia de tábuas oscilantes que o destino lhes deu para patíbulo da sua vida e, quando pretendem deslocar-se, agarram-se às extremidades dos enormes remos e remam que nem antigos escravos de galera. / Atrás desta população boiante ergue-se a famosa Hong Kong, também Cidade da Vitória chamada. Três ruas compridíssimas, apenas três ruas, ligadas por outras transversais, a constituem. Majestosos edifícios ocupam a primeira parte destas grandes artérias. É o mundo dos negócios, onde imperam ingleses e americanos. Bancos, companhias de navegação, outras empresas, dão a este trecho da cidade o mesmo pesado orgulho dos bairros comerciais de Londres. Tudo se apresenta com modernidade e soberbia. [...] Mas, em breve, as três longas ruas perdem a sua feição ocidental e se metamorfoseiam em rumoroso e pitoresco bairro chino. É já outro comércio, um comércio miúdo de comestíveis, de sedas e de obras de arte. A Volta ao Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d., pp. 62-63.


Pintura de 1898 - Arnold Böcklin, A Praga
Castro sobre Böcklin - Agradar parecia ser o único objectivo da sua arte e isso proporcionou-lhe um êxito fácil. As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª-Editores,1971, p. 328.


Museu de Belas-Artes, Basileia

Poesia de 1898 - Ó árvores, irmãs de todos nós, um dia / Há-de esta alma reunir-se à vossa alma dormente... Júlio Brandão, «Árvores»,

Música de 1898 - Grieg, Danças Sinfónicas.

Escritores de 1898 - José Dias Sancho, ficcionista, poeta, polemista, desenhador e jornalista, em São Brás de Alportel (m. Faro, 1929); Federico García Lorca, poeta e dramaturgo, 5/VI (19/VIII/1936). Morrem em 1898 - Joaquim da Costa Cascais, dramaturgo, em Lisboa, 7/III, Lisboa (n. Aveiro, 29/X/1815); Stéphane Mallarmé , em 9/IX (n. 18/III/1842).



Ecos de 1898 - Lisboa, 24/V. Eça de Queirós a sua mulher, Emília de Castro, dando conta de exigência da Revista Moderna: «depois de me ter dado tempo largo para enviar Ramires, agora o exige à pressa e à lufa-lufa.» Correspondência, vol. II, leitura, coordenação, prefácio e notas de Guilherme de Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, p. 451.

Castro sobre Eça - (comparando com Fialho) - Eça era tapete de milionário, Fialho tapete de burocrata. Eça era fino e subtil como um tapete da Pérsia, Fialho duro e grosseiro: -- daqueles «Faz favor de limpar os pés». Mas... A ironia é a arma do fraco contra o Forte. Do vencido contra o Vencedor. [...] O eterno sorriso dos irónicos é o eterno desejar dos despeitados. «Pedras ao poço», Mas..., Lisboa, edição do Autor, 1921, p. 18; Ao lermos Eça, temos a sensação de que a sua secretária estava erguida sobre uma cidade que se relacionava já com o mundo pela T.S.F. A secretária de Fialho, ao contrário, estava situada numa aldeia. «Regionalismo e internacionalismo - Resposta a José Dias Sancho», A Batalha, n.º 98, 12/X/1925. - (comparando com Camilo) - [...] por temperamento, escola literária, orientação de cultura e até pela vida, tão diversa, que cada um levou, Eça compreendia o homem muito melhor do que Camilo. Este via, quase sempre, as suas personagens unilateralmente, pelo amor, pelo ódio, pelo sarcasmo, pelo bem ou pelo mal. Preocupava-se, acima de tudo, com o ruído do relógio, ao passo que Eça gostava de desmontar o relógio peça por peça. De certa maneira, para Camilo, cada personagem representava um sentimento, para Eça representava todos ou quase todos os sentimentos. Camilo aliava ao seu grande talento uma forte cultura sobre a vida nacional, inclusive sobre genealogia, coisa completamente inútil para um romancista que não escreva romances históricos. Parece, porém, que nunca se preocupou de modo profundo com a filosofia. Eça, pelo contrário, captara as inquietudes filosóficas do século XIX e as suas experiências psicológicas, valores perante os quais Camilo reagia, muitas vezes, pelo desdém. Daí os habitantes da obra de Eça serem mais ricos de conteúdo, mais variados, mais verdadeiros psicologicamente, mesmo quando o romancista os deformou com demasiados traços caricaturais... «Ferreira de Castro -- o mais universal dos romancistas portugueses -- fala da universalidade de Eça de Queirós» [entrevista a Jaime Brasil], O Primeiro de Janeiro, «Das Artes e das Letras», 1/11/1944.

actualizações: 19, 20,21/X/2007

Sunday, December 09, 2007

Castro e Romeu Correia

finais da década de 60 início da de 70
(foto enviada por Paulo Cunha Porto)

Monday, November 26, 2007

De passagem - A LÃ E A NEVE (1947)

(post para o Cão)

Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o «Piloto» deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos. «Piloto» estugou o passo. O caminho estava cheio de tentações, de paragens obrigatórias, estabelecidas por todos os cães que passaram ali desde que Manteigas existia, desde há muitos séculos. Forçado a deter-se, ele regava, à esquerda e à direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visível modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroço. Por fim, lobrigou-o. Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de «Piloto»; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão. Vendo-o assim, «Piloto» hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra. Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos, e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo:
-- Olha o «Piloto»! O meu «Piloto!»
A Lã e a Neve, 15.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990, pp. 17-18.

Tuesday, November 20, 2007

Saturday, November 17, 2007

100 Cartas a Ferreira de Castro


2.ª edição, refundida
Câmara Municipal de Sintra / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus
Sintra, 2007

Wednesday, September 19, 2007

3 Mestres



No dia em que os restos mortais de Aquilino são trasladados para o Panteão Nacional.

Castro e Aquilino, apesar de gerações diferentes, partilharam um percurso comum, cheio de cumplicidades, de que muito se falará aqui espero eu. Para já diga-se, apenas, que eles foram os dois escritores que pontificaram em 30 anos na vida cultural portuguesa, entre as décadas de 30 e 50. E apesar das diferenças, a começar pela idade, ainda hoje há muitos leitores que naturalmernte juntam este par quando a sua época é evocada -- o que tem que ver, parece-me, com questões paralelas à literatura. Por agora fiquemos com esta fotografia de Ferreira de Castro, António Sérgio e Aquilino Ribeiro à porta da Livraria Bertrand no Chiado.


Fonte: Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, Agosto de 1941.


Wednesday, August 15, 2007

Castro na blogosfera

Um apontamento sobre O Senhor dos Navegantes no Vilibordo.

Friday, August 10, 2007

Memória #3 - João Sarmento Pimentel


[ou Uma Galeria da Oposição em 19590]
António Sérgio, Cunha Leal, Mário de Azevedo Gomes, David Ferreira, Adão e Silva, Sant'Anna Dionísio, Rodrigues Lapa, Augusto Casimiro, Afonso Duarte, Joel Serrão, José Tagarro, Lobo Vilela, João da Silva, Hernâni Cidade, Nuno Simões, Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Julião Quintinha, José Augusto França, Casais Monteiro, Ferreira de Castro, José Bacelar, Jorge de Sena e tantos outros dados às cousas da cultura e da inteligência, que a varredoura do Ferro não conseguira pescar, matinham o mesmo espírito lúcido, combativo, cheio de coerência e dignidade que lhes vinha dos tempos heróicos da República.
João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão, Porto, Editorial Inova, 1974, pp. 372-373.

Thursday, July 26, 2007

marcador

Museu Fereira de Castro,
marcador, 200x45 mm
edição: Câmara Municipal de Sintra, s.d.

Saturday, July 21, 2007

Testemunhos - Rocha Martins (5)

Traduzida para espanhol a sua novela O Êxito Fácil, teve a facilidade de êxito de todas as belas composições; colaborando no ABC em quase todos os seus números, desde há um ano, tem recebido os maiores aplausos, trabalhando sempre na mais leal das camaradagens, escrevendo noite e dia, sacrificando-se como um campónio a cavar na sua horta para obter o seu alimento, é também como um jardineiro artista a cultivar noutros alegretes as suas flores deliciosas: a obra da sua alma, a do seu amor, a da sua sensibilidade, que são as páginas desenhadas carinhosamente como as das novelas a publicar em breve Sendas de Lirismo e de Amor e A Morte Redimida.
Lutador de sempre, imaginação fértil, pensador honesto e brilhante, revolucionário de ideais e de processos, Ferreira de Castro -- o autor da Peregrina do Mundo Novo -- que ABC vai começar a publicar na próxima semana, tem já vencido dificuldades enormes e conseguiu um lugar de detaque, afirmou-se e chegará aos mais altos postos da literatura nacional. Será isto maior consolo para a sua alma de idealista do que a posse da gadanha aguçada, própria para cortar os frutos altos dos bens materiais, que raramente deixam jorrar o seu sumo sobre os que batem a sua moeda na bigorna da imaginação, do talento, da arte e é pródiga para os das maleáveis e vis curvaturas ante os que a fortuna já acariciou.
Rocha MARTINS, «O auctor da novela "A Peregrina do Mundo Novo"», ABC, n.º 263, Lisboa, 30 de Julho de 1925.
Capa tirada aqui.

Tuesday, July 17, 2007

Testemunhos - Rocha Martins (4)





Aquelas duas novelas chamaram as atenções para os trabalhos do artista que se abalançou a planos maiores escrevendo, com Eduardo Frias -- outro lutador de sacrifício -- a Boca da Esfinge, recebida pela crítica com louvores.


São ensaios que valem por obras definitivas alguns dos trechos assinados por Ferreira de Castro, cujas grandes qualidades são clareza de exposição, intensidade dramática, prosa viva, por vezes ardente, vibrante, sem desvio do assunto para largas retóricas ou para s torcidas frases tão singulares dalguns dos escritores da sua geração.
Rocha MARTINS, «O Auctor da novela " A Peregrina do Mundo Novo"», ABC, n.º 263, Lisboa, 30 de julho de 1925.
[continua]







Thursday, July 12, 2007

Uma fotografia de Ruela

O Domínio do Vale de Ossela 3


Com esta fotografia, Ruela, autor do blogue Artes Plásticas, ganhou o concurso de fotografia digital promovido pelo Centro de Estudos Ferreira de Castro.

O Vale de Ossela, páginas magníficas lhe dedicou o escritor.

Parabéns, Ruela, é com muito gosto que a posto aqui!

Wednesday, July 11, 2007

Testemunhos - Rocha Martins (3)

Não há dúvida, é alguém. É alguém, muito novo ainda, mas temperado pelas agitações duma infância de trabalho, longe dos seus, no Amazonas, na selva, entregue a si próprio, aprendendo a grande luta e a enorme resignação. O segredo do seu triunfo que é o segredo da sua resistência.
Viver da pena em Portugal, sem praticar traficâncias, é tão difícil e duro como a existência no sertão acrescentado-se-lhe ainda o custo das gravatas nas florestas.
Ferreira de Castro da sua pena vive como um cavaleiro doutrora dedicado à defesa dum ideal e jungindo-se com ele a todas as dores, trazendo espinhos sob a armadura reluzente.
Rocha MARTINS, «O auctor da novela "A Peregrina do Mundo Novo"», ABC, n.º 263, Lisboa, 30 de Julho de 1925.
[continua]