Showing posts with label correspondência. Show all posts
Showing posts with label correspondência. Show all posts

Sunday, January 04, 2009

correspondências - Norton de Matos a João de Barros

[sobre o livro de João de Barros, Hoje Ontem Amanhã, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1950. Datada de Ponte de Lima, em 20 de Outubro de 1950]

Quanto aos outros, em grande número, que a seguir evoca, guardo carinhosamente no coração Fialho d'Almeida. Convivi muito com ele antes de partir para a Índia, em 1898, fui um dos seus grandes amigos e tive por ele sempre grande admiração e profunda compaixão. Quando 10 anos depois voltei, achei-o outro homem.

Dos outros, que os seus livros chama com as suas evocações perante o meu espírito apenas dois são meus antigos conhecidos, Oliveira Martins e Teixeira Gomes, que considero dois grandes cabouqueiros da Construção da Pátria que sonhamos, o primeiro nos alicerces, o segundo na resplandecente cimalha que foi a nossa intervenção na I.ª Grande Guerra. O edifício ainda não ruiu e temos de continuar a aguentá-lo, meu amigo.

Dos novos apenas dei por dois -- Ferreira de Castro e Aquilino. Os outros nunca dei por eles, por certo, ou por incapacidade minha ou porque a preocupação com as minhas tarefas não me deixava ver fora do âmbito delas.

Cartas a João de Barros, edição de Manuela de Azevedo, Lisboa, s.d., p. 74

Saturday, October 04, 2008

correspondências - Jaime Brasil

Meus caros Ferreira de Castro e Eduardo Frias:


Recebi o vosso livro*. Muito obrigado por vos terdes lembrado de mim. A mim, q. tão afastado ando dos cenáculos literários e q. nas galés do jornalismo sou o último dos últimos, sensibilizou-me a vossa gentil manifestação de camaradagem espiritual. E porque entendo bem o altivo grito de angústia, erguido nas primeiras páginas do livro, aqui vos dou, irmãmente, o abraço q. traduz a minha admiração pelo vosso talento e a minha solidariedade nessa nobre revolta, contra o existente, o convencional, o medíocre.

[20-VI-1924]


* Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924
Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, apresentação, transcrição, notas e posfácio de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal/Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus, 2006, p. 11.

Monday, September 22, 2008

O Museu Ferreira de Castro (9)

O ESPÓLIO
O riquíssimo espólio documental, composto por mais de vinte mil documentos de correspondência, largas dezenas de títulos de periódicos, manuscritos e inúmeros espécimes diversos, está aberto aos investigadores, doutorandos, mestrandos e estudantes universitários.
Da correspondência de escritores, artistas plásticos, cientistas, políticos e editores, constam nomes tão diversos quanto Eugénio de Andrade, João Lúcio de Azevedo, João de Barros, Agustina Bessa-Luís, António Botto, Jaime Brasil, Alexandre Cabral, Joaquim de Carvalho, Augusto Casimiro, Fernanda de Castro, Natália Correia, Jaime Cortesão, Júlio Dantas, Mário Dionísio, Sant`Ana Dionísio, Assis Esperança, Vergílio Ferreira, M. Rodrigues Lapa., Ruben A., Óscar Lopes, Ilse Losa, Vitorino Nemésio, Joaquim Paço d`Arcos, João Sarmento Pimentel, Raul Proença, Álvaro Salema, António Sérgio, Alberto de Serpa e Erico Veríssimo, entre muitos outros.

Sunday, September 14, 2008

...esta necessidade de permanente assistência afectiva... [A Correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre] (1)




Introdução à Correspondência (1922-1969) de Ferreira de Castro e Roberto Nobre
Editorial e Notícias e Câmara Municipal de Sintra, Lisboa, 1994


O que é escrito adquire um valor
«moral» e prático que transcende de
muito o facto de apenas ser escrito, que,
entretanto, é uma coisa puramente material...
Antonio Gramsci
O que vem até à carta não é em nós
o mais profundo mas o mais sociável, o
que pode transaccionar-se numa comunicação
de superfície. Uma carta é um acto de pudor.
O mais sério fica oculto.
Vergílio Ferreira
Foi o escritor Assis Esperança quem aproximou Ferreira de Castro e Roberto Nobre. Castro frequentava a sua casa, à Rua do Passadiço, o mesmo sucedendo com Nobre, que tinha por Assis uma amizade de irmão -- apesar de quinze anos mais novo --, sentimento que se cimentara quando, ainda adolescente, convivia na tertúlia do pai -- conhecido cirurgião em Faro --, que integrava o futuro autor de O Dilúvio.
(continua)

Monday, March 17, 2008

Correspondências



[...] obra de análise, por vezes aspérrima, mas sempre brilhante. O ferro com que corta é de boa têmpera e reluz.
Dum cartão de Coelho Neto enviado a Ferreira de Castro, com data provável de 1922, sobre o Mas..., incluído no fim de A Boca da Esfinge

Saturday, November 17, 2007

100 Cartas a Ferreira de Castro


2.ª edição, refundida
Câmara Municipal de Sintra / Museu Ferreira de Castro e Instituto Português de Museus
Sintra, 2007

Sunday, March 18, 2007

Friday, March 02, 2007

O que me apetece dizer

Quando eu era pequeno, passava de vez em quando pelo escritório e demorava-me nas prateleiras das biografias. Eram as grandes figuras por todos conhecidas, do Beethoven de Emil Ludwig ao Disraeli de André Maurois, passando por um diabólico Átila, o Huno, cujo nome do autor se me varreu. Havia, porém, um volume que me chamava a atenção, logo pelas letras impressas na lombada, dum vermelho vivo sobre o branco sujo do papel («Olha-me a estante em cada livro que olha.», escreveu o poeta brasileiro Pedro Kilkerry...), e pela circunstância de ser dos poucos, ou mesmo o único naquela secção, cujo nome eu podia ler sem dificuldade: tratava-se de Leonardo da Vinci e o Seu Tempo, numa boa edição da Portugália, publicada em Lisboa, no ano de 1959. O seu autor era Jaime Brasil, e começava desta forma: «Assim como há pessoas com sorte e outras toda a vida malfadadas, certas cidades parece terem surgido sob um signo feliz.»

Anos mais tarde, o nome de Jaime Brasil aparecia-me quase invariavelmente ligado a este género histórico-literário-ensaístico, tão negregado pelos epígonos nacionais da historiografia da revista Annales. De Zola a Balzac, de Victor Hugo a Diderot, de Velásquez a Rodin e Ferreira de Castro...
O privilégio que tenho de trabalhar no espólio do autor de A Selva permitiu que tomasse contacto com quarenta anos de correspondência de Brasil para Castro, e pudesse apreciar um epistológrafo de primeira água, a par do jornalista e do demiurgo que pôs em letra de forma a vida daqueles que se propôs evocar.
Encontrei um homem difícil, como todos os que com ele privaram reconhecem, impregnado de um pessimismo que só a arte e o amor em sentido lato podiam contrariar. Mas é justamente esse sentimento de fraternidade e partilha deste individualista notável que permite compreender a adequação interior a um ideal libertário presente nos seus escritos. A ele se pode aplicar a autodefinição de Romain Rolland, que se dizia racionalmente pessimista, mas optimista pela vontade.
E encontrei também um dos maiores epistológrafos portugueses. A correspondência de Jaime Brasil, não pensada para a publicação, seduz pelo brilho, a desenvoltura, a coloquialidade que logrou alcançar, como se de conversa efectiva se tratasse, para além de uma variedade de informações que nos dá.
Mas a carta funciona muitas vezes como um S.O.S de náufrago, de pedido de socorro de desterrado, seja no exílio, no cárcere ou no meio adverso de quem se encontra rodeado de seres de outro planeta, que de semelhante têm apenas a aparência. Essas solidões cheias de gente à volta são por vezes as mais dolorosas, e este epistolário é disso mesmo um testemunho amargo. É nos períodos de maior agudeza nas contariedades que surge um descarnamento que impressiona pelo modo como o auto-isolamento de Brasil é assumido. «A pobre rã que sou voltou a cair no charco.», escreve a Ferreira de Castro em momento de maior desalento. Esta circunstância, que não poucas vezes o leva ao sarcasmo mais brutal, não deixa em segundo plano a ironia, que nele é um traço estilístico distintivo.

Vejamos a Carta LXVII, datada de Paris, em 2 de Novembro de 1949 (pp. 117-120). Depois de aludir ao seu «estado depressivo», semelhante, de resto, ao que Castro lhe manifestara na missiva que lhe enviara, Brasil vê na troca de correspondência uma terapia para ambos:
«Escrevendo-lhe tenho a impressão de que converso consigo e até a ilusão de lhe poder ser útil, para ajudar a dissipar a tristeza que a sua carta reflecte.»
Parece que a depressão de Ferreira de Castro se devia, pelo menos em parte, à morte do editor já de longa data, Paulo Martins Cabral, que fundara, com Delfim Guimarães, a casa que era a sua desde o início dos anos trinta e que ainda hoje dá a chancela ao seus livros. Sabendo que as relações entre os editados e quem os publica nem sempre são as melhores -- onde há dinheiro, normalmente há também vilania --, Jaime Brasil procura consolar o seu interlocutor deste modo:
«Não desejaria que se entristecesse com a morte do Martins. Viveu uma longa vida durante a qual realizou decerto todas as suas ambições. Deve ter sido uma criatura feliz, na sua mediocridade de avarento, sem inquietações outras que não fossem arrecadar cada vez mais dinheiro. Deveria estar convencido de que era um grande trabalhador, pois escrevia ele próprio as cartas e as facturas da loja. Isso devia causar-lhe um grande orgulho.
Fez-lhe mais uma mesquinhice pouco antes de partir? Quantas não lhe fez desde que trabalhava para ele? De algumas soube eu. Outras calou-as o Castro por pudor; mas não era difícil supô-las. O pilriteiro só sabe dar pilritos. Os seres mesquinhos, medíocres, pequeninos, não podem produzir mais nada do que as flores do seu jardim. Não são nossos semlhantes. Nisto concordo com o bruto do Jorge Amado: a humanidade divide-se nos nossos semelhantes e nos outros. O desaparecimento destes não deve causar-nos abalo. Não valem os miligramas de sais duma lágrima.»
Este desabafo sarcástico prossegue, aproveitando Brasil para dar conta da expulsão de Jorge Amado, então militante do PCB no exílio, do território francês, situação que para o signatário «confirma o reaccionarismo disto aqui. Parecem apostados em dar razão aos comunistas.» O próprio Jorge Amado lembrou décadas mais tarde, numa longa entrevista a Alice Raillard, a sua condição de peão da Guerra Fria neste termos: «Guerra Fria quer dizer, os americanos impunham a sua vontade. Faziam chuva e sol, eram os patrões da França. Esta era a realidade até à chegada de De Gaulle.» Tal como sucedera já com a II Guerra, este foi um dos temas correntes das conversas epistolares de ambos. Veja-se como Jaime Brasil dá conta das dissensões entre Tito e Stálin, o aproveitamento por parte dos americanos com o Plano Marshall e os efeitos perversos que a luta contra o bloco soviético trazia para a manutenção da ditadura de Salazar (e de Franco), com alusão a mais uma fraude eleitoral acabada de ocorrer em Portugal:
«Afligem-no as más notícias dos jornais. Também a mim. As fricções na fronteira da Sérvia são de mau prenúncio. O rastilho pode começar a arder ali. Ainda se deixassem os marechais comerem-se um ao outro bem estava. O marshallismo, porém, deu-lhe para proteger os mais repugnantes ditadores, desde que isso lhe pareça útil para atingir o nº 1. Daí os tristes espectáculos da Sérvia e aquele que, mais recentemente, se deu no Extremo Ocidente
A auto-ironia, muito acentuada, tem também lugar aqui. Em situação precária em Paris, após uma surtida de enviatura ao serviço do jornal, que pretendia alargar para a situação de correspondente, sem que os patrões estivessem nessa disposição, num braço-de-ferro desigual, as dificuldades de Brasil são de monta, mas é notável como ele consegue sorrir do seu próprio desamparo:
«Por deferência para com a nossa amiga M. Paz, fui assistir à primeira conferência de Service de l'Home, sobre o problema da alimentação mundial. Jantara nesse dia um café e um croissant, para poupar cem francos para o dia seguinte; mas à entrada da conferência pediram-me os cem francos... Cómico, não acha?, sobretudo tratando-se do problema da alimentação.»
Este já vai demasiado extenso (como epistolarmente se diria). Uma nota apenas para acrescentar que o livro é mais um testemunho e um acrescentar de volume à identidade escondida e ocultada de uma geração literária e cultural anarquista, que teve em Ferreira de Castro porventura o seu maior expoente (Julião Quintinha, Assis Esperança, Roberto Nobre, entre outros são igualmente nomes a considerar), e que se viu remetida para uma situação de insularidade interna, à medida que o o Estado Novo se institucionaliza e o pujante anarco-sindicalismo da I República é definitivamente derrotado na Revolta da Marinha Grande, progressivamente substituído pelo PCP na luta contra a situação. Foi uma guerra sem tréguas, com danos colaterais. O anarquismo em Portugal passaria a ser uma atitude, um conjunto de tertúlias, algumas associações. Mas essa é outra conversa.

Sunday, February 25, 2007

Lançamento

No próximo sábado, 3 de Março de 2007
no Museu Ferreira de Castro, em Sintra
(Rua Consiglieri Pedroso, 34)
pelas 17 horas
Estão todos convidados!

Sunday, January 07, 2007

Sunday, August 27, 2006

Sunday, July 09, 2006

Acerca do Repórter X,

















Castro escreve uma extraordinária carta a Natália Correia, no Abencerragem.